Vamos agora tentar resumir o que foi explanado anteriormente e dizer mais diretamente nossa proposta. Para falar em termos metafóricos, nossa proposta metodológica é uma máquina que vamos por a funcionar nos dois capítulos seguintes, analisando conceitos e apresentando resultados. O que será colocado nas linhas logo a seguir será apenas uma exposição dessa máquina sob um holofote. Toda a explanação anterior, com tantas citações de Wittgenstein e tentando explicar alguns pormenores de sua perspectiva, foi um modo de mostrar ao leitor como é que essa máquina funciona, de onde vieram suas peças, como elas se encaixam, como o motor gira e que tipo de movimento essa máquina tenderá a fazer.
Vimos que, ao buscar compreender um termo, ao buscar o sentido de uma palavra, Wittgenstein se serve de um outro método que não envolve perguntar diretamente “O que é isto?”. Esse seu método consiste em observar e descrever diferentes exemplos em que um termo é utilizado, e então comparar esses diferentes exemplos. Trata-se de um método não sistemático, mas bastante esclarecedor, porque explicita os diferentes usos que se dá para o termo estudado.
Uma noção-chave da concepção de linguagem de Wittgenstein é a de jogo de linguagem. Deveríamos pensar as palavras na linguagem como peças num jogo. Não devem ser compreendidas pelo exame de alguma ideia associada na mente, ou seguindo algum procedimento de verificação, nem tampouco pelo exame de algum objeto no lugar em que elas estão. Em vez disso, deveríamos pensar nas palavras em termos de seu uso, e a referência a objetos no mundo é apenas um dos muitos de seus usos. O significado de uma palavra é dado por seu uso, e a família de usos que um grupo de palavras possui constitui um jogo de linguagem. Exemplos são o jogo de linguagem que jogamos ao descrever nossas próprias sensações, ou o jogo de linguagem do qual participamos ao identificar as causas dos eventos. Essa concepção da linguagem leva Wittgenstein à rejeição da concepção segundo a qual a tarefa da análise filosófica é reducionista ou fundacionista. Dito de outro modo, Wittgenstein rejeita tanto a ideia de que os jogos de linguagem têm ou precisam de um fundamento em alguma outra coisa como a de que certos jogos de linguagem podem ser reduzidos a certos outros tipos de jogos de linguagem. O efeito da análise filosófica, diz Wittgenstein, não é alterar nossas práticas linguísticas existentes ou questionar sua validade, mas simplesmente descrevê-las. A linguagem não tem, nem precisa de, fundamentação no sentido tradicional. (SEARLE, 2007, p. 9)
O método wittgensteiniano, admitindo que podemos falar de um, ao mesmo tempo é uma demonstração e uma decorrência da concepção de que a linguagem funciona como um jogo. Daí que não participamos de apenas um jogo, mas de vários jogos de linguagem; e nesses jogos, o sentido das palavras se estabelece, se mantém ou varia a depender dos usos que nós damos a essas palavras. Wittgenstein observa que os jogos possuem peças, regras, jogadores e jogadas; analogamente, observa que a linguagem também possui esses quatro elementos. Nesta analogia, as peças seriam os gestos, as palavras, os símbolos, os conceitos etc.; as regras seriam as possibilidades de jogadas válidas e inválidas, e os próprios critérios para julgar um acerto ou um erro; os jogadores seriam os falantes; as jogadas seriam o que os falantes fazem, ou seja, a utilização dos gestos, palavras, símbolos e conceitos no contexto de determinadas práticas sociais.
Ao falar de como os sentidos se estabelecem pelas funções que as palavras podem ter, Wittgenstein também compara as palavras e expressões a ferramentas de trabalho.
Pense nas ferramentas dentro de uma caixa de ferramentas: encontram-se aí um martelo, um alicate, uma serra, uma chave de fenda, um metro, uma lata de cola, cola, pregos e parafusos. – Assim como são diferentes as funções desses objetos, são diferentes as funções das palavras. (E há semelhanças aqui e ali.) (IF, §11, p. 20)
Algumas servem para amassar, outras para cortar, para bater, pregar, aplainar, limpar etc. Por vezes uma ferramenta específica é melhor para um efeito específico. Ou então, ferramentas diferentes podem ser utilizadas para o mesmo objetivo. E por vezes uma mesma ferramenta pode ter usos diferentes.
Então, ao buscarmos entender um conceito como “identidade” vamos evitar a pergunta “O que é identidade?” e iremos analisar os jogos que se jogam com esse termo: observar os contextos em que esse termo aparece, abstrair as regras que regem seu uso, buscar situações em que houve variações nessas regras, identificar quem são os autores/jogadores, analisar o que os autores fazem ao utilizar esse termo.
Analisar o significado das palavras consiste em situá-las nos jogos em que são empregadas e em perguntarmos o que os participantes nos jogos fazem com elas. Ou seja, consiste em mapearmos as regras segundo as quais jogam e realizam lances válidos nesses jogos. Assim, como no jogo de xadrez, o que importa não são as figuras das peças, mas a maneira como funcionam no jogo, também na linguagem o que importa são as funções que as palavras podem exercer nos jogos de linguagem. As regras estabelecem como e para que podemos usá-las e em que circunstâncias isso pode ser feito. (MARCONDES, 2005, p. 15)
No caso de uma análise conceitual como a que aqui se propõe, observar o contexto em que o termo é empregado consistirá em coletar nos textos teóricos as citações em
que o termo aparece. Numa citação, de fato, ocorre um uso efetivo do termo. E diante das várias citações, poderemos reconhecer as diferentes possibilidades de uso, ou seja, suas regras, que os autores admitem como válidas ao empregarem o conceito em questão.
Identificar um autor consistirá em minimamente identificar seu ponto de vista, premissas, bases teóricas, quem ele próprio cita. Analisar o que o autor faz ao utilizar o termo consistirá em analisar as implicações desse uso.
Analisar a implicações do termo para nós significa trabalhar questões como: quando o autor fala em “identidade”, isso implica em não falar o quê? Se o autor diz que identidade é um efeito de X, então X é a causa da identidade? O autor coloca a identidade como uma parte específica de um conjunto de processos psicológicos, ou coloca a identidade como um todo que engloba um conjunto de processos psicológicos?
Com esse método julgamos poder compreender a gramática do conceito “identidade” e então esclarecer as diferenças de uso do próprio conceito entre diferentes autores. Talvez se possa também lançar luz sobre diferenças entre “identidade” e “Self”, “identidade” e “subjetividade”, ou ainda “identidade” e “personalidade”.
Como a Psicologia não é uma ciência una, possuindo muitos autores com perspectivas teóricas diversas, cada uma com um jogo de linguagem diferente, será necessário escolher apenas algumas para uma apreciação conceitual. Considerando que não há um autor necessariamente mais verdadeiro que outro, que a definição dada por um não é necessariamente mais correta que a de outro, que a descrição de “identidade” dada por um autor não será mais real que a de outro, o nosso critério para a escolha dos autores será um critério de conveniência: autores que nos parecem ter bastante influência sobre outros autores no contexto da Psicologia Social brasileira. Não há, até onde sabemos, uma pesquisa estatística que ateste quem é exatamente o mais influente. Mesmo que houvesse, com certeza o resultado seria um dado bem provisório. Contudo, parece-nos razoável escolher alguns que são muito lidos nas graduações em Psicologia, já que estas são as instituições formadoras de psicólogos. A amostra será limitada e teremos de nos contentar com isso. A análise também será limitada, mas esperamos que ela seja ilustrativa de muitos casos. Esperamos que quem ler o presente texto, enquanto comunidade científica, julgará o serviço.
2 A GRAMÁTICA DO TERMO “IDENTIDADE” EM TEXTOS DE PSICOLOGIA