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Kredi Değerlendirmeye İlişkin Kriterlerin Tanımlanması

Desde meados do século XIX, estudiosos buscam compreender os processos e os mecanismos que permitiram aos grupos falantes de línguas da família Tupi-Guarani ocupar vastas áreas das terras baixas da América do Sul. As pesquisas foram iniciadas por von Martius, mas é von den Steinen quem observa semelhanças linguísticas e culturais que permitem unificar os diversos grupos Tupinambá e Guarani (NOELLI, 1996a, 1998, 2008a).

A bibliografia arqueológica é quase unânime em datar o início das expansões Tupinambá e Guarani entre 500 a.C. e o início da era cristã (BROCHADO, 1984, CORRÊA, 2009, SCATAMMACHIA, 1981, 1990). Como ocupavam extensas áreas da costa brasileira, os Tupinambá foram os primeiros grupos a fazer contato com os europeus, gerando uma extensa lista de relatos históricos (e.g. ABBEVILLE, 1975[1614]; CARDIN, 2009 [1583- 1601]; ÉVREUX, 2002 [1615]; LERY, 1967 [1578]; SOARES DE SOUZA, 2001 [1587]; STADEN, 1974 [1557]; THEVET, 1978). Essas crônicas, apesar de distintas, fornecem descrições semelhantes.

Uma das sínteses clássicas dos dados históricos desses grupos cultural e linguisticamente relacionados foi a produzida por Alfred Métraux para o Handbook of South

American Indians vol. III (1948a). A designação Tupinambá, utilizada por Métraux, cobria

Cananéia, nas proximidades do trópico de Capricórnio, assim como alguns grupos que habitavam áreas próximas ao litoral.

Um dos primeiros comentários de Métraux foi que, por mais próxima que fosse a relação entre esses grupos, havia paradoxalmente uma ligação de ódio entre um grupo e outro. Animosidade que era colocada em prática durante os intermináveis conflitos entre os grupos que, por sua vez, terminavam em um clímax ritualístico: os derrotados sendo servidos como prato principal. A descrição de Métraux continua, indicando que a subsistência desses grupos era baseada na agricultura, e que a mandioca seria a principal planta cultivada. Além da agricultura, eles viveriam da coleta, caça e pesca.

As aldeias eram localizadas em topos de morro, por quatro a oito casas dispostas em torno de uma praça central, cada uma comportando até duzentas pessoas. Algumas aldeias possuíam valas e paliçadas para defesa. As casas comunais eram ocupadas por pessoas relacionadas por sangue ou casamento. Cada casa comunal possuiria um chefe. Acima de todos, estaria o chefe da aldeia (MÉTRAUX 1948a).

Ainda de acordo com Métraux, dentro de cada casa seriam encontradas redes para dormir, bancos de madeira, cestaria e cerâmica. Outros objetos seriam os ornamentos de pena, o estojo peniano, contas, colares, arcos e flechas e os barcos. Em muitos casos, a relação dos Tupinambá com as canoas que produziam foi central para a interpretação das dinâmicas desses grupos. Na visão de Métraux, as canoas serviriam para pescar, para atacar inimigos e, por que não, para se expandir rapidamente.

Essa visão era coerente com o panorama tecido por Nodenskiöld, que via nas três grandes bacias hidrográficas na América do Sul (Amazonas, Orinoco e Paraná) uma rede de conexões que teria permitido grandes movimentos populacionais pelo continente. Panorama que seria adaptado por Lowie e Steward para o Handbook, sintetizando o conceito de

Floresta Tropical (NEVES, 2008: 360). Tal visão também estava presente no modelo

cardíaco. Esse modelo, elaborado por Lathrap (1970) e desenvolvido por Brochado (1984, 1989), oferecia uma proposta para a compreensão dos grupos indígenas nas terras baixas da América do Sul, com destaque para os Tupinambá e para os Guarani.

Esses grupos, representados arqueologicamente pela Subtradição Tupinambá e pela Subtradição Guarani (respectivamente), seriam descendentes de antigas populações do tronco Tupi que teriam se expandido a partir da Amazônia central. Nessa região, assim como por quase toda calha do rio Amazonas e por alguns dos seus principais afluentes, esses antigos

grupos Tupi produziriam vestígios materiais ligados à Tradição Polícroma Amazônica. Nessa perspectiva, e do ponto de vista arqueológico, as Subtradições Tupinambá e Guarani seriam duas bifurcações que deixaram o agrupamento amazônico (i.e. a TPA) para ocupar o litoral brasileiro, áreas de mata atlântica, o sul do Brasil e o entorno deste e algumas outras regiões (NOELLI, 1996a, 1998, 2008a). Essas bifurcações possuiriam uma cultura material deveras semelhante, o que permite falar em uma Tradição Tupi-Guarani13. Além disso, nessa visão, todo esse processo teria ocorrido seguindo vias fluviais ou costeiras14 (Fig. 4).





Figura 4: Confronto de grupos Tupinambá descritos por Staden (1974 [1557]).



13 Termo curiosamente negligenciado por Lathrap e, até certo ponto, combatido por Brochado, que não concordavam com o agrupamento.

14 Tamanha era a obsessão de Lathrap pelas expansões “canoeiras” (“The distribution of Arawakan-speakers

argues that the canoes were the major means of dispersal.” [1970: 73]) que ele chega a desdenhar da sugestão

feita por seu principal linguista de referência, Noble (1965), por este indicar que a família Arawak era originária do oeste amazônico: “the area pin-pointed by Noble is one of the least likely regions for the development of

Não foi atribuída relevância alguma à terra firme. Brochado e Lathrap não acreditavam que a terra firme pudesse sustentar processos históricos indígenas relevantes, como o que parece ter ocorrido com os grupos Tupinambá da Amazônia15. No seu famoso, apesar de não publicado, artigo os autores aceitam que:

(…) populations in the terra firme are failed populations. They can add as an harrassment to the populations in the várzea (the floodplains). They can act as a mechanism through which the várzea populations exploit the resources of the terra

firme. (…) However, the populations of the terra firme, with a few exceptions,

remained static in both demographic and evolutionary sense (BROCHADO e

LATHRAP, 1982).



No entanto, Brochado quase não possuía dados sobre os Tupinambá da Amazônia que habitavam extensas áreas de terra firme na região sudeste dessa floresta. O estudo dos vestígios arqueológicos desses grupos (ALMEIDA, 2008; ALMEIDA e GARCIA, 2008; ALMEIDA e NEVES, não publicado; GARCIA, 2012a) levou à criação de uma nova classe denominada de Subtradição Tupinambá da Amazônia que, somada às Subtradições Guarani e Tupinambá do litoral (os que habitavam a costa brasileira e áreas adjacentes) e, possivelmente, com outros grupos falantes de línguas Tupi-Guarani (e.g. do Brasil central, ou da Zona da Mata), formariam a grande Tradição Tupi-Guarani.

A cerâmica da Tradição Tupi-Guarani: os atributos politéticos da Tradição Tupi-Guarani são o

uso de antiplástico de caco moído e/ou mineral, a presença de vasos compostos (um ângulo na parede) ou complexos (dois ou mais ângulos nas paredes), com base convexa ou ovalada, vasilhas com decorações plásticas corrugadas, unguladas, digitadas, raspadas, escovadas, quase sempre encontradas no exterior do vaso, assim como decorações pintadas em vermelho, preto e branco, que aparecem como banhos, faixas e/ou motivos geométricos, dentro ou fora dos vasos. Urnas funerárias também são comuns e em geral consistem na reutilização de uma grande panela (yapepó, em Guarani) coberta por uma tampa (cambuchí, em Guarani), vasos relacionados ao preparo e consumo de bebidas alcoólicas (BUARQUE, 2010; LA SALVIA e BROCHADO, 1989; NOELLI e BROCHADO, 1998).

O que não significa uma total falta de relação entre os grupos falantes de Tupi- Guarani com os produtores de cerâmica da Tradição Polícroma da Amazônia. A questão é saber que relação é essa. Para compreender melhor essa problemática, será apresentado o



15 Essa visão negativa das áreas de interflúvio foi, ao menos temporariamente, compartilhada por Roosevelt (1989: 32). Mais tarde, essa autora (1994) adotou uma visão mais heterogênea quanto às possibilidades da terra firme.

contexto do leste amazônico. No entanto, primeiro é necessário conhecer um pouco melhor a Tradição Polícroma.



2.3 A Tradição Polícroma da Amazônia 



Figura 5: Cerâmica da fase Aristé, Tradição Polícroma, encontrada no litoral do Amapá (fonte: GOELDI, 2009 [1900]).

Segundo a literatura, fragmentos cerâmicos pertencentes à Tradição Polícroma seriam encontrados por quase toda a bacia amazônica (e.g. BOLIAN, 1975; BROCHADO, 1984, 1989; BROCHADO e LATHRAP, 1980; EVANS e MEGGERS, 1968; HECKENBERGER

et al. 1998; HILBERT, 1968; HOWARD, 1947; LATHRAP, 1970; MEGGERS e EVANS,

1957, 1961; NEVES, 2008; NOELLI, 1996a, 1996b, 1998, 2008a, 2008b; ROOSEVELT, 1980, 1991; WEBER, 1975). Essa Tradição é caracterizada por vasos com pasta clara, temperados com caraipé16 (caco moído na fase Marajoara), com ângulos nas paredes (carenas, ombros e bordas cambadas), com presença de flanges labiais e mesiais (apenas em algumas regiões da Amazônia) e decorações acanaladas e/ou polícrômicas (incluindo banhos de engobo) que cobrem as flanges ou as bordas e paredes dos vasos. Os sítios dessa Tradição muitas vezes possuem enterramentos secundários em urnas: os do médio e alto Amazonas caracterizados por um rosto antropomorfo com uma tiara (NEVES, 2012: 225; Fig. 7). Essas urnas com tiara são encontradas desde o rio Napo (Equador) até o médio Amazonas, incluindo o baixo Madeira, e em geral carregam um rico complexo decorativo, combinando motivos geométricos (bidimensionais) e figuras iconográficas (tridimensionais). É, grosso modo, no duo policromia-enterramento secundário em urnas que residia a base da analogia feita por Brochado e Lathrap entre a cerâmica TPA e a dos Tupi-Guarani.