BÖLÜM 2: SA’DU’LLÂH HALVETÎ’YE ATFEDİLEN ANONİM
2.4. Cemiyet
2.6.2. Kozmik Âlem
Essa dissertação analisou as peças The Children's Hour e The Little Foxes, relacionando as questões da forma bem feita e do melodrama com as temáticas explícitas e implícitas em seus conteúdos, assim como procurou reunir e dialogar com a fortuna crítica mais relevante produzida ao longo dos anos para que se pudesse entender as características da recepção tanto à época das estréias das peças quanto na ocasião de suas remontagens.
Nas duas obras foram constantemente encontrados os aspectos típicos da peça bem feita e do melodrama. No entanto, o que se procurou demonstrar é que o uso das duas formas teatrais pode variar amplamente de acordo com o conteúdo proposto pelos autores. Por mais que tais aspectos façam parte das obras analisadas, elas não se restringem ao arcabouço formal que tanto a peça bem feita quanto o melodrama propiciam. Pelo contrário, elas propõem uma forte crítica à sociedade norte-americana e à ideologia de sua classe dominante, através do uso das próprias formas correntes no universo da indústria cultural. Esse foi o modo que Hellman encontrou para exprimir o seu pensamento: valendo-se das formas teatrais que essa classe privilegia por serem a priori alienantes, ela examinou o conservadorismo arbitrário e o acúmulo de capital – que visam à manutenção do status quo – e também as possibilidades de fissura e rompimento dessas estruturas.
Outra característica importante, e que fica mais clara na análise de The
Children's Hour, é a transformação que as críticas foram sofrendo conforme se distanciavam
da década de 1930. Se naquela década a grande cobrança referia-se ao “forçado” suicídio e cobrava-se deixar as professoras juntas em seu desespero, nos anos 1950 o suicídio ganharia contornos mais políticos por causa das vidas sendo destruídas nas audiências do senador McCarthy. Nos 1960, a crítica começava a atentar para fatores como militância e politização, enquanto nos 1980 e 1990 a questão da identidade homossexual viria a colocar em xeque o
avanço temático da peça.
The Little Foxes passou por um processo diferente: aclamada nos anos 1930 e
criticada apenas por se apoiar nos princípios da peça bem feita e do melodrama, a força das questões que propunha foi sendo minimizada pelos críticos, o que fez com que a peça aos poucos se transformasse em base de comparação para outros melodramas – embora o capitalismo continuasse a ser praticado com intensidade ainda maior e seus métodos aperfeiçoassem-se à medida que a tecnologia sofisticava a industrialização e o mercado financeiro, causando mudanças inegavelmente nefastas no mundo do trabalho.
O sucesso comercial das duas peças no teatro da Broadway foi o que instigou suas adaptações. Teatro e cinema são artes cujas formas de produção são muito diferentes, principalmente no que concerne à inigualável capacidade que o cinema tinha de ser mercantilizável e de atingir parte razoável do público mundial. O lucro com artes, seja no teatro, cinema ou literatura, sempre foi baseado no número de consumidores, ou seja, espectadores e leitores.
Embora não tenha escrito as peças visando à adaptação cinematográfica, Hellman beneficiou-se da própria forma das peças para adaptá-las e torná-las mais atraentes aos espectadores de cinema. Para que a crítica proposta pela autora pudesse ser ampliada e levada a públicos mais extensos – e não apenas nos Estados Unidos – era necessário adequar- se às regras da indústria de filmes. A autora teve que ceder aos produtores em vários aspectos, como a escolha de elenco que atraísse público, adequando-se inclusive às exigências externas aos estúdios, como o Código Hays. Em se tratando de indústria cultural, esse é o preço a ser pago: agir às margens da produção de massa, conseqüentemente restringindo a divulgação da obra ou adequar-se às exigências a fim de atingir um público maior, ainda que isso possa ocasionar perda na qualidade artística e questionadora da obra. Hellman optou por agir dentro do sistema e conseguiu, apesar das concessões que fez, oferecer ao espectador um ponto de
vista diferente daquele criado pela hegemonia da indústria cultural: as adaptações de suas peças nunca abandonam a representação da coletividade e dos males que essa sofre e causa.
A presença de Hellman no Brasil, embora não tenha sido constante, foi importante e despertou o interesse de atrizes e atores, diretoras e diretores, produtoras e produtores de variadas gerações e em diferentes épocas, o que prova o quanto os textos chamados de datados mantêm seu vigor original e ainda podem contribuir para um melhor entendimento das formas de vida e da própria arte. É certo que os artistas que se envolveram nas montagens das peças de Hellman no Brasil estiveram – e alguns ainda estão – vinculados a um tipo de teatro específico, seja ele denominado teatro de grande repertório ou teatrão. Esse fato só reafirma a qualidade dos textos da dramaturga, afinal eles foram reconhecidos pela sua capacidade de elucidar e evidenciar o processo de ação do conservadorismo burguês e do capitalismo, estabelecendo relação com a sociedade brasileira. As duas mais recentes produções das peças, às quais o autor dessa dissertação pôde assistir, na cidade do Rio de Janeiro, revelaram um fator sine qua non para o entendimento do valor do texto dramatúrgico com estrutura bem feita e características melodramáticas: o texto deve ser encenado integralmente, como foi feito em As Pequenas Raposas, com direção de Naum Alves de Sousa, uma produção que manteve a riqueza da peça através da preservação do texto, das atuações impecáveis e da direção cuidadosa e firme. O mesmo não ocorreu com Calúnia, dirigida por Eduardo Wotzyk, que optou pelos cortes de texto e a transformação da Sra. Tilford em uma velha mesquinha. Tais alterações poriam tudo a perder, não fossem as excelentes interpretações do restante do elenco, especialmente das atrizes que decidiram montar a peça, Janaína Mendes e Michelle Catunda.
Considera-se o dado indispensável, pois é a partir dele que se justifica o excesso de rubricas utilizado por Hellman, que se em parte podem imobilizar a direção, por outro, garantem unidade à peça. Naum Alves de Sousa não se sentiu imobilizado ao seguir as
rubricas, pelo contrário, investiu na direção cuidadosa da interpretação do elenco e na sua movimentação, música, luz, enfim, na atmosfera tensa e opressiva da residência dos Giddens, impregnada de luxo e ganância. Ao fugir das rubricas, Wotzyk fez uma opção arriscada, pois as peças bem feitas e com características melodramáticas, quando tecem relações críticas à sociedade, têm em sua própria estrutura fechada as justificativas para serem como são. Ao alterar cenas e cortar outras, Wotzyk dispensou os argumentos da peça, trocando-os por cenas sem dúvida menos bem feitas e menos melodramáticas, porém vazias.
Além das produções profissionais, ressalta-se a presença de Hellman no circuito universitário norte-americano e europeu. Nos últimos cinco anos, várias produções de
The Children´s Hour e The Little Foxes estiveram em cartaz produzidas por estudantes de
Artes Cênicas.
The Children´s Hour e The Little Foxes são duas excelentes peças de Lillian
Hellman. Nem os críticos nem o tempo irão torná-las datadas ou diminuirão a sua importância no teatro norte-americano do século XX. Enquanto as relações sociais forem ditadas pelas leis do capital, o preconceito de qualquer espécie encontrar refúgio no poder, as relações de compadrio permitirem falha e corrupção da Justiça e a sociedade não enxergar o seu papel nos processos que interferem nas formas de vida dos indivíduos e, por conseguinte, dela própria, essas peças permanecerão atuais e relevantes.