2.4. I.Balkan Savaşı’nda Garp Cephesi ve Vardar Ordusu
2.4.1. Kumanova Muhârebesi (23-24 Ekim 1912)
A verificação proposta nesta pesquisa, através das entrevistas com produtores cinematográficos brasileiros, focalizou o imaginário de importantes profissionais que atuam no setor. Eles foram escolhidos em virtude da sua expressiva participação no cenário contemporâneo de produção – seja através do número de filmes produzidos, ou através dos resultados obtidos pelos seus produtos, ou a partir dos efeitos gerados pela sua prática. Todos eles vinculam-se ao conceito de produtor comunicativo, na medida em que a busca por um significado maior está na origem das motivações que impulsionam os seus trabalhos e sua parte criativa age em primeiro plano, seguida da sua condição de expert. São eles: Assunção Hernandes, Bianca Villar, Carlos Reichenbach, Fabiano Gullane, Sara Silveira e Toni Venturi.
Assunção Hernandes atua no mercado cinematográfico há quase 40 anos e desde 2001 preside o Congresso Brasileiro de Cinema. Ela produziu em sua trajetória mais de 40 filmes, sendo 15 de longa-metragem. Entre seus filmes mais importantes estão A Dama do Cine Shangai, de Guilherme de
Almeida Prado (1987) e A Hora da Estrela, de Suzana Amaral (1985). Entre suas produções mais recentes estão De Passagem, de Ricardo Elias (2003), e
Onde Andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado (em finalização).
Bianca Villar montou, em 2000, a produtora Drama Filmes, em sociedade com o diretor Beto Brant e o produtor Renato Ciasca. Jornalista de formação, atuou no mercado de distribuição e exibição de filmes antes de ser produtora de longas-metragens. Seu primeiro trabalho como produtora foi no filme O Invasor, de Beto Brant (2002), um dos títulos mais importantes da época. Nos anos seguintes, realizou com o mesmo diretor os longas-metragens
Crime Delicado (2005) e Cão sem Dono (em finalização).
Carlos Reichenbach produziu e dirigiu inúmeros filmes em sua carreira de quase 40 anos. Seu primeiro curta-metragem foi realizado em 1969 e chamava-se Esta rua tão Augusta. Na década de 70, em São Paulo, trabalhou no pólo produtor chamado de Boca do Lixo, por realizar filmes de baixo orçamento e com características populares. Dezenas de filmes estão em seu currículo. Destacamos os mais recentes: Bens Confiscados (2005) e Garotas
do ABC (2004).
Em 1996, Fabiano Gullane abriu a produtora Gullane Filmes, ao lado de seu irmão, Caio Gullane. Formado em cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado – a FAAP – trabalhou em vários filmes, de longa e curta duração, como diretor de produção e produtor executivo. Entre seus trabalhos mais importantes estão Bicho de 7 Cabeças, de Laís Bodanzky (2000),
Carandiru, de Hector Babenco (2003), e Nina, de Heitor Dhalia (2004).
Sara Silveira é sócia-fundadora da Dezenove Som e Imagens, em parceria com Carlos Reichenbach. Produziu títulos como Alma Corsária (1994) e Dois Córregos (1999), ambos dirigidos por Reichenbach, no início do período da retomada do cinema brasileiro. Posteriormente, produziu títulos importantes como Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes (2005), e Durval Discos, de Anna Muylaert (2002). Antes de assumir a função de produtora, Sara trabalhou como assistente de direção, assistente de produção e diretora de produção.
Toni Venturi, antes de dirigir seu primeiro longa-metragem, realizou três curtas: Under the Table (1984), Guerras (1987) e 1999 (1992). Seu primeiro longa foi Latitude Zero (2002). Em 2004, dirigiu e produziu o filme Cabra-Cega. Formado em cinema pelo Ryerson University de Toronto, Toni também produziu e dirigiu vários documentários para cinema e televisão.
As entrevistas foram realizadas em São Paulo, nos meses de março, agosto e setembro de 2006, sempre nas produtoras dos entrevistados, com exceção de Carlos Reichenbach que nos recebeu em casa.
Nossa pesquisa baseia-se em um olhar método qualitativo. A metodologia qualitativa é aquela capaz de “incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais, sendo essas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas significativas” (MINAYO, 1998, p. 10). A corrente de pensamento da pesquisa qualitativa não objetiva quantificar o fenômeno social, mas abrange explicações sobre os significados dos meandros das relações sociais, resultantes das atividades humanas, que podem ser apreendidas através do cotidiano, da vivência e da explicação do senso comum.
É preciso considerar, por outro lado, que a investigação quantitativa e a qualitativa podem se complementar, apesar de serem de natureza diferente. A primeira tem como objetivo trazer à tona dados, indicadores e tendências que irão abarcar grandes quantidades de informações que serão classificadas de forma inteligível, através de operacionalização de variáveis; a segunda, investiga a complexidade de fenômenos e processos sociais particulares e específicos de grupos delimitados que podem ser abrangidos intensamente.
Na prática, o método de coleta de dados através da entrevista está fundado sobre um “saber-fazer” artesanal, quase uma arte manual. Trabalhamos, aqui, com um método em particular: o da entrevista compreensiva, baseados no sentido dado por Kaufmann (2006).
Muito usado para as técnicas de pesquisa qualitativa, os dados qualitativos recolhidos in situ ou in loco estão concentrados na “palavra”, na “fala”, ambas gravadas em fita magnética. Esses dados tornam-se, então, o elemento principal desse dispositivo, que, de fato, é um método muito específico, com uma forte coerência interna, mas situado no cruzamento de diversas influências.
A especificidade da entrevista compreensiva baseia-se no entendimento de que a lógica do conjunto deve ser compreendida antes que tal ou tal elemento seja utilizado separadamente, no espírito do método escolhido pela pesquisa. A palavra “compreensiva” já dá uma indicação do objetivo principal. Baseado em conceitos weberianos, Kaufmann explica que não há a busca por uma explicação, assim como não há um objetivo em si. Procura-se uma articulação minuciosa entre dados e hipóteses e uma formulação de hipóteses que seja mais criativa, até porque ela está enraizada nos fatos, ela parte de baixo, do terreno, e está apta a compreender os processos sociais.
O modo de pensar compreensivo “se apóia sobre a convicção de que os homens não são simples agentes portadores de estruturas, mas produtores ativos do social, na medida em que são depositários de um saber importante” (KAUFMANN, 2006, p. 23), saber esse que acontece no interior, por meio do sistema de valores dos indivíduos. Depois disso, o trabalho será do pesquisador, que deve ser capaz de interpretar os dados recolhidos.
Depois da coleta de dados, ou seja, da realização das entrevistas, dois tipos de leitura foram necessários. O primeiro deles teve como objetivo desenhar o estado do saber sobre a questão tratada. Ele baseou-se, sobretudo, a recolher dados, a acumulá-los e a cruzá-los, para definir o quadro da entrevista. Seu princípio é “concêntrico”, ou seja, aquilo que se aproxima mais próximo do coração do objeto da pesquisa deve ser tratado de maneira intensa. A consulta em banco de dados ou pesquisa bibliográfica adicional é aqui valiosa. O caminho da leitura para os dados que estão mais distantes do centro da pesquisa torna-se mais livre. O princípio do segundo tipo de leitura é
diferente: o objetivo não é a síntese do saber, mas sim a problematização, o novo saber que deve ser construído com e na pesquisa (KAUFMANN, 2006).
Através dessas duas leituras diferentes, criamos um esboço de “centros” de interesse e isso se torna produtivo, pois as idéias encadeiam-se umas às outras e dão pistas de leitura surpreendentes, que abrem uma nova visão sobre o tema.
A lista de perguntas no quadro da metodologia da entrevista compreensiva funciona como um simples guia roteiro para que os informantes falem sobre o tema proposto. Mais importante do que isso é a dinâmica de conversação, que deve ser mais rica do que a simples resposta a uma pergunta. Em outras palavras, seria o mesmo que esquecer a lista de questões. Por precaução, ela esteve presente, totalmente assimilada e redigida com cuidado.
A lista de perguntas tem uma história própria, pois o pesquisador penetra nesse mundo de questionamentos ainda abstratos. Com o passar do tempo, a familiarização com as interrogações facilita o domínio do pesquisador. Foi o que aconteceu. O hábito acaba por deixar espaço para as alterações na lista de perguntas, já que, assim como Kaufmann (2006), entendemos que a lista não é intocável.
Com isso, chegamos a um dos objetivos principais da entrevista compreensiva: a quebra da hierarquia entre entrevistador e entrevistado. Os princípios já citados contribuíram para isso. O primeiro deles é o de manter um contato que se aproxime da conversação, evitando o questionamento que “vem de cima”. O segundo deles é a lista de perguntas, que funciona como guia mas que pode ser alterada à medida que as trocas avançam. Por último, o estilo oral adotado visava dar corpo ao caráter “de conversa” para que, de algum modo, a própria entrevista pudesse ser esquecida, dando espaço a um “bate- papo” sobre o tema. Com isso, chegamos a um bom nível de aprofundamento, ao mesmo tempo em que jogamos um “bate-bola” – conversa entusiasmada, descontraída – entre entrevistador e entrevistado.
Essa última característica foi facilitada, na nossa pesquisa, em virtude da nossa experiência profissional, que inclui também a prática da produção cinematográfica. Ao dominar o tema no seu cotidiano e ao ser reconhecida dessa forma pelos entrevistados, nossa condução encaminhou a entrevista, naturalmente, para um fluxo fluido, caracterizando a “troca” de informações.
Importante ressaltar, ainda, que, mesmo ao quebrar a hierarquia, mantemos uma equivalência de posições, ou seja, cada um dos participantes – entrevistador e entrevistado – desempenha um papel diferente. O entrevistador “é o dono do jogo”, ele define as regras e põe as questões. O entrevistado ou informante, no início, contenta-se em responder. Durante a entrevista, o jogo segue e avança para uma nova situação. O entrevistado deve sentir que o que ele diz é “como ouro para o entrevistador e que o entrevistador se coloca de forma sincera a sua frente, não hesitando em abandonar sua lista de perguntas para lhe fazer comentar sobre a informação maior já citada brevemente” (KAUFMANN, 2006, p. 48). Com isso, fica claro que a melhor questão não é dada pela lista, mas, sim, é encontrada a partir do que vem a ser dito pelo informante. Não se trata de fazer uma questão por fazer uma questão, mas encontrar a melhor, a cada instante do desenrolar da entrevista. Conseqüentemente, o que aparece a partir desse método está em profundidade em relação ao tema pesquisado.
Assim como orienta a proposta da entrevista compreensiva, as conversas duraram, em média, uma hora. Isso a fim de se evitar o risco de desestruturação e a sua conseqüente troca de informações amorfa e sem energia.
As noções da sociologia compreensiva e da entrevista compreensiva estão em torno da compreensão de construção social da realidade, que recusa a ruptura entre objetivo e subjetivo, indivíduo e sociedade, material e imaterial. Desse modo, o indivíduo entrevistado pode ser considerado como um concentrado do mundo social, conforme proposta de Elias (1997): “ele tem em si, estruturado de maneira particular, toda a sociedade da sua época. A mesma pluralidade encontrada no corpo social nos faz seres complexos e
contraditórios, seres múltiplos, pois todas as contradições da sociedade estão em nós mesmos, ao menos potencialmente.
A percepção do social transita pelas consciências individuais, onde o social é triado, amassado, processado, para determinar os comportamentos entre os milhares possíveis, isto é, para escolher aquele que vai ser concretizado e vai se inscrever, por sua vez, no social. “O subjetivo não se opõe ao objetivo, ao real, ele é um momento na construção da realidade, o isolado, onde o indivíduo teria um espaço de invenção, momento marcado pela necessidade da seleção e da obsessão de unidade” (KAUFMANN, 2006, p. 60). Com isso, entendemos que os atores sociais não são vítimas dos valores que praticam, mas eles “os vivem no jogo”, “eles os jogam” (MAFFESOLI, 1984, p. 14).
O imaginário possui um papel de muita importância na estruturação da vida cotidiana e é o fundamento de múltiplas situações e atos sociais. As potencialidades de cada indivíduo são colocadas em um conjunto e através de movimentos, alógicos e plurais, organizam o social. Os papéis, em seu equilíbrio, constituem um dado antropológico que nos ajuda a compreender o espaço social através do seu funcionamento e do seu referencial imaginário. Essa dimensão espacial não pode ser negada, pois o “espaço molda coercitivamente os hábitos e costumes do dia-a-dia que, por sua vez, permitem a estruturação comunitária” (MAFFESOLI, 1984, p. 53), ou seja, funda o “estar- junto” de toda a comunidade. Para usarmos as palavras de Durand (2002, p. 398), o espaço é a forma a priori do fantástico.
Desse modo, o cinema, assim como o imaginário, “organiza um espaço vital tornando o cotidiano aceitável” (MAFFESOLI, 1984, p. 67). Paralelamente ao discurso político, científico, racional, ele traduz as emoções coletivas do tempo que passa.
Assim sendo, no próximo capítulo focaremos nossa atenção para o espaço – o espaço audiovisual brasileiro – e o tempo – período de consolidação – da nossa pesquisa. Esperamos descrever os elementos e o funcionamento desse espaço, bem como as práticas do produtor
cinematográfico brasileiro, sempre tendo em vista as estruturas materiais e imateriais desse corpo social.
2 O ESPAÇO AUDIOVISUAL BRASILEIRO NO PERÍODO