2. KRĐSTAL YAPILAR
2.4 Ters Örgü
Implantação422.
No documento Projecto de Reorganização é referido que, depois de tomadas estas medidas, deixaria de existir uma direcção e passariam a existir três organismos encarregados da direcção e da gestão interna e externa da LUAR. Esta estrutura funcionaria até que fosse possível a implantação de “um núcleo combatente e dirigente no país”. Nessa altura, os comités regionais deverão transformar-se em delegações exteriores da LUAR e o Comité de Implantação deve ser ratificado ou alterado pelo Congresso, transformando-se na Direcção Revolucionária da LUAR no interior de Portugal.”423
Instituía-se o princípio da votação para as decisões mais importantes, quer as propostas viessem da Direcção, dos Comités de Coordenação, de Organização ou dos Comités de Base. Esclarecia-se também a questão do financiamento, tendo-se acordado que os fundos provenientes dos assaltos a bancos se destinavam exclusivamente a financiar o aparelho revolucionário, que teria de executar outras acções revolucionárias, que não apenas assaltos424. A preocupação era não passar a imagem que a organização só efectuava assaltos para obter dinheiro.
422“Projecto de Reorganização”, s.d., in SANTOS, José Hipólito, 2011, Felizmente houve a LUAR. Para a história da
luta armada contra a ditadura, Lisboa, Âncora Editora, pág. 122, 123
423“Projecto de Reorganização”, s.d,., in SANTOS, José Hipólito, 2011, Felizmente houve a LUAR. Para a história da
luta armada contra a ditadura, Lisboa, Âncora Editora, pág. 122, 123
424 “Projecto de Reorganização”, s.d,., in SANTOS, José Hipólito, 2011, Felizmente houve a LUAR. Para a história da
2.3.1. Operação Primavera: “implantação” no interior
A nova estratégia da organização em relação às acções armadas pautava-se pelo cumprimento dos seguintes objectivos:
“1. Realizar um certo número de acções exemplares no interior do País, a levar a cabo por comandos que, tanto quanto possível, deveriam radicar-se.
2. Tirar do “prestígio ou propaganda” que estas acções nos dessem, (…) de receptividade popular, um trabalho de organização do aparelho logístico e de massas, a estabelecer no interior do país. […]”425
Esta estratégia a realizar, implicava existência de organização no interior, ou seja, a criação de células que formassem uma rede de apoio às acções e que contribuíssem para o planeamento de novas acções, pelo que começaram a ser preparadas as condições necessárias para implementar esta estratégia:
“Prepararam-se os homens considerados necessários. Adquiriu-se o material para as operações da “primeira fase” e para a constituição de uma reserva de segurança. Procurou- se e montou-se o sistema de transportes para homens e materiais – todos transportados dentro dos prazos estabelecidos. Seleccionaram-se as “operações exemplares” a executar. Procurou-se, preparou-se e foi fornecida a necessária documentação para as viagens e vida clandestina dos “comandos”. Preparou-se e aprovou-se um sistema de comunicações para a coordenação dos “comandos” e a retaguarda. Estudaram-se e programara-se as acções, prevendo-se a duração de 50 dias, a partir de fins de Março. Preparou-se e foi aprovado um orçamento de 65 mil escudos”426.
No início de Abril de 1969, entraram em Portugal os primeiros dois grupos com o objectivo de organizar a “implantação” no interior. Um dos grupos instalou-se no Norte e outro no Centro e Sul do país427, concentrando-se no estudo de três ou quatro objectivos para futuras acções. Todos estes elementos se tinham voluntariado para realizar estas acções no interior e nenhum deles estava referenciado pela PIDE, o que lhes permitia uma movimentação praticamente legal. Eram militantes da confiança da direcção e a sua formação fora cuidada, incluindo regras de clandestinidade, técnicas de observação, planificação e concretização dos objectivos militares. Ainda assim, esta base voluntariosa desvalorizava objectivamente aspectos como experiência, capacidade de iniciativa, formação política e equilíbrio psicológico428.
A partir da sua actividade era possível definir um conjunto de acções – interrupção de uma emissão de rádio da Rádio Miramar e leitura de uma declaração ao país apelando à luta contra o
425
Centro de Documentação 25 de Abril, Espólio de José Hipólito dos Santos, Sub-secção LUAR, “Primavera”,
Relatório sobre a Operação Primavera, Junho de 1969, fls. 1 a 10
426Centro de Documentação 25 de Abril, Espólio de José Hipólito dos Santos, Sub-secção LUAR, “Primavera”,
Relatório sobre a Operação Primavera, Junho de 1969, fls. 1 a 10
427O grupo que se devia implantar no Norte era constituído por Fernando Lopes Gonçalves, Jorge Rocha, Walter Leitão
e Jaime Campos; enquanto o do Centro e Sul era composto por Idálio Fialho, Joaquim Cleto, “Fred” e J. Costa.
regime; assalto a um banco em Gondomar; atentado contra Júlio Regadas429; sabotagem de postas de alta tensão no Sul; explosão do Consulado Americano do Porto430.
Jaime Campos, militante da LUAR, conseguiu fazer chegar explosivos ao grupo do Norte, que tinha transportado desde Paris, e foram utilizados na explosão do Consulado. No Sul, foram sabotados três postes de alta tensão na zona de Porto Alto, com o objectivo de cortar a energia eléctrica às fábricas da CUF, no Barreiro e à Siderurgia Nacional, no Seixal, afectando s sua produção mas também permitindo aos operário pararem o trabalho e festejar o 1º de Maio. A acção contra Júlio Regadas foi planeada com detalhe, observando o seu dia-a-dia, as suas rotinas, os seus hábitos mas quando chegou a hora ninguém se dispôs a concretizar o atentado. O assalto ao banco em Gondomar também foi anulado porque o grupo do Norte não conseguiu chegar a acordo sobre a forma de executar a acção, o que impossibilitou nova arrecadação de fundos numa organização que se debatia com falta de dinheiro. Havia ainda outra acção prevista, que consistia em destruir camiões militares destinados à guerra colonial. Porém, como o governo português tivesse decidido enviá-los directamente da fábrica, na Alemanha, para Angola, os alvos não foram localizados e a possibilidade de concretizar esta acção foi inviabilizada431.
O impacto das poucas acções que acabaram por ser levadas a cabo - atentado ao Consulado e sabotagem dos postes eléctricos – foi ainda assim considerável. Os jornais noticiaram a ocorrência destas duas acções e a PIDE publicou uma nota na imprensa imputando à LUAR a realização dos atentados e a organização das manifestações que se fizeram sentir no 1º de Maio de 1969432.
A fuga de Palma Inácio das instalações da PIDE no Porto viria ainda a ampliar a repercussão destas acções, dando a ideia que tudo isso estava coordenado. Porém, em consequência desta fuga foi necessário fazer recuar para França os comados que tinham entrado em Portugal, pois tornava-se muito complicada a sua permanência no país, uma vez que era expectável um aumento da vigilância por parte da PIDE.
Restringiam-se, deste modo, as possibilidades de implantação da LUAR no país, apesar dos apoios que a organização vai conseguindo criar nos meios oposicionistas, e, em particular, entre os chamados católicos progressistas. Porém, apesar dos apoios essenciais disponibilizados - alojamento de militantes clandestinos, depósito de material bélico e transporte de militantes - a questão fundamental do recrutamento continuava por resolver. Enviavam-se comandos para o
429Operacional da Polícia Judiciária que investigou o assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, tendo-
se distinguido pelos métodos de tortura utilizados.
430SANTOS, José Hipólito, 2011, Felizmente houve a LUAR. Para a história da luta armada contra a ditadura, Lisboa,
Âncora Editora, p. 172 a 175
431SANTOS, José Hipólito, 2011, Felizmente houve a LUAR. Para a história da luta armada contra a ditadura, Lisboa,
Âncora Editora, p. 172 a 175
interior na perspectiva de viverem longos períodos na clandestinidade, mas, passado pouco tempo, verificaram-se situações de falta de capacidade psicológica para suportar o isolamento, sobrevindo manifestações de insubordinação às ordens vindas do exterior. Isto colocou em causa a concepção de “implantação” da organização no interior, pois para viver nestas condições eram necessárias pessoas decididas, com sangue frio, com grande capacidade de resistência que permitisse ultrapassar momentos de desmoralização, desânimo e sacrifício, que conseguissem aguentar uma rigorosa disciplina diária, que tivessem capacidade para ultrapassar situações complicadas e de sobrevivência433. Tudo isto implicava um recrutamento sério, rigoroso, exigente e difícil.
2.4. Sabotagem nos estaleiros de Hamburgo: a primeira acção contra o aparelho militar colonial
A LUAR sempre se havia afirmado contra a guerra colonial e a favor da independência dos povos das colónias, e considerava que a realização de acções armadas contra a ditadura portuguesa, efectuadas no interior do país, contribuiria para eclosão de um novo foco de acção violenta que iria favorecer a luta dos povos das colónias. Para a LUAR, a luta anti-colonial e a luta anti-fascista eram indissociáveis. As duas complementavam-se. Porém, reconhecia, que só o fim do regime determinaria o fim da guerra e a independência das colónias434. Daí a organização apelar e incentivar a deserção dos jovens. Vários militantes tinham desertado antes de embarcar para as colónias ou já em pleno cenário de guerra em Angola, em Moçambique e na Guiné. Este entendimento da LUAR face à deserção aproximava-a das posições dos grupos maoistas, que defendiam a deserção, enquanto o Partido Comunista incentivava os seus militantes a não desertar e a desenvolver trabalho político dentro do exército.
Em Outubro de 1969, a LUAR efectuou a primeira acção contra a guerra colonial, numa demonstração concreta da sua posição contra a guerra. A oportunidade surgiu quando a LUAR enviou militantes seus à Alemanha para divulgar um comunicado de protesto contra o apoio militar do governo da RFA à ditadura portuguesa. Estes estabeleceram contactos com o “directório” que reunia trabalhadores operários dos estaleiros Blohm & Voss e estudantes progressistas, estrutura que denunciava com vigor esse apoio, pressionando para o fim do contrato estabelecido entre os dois governos para a construção de fragatas para a a marinha de guerra portuguesa435. Através destes contactos surgiu a possibilidade de sabotar as fragatas. Em finais de Abril de 1969, Camilo Mortágua e Mário Moutinho entregaram, em Hamburgo, a elementos do “directório”, uma
433Entrevista a Fernando Pereira Marques, Lisboa, 26 de Setembro de 2012
434IANTT/PIDE-DGS – Pr.8259 SC CI(2). UI: 7519-7521, Pt.3 “Comunicados”, 1º Comunicado da LUAR, “Ao Povo
Português”, Junho de 1967
435SANTOS, José Hipólito, 2011, Felizmente houve a LUAR. Para a história da luta armada contra a ditadura, Lisboa,
quantidade de plástico explosivo adequada à acção. Por sua vez, o “directório” terá enviado, a Paris, dois operários dos estaleiros navais, para receber formação técnica e planear a acção, conjuntamente com a Direcção e o Conselho Militar da LUAR. A 12 de Outubro desse ano, a acção provocava o afundamento de um batelão e importantes danos nas três fragatas, atrasando em vários meses a sua entrega à Armada portuguesa436.
Tratou-se do primeiro acto de sabotagem contra a máquina de guerra colonial, acções que teriam continuidade mais tarde com a ARA e as BR.
3. O terceiro fôlego: da fuga de Palma Inácio à agonia da LUAR