3. MESLEK PROFİLİ
3.2. Kullanılan Araç, Gereç ve Ekipman
ORGANIZAÇÃO DAS GÊNESES
A reunião de pessoas de diferentes lugares do território nacional num mesmo local por um tempo considerável, passando por experiências iguais seria um dos fatores contribuintes para a construção da unidade nacional? De acordo com Carvalho (2003) sim, ele defende que o fato das elites intelectuais de todos os rincões do Brasil, em sua grande maioria, ter estudado em uma única universidade, a de Coimbra, teria concorrido para a preservação da unidade da América portuguesa, ao contrário do que ocorreu com a América hispânica em que suas elites estudavam em Santo Domingos, Cidade do México, ou Lima. Aproveitando elementos dessa teoria para apoiar o nosso raciocínio, nos parece viável imaginar que o ITA cumpre um papel semelhante ao de Coimbra na construção da consciência cidadã de seus alunos e se torna um elemento ativo na construção social das subjetividades.
De uma forma semelhante ao que ocorre com as Escolas Militares, em que os alunos são arregimentados em todo o território nacional, o ingresso no ITA é feito através de vestibular nacional que seleciona, em média, 130 candidatos a cada ano. Assim como Coimbra representou o ponto de encontro das elites brasileiras no século XIX (CARVALHO, op. cit.), nas devidas proporções, e claro sem a convivência no estrangeiro, esses brasileiros entram em contato com os costumes e problemas de cada região do país ao se encontrarem em São José dos Campos com o mesmo propósito.
Os aprovados no vestibular, depois de realizarem exames médicos52, são convocados para uma reunião inicial com o reitor, diretor do CTA e com os coordenadores das diversas atividades que os ocupará durante os próximos 5 anos. Esta reunião é cercada de certa formalidade e os pais dos alunos são
52
Os candidatos aprovados fazem exames médicos porque irão prestar o serviço militar no CPOR Aer. Mesmo os que forem considerados incapazes para aquele serviço são obrigados a prestar exames médicos para controle do estado de saúde.
convidados. Mas, de fato, a socialização dos novos alunos começa quando são recepcionados pelos veteranos e são distribuídos pelos apartamentos onde irão residir por muito tempo. Na distribuição os alunos são misturados conforme a sua origem. A comissão de alojamento do Centro Acadêmico, que faz a distribuição, procura evitar ao máximo a concentração de alunos do mesmo Estado ou região em um mesmo apartamento. Posteriormente os calouros são “entregues” à comissão de recepção, dando início às brincadeiras de integração.
O trote ou ritos de integração – como os alunos mesmos proclamam, e que eu arrisco a chamar de ritos de iniciação ou de socialização – começam por criar instintivamente um espírito de união entre os calouros como que para se protegerem dos veteranos. Os calouros estão em constante posição defensiva, pois são frequentemente perturbados pelos veteranos, mas não podem perturbar ninguém. Partindo da pressuposição de que os calouros não “sabem” nada da escola e da vida em comum que estão iniciando, os veteranos tratam todos com o mesmo “rigor”. Na verdade, dar trote não é permitido, é transgressão disciplinar, por isso a palavra é pouco pronunciada e as “brincadeiras” com os calouros são coletivas e organizadas pela comissão de recepção do CASD.
É na tomada de consciência desses desencontros e confrontos que ganha forma a unidade corporativa entre os alunos. Começam a distinguir o “nosso grupo” (dos calouros) do “deles” (veteranos), a compartilharem planos e estratégias para se esquivarem do trote, a perceber o caráter de cada veterano e assim aproximá-los como possíveis amigos ou futuros “desafetos”. Sim, porque no ato de perpetrar um trote o veterano expõe o seu caráter e o dos propósitos hierarquizantes de uma estrutura de micro poder de todo o corpo de alunos, numa espécie de teatro do status. Se os alunos mais novos têm de sofrer sob o domínio dos mais velhos, eles sabem, no entanto, que daí a uns 2 anos eles próprios serão os “veteranos”. Na lógica dos veteranos está subjacente também a intenção de instalar nos calouros a noção de estrita obediência, para que eles próprios possam um dia liderar, ou dar uma voz de comando a um novo calouro, e de que a tradição do trote seja mantida.
A ritualização do trote somada às atividades militares no CPOR Aer., como veremos mais adiante, submetem os calouros a um mecanismo altamente formalizado de coação social, os quais lhes impõem algumas privações e, no entanto, ao mesmo tempo, lhes promete um proporcional abono de regalias. O trote não se constitui num mero conjunto de atividades lúdicas e ocasionais, mas sim num sistema terminológico distinto, delimitado e internamente muito expressivo. Assim os calouros são persuadidos a acreditar que os sacrifícios que estão passando e as frustrações que esperam enfrentar têm algum significado. Entretanto, boa parte dos calouros não conhece ou não entende qual seja esse significado, mas estão convencidos que tudo isso faz sentido, como será visto mais adiante, mesmo sem ter muito claro ainda qual é esse sentido. Talvez isso ocorra porque pode ser frustrante ter de admitir que as privações que estão suportando não têm realmente qualquer propósito, exceto a manutenção ou aumento do poder do grupo a que pertencem, e serve como símbolo de status superior da própria pessoa em relação às outras. Pois se um indivíduo despendeu um grande esforço pessoal para obter qualificações como as exigidas pelos exames do vestibular a que se submeteram e pelas árduas provas militares de campo do CPOR Aer., então parece razoável supor que os sacrifícios e as frustrações pelas quais eles passam são significativos e necessários, porque a opinião comum de todos do corpo de alunos assim os julgam.
“Integração” é o termo mais usado, tanto por calouros como pelos veteranos – para justificar o trote. É um sentimento que parece estar conectado mais à tradição do que a uma lógica coerente, pois até os mais antigos, já formados e em atividade no mercado de trabalho, acreditam nesse efeito e ainda reforçam dizendo que estas práticas fornecem histórias hilárias que são sempre reconstituídas nos encontros de turma, funcionando como um elo comum entre todos que viveram aqueles momentos.
De fato as manifestações de pertença estão por todas as partes. No
Jornal do Bixo existe uma seção chamada de “Obituário” onde estão
relacionados todos os ex-futuros calouros que apesar de terem sido aprovados no vestibular desistiram de ser matriculados; e lá está escrito “Esta seção é para os que nem vieram se apresentar ao ITA ou resolveram desistir. Vocês
não sabem o que perderam e ainda vão perder!” Esta foi a declaração que ouvi de um estudante que me disse: “[...] o ITA não me dá somente o estudo [...] o ITA me integra na sociedade.”
Esse sentimento de união é mais intenso no primeiro ano em que todos juntos passam pelas mesmas experiências. A própria rotina do CPOR Aer., o trote e as atividades acadêmicas os mantém unidos num corpo só. Eles ainda não são identificados pela especialidade de engenharia que irão cursar, pois o primeiro é o ano fundamental em que todos têm a obrigatoriedade de assistir aulas das mesmas disciplinas. Por isso, são frequentemente “usados” em massa pelos veteranos para atividades extracurriculares como o trote beneficente, na qual são convocados a recolher alimentos e agasalhos pelas vilas residenciais dos oficiais, professores e demais militares dentro do campus do CTA, para serem distribuídos a entidades da assistência social de São José dos Campos.
O trote, que é definido por eles mesmos como “atividade para integrar os bixos”53, os submetem a diversas situações em que todos são tratados da mesma forma, independentemente das suas origens. Os indivíduos perdem a sua identidade e ganham outra, são todos bichos, são todos iguais.
A relação intensa desse primeiro ano de vida comum cria outros tipos de relações que são concorrentes à integração nacional. Por exemplo, durante as “semaninhas”54 é comum e freqüente estudantes que são de regiões distantes do sudeste do Brasil aproveitarem o recesso na casa de algum colega e muitas vezes nas férias escolares alunos da região sudeste vão para outras regiões, tendo algum colega por anfitrião.
Esse intercâmbio espontâneo, nascido de relações de amizade fecundadas no convívio no ITA, contribui para a ampliação do conhecimento e da própria desmistificação dos costumes regionais. Em muitos casos esta é a primeira vez que o estudante deixa o seu Estado ou região de nascimento.
53
Jornal do Bixo, 2007 (Anexo B).
54
“Semaninha” é o período de mais ou menos uma semana de recesso que se segue a cada período de aproximadamente 4 meses de atividade escolar.