Referências, como principalmente São Paulo (2002) e também São Paulo (2008; 1985b), representam estudos complexos do Município de São Paulo (MSP) quanto ao mapeamento de componentes da paisagem relativos principalmente ao
meio físico, como solos, geologia, relevo, clima e vegetação. Estes estudos apresentam grande quantidade de informações espaciais relativas a tais componentes. Não se observou a reunião de tantos dados produzidos e sistematizados para uma boa diversidade de componentes, e, principalmente, no que se refere à apreensão da diferenciação de ambientes urbanos e naturais, em demais estudos consultados realizados para toda a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) ou para alguns municípios da mesma. Talvez pelo fato de o MSP, em relação aos demais, ser aquele com maior quantidade de recursos disponíveis para o desenvolvimento de atividades relativas a pesquisas acadêmicas e técnicas com fins de planejamento ambiental.
Dessa forma, entende-se que para obter a configuração das áreas urbana e natural (is) na RMSP é possível partir de amostras localizadas no MSP. Quando se analisa imagens de satélite tanto da RMSP quanto do MSP (Google Earth), constata-se que este abriga parte da transição entre a mancha urbana e o cinturão verde que a envolve em toda a RMSP. Desse modo, é lógico pensar que se pode desenvolver um raciocínio que explicite o fato de que as amostras localizadas no MSP podem ser representantes de toda a RMSP quanto à transição entre a mancha urbana e o cinturão verde que a envolve, este raciocínio será desenvolvido a seguir.
Reconhece-se que a RMSP pode possuir uma organização espacial, ou seja, uma área urbana associada à grande parte da mancha urbana dada na maior parte dos terrenos sedimentares e terrenos cristalinos associados de um lado, e demais área (s) natural (is) de outro, onde o cinturão verde predomina, dada (s) por terrenos cristalinos que tendem a não pertencer à mesma unidade espacial que os grandes pacotes sedimentares.
A análise do mapa Expansão Urbana e Unidades Geomorfológicas na Metrópole Paulistana de Batista (2002) (Figura 2) que associa a expansão urbana de 1881 a 1997 com as unidades geomorfológicas componentes da RMSP, permite identificar dois padrões, um associado à área urbana e outro às áreas naturais.
A área urbana pode ser associada ao grande contínuo central de colinas sedimentares, basicamente ao que Ab‟Sáber (2007, p. 207) chama de “[...] núcleo central da bacia, localizado na faixa interna da confluência Tietê-Pinheiros [...]”, mais às identações, adentramentos de colinas sedimentares e planícies aluviais mais
amplas em todas as direções de parte dos morros cristalinos circunjacentes às colinas sedimentares. Tais identações seria o que Ab‟Sáber (2007, p. 207) chama de “[...] a área dos prolongamentos digitados que remontam, por alguns quilômetros ou dezenas de quilômetros, os vales que se concentram na região de São Paulo [...]” e “[...] os testemunhos e agrupamentos de testemunhos remanescentes da fase de expansão máxima da sedimentação pelos terrenos cristalinos adjacentes.”. Constata-se no mapa Expansão Urbana e Unidades Geomorfológicas na Metrópole Paulistana de Batista (2002) (Figura 2), que em grande parte desses morros ou terrenos cristalinos entremeados por tais identações sedimentares presentes no Sul e Sudeste da RMSP, ocorrem consideráveis parcelas de mancha urbana aglutinadas ou próximas ao grande corpo central de tal mancha que se distribui sobre o grande pacote de terrenos sedimentares, se associando assim também à área urbana.
Da mesma forma, analisando tal mapa de Batista (2002) (Figura 2) e o da localização dos municípios da RMSP de Galvão (2011) (Figura 1), constata-se que trechos em que ocorrem amplas planícies aluviais isoladas em meio aos terrenos cristalinos também podem ser entendidos como pertencentes à área urbana, pois, assim como os sedimentos que aí se localizam, ocorrem amplas extensões planas que atraem a urbanização, como na bacia do rio Juquiá, onde se situam os municípios de São Lourenço da Serra e Juquitiba.
Já as áreas naturais seriam as restantes, onde predominam serras ou setores em que os terrenos cristalinos circunjacentes parecem não ser entremeados pelas identações sedimentares importantes regionalmente, nem pelas amplas planícies citadas acima. Aí, trechos urbanizados ocorrem em setores possivelmente mais aplainados, mas a falta de sedimentos regionais e amplas planícies isoladas que favoreçam a urbanização sobre os trechos aplainados que aí ocorrem, parece ser responsável pela urbanização mais fragmentada, menos contínua e extensa, permitindo que ocorram grandes parcelas de terrenos cristalinos ainda não ocupados. Isso porque, conforme o já explicitado anteriormente, mesmo havendo trechos aplainados nas áreas naturais, os terrenos aí predominantes não são tão planos quanto os terrenos sedimentares ou planícies aluviais, pois as declividades destes são menores que daqueles, sendo que os terrenos cristalinos entremeados por tais compartimentos mais planos é que tenderão a ter seus setores aplainados
ocupados, o que não ocorre com os terrenos cristalinos não entremeados. Dessa forma, estes parecem não ter condições de reproduzir uma urbanização tão contígua e adensada como a ocorrente na área urbana, que abriga o grande corpo da mancha urbana, por isso, a presença do cinturão verde é o que lhes caracteriza mais fortemente.
Da análise do mapa de Batista (2002) (Figura 2) constata-se que essas áreas naturais parecem ocorrer no extremo Norte, Oeste e Leste da RMSP, sendo, no mínimo duas, pois entre os extremos Norte e Oeste e o Leste, situa-se a área urbana, onde ocorre o grande corpo central dos sedimentos e os terrenos cristalinos entremeados pelas identações daqueles e por planícies aluviais extensas.
Constata-se também no mapa de Batista (2002) (Figura 2) que a transição entre a mancha urbana e os setores não ocupados pela mesma ocorre nos dois padrões identificados (a área urbana e as naturais). Outra constatação consiste no fato de que o MSP abriga esses dois padrões. Incluindo na análise o mapa da localização dos municípios da RMSP de Galvão (2011) (Figura 1), sem dúvida constata-se que o MSP é aquele, dentre os poucos que abrigam parte de tais padrões, o que as abriga em maiores e consideráveis extensão. Isso porque é o maior município em parcelas de terras e se constitui sobre as duas maiores zonas geomorfológicas da RMSP. Adicionando à análise também os mapas geomorfológicos do Estado de São Paulo apresentados em São Paulo (1981) e Almeida (1974), se constata que ao Norte o MSP abriga parte do maior corpo serrano da RMSP, a unidade Zona Cristalina do Norte (a segunda maior de tal unidade administrativa). Tal parte consiste em serras graníticas (bloco cristalino) não entremeadas por sedimentos de expressão regional nem por amplas planícies. Já na maior parte de sua extensão, o MSP abriga parte do Planalto Paulistano, a maior zona geomorfológica da RMSP, ou seja, o grande corpo da Bacia de São Paulo somado aos morros cristalinos entremeados por identações sedimentares regionais ou amplas planícies aluviais isoladas.
A única exceção aos dois padrões encontrados são as escarpas da Serra do Mar e de Paranapiacaba, pois nelas, segundo São Paulo (1981), não ocorrem planaltos, sejam mais altos ou mais rebaixados, como no restante da RMSP. Dessa forma, praticamente não possuem relevo com algum grau de aplainamento que
favoreça a ocupação urbana, sendo esta praticamente nula em seu perímetro (Figura 2). Resumindo: em tais escarpas, o padrão área urbana e áreas naturais não é válido. Como essas escarpas são muito restritas e se localizam no extremo Sul da RMSP, não representam exceção que impeça a análise da mesma como um todo segundo tais padrões identificados (Figura 2).
Desse modo, na área urbana, qualquer transição ocorrente sobre os terrenos sedimentares, os terrenos cristalinos entremeados por identações sedimentares regionais ou extensas planícies aluviais isoladas ou entre esses dois compartimentos, seja ela de maior ou menor dimensão, é considerada neste trabalho como algo único, transição que ocorre dentro da área urbana. Nas áreas naturais, qualquer transição que ocorre sobre os corpos serranos, os terrenos cristalinos não entremeados por identações sedimentares regionais ou amplas planícies aluviais isoladas ou entre esses dois compartimentos, é considerada também como algo único, transição que ocorre dentro da área natural.
Concluindo, neste estudo pensa-se que a configuração da área urbana e consequente configuração das áreas naturais pode ser mapeada investigando-se a transição entre a mancha urbana e o cinturão verde localizados nos dois padrões identificados. Amostras localizadas no MSP representam tal fato. Ao que parece, a grande maioria dos estudos geográficos ou trabalham com estudos de caso locais, em que procuram entender a pequena realidade investigada como um todo, ou trabalham com parcelas de estudo maiores, se utilizando de amostras espaciais em grande quantidade para que representem em conjunto o todo estudado.
Nesta pesquisa, ao se tratar de amostras localizadas somente no MSP, um dentre os 39 municípios da RMSP, que mesmo sendo o mais extenso, possui dimensão bem menor que a da RMSP, se tentará enfatizar a idéia de que em de terminados campos da Geografia é possível desenvolver estudos baseados em poucas amostras, restritas não só em número, mas extensão, porém, que sejam bem significativas e representantes do todo. Nos estudos focados na utilização de muitas amostras, a utilização destas em grande quantidade parece ser quase uma premissa, o que é natural e correto devido seus objetivos. Neste estudo, porém, para se chegar às poucas amostras utilizadas entende-se que é preciso desenvolver um longo e complexo processo de reflexão sobre a área de estudo, que se fundamente
em todo raciocínio resultante do encadeamento da problematização do objeto, dos objetivos, das premissas e hipóteses da pesquisa. É no desenvolvimento de método baseado nesta idéia de investigação de determinada realidade que se fundamenta a justificativa científica desta pesquisa. Talvez possa ser útil, ou contribuir de alguma forma, para a reflexão e tentativa de compreensão de outras realidades extensas através da abordagem de poucas amostras restritas em número e extensão.
3.2 O MÉTODO REGIONAL E A RELAÇÃO GEOGRAFIA IDIOGRÁFICA E