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Kuraklık Oluşumu ve Kurak Bölgeler

2.  BÖLÜM

2.2.  Kuraklığa Neden Olan Meteorolojik Faktörler

2.2.2.  Kuraklık Oluşumu ve Kurak Bölgeler

Em 1903, o serviço de desinfecção do porto do Rio de Janeiro passou por completa transformação. De acordo com a nova profilaxia, era necessário reorganizar a estrutura de inspeção/recepção de passageiros para que o processo de desinfecção funcionasse de forma eficaz e a quarentena pudesse ser colocada de lado sem prejuízos sanitários. Uma das novas estrelas da profilaxia moderna era o aparelho de Clayton, que passou a ser utilizado na desinfecção de navios, mercadorias e bagagens, com a promessa de liquidar com qualquer tipo de inseto vetor (rato, pulga, mosquito) e micróbios.

As desinfecções com a solução numa panela, feitas até então, que tanto envergonhavam o Diretor de Saúde Pública, a partir de 1903 passaram a ser feitas por uma barca de desinfecção, portando o aparelho de Clayton, estufa, câmaras de formol e gás sulfuroso, novidades técnicas da profilaxia internacional. Esta barca era dividida em duas seções, uma para os objetos contaminados e outra para os expurgados e todas as suas operações passaram a ser presididas por um médico do porto (RMJNI, 1903/1904: 354).

Aparelho de Clayton utilizado nos processos de desinfecção e fumigação. Grupo de

desinfectadores, uniformizados, da Diretoria Geral de Saúde Pública. Acervo COC/FIOCRUZ, s/d, imagem disponível em

http://www.ccs.saude.gov.br/revolta/campanhas.html, acessada em 29 de março de 2010.

Com a entrada de Oswaldo Cruz para a Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), em 1903, o porto passou a ter uma inspetoria específica para realizar este serviço, a Inspetoria de Isolamento e Desinfecção, presidida pelo Dr. Jaime Silvado (RMJNI, 1903/1904: A-J-42).

A novidade do aparelho de Clayton era que ele poderia ser acoplado a bordo de uma barca, que encostava nos navios para que se realizasse a desinfecção sem precisar fazer a descarga da embarcação, o que impedia uma possível invasão do porto por vetores, principalmente ratos, que entravam quando o navio atracava, normalmente por cordas e plataformas (ibidem).

A chalupa de desinfecção funcionando junto ao vapor Manáos pouco antes da partida, foto de Marc

Ferrez, In: Silvado, 1903: 10 – Acervo Biblioteca de Manguinhos, Setor Obras Raras, FIOCRUZ/RJ.

O novo serviço de desinfecção foi inaugurado no dia 17 de outubro de 1903, em plena epidemia de peste bubônica na cidade. No intuito de proteger o litoral do Brasil da epidemia que grassava no Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz instalou o novo aparelho para desinfectar pelo gás de Clayton todos os navios que partissem do Rio com destino aos demais portos brasileiros (Silvado, 1903: 5).

Uma chalupa176 a vapor foi preparada para realizar o serviço, sendo a seu bordo montada uma estufa de fabricação alemã Geneste-Herscher (grande modelo), utilizada na desinfecção de roupas e objetos e dois aparelhos Clayton. A chalupa media 20 metros de comprimento por 5 e meio de largura (ibidem).

176 Chalupa – do francês chaloupe. Antigo navio à vela, cuja mastreação se compõe de gurupés e de dois mastros,

o de vante de lugre e o de ré inteiriço, que enverga pequena vela latina quadrangular. In: Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa, 2ª edição, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986. No caso do porto do Rio de Janeiro, a chalupa não era à vela, mas à vapor.

A chalupa de desinfecção, foto de Marc Ferrez, In: Silvado, 1903: 10 – Acervo Biblioteca de Manguinhos, Setor Obras Raras, FIOCRUZ/RJ.

O convés era revestido de mosaico em toda a superfície e dividido em duas partes por um anteparo vertical de ferro, colocado à distância de 5 metros de proa (fig. 1 linha A B). A parte anterior era o lado impuro, na qual se recebia a roupa a desinfectar; a parte posterior era o lado puro, onde a roupa era recebida após a desinfecção. A estufa Genester-Herscher era colocada atrás do anteparo, onde se podia abrir suas duas portas, uma do lado impuro e outra do puro. O vapor, indispensável para a realização da operação, era fornecido pela caldeira da chalupa (ibidem: 5, 6).

O convés tinha ainda na parte impura duas escotilhas simétricas (fig. 1 C C), que davam acesso a dois compartimentos do porão, independentes e destinados à desinfecção pelo gás de Clayton do lado direito, e à desinfecção pelo formol do lado esquerdo. Do lado puro, atrás da estufa, havia mais duas escotilhas (e e) que pertenciam aos dois compartimentos do porão. As escotilhas do lado impuro davam entrada à roupa infectada e a do puro à saída, quando desinfectada. No meio havia outra escotilha que dava acesso ao tanque de água, com capacidade para 60 toneladas (fig. 1 F) (ibidem: 6).

vapor da caldeira, que se achava colocada perto da proa, no meio do convés. Entre a caldeira e os aparelhos de Clayton havia duas aberturas que conduziam à carvoeira (Fig. 1 h h). Na popa encontrava-se a cozinha e a latrina da tripulação (fig. 1 k l) (ibidem).

No porão: 1º o paiol da amarra; 2º duas câmaras para a desinfecção; 3º o tanque de água; 4º a carvoeira; 5º o compartimento da máquina (fig. 2). A embarcação era protegida em toda a sua extensão por uma tolda de madeira coberta de zinco, sobre a qual trabalhavam os homens, ao manobrarem com as mangueiras dos aparelhos de Clayton, que eram adaptadas aos tubos de ferro dos aparelhos durante o serviço (ibidem).

Planta da Chalupa (ibidem).

O aparelho de Clayton não era novidade só no Brasil, mas também na Europa. Ele começou a ser utilizado praticamente no mesmo período tanto no porto do Rio quanto no de Dunkerque, na França. No ano anterior, 1902, o aparelho ainda estava sendo sujeito a testes para verificação da sua eficácia na desinfecção de roupas e objetos.

Em 27 de setembro de 1902, o diretor do Instituto Pasteur de Lille, Dr. A. Calmette, empreendeu uma série de experiências com o fim de determinar a ação desinfectante do gás sobre roupas e objetos artificialmente contaminados por “micróbios patogênicos: febre tifóide,

cólera e peste”, escolhidos porque ofereciam o maior interesse sob o ponto de vista da profilaxia marítima. A experiência teve colaboração também do Dr. Duriau, Diretor de Saúde do Porto de Dunkerque e do Sr. David, químico-chefe do Ministério das Finanças francês, que se encarregaram de estudar mais especialmente os efeitos do gás sulfuroso seco sobre os ratos e sobre as diversas mercadorias177.

Os testes concluíram que o uso do gás sulfuroso seco, produzido sob pressão do aparelho de Clayton, nas condições em que foi empregado (grau de concentração de 8 %), foi perfeitamente eficaz na desinfecção dos navios, para tornar inofensivos objetos poluídos pelos micróbios da febre tifóide, da cólera e da peste. Além disso, o processo permitia destruir todos os ratos e insetos como pulgas, percevejos, baratas etc, sem alterar sensivelmente as mercadorias mais delicadas como peles, couros, cereais, açúcar, carnes, frutas e sem causar o menor estrago nos objetos de metal (Calmette & Hauteville, 1902: 451).

Foi recomendado, então, que todos os serviços sanitários marítimos da França fossem aparelhados para empregar o novo método de desinfecção, no sentido de evitar as quarentenas prolongadas, que tão grandes prejuízos causavam ao comércio internacional e também para a defesa dos portos contra a invasão da cólera e da peste, sempre ameaçadoras em território francês. Também foi aconselhada a sua adoção às grandes companhias de navegação. Estas deveriam instalar em cada unidade um aparelho de Clayton a bordo. Pouco tempo depois, de acordo com convênios e regulamentos, como o nosso regulamento sanitário de 1904, o aparelho de desinfecção iria se tornar obrigatório em embarcações que viajassem por um período de mais de 48 horas178 (ibidem).

A desinfecção pelo Clayton, no Brasil, permitiu que os navios não precisassem mais ir à Ilha Grande para realizar os procedimentos sanitários. Feita a desinfecção nos porões carregados de mercadoria, o resultado da operação só era visível horas ou dias depois, quando a embarcação chegava ao porto de escala, onde se procedia a descarga, com a visão dos insetos

177 Calmette & Hauteville. A desinfecção dos navios pelo processo de ‘Clayton’. O Brazil-Médico, anno XVI,

1902, pp.449-451, ext. Revue d’Hygiene de Polices Sanitaire.

Desinfecção, In: Relatório da DGSP).

Nos itens 3.3, 3.4 e 3.5 darei foco à institucionalização da profilaxia moderna. Abordarei o Regulamento Sanitário do Porto do Rio de Janeiro de 1904 que foi a legislação que institucionalizou a profilaxia moderna no Brasil. Analisarei a convenção platina realizada no mesmo ano no Rio de Janeiro, que regulamentou a profilaxia moderna nos países vizinhos - Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – baseada no combate aos vetores transmissores da febre amarela e da peste bubônica. No item 3.5 vamos entender como se deu a mudança da quarentena para a profilaxia direcionada ao combate dos vetores e quais foram as mudanças nas práticas de prevenção operadas no porto do Rio de Janeiro com relação à febre amarela, peste bubônica e cólera

Benzer Belgeler