3. Çalışmanın Kaynakları, Yöntemi ve Kapsamı
1.11. Eserleri
1.11.1. Kur’an İlimlerine Dâir Eserleri
Kant defende uma federação com a função de “simplesmente manter e garantir a paz de um Estado para si mesmo e, ao mesmo tempo, a dos outros Estados federados”450. No texto do Segundo Artigo definitivo de a À Paz Perpétua, Kant apresenta três argumentos que defendem a fundamentação de uma federação de Estados livres em detrimento de um Estado mundial com poder de coerção.
Primeiramente, segundo Kant, a idéia de um Estado universal está marcada por contradições. Um Estado de povos não estaria condizente com o direito internacional, que parte justamente de Estados soberanos e com plena capacidade jurídica e decisória. Com a criação de um Estado de povos, haveria, como acontece internamente nos Estados, “uma relação de um superior (legislador) com um inferior (o que obedece, a saber, o povo)”451, contradizendo, assim, a própria idéia de Estado soberano que, com esse status, não pode ser constrangido a uma relação de
449
“(…) daß ein Völkerbund nach der Idee des ursprünglichen Vertrages nothwendig ist (…) daß die Verbindung doch keine souveräne Gewalt (wie in einer bürgerlichen Verfassung), sondern nur eine Genossenschaft (Föderalität) erhalten müsse (…).” MdS, VI, 344.
450 “Dieser Bund geht auf keinen Erwerb irgendeiner Macht des Staats, sondern lediglich auf Erhaltung und
Sicherung der Freiheit eines Staats für sich selbst und zugleich anderer verbündeten Staaten (…).” ZeF, VIII,
356.
451 “(…) weil ein jeder Staat das Verhältnis eines Oberen (Gesetzgebenden) zu einem Unteren (Gehorchenden,
subordinação e dependência. É justamente “em não se sujeitar a nenhuma coação legal externa”452 que cada Estado marca a sua condição de soberano e é nessa condição que cada Estado pode abdicar de uma instância supranacional de direito e de poder. Dessa forma, em conformidade com sua vontade e sua idéia do direito das gentes, os Estados podem rejeitar “in hipothesi o que é correto in thesi”453. Esse posicionamento é reforçado por Kant, ao ressaltar que o fato de os Estados já terem adotado uma constituição jurídica, os livra da “coação dos outros, para que se submetam a uma constituição legal ampliada, em conformidade com os seus conceitos jurídicos”454.
Kant também argumenta de forma contrária à formação de um Estado Mundial, por entender que este suprimiria os Estados que consubstanciam a ordem de um povo. No instante em que “muitos povos num Estado viriam constituir um só povo”455, haveria uma contradição com o próprio conceito de direito internacional, que pressupõe justamente a existência de diversos povos, i.e., Estados. Em outras palavras, o direito dos povos somente pode ser considerado “nas suas relações recíprocas, enquanto formam Estados diferentes, que não devem fundir-se num só”456. O direito internacional público deve velar, para que a ordem estatal não seja suprimida e, além disso, dar forma a uma confederação onde os Estados possam manter relações entre si, sem perder a personalidade jurídica. Na condição de sujeitos de direito internacional, os Estados devem permanecer independentes e livres e manter relações entre si no mesmo patamar de igualdade. Nesse sentido, não há fundamento algum no direito internacional capaz de justificar uma fusão de todos os povos e formar um único Estado Mundial. Os Estados devem continuar existindo, o que não significa que alguns Estados não possam fusionar-se livremente457.
452
“Statt dessen aber setzt vielmehr jeder Staat seine Majestät (…) gerade darin, gar keinen äußeren gesetzlichen Zwange unterworfen zu sein (…).” ZeF, VIII, 354.
453
“Da sie dieses aber nach ihrer Idee vom Völkerstaat (civitas gentium) nicht wollen, mithin, was in thesi richtig ist, in hypothesi verwerfen (…).” ZeF, VIII, 357.
454
“(…) weil sie als Staaten innerlich schon eine rechtliche Verfassung haben und also dem Zwange anderer, sie nach ihren Rechtsbegriffen unter eine erweiterte gesetzliche Verfassung zu bringen, entwachsen sind.” ZeF,
VIII, 355.
455 “(…)viele Völker aber in einem Staate nur ein volk ausmachen würden, (…).”ZeF, VIII, 354. 456
“(…) da wir hier das Recht der Völker gegeneinander zu erwägen haben, sofern sie soviel verschiedene Staaten ausmachen und nicht in einem Staat zusamenschmelzen sollen (…).” ZeF, VIII, 354.
Kant também rejeita a construção de um Estado Universal, por representar um perigo para a liberdade e ser uma “idéia inatingível” 458 para a consecução da paz. A criação de um Estado com tamanho descomunal poderia ter um efeito contrário ao propósito de lograr uma paz duradoura e suscitar “um despotismo sem alma”459. A paz não deve ser uma decorrência do despotismo, mas do direito. Ademais, um Estado Universal seria extremamente difícil de ser governado e estaria fadado a cair em anarquia460.
A recusa de um Estado Mundial, por parte de Kant, decorre de fatos históricos, mas não com base na razão461. Kant tinha consciência de que a maior dificuldade do direito internacional da sua época estava justamente na grande resistência dos Estados em abdicar de sua soberania em favor de uma organização com poder de coação462. Acontecimentos sociais e históricos contribuíram desfavoravelmente a qualquer proposta de associação. Sob essa perspectiva histórica, segundo Habermas463, a concepção kantiana contrária a um projeto de criação de um Estado Mundial pode ser tachado de realista. No século 18, o sistema internacional funcionava sob a premissa de que somente os Estados eram sujeitos de direito internacional, e a soberania era a expressão da plena eficácia do poder. Os Estados soberanos afirmavam o seu status jurídico, através da independência e integridade territorial, o que poderia ocorrer, inclusive, pela força464. Além disso, também deve ser levado em conta que os Estados democráticos, surgidos com a
458 “(…) eine unausführbare Idee.” MdS, VI, 350.
459 “(…) ein seelenloser Despotismus” ZeF, VIII, 367. Cf. Gemeinspruch, VIII, 311; MdS, VI, 350. 460 ZeF, VIII, 367.
461 REISS, Hans. Kants politisches Denkens. Bern: Peter Lang, 1977, p. 44; BEUTIN, Wolfgang. Kants Schrift “Zum ewigen Frieden“ (1795) und die zeitgenössische Debatte. In: BEUTIN, Wolfgang (Hrsg. von) Hommage à
Kant: Kant Schrift “Zum ewigen Frieden“. Hamburg: von Bockel, 1996, p. 104; BRANDT,Reinhard. Historisch-
kritische Beobachtungen zu Kants Friedenschrift. Politisches Denken, Jahrbuch 1994, Stuttgart, 1994, p. 37. 462 HABERMAS, Jürgen. Kants Idee des ewigen Friedens – aus dem historischen Abstand von zweihundert Jahren. In: LUTZ-BACHMANN, Matthias; BOHMAN, James (Hrsg.). Frieden durch Recht: Kants Friedensidee und das Problem einer neuen Weltordnung. Frankfurt: Suhrkamp, 1996, p. 11 e 17; BATSCHA, Zwi; SAAGE, Richard. Einleitung der Herausgeber. In: BATSCHA, Zwi; SAAGE, Richard. Friedensutopien: Kant, Fichte, Schlegel, Görres. Frankfurt: Suhrkamp, 1979, p. 11; LUTZ-BACHMANN, Matthias. Kants Friedensidee und
das rechtsphilosophische Konzept einer Weltrepublik, 1996, p. 37; GERHARDT, Volker. Immanuel Kants Entwurf, 1995, p. 102 e 104. HÖFFE, Otfried. Kategorische Rechtsprinzipien, 1995, p. 277. Sob o aspecto
histórico, ver, também: QUARITSCH, Helmut. Souveränität: Entstehung und Entwicklung des Begriffs in Frankreich und Deutschland vom 13. Jh. bis 1806. Berlin: Duncker & Humblot, 1986, p. 103s.
463 HABERMAS, Jürgen, op. cit., p.10s.
464 GREWE, Wilhelm. Epochen der Völkerrechtsgeschichte, Baden-Baden: Nomos, 1984, p.194s. Sobre o dogma da soberania absoluta, ver POGGE, Thomas. Kosmopolitanismus und Souveränität. In: LUTZ- BACHMANN, Matthias; BOHMAN, James (Hrsg.) Weltstaat oder Staatenwelt?: Für und wider die Idee einer Weltrepublik. Frankfurt: Suhrkamp, 2002. 1996, p. 143. Vide supra, p. 31s.
revolução americana e francesa, eram naquela época uma exceção, não a regra465. Essa realidade leva Kant a optar por uma aliança de povos isenta de coação e preservando a liberdade dos Estados. Batscha e Saage observam que “ele coloca rédeas na sua fantasia emancipatória e as restringe sobre determinadas condições históricas num possível mundo civil”466. Dessa forma Kant também tenta driblar a censura, ou seja, para que sua realização não fosse renunciada, desde o início, ele insere etapas de mediação que escondem a chance de realização empírica dos seus postulados da razão, sem ter de transformá-las no seu oposto, já que a realização dessas idéias só seria possível através da guerra, mas que desde o início foram renunciadas467.
Os fundamentos apresentados por Kant para rechaçar um Estado Mundial e preservar a soberania dos Estados encontram na atualidade uma vaga aceitação468. O fato de a comunidade internacional contemporânea ser formada por uma multiplicidade de Estados, cujas relações estão em constante ascensão e estreitamento, torna extremamente difícil sustentar a idéia de uma soberania ilimitada. Para Kersting469, a teoria kantiana precisa ser liberta das amarras teóricas da soberania plena, que há muito se tornaram obsoletas. Os argumentos que Kant apresenta, para sustentar como sendo suficientes para a garantia da paz que os Estados observem simplesmente algumas normas jurídicas elementares, diferentemente dos indivíduos, que precisam se submeter a uma ordem jurídica centralizada, são tachados por Nida-Rümelin470 como não sendo plausíveis.
465 HABERMAS, Jürgen. Kants Idee des ewigen Friedens, 1996, p. 10s.
466 “Indem er den Zwängen einer auf die Bedürfnisse von akkumulierenden Besitzbürgern zugeschnittenen
innen- und auβenpolitischen Ordnung Rechnung trägt, legte er seiner emanzipatorischen Phantasie Zügel an und restringierte sie auf das unter bestimmten historischen Bedingungen in einer bürgerlichen Welt Mögliche.”
BATSCHA, Zwi; SAAGE, Richard. Einleitung der Herausgeber, 1979, p. 16. 467
“Wollte Kant dem Vorwurf gutgemeinter, aber naiver und möglicherweise gefährlicher Friedensvorstellungen entgehen, die falls auf ihre Realisierung nicht von vornherein verzichtet wurde, ihrerseits nur durch Kriege zu verwirklichen waren, so musste es ihm darauf ankommen, Vermittlungsebene auszumachen, die seinen Vernunftpostulaten eine empirische Verwirklichungschance verbürgten, ohne in ihr Gegenteil umschlagen zu müssen.” BATSCHA, Zwi; SAAGE, Richard. Ibid., p. 11-2.
468 CAVALLAR, Georg. Pax Kantiana, 1992, p. 210.
469 KERSTING, Wolfgang. Philosophische Friedenstheorie und internationale Friedensordnung. In: CHWASZCZA, Christine; KERSTING, Wolfgang (Hrsg.) Politische Philosophie der internationalen
Beziehungen. Frankfurt: Suhrkamp, 1998, p. 539.
470 NIDA-RÜMELIN. Ewiger Friede zwischen Moralismus und Hobbesianismus. In: MERKEL, Reinhard; WITTMANN, Roland (Hrsg.). Zum ewigen Frieden: Grundlagen, Aktualität und Aussichten einer Idee von Immanuel Kant. Frankfurt: Suhrkamp, 1996, p. 247.
As razões apontadas acima levam Kant a rejeitar a instituição de uma República Mundial como forma de organização da comunidade jurídica global. Em seu lugar, Kant propõe um sucedâneo negativo: uma aliança acordada entre os Estados e “segundo um direito das gentes concertado em comum”471 e sem um poder de coação geral. Nas palavras de Kant, “só o sucedâneo negativo de uma aliança pode substituir a idéia positiva de uma República Mundial”472. Como se apresenta o “sucedâneo negativo” na concepção kantiana?