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Kur’an’ın Tefekkür Etmeyenleri Yermesi

2- Düşünce Kavramı

1.1.8. Kur’an’ın Tefekkür Etmeyenleri Yermesi

A partir dos critérios do PBF, pode-se afirmar a existência de um perfil “ideal” de família a ser beneficiada pelo programa, cujo principal critério é a renda per

capita. Contudo, como se apresentam as famílias “na ponta”, no momento da

realização cadastral no PBF? Que arranjos são elaborados para que sejam incluídas no programa? Do ponto de vista “formal” do programa, a concepção de família86

adotada pelo PBF está baseada no número de pessoas que compartilham o mesmo domicílio, havendo ou não laços de consanguinidade. O critério é fundamentado na ideia de família assumida em pesquisas pelo IBGE, que restringem o escopo da família ao grupo domiciliar. Assim, nos censos demográficos e em outras pesquisas domiciliares, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), o alcance máximo de uma família vai até os limites físicos da moradia. Uma mesma família (definida pelos laços de parentesco e de ajuda mútua) que ocupe dois domicílios é contabilizada, assim, como duas famílias (ALVES, 2005).

A escolha pelo critério do compartilhamento do domicílio justifica-se com base nas dificuldades que um programa das dimensões do Bolsa Família teria para estabelecer e contabilizar outras formas de composição familiar. Além disso, tal escolha permite que beneficiárias tendo sob sua guarda filhos (crianças ou

86 Segundo Sarti (1992), a Antropologia contribui para o conceito de família, uma vez que desnaturaliza tal conceito e não considera a existência de um modelo universal. “O parentesco e a família tratam dos fatos básicos da vida: nascimento, acasalamento e morte. A família como o grupo social concreto e o parentesco como a forma estrutural” (SARTI, 1992, p. 75). A concepção de família deve, assim, ser pensada como uma totalidade articulada, em que seus elementos podem ser combinados de diferentes maneiras, dentro de uma estrutura mais ampla.

adolescentes) de outra pessoa possam cadastrá-los e receber o benefício. Esse é o caso de Laura, por exemplo, moradora do Pavão-Pavãozinho, que ficou com a guarda dos filhos de uma vizinha que não possuía condições de sustentá-los. Ao ganhar a guarda das crianças, ela pode incluí-las no seu cadastro do programa e receber os respectivos valores advindos do benefício.

Contudo, a concepção de família a partir da unidade domiciliar pode ser “burlada” para fins da contabilidade da renda per capita, ou seja, permite omitir ou incluir moradores do domicílio, estratégia usada para a obtenção do benefício por algumas famílias. A “estratégia de inclusão” é utilizada quando o beneficiário possui um trabalho formal e, como não pode mudar o valor que consta na carteira de trabalho, aumenta o número de moradores do domicílio. Algumas mulheres, que são a maioria na titularidade do PBF87, no momento em que fornecem as informações

sobre os residentes do domicílio, não declaram o cônjuge/companheiro. Essa estratégia somente será descoberta com as visitas das assistentes ao domicílio. Segundo uma assistente social,

[...] é comum as mulheres esconderem o companheiro, a gente somente consegue ter certeza quando vai na casa. Outro dia fui na casa de uma mulher que não havia incluído o companheiro, e foi ele quem me atendeu. Isso acontece também porque às vezes elas [mulheres] não ficam muito tempo com o companheiro, eles vão e vêm ou ele tem uma renda e ajuda pouco, não dá dinheiro algum. O que posso dizer é que tem o perfil do

que deve ser para o programa [PBF] e a vida real que a gente lida aqui.

Seguindo a lógica da família do PBF, caracterizada pelo domicílio e pela renda per capita, as beneficiárias, além de omitirem o companheiro, não consideram “da família”, para fins cadastrais, outros moradores da casa, mesmo que haja laços

87 Segundo o Relatório do PBF Brasil (2015), 93% dos titulares do programa são mulheres, algo incentivado pelos gestores do programa.

consanguíneos. Isso ocorre porque, embora compartilhem do mesmo domicílio, cada membro é responsável pelo sustento de seus filhos, de forma que apenas os gastos comuns podem ser divididos. Ou seja, ao mesmo tempo que há uma rede de proteção familiar, já que um parente dificilmente se nega a acolher alguém da família, há tensões, conflitos e escassez de dinheiro. Nesse contexto, morar com um familiar não significa que tudo é compartilhado, principalmente em termos de dinheiro. O mais comum nas narrativas das beneficiárias é o “morar de favor”, situação em que elas devem ser responsáveis pelas suas despesas. As famílias de Gerusa e Gabriela ilustram bem essa questão. Gerusa, 45 anos, separada e sem trabalho formal, residia na casa do irmão, segundo ela, “de favor”, juntamente com os dois filhos. O caso de Gabriela, 25 anos, manicure e mãe de uma menina, é similar: morava “de favor” na casa da avó, mas era responsável pelo sustento da filha.

Eu moro com meu irmão de favor, ele deixa eu ficar, mas sou eu que dou de comer para meus filhos. Sou eu quem dá tudo que eles precisam, meu irmão não ajuda em nada os meninos. Eles dependem do que eu ganho para viver. Se eu colocar ele [irmão] no Bolsa Família, aí não vou receber nada. O dinheiro é só para meus filhos e eu (Gerusa).

Minha avó deixou eu e minha filha morarmos com ela, moro de favor. Se ela não quiser mais, eu tenho que sair. Ela é aposentada, mas não dá nada. É avó, família, mas cada uma por si com o dinheiro e despesas. Tenho que comprar comida, roupas [...] para minha filha e ajudo a pagar luz. Pelo menos não pago aluguel. Por isso, no Bolsa Família é eu e a minha filha (Gabriela).

Nos dois casos, são registrados no cadastro (on-line) somente as beneficiárias e seus filhos, de modo que o benefício é calculado de acordo com essa composição. No item sobre a moradia, aspectos (físicos) acerca do imóvel e do acesso a serviços de água, luz etc. são informados. Existe, ainda, outra forma de

registro, em papel, que é preenchido pela assistente social. Trata-se do “Prontuário SUAS”88, instrumento criado pelo SUAS para padronizar, organizar e acompanhar os

atendimentos das famílias. No prontuário, fica registrado que as beneficiárias residem “de favor” na casa do irmão e da avó, sendo este arquivado no CRAS, juntamente com os demais documentos da família.

Entre o que é considerado “formal” pelo PBF e os arranjos que são elaborados pelas beneficiárias, mesclam-se elementos que, dependendo do contexto, podem ser informados ou omitidos. Todo o processo de inclusão e exclusão no PBF cria, assim, uma fronteira entre o sistema que estabelece critérios “formais” e outros “arranjos” que são “informais”. É nessa fronteira que os atores sociais – beneficiários, assistentes sociais e gestores do PBF – adaptam-se e articulam-se. Fica evidente a existência de um perfil de família “ideal”, baseado nos dados do cadastro, e de família “real”, um “grupo social concreto” com estruturas e elementos mais amplos (SARTI, 1992). Embora o cadastro do programa apresente uma lista de informações, que será descrita a seguir, sobre as famílias a serem contempladas pelo benefício, tal lista não consegue captar as estratégias e relações que acontecem no cotidiano do CRAS.

Benzer Belgeler