Os novos acontecimentos educacionais, em decorrência da reforma de ensino primário e normal do Estado, tinham, na Escola Normal de Natal, o seu centro de convergência, por ser este educandário a referência na preparação do magistério. Paralelamente aos cursos destinados aos professores dos diferentes estabelecimentos escolares, iniciados em 1958, ocorriam os círculos de estudo no interior da Escola Normal de Natal. Eram cursos específicos para seus professores e professoras, por ser um campo fecundo para semear, germinar e amadurecer a renovação técnico-pedagógica buscada.
Assim, nos dias 21, 22 e 23 do mês de maio de 1958, foi ali realizado o primeiro círculo de estudo, organizado pela diretora Elza Fernandes Sena, com a equipe técnica do INEP í as professoras Lia Campos e Eny Caldeira í que, junto às professoras e aos
41A Missão Pedagógica de Pau dos Ferros contou com a presença de mais de 180 professores, convocados dos municípios de São Miguel, Marcelino Vieira, Luiz Gomes, Portalegre, Martins, Itaú, Almino Afonso, Patú, José da Penha, Alexandria e Umarizal. Foi coordenado pela professora Idezuite Rêgo, diretora do Grupo Escolar Joaquim Correia, daquela cidade, que também ministrou a disciplina Metodologia da Linguagem (ALCANÇARAM..., 1959).
professores da Escola Normal, deram início às ações da reforma do ensino normal a ser implementada (ESCOLA NORMAL DE NATAL, 1958b, p. 1). Nesse evento, as professoras da Escola Normal de Natal, particularmente Elza Sena, numa demonstração de que também estavam afinadas com as novas teorias, fizeram uma explanação sobre a reforma do Ensino do Rio Grande do Sul, sobretudo o ensino normal, suas características, currículos e as possibilidades de adaptação desse ao ensino norte-rio-grandense (ESCOLA NORMAL DE NATAL, 1958b, p. 1).
As professoras visitantes, portadoras das novas teorias, promoviam a institucionalização de inusitados saberes, que instigavam a uma reflexão sobre o homem numa perspectiva integral, balizados nos conhecimentos da Biologia, da Psicologia, da Sociologia, e, notadamente, dos princípios da racionalidade técnica. Tentavam demarcar, no currículo do ensino normal, os vínculos, ou o entrelaçamento entre os conhecimentos científicos veiculados na escola e a vida em sociedade.
No primeiro dia, a professora Eny Caldeira fez uma explanação sobre a situação geral do Ensino Normal no País, com a propriedade e a segurança de quem realizou junto ao INEP, via Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, um inquérito sobre a situação e as necessidades da rede de ensino normal brasileira. Em seu comentário final, teceu considerações a propósito do insuficiente número de professores primários no Brasil, sobretudo em alguns Estados nordestinos, entre estes o Rio Grande do Norte (CALDEIRA, 1956).
A pesquisadora mapeou quantitativamente a situação do ensino normal brasileiro, porém ressaltou “que é da qualidade de nossas Escolas Normais que irá depender o progresso das escolas primárias do país” (CALDEIRA, 1956, p. 39).
A Escola Normal de Natal tornou-se o foco de convergência para a implantação da reforma do ensino normal e primário, por se constituir, tradicionalmente, em uma síntese, no Estado potiguar, das renovações pedagógicas no campo do ensino e da formação de professores.
No ano 1958, a Escola completou cinqüenta anos42 de existência, sendo uma
referência na formação cultural, não só da sociedade natalense mas também do Estado, por sua atuação, estando sempre a serviço da coletividade e da causa do ensino. Uma opinião também assumida pela sociedade da época: “o aniversário chega a ser uma data do Estado, e
42O aniversário da Escola Normal de Natal era tradicionalmente comemorado no dia 13 de maio, sendo, naquele ano de 1958, adiada a comemoração para os dias 30 e 31 de maio (SERÁ..., 1958, p. 1).
não somente da cidade, pelo [profícuo trabalho] que desempenha na história cultural do Rio Grande do Norte” (SERÁ..., 1958, p. 1).
Os eventos comemorativos do cinqüentenário da Escola Normal coincidiram com a reforma de ensino. Ocasião de comemoração, mas também de repensar o fazer pedagógico da escola, tal como era propagado; momento, inclusive, de unir esforços pela implantação do Instituto de Educação em Natal nos moldes da nova Lei, que, em seu artigo dezenove (alínea a), ao tratar da rede de Escolas de Formação de Professores do Estado, assim dispõe quanto à criação de um
Instituto de Educação de Natal, com caráter experimental em seus Cursos de Pesquisas, destinados à melhoria do ensino normal do Estado, mantendo, na medida de suas possibilidades, Cursos de Especialização e Aperfeiçoamento, para o que poderá procurar a cooperação de técnicos nacionais ou estrangeiros (RIO GRANDE DO NORTE, 1957a)43.
Esse ato legal abriu precedente, ou melhor, criou condições regulamentares para a resolução de dois velhos problemas dessa instituição, a saber: a formação pedagógica de seus professores e a sua transformação em Instituto de Educação.
A partir de 1959, foram intensificadas as ações para a reforma do ensino normal no Estado. Isso motivou o Secretário de Educação e Cultura, Grimaldi Ribeiro, a solicitar, junto a Anísio Teixeira, a vinda ao Rio Grande do Norte da francesa Mme Hélène Brulé44, por
intermediação do CEPE, fazendo parte das atividades do plano de aplicação da Reforma de Ensino Normal do Estado. O ponto principal do programa dessa professora foi a realização dos círculos de estudos com as Congregações das Escolas Normais de Natal, Mossoró e Caicó, por meio da Missão educacional Jardim do Seridó. Isso correspondeu às atividades de estruturação dos Institutos de Educação nas referidas cidades (ESPECIALISTA..., 1959).
A aula inaugural, intitulada A nova concepção de ensino normal, foi direcionada à Congregação da Escola Normal de Natal. Versou sobre a organização do Ensino Normal na
43A Lei pesquisada é um documento mimeografado e compilado sem paginação.
44Inspetora do Departamento das Escolas Primárias de Paris e Técnica da UNESCO para a Educação. Encontrava-se no Rio de Janeiro, à época, atuando como colaboradora do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais – CBPE (ESPECIALISTA..., 1959).
França e suas vinculações com a administração pública, fazendo a correlação com a preparação do magistério primário no Brasil e na França (INICIADO..., 1959, grifo nosso)45.
Despontava como preocupação precípua da reforma Tarcísio Maia a estruturação dos Institutos de Educação que, a época, ainda não havia em Natal. Essa era uma medida considerada urgente e impreterível para a realização dos cursos de especialização/capacitação dos docentes da Escola Normal Natal, que, como já mostramos, em sua maioria, eram bacharéis, médicos, farmacêuticos, padres, engenheiros, e alguns licenciados e egressos da Escola Normal de Natal ou Mossoró.
Com efeito, os professores da Escola Normal de Natal foram convocados a participarem dos cursos de aperfeiçoamento, tanto na cidade de Natal como em outros Estados. Dona Chicuta Nolasco, professora de Língua Portuguesa, tendo retornado à direção, em 1959, admitiu que foi um momento de rever antigas práticas, e recepcionar o novo, quase de forma compulsória.
Durante dois anos seguidos (1958í1960), membros da equipe técnica do INEP, como outros técnicos estrangeiros, ministraram curso de aperfeiçoamento para professores do Ensino Normal. “Equipes do Rio Grande do Sul, 2 anos consecutivos, ministraram curso de aperfeiçoamento para professores de Ensino Normal. Com estas convivi, aprendi muito e estabelecemos um processo de comunicação e amizade” (FERNANDES, 1973, p. 134).
Muitos conhecimentos foram trocados entre aquelas mulheres vindas do Sul, Sudeste, de alguns lugares do Nordeste, da cidade de Natal, do Sertão norte-rio-grandense e até mesmo da França; pessoas de universos variados envolvidas numa experiência, cujo produto deveria resultar na melhoria do ensino no Estado Potiguar.
Dona Chicuta Nolasco e outras professoras e professores da Escola Normal de Natal, assim como professoras e diretoras de grupos escolares dos variados lugares do interior do Estado participaram do curso para diretoras e orientadoras escolares, iniciado em junho de 1958, no qual foram abordados temas compostos pelas disciplinas que seriam acrescentadas no currículo do Ensino Normal: Metodologia da Matemática, Estudos Naturais, Linguagem, Psicologia da Criança, Administração e Supervisão, Arte de Contar História e Recreação (DIPLOMADAS..., 1958, p. 1).
Ali foi apresentada a proposta de um novo fazer pedagógico, de uma nova organização escolar. Para muitas, uma realidade bem distante da que vivenciavam na sala de aula; para outras, a perspectiva de que o ensino norte-rio-grandense seguiria o caminho do
desenvolvimento sem retorno. Em comum, apenas o ineditismo em relação aos novos conhecimentos, até mesmo para aqueles mestres considerados mais capacitados. Na verdade, eles poderiam mesmo ser considerados habilitados, contudo, em tempos de mudanças, o conhecimento está sempre na fronteira da transformação; e nem todos os mestres estavam aptos às mudanças, como testemunhou Dona Chicuta, diretora da Escola Normal:
[...] havia muita resistência dos meus professores que se julgavam habilitados, e, na verdade, com tantos anos de experiência, alguma coisa havia de ficar. Mas a ordem era renovar as técnicas, ampliar conhecimento, arejar mentalidade, enfim, fazer do novo, novíssimo e do velho... não sei bem o que poderiam fazer com os velhos (FERNANDES, 1973, p. 134).
Foram estabelecidas outras metas durante aquele primeiro círculo de estudos, tais como: a adoção de vestibular para ingresso na Escola Normal de Natal; a elaboração do anteprojeto de regulamentação da lei, a criação de um Clube Literário; e, despontando como meta principal, a organização do gabinete de Orientação Educacional; bem como o aparelhamento para a operacionalização dos primeiros estudos e pesquisas educacionais, pautadas pelo planejamento educacional.
Planejamento era a palavra de ordem do dia. A rotina da escola passaria a ser racionalmente planejada, abrangendo os setores “administrativo, social, pedagógico e educacional, incluindo organização de arquivo, instituições, festas cívicas e excursões, bibliotecas, hora pedagógica, gabinete de orientação educacional e medidas disciplinares” (ESCOLA NORMAL DE NATAL, 1958b, p. 2). Esses novos elementos ali apresentados passaram a integrar a prática pedagógica da Escola Normal de Natal abrindo novos caminhos rumo à renovação metodológica.
Mediante a busca de efetivação dos novos preceitos para o ensino, foi estabelecida, como meta principal para a Escola Normal, a Orientação Educacional pautada nas novas teorias que passaram a direcionar a prática da pesquisa educacional, a reconstrução de seu cotidiano e a renovação do currículo.