Faulstich (1995b, p. 282) afirma que as variantes ocorrem “nos níveis lingüísticos e sociais, nas interações socioculturais, no desempenho profissional” e que revelam, no universo da terminologia, “peculiaridades próprias a serem estudadas pela disciplina
socioterminologia, que requer método próprio para sistematização de termos e de variantes” (FAULSTICH, 1995b, p. 281).
Assim, e, partindo do pressuposto de que a vertente socioterminológica da Terminologia tem como base os princípios teórico-metodológicos da Sociolinguística, a autora explicita que
Para o sociolingüista Scherre (1996:39-40), ‘o pesquisador variacionista tem uma série de tarefas a cumprir como, entre outras, identificar os fenômenos lingüísticos variáveis de uma dada língua, inventariar suas variantes, levantar hipóteses que dêem conta das tendências sistemáticas da variação lingüística [...], identificar, levantar e codificar os dados relevantes’. (FAULSTICH, 1997, p. 1).
Portanto, para ela
A sistematização [das] variantes é tarefa da socioterminologia, cujo estatuto fica assegurado pela análise da diversidade de termos que ocorrem nos planos vertical, horizontal e temporal da língua. Para que se estabeleçam padrões socioterminológicos existentes na funcionalidade da terminologia das linguagens de especialidade, é preciso, antes de tudo, reconhecer esses padrões de acordo com uma metodologia lingüística que afaste o estudo da terminologia do padrão prescritivista, até então único método usado na descrição terminológica. O modelo mais adequado, por conseguinte, é o funcionalismo lingüístico cuja abordagem é orientada para os fenômenos lingüísticos em si. Essa perspectiva tem como objeto científico descrever e explicar os próprios fenômenos lingüísticos, trabalho a ser feito pelo pesquisador variacionista. (FAULSTICH, 1997, p. 1).
Em razão de a Socioterminologia, segundo Faulstich (1997), observar os diferentes usos, oral e escrito, da língua em funcionamento especializado e se ocupar da identificação e da categorização de variantes terminológicas, partindo dos diversos fatores que influenciam os contextos de ocorrência e que constituem o perfil dos usuários de uma terminologia, interessa-nos explicitar, mais pontual e claramente, os critérios socioterminológicos usados por Faulstich para sistematizar as variantes terminológicas.
Para tanto, é importante considerarmos, inicialmente, que a Teoria da Variação em Terminologia, desenvolvida por Faulstich (1997, 1999a) — cujo cerne é a defesa de que uma unidade terminológica assume o valor que uma dada variável desempenha em um determinado contexto especializado de ocorrência — está fincada em cinco postulados, a saber:
a) dissociação entre estrutura terminológica e homogeneidade ou univocidade ou monorreferencialidade, associando-se à estrutura terminológica a noção de heterogeneidade ordenada;
b) abandono do isomorfismo categórico entre termo-conceito-significado; c) aceitação de que, sendo a terminologia um fato de língua, ela acomoda elementos variáveis e organiza uma gramática;
d) aceitação de que a terminologia varia e de que essa variação pode indicar uma mudança em curso;
e) análise da terminologia em co-textos lingüísticos e em contextos discursivos da língua escrita e da língua oral. (FAULSTICH, 1999a, p. 94).
Ao tecer essa teoria, Fausltich dá contornos mais precisos ao que denomina variação, variável e variante em âmbito terminológico:
(1) A VARIAÇÃO ocorre pela ação do movimento gradual do termo no tempo e no espaço e é provocada pela função de uma dada VARIÁVEL. (função e variável são conceitos compreendidos dentro de um espectro funcional. (t) representa um conjunto de termos passíveis de serem atualizados com diferentes valores para uma dada situação. (f) representa uma função responsável pela determinação de um valor específico. A regra geral fica assim estabelecida: (f) é representada por (t), em que (t) é uma variável; (t) poderá funcionar com qualquer valor, dependendo do desempenho de (f)+(t). A posição da variável (t) permite que seja atualizada qualquer uma das variantes.)
(2) A VARIÁVEL, por sua vez, será realizada sob a forma de uma VARIANTE.
(3) As VARIANTES podem pertencer a três pólos: variantes concorrentes, variantes coocorrentes e variantes competitivas. (CRUZ, 2006, p. 54).
Nesse contexto, é oportuno esclarecermos que, de forma geral, as pesquisas que autora desenvolve sobre a variação em âmbito terminológico focam apenas a variação de natureza denominativa. Dessa forma, Faulstich usa o termo variante para se referir apenas à possibilidade de haver uma pluralidade de denominações para um mesmo conceito e, não também, à variedade de conceitos que, muitas vezes, uma única denominação pode envolver.
Assim, atribuindo, inicialmente, uma tipologia mais geral, Faulstich (1999a) classifica as variantes (denominativas) terminológicas em variantes concorrentes, variantes co-ocorrentes e variantes competitivas.
As variantes concorrentes são
[...] aquelas que podem concorrer entre si, ou que podem concorrer para a mudança [...]. As concorrentes são variantes formais. A variante formal é uma forma lingüística ou forma exclusiva de registro que corresponde a uma das alternativas de denominação para um mesmo referente, podendo concorrer num contexto determinado. Classificam-se em variantes
terminológicas lingüísticas e variantes terminológicas de registro. (FAULSTICH, 1999a, p. 97).
As variantes co-ocorrentes, por sua vez,
[...] são aquelas que apresentam duas ou mais denominações para um mesmo referente. Estas variantes têm por função fazer progredir o discurso e organizar, na mensagem, a coesão lexical. As variantes co-ocorrentes formalizam a sinonímia terminológica. (FAULSTICH, 1999a, p. 97).
E, por fim, as variantes competitivas “são aquelas que relacionam significados entre itens lexicais de línguas diferentes. As variantes competitivas se realizam por meio de pares formados por empréstimos lingüísticos e formas vernaculares”. (FAULSTICH, 1999a, p. 98).
As informações acima mencionadas podem, assim, ser sintetizadas (FAULSTICH, 1999a, p. 98):
VARIAÇÃO
VARIÁVEL
VARIANTE
CONCORRENTE CO-OCORRENTE COMPETITIVA
VARIANTE FORMAL SINÔNIMO EMPRÉSTIMO
De acordo com tais postulados, constatamos que Fausltich, nesse ou até esse momento, considera que os sinônimos são variantes co-ocorrentes. Contudo, a partir de outra classificação, que veremos a seguir, a autora passa a usar o termo variante para se referir, específica e tão somente, às variantes concorrentes por ela denominadas, também, de variantes formais.
Nesse sentido, Fausltich passa a afirmar que as variantes (denominativas) terminológicas — agora restritas às variantes concorrentes ou formais — ou são formas
linguísticas ou são formas exclusivas de registro que correspondem a uma das possibilidades de denominação para um mesmo referente, podendo concorrer entre si num dado contexto de uso especializado, e quiçá, consequentemente, estabelecer mudança52 numa determinada terminologia, diferentemente dos sinônimos.
Assim, Faulstich (1997, p. 01), atribui, em uma outra proposta, uma classificação específica às variantes (denominativas) concorrentes ou formais, subdividindo-as em variantes linguísticas — em que o fenômeno propriamente linguístico determina o processo de variação — e variantes de registro — em que fatores decorrentes do ambiente de ocorrência ocasionam a variação no plano horizontal, no plano vertical e no plano temporal em que se dão os usos linguísticos.
Dessa forma, as variantes linguísticas, que atendem a critérios como o da interpretação semântica e funcional, bem como o da consideração dos usos tanto orais como escritos, subdividem-se em:
1. Variante terminológica morfossintática, a que apresenta alternância de estrutura de ordem morfológica e sintática na constituição do termo, sem que o conceito se altere, como em lombo-d’acém e lombinho-do-acém . A variação se apresenta em um dos formantes do termo, normalmente no sufixo.
2. Variante terminológica lexical, em que a forma do item lexical sofre comutação, mas o conceito do termo se mantém intato, tais como i) pressão seletiva e pressão de seleção, na linguagem do melhoramento genético de plantas; ii) atentado violento ao pudor e atentado ao pudor, da área do direito penal. Em i) a variação se processa na substituição de uma parte do item terminológico por outro com estrutura semelhante. Assim, o adjetivo se expande em locução adjetiva, formada de preposição mais adjetivo, ou ocorre o contrário, a locução se reduz a um adjetivo. Tanto a forma expandida, quanto a reduzida tem função de predicar a base. No exemplo ii), o apagamento de um dos elementos de predicação reduz a extensão do termo, mas não simplifica o significado,porque a base preserva o conceito inerente ao termo naquele contexto, como em melhoramento genético florestal e melhoramento florestal.
3. Variante terminológica gráfica, a que se apresenta sob a forma gráfica diversificada de acordo com as convenções da língua. Servem de exemplo pólen e polem, na linguagem da botânica. Este tipo de variação decorre da forma de registro do termo. Pode surgir dúvida na forma de escrever o termo, como pólen e polem, ambas abonadas no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1986), ou pode surgir do registro de formas decalcadas da fala, como estrupo e estrupro (em relação a estupro), termo da área do
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“Nessa condição, uma variante que concorre com outra ao mesmo tempo não ocupa o mesmo espaço, por causa da própria natureza da concorrência. Se uma variante está presente no plano discursivo, a outra não aparece. Assim, as VARIANTES CONCORRENTES, enquanto tais, se organizam em distribuição complementária. Por outro lado, se uma variante X corrobora com o surgimento de uma concorrente Y, isto significa que o processo da mudança está em curso e a expressão Y tende a estabilizar-se por ser mais fortuita do que X no contexto social.” (CRUZ, 2006, p. 59).
direito penal e de grande ocorrência na linguagem do noticiário policial. (FAULSTICH, 1997, p. 2-3). (grifos originais).
As variantes de registro, por sua vez, obedecem aos seguintes princípios:
a) os termos são recolhidos no discurso real da linguagem de especialidade; b) os termos pertencem à variedade socioprofissional;
c) os termos são recolhidos de textos, de procedência diversificada, que tratam do mesmo assunto;
d) os termos são recolhidos de discursos com maior ou menor grau de formalização, que tratam do mesmo assunto;
e) os termos são recolhidos de textos redigidos em épocas diferentes, que tratam do mesmo assunto;
f) os usos escrito e oral são levados em conta. (FAULSTICH, 1997, p. 8).
Acatados tais princípios, a variante de registro é classificada em
Variante terminológica geográfica, aquela que ocorre no plano horizontal de diferentes regiões em que se fala a mesma língua. Pode decorrer de polarização de comunidades lingüísticas geograficamente limitadas por fatores políticos, econômicos ou culturais ou de influências que cada região sofreu durante sua formação. Servem de exemplo os termos da linguagem médica caxumba, usado no centro-oeste, sudeste e sul do Brasil e papeira, termo usado no norte e nordeste do Brasil, assim como em Portugal. Outros exemplos: aipim (sudeste e sul do Brasil), macaxeira e mandioca (centro- oeste e nordeste do Brasil), termos da área de legumes.
Variante terminológica de discurso, a que decorre da sintonia que se estabelece entre elaborador e usuários de textos mais formais ou menos formais, como parotidite epidêmica que é um termo específico do discurso científico, da área de medicina; junta de descarga, termo próprio do discurso técnico, da área de mecânica de automóveis; planta de proveta, termo próprio do discurso de vulgarização científica, da área de melhoramento genético de plantas. Esse tipo de variante ocorre no plano vertical do discurso de especialidade;
Variante terminológica temporal, aquela que se configura como preferida no processo de variação e de mudança, em que duas formas (X e Y) concorrem durante um tempo, até que uma se fixe como forma preferida. Por exemplo, o termo já em desuso, da área de biologia, macrogameta, que foi substituído por gameta masculino, assim como microgameta que cedeu lugar para gameta feminino. (FAULSTICH, 1997, p. 3-4). (grifos originais).
Pelo exposto, é oportuno esclarecermos que concebemos as unidades terminológicas e, consequentemente, suas respectivas variantes, como elementos funcionais em uma dada linguagem especializada, pois, para nós, a função de unidade e/ou de variante terminológica, bem como os significados específicos a elas atribuídos só são ativados no contexto especializado de uso.
É importante ressaltarmos, também, que, nesta pesquisa, tanto as variantes denominativas (concorrentes de registro temporais e de discurso e/ou co-ocorrentes) quanto as variantes conceituais (polissêmicas e homônimas) são alvo de nossa investigação. Contudo, como a tipologia de variantes terminológicas proposta por Faulstich restringe-se à variação de natureza denominativa — e por falta, ainda, de orientações metodológicas específicas, desenvolvidas no âmbito da Socioterminologia, para o tratamento de variantes de natureza conceitual — usamos, por extensão, algumas dessas orientações também para a análise de certos casos de variantes conceituais ocorridas na terminologia investigada.
Importa-nos ainda evidenciar que, para tratamento das variantes denominativas, mesclamos as duas classificações propostas por Faulstich (1997, 1999a). Assim, classificamos as variantes da terminologia do reggae ludovicense em variantes concorrentes de registro temporais, variantes concorrentes de registro de discurso e variantes co-ocorrentes. Isso ocorreu, principalmente, porque: a) constatando que a terminologia do reggae ludovicense é constituída, sobremaneira, por variantes concorrentes e co-ocorrentes, e que aquelas decorrem, sobretudo, dos fatores tempo e discurso, percebemos a necessidade de classificar as variantes concorrentes da terminologia do reggae ludovicense em variantes concorrentes de registro temporais e variantes concorrentes de registro de discurso, especificando, assim, os principais fatores condicionadores de suas ocorrências; b) as variantes co-ocorrentes, denominadas por Faulstich também de sinônimos, foram identificadas como tal por co- ocorrerem com unidades terminológicas e/ou com outras variantes, independentemente da interferência dos fatores tempo e discurso.
Outro motivo que nos levou a mesclar as classificações propostas por Faulstich foi a complexidade e a vulnerabilidade de certos argumentos usados pela autora para estabelecer diferenciações entre variantes e sinônimos. Assim, neste trabalho, todas as ocorrências denominativas paralelas ao termo-entrada e menos frequentes que ele são tratadas como variantes. As variantes co-ocorrentes ocorrem nos mesmos contextos de uso que o termo- entrada e/ou que outras variantes; as variantes concorrentes, por sua vez, não ocorrem nos mesmos contextos de uso que o termo-entrada, uma vez que sua ocorrência está condicionada ao fator tempo e/ou discurso, no caso específico da terminologia do reggae ludovicense.