4.5. Sonuçların İrdelenmesi 90
4.5.4. Korozyon deneyleri sonuçlarının irdelenmesi 93
Michel Foucault poderia ter escrito a história da cocaína, tal como ele fez nas suas obras: História da Loucura, As Palavras e as Coisas, na história da prisão em
Vigiar e Punir, na História da Sexualidade e Em Defesa da Sociedade em que delimita no século VXII o aparecimento de determinadas formas de relações de poder.
Na história da sexualidade, a propagação do discurso moral, médico, penal e científico em torno da sexualidade, que do mesmo modo, na história da cocaína, está presente nos mecanismos de poder moral, médico, penal, científico e filosófico, cuja unificação do discurso tem referência nas relações de poder da biopolítica, tanto como regime de verdade quanto forma de governo, presentes na elaboração do pensamento penal moderno. É esse o quadro teórico da legislação brasileira antidroga, no sentido de copiar dos objetivos da prisão: da recuperação e tratamento do criminoso.
A genealogia das relações de poder na história da sexualidade pode ser aplicada na história da cocaína, deixando de pensar o momento de repressão pelo poder soberano colonizador e pensar como FOUCAULT (1988), em “uma verdadeira explosão discursiva” (p. 21). A colocação da cocaína em discurso implica “saber sob que formas, através de que canais, fluindo através de que discursos o poder consegue chegar às mais tênues e mais individuais das condutas” (p. 16). O século XVII é marcado por uma vontade de saber e poder em torno da sexualidade; do mesmo modo, o
saber e o poder agiram na história da cocaína como uma vontade de saber da mais fina película da conduta humana em relação à cocaína.
Que caminhos lhe permitem atingir as formas raras ou quase perceptíveis do desejo, de que maneira o poder penetra e controla o prazer cotidiano – tudo isso com efeitos que podem ser de recusa, bloqueio mas, também, de incitação, de intensificação, em suma, as técnicas polimorfas (p. 16-17). A colocação da cocaína na produção discursiva e na produção de saber seguiu o princípio da disseminação e da implantação. Segundo FOUCAULT (1988), “uma fermentação discursiva que se acelerou a partir do século XVIII [...], uma multiplicação dos discursos sobre o sexo no próprio campo do exercício do poder” (p. 22), um processo semelhante se consolida como uma obstinação ao falar da cocaína. A disseminação discursiva da cocaína faz parte da “grande sujeição: maneiras de torná-la moralmente aceitável e tecnicamente útil” (p. 24). Podemos dizer que a cocaína foi tomada em um sistema de utilidade para ser regulada em defesa do bem de todos através de um padrão de conduta ótima, através do ethos moral e político, em especial do americano, em torno das proibições das drogas. Processo que vai se consolidar com as legislações antidrogas em todo o mundo, precedentes para o tráfico de cocaína e do discurso da dependência química.
O pensamento de Freud colocou a cocaína na ordem do discurso científico e acadêmico e na constatação da dependência química. Em Über Coca ele faz a história da cocaína desde a sua origem, relatando experiências em animais e em pessoas e sua utilização terapêutica. A coca é uma planta da América do Sul, cujas folhas servem de estimulantes indispensáveis a cerca de dez milhões de pessoas. No Peru a planta da coca está ligada aos costumes religiosos.
A lenda afirmava que Manco Capac, o divino filho do Sol, havia descido dos penhascos do lago Titicaca em tempos primevos, trazendo a luz de seu pai para os infelizes habitantes do país; que lhes trouxera o conhecimentos dos deuses, lhes ensinara as artes úteis e lhes dera a folha da coca, essa planta divina que sacia os famintos, dá força aos débeis, e faz com que esqueçam os seus infortúnios. As folhas de coca eram oferecidas em sacrifícios aos deuses, mascadas durante cerimônias religiosas e até mesmo colocadas na boca dos mortos, a fim de lhes garantir uma recepção favorável do além (FREUD, p. 66).
O consumo da coca vive um momento de democratização na colonização, mas por pouco tempo, sendo logo proibida como uma prática idólatra pelos hispânicos. Os espanhóis católicos não concordavam com o ato religioso. Em 1551, o Conselho Eclesiástico de Lima proibiu a mastigação da coca, considerando um obstáculo à propagação do cristianismo e da conversão dos índios, alegando ser obra do demônio, por ser uma seita pagã e pecaminosa. Sem o uso da coca os índios não conseguiam realizar os trabalhos pesados; a solução foi distribuir determinada quantia de folhas e conceder períodos de intervalos para seu uso. A planta continua tendo lugar na cultura dos nativos daquela região, eles a usam durante toda a vida, nas suas perambulações, em uma viagem difícil, para possuir uma mulher, em atividade quando é preciso aumentar a força. Os relatos não seguem a mesma direção. Há os que consideram uma fonte de alimento e energia indispensáveis à vida dos nativos, enquanto outros a veem como uma fonte de depravação moral.
Segundo FREUD (1989), a coca é fonte de comércio e de impostos, a produção é de larga escala, chegado a 135 mil toneladas anuais. Segundo ESCOHOTADO (2009), “só para a feira anual de Potosí – a maior do mundo em volume de transações – se importavam 100.000 cestas de coca, que equivalem a 1.300 toneladas de folhas” (p. 71). A importância do comércio da folha não inibe a moralidade naquele momento, que aceita a mastigação para as atividades relacionadas ao trabalho, sendo legalizada: “em 1569, o Rei Felipe II da Espanha declarou o ato de mascar a coca como um hábito essencial à saúde do índio” (FERREIRA & MARTINI, 2001, p. 97). A coca foi introduzida na Espanha pelos conquistadores para fins medicinais e pelo seu poder afrodisíaco.
ESCOHOTADO (2009), na Historia Elemental de las Drogas, também situa o aparecimento da coca na cultura andina. “O arbusto da coca é originário dos Andes, e desde o século III a. C. há esculturas de rostos com bochechas inchadas pela mastigação de suas folhas” (p. 19). Segundo BAHLS e BAHLS (2002), a história da coca remonta às origens dos índios peruanos andinos que tinham a coca como uma planta sagrada.
[...] sítios arqueológicos no Peru encontram folhas de coca colocadas junto às tumbas de sepulturas, testemunhando seu uso há mais 2.500 anos. Até hoje os índios peruanos colocam as folhas junto com os mortos acreditando ser um item necessário para o além vida (p. 175).
Segundo FERREIRA & MARTINI (2001), o primeiro relato europeu da coca é feito por Américo de Vespúcio em 1499 e publicado em 1507, que descreve o consumo da folha da coca como sendo mastigada com cinzas. Até hoje é comum aos índios peruanos e colombianos o uso da cinza ou do bicarbonato de sódio na mastigação da folha da coca, que segundo os autores:
Deve-se ao fato de sua absorção pela mucosa da cavidade apenas se realizar em pH alcalino. A sua ação farmacológica, quando mascada, é semelhante ao estímulo provocado pela ingestão de doses elevadas de cafeína, não sendo, no entanto, acompanhada de euforia (p. 97).
O controle político da coca já está presente na colonização da América. Em 1530, o governo da Corte cria a proibição do consumo do pão de coca através do imposto da corveia.
O conhecimento da química dos princípios ativos das principais drogas com valor comercial representa entrada de capital na economia do mercado das drogas porque agora ela é comercializada em grande escala, com a companhia da propaganda de remédio para os nervos e para as tristezas e com um elevado consumo de refrigerantes feitos da folha da coca.
Segundo FREUD (1989), a coca entra no controle político do conhecimento da química pelas pesquisas de Friedrich Gaedecke e Albert Niemann, que definiram a estrutura vegetal da substância química da cocaína. O primeiro conseguiu o extrato da folha da coca que denominou de erythroxylene. O segundo isola o alcaloide de várias plantas psicoativas, dentre elas, o da cocaína, que representa 80% dos alcaloides da nicotina, da cafeína e da morfina.
A cocaína de Niemann se cristaliza em grandes primas incolores do tipo monoclínico, de quatro a seis lados. Tem um gosto um tanto amargo e produz um efeito analgésico nas mucosas. Desmancha-se à temperatura de 98°C, é difícil diluir na água, mas facilmente solúvel em álcool, éter e ácidos dilutos. Combina-se com cloreto de platina e cloreto de ouro para formar sais duplos. Ao ser aquecida com ácido clorídrico, decompõe-se em ácido benzoico, álcool metílico e uma base pouco estudada chamada ecgonina (p. 69). Segundo ESCOHOTADO (2009), a cocaína participa do nascimento da psicanálise de Freud, que “empreende uma investigação global com o fármaco, que inclui autoensaio, revisão de toda a literatura existente e proposta de uso” (p. 93):
Tenho realizado experiências e estudado, em mim mesmo e em outras pessoas, o efeito da coca sobre o corpo humano saudável. Minhas conclusões estão fundamentalmente de acordo com a descrição, feita por Montegazza, do efeito das folhas de coca (FREUD, 2012, p. 73).
Paolo Mantegazza viveu por muito tempo nas regiões de plantação de coca, publicou suas pesquisas sobre os efeitos fisiológicos e terapêuticos. Defensor da coca, relatou várias histórias de casos do seu uso.
Freud utilizava cocaína em doses de 200 mg por dia. Ao ingerir a cocaína ele sentia uma súbita exaltação e uma sensação de leveza. A respiração ficava mais lenta e profunda, sentia-se cansado e sonolento. “Após alguns minutos, começou a euforia real da cocaína, iniciada por repetida eructação refrescante. Imediatamente após tomar cocaína, notei um leve retardamento do pulso e, mais tarde, um aumento moderado” (FREUD, 1989, p. 74).
Os sintomas tóxicos são de curta duração, e com o repetido uso se torna cada vez mais fraco o efeito. Pode-se também observar o aumento da quantidade de urina, ressecamento da mucosa nasal e da garganta, intensificação no ritmo do pulso. É preciso observar que há pessoas que não toleram o uso da cocaína, embora, no geral, não há pessoas insensíveis a certas quantidades da substância. O efeito psíquico consiste em exaltação e euforia, a necessidade de autocontrole e maior vigor para o trabalho. Aqueles de longa duração podem ser realizados sem fadiga; enquanto perdurar o efeito, a pessoa pode se alimentar sem rejeição, mas com a sensação de ser supérflua a refeição, do mesmo modo pode acontecer com o sono, pode-se dormir e rejeitá-lo sem prejuízo psíquico.
O efeito de doses moderadas desaparece tão gradualmente que, em circunstâncias normais, é difícil definir a duração. Se a pessoa trabalha intensamente enquanto está sob o efeito da coca, um declínio da sensação de bem-estar ocorre após três a cinco horas, sendo necessária nova dose para afastar a fadiga. O efeito da coca parece durar mais quando não se faz um trabalho muscular pesado. É unânime a opinião de que a euforia induzida pela coca não é acompanhada de qualquer sensação de lassidão ou outro estado de depressão [...]. No meu caso, tenho notado que, mesmo no dia seguinte ao da ingestão da coca, meu estado se compara favoravelmente ao normal (FREUD, 1989, p. 77).
A principal utilização da cocaína é de ser estimulante, como tinha sido usada pelos índios, em circunstâncias em que é preciso aumentar a força física do corpo por determinado período de tempo e conservar a energia para fazer face às novas demandas, tendo em vista a impossibilidade de descanso e alimentação. A cocaína também tem sido prescrita para debilidades mentais, como no caso da histeria, hipocondria, inibição melancólica e estupor, e também em casos de distúrbios digestivos. Ela elimina indisposições dispépticas e as debilidades relacionadas a elas, a pressão no estômago, mal-estar e a falta de disposição para o trabalho.
Repetidas vezes proporcionei esse alívio aos meus colegas e, por duas ocasiões, observei como a náusea resultante dos excessos gastronômicos cedeu em pouco tempo aos efeitos da cocaína e foi substituída por desejo normal de comer, bem como de uma sensação de bem estar físico. Também aprendi a me poupar de perturbações estomacais com uma pequena quantidade de cocaína e salicilato de soda (FREUD, 1989, p. 80).
A cocaína pode ser usada com sucesso a longo prazo em doenças que envolvem a degeneração dos tecidos, nos casos de anemia grave, tuberculose pulmonar, doenças febris de longa duração. A cocaína teve êxito com a febre tifoide, falta de apetite crônica, pneumonia pulmonar e casos de asma. A cocaína pode também ser utilizada no tratamento do viciado habitual da morfina e do álcool. O tratamento da morfina pela cocaína se mostrou mais eficiente do que no tratamento do alcoolismo. Pode também ser aplicada como anestésico local nas afecções da mucosa, em enfermidade da faringe e em olhos. Além do mais tem um poder afrodisíaco, pode ser usada como estimulante sobre a genitália.
Mantegazza confirma que os coqueros mantêm um alto grau de potência até a velhice. Ele fala mesmo de casos de restabelecimento da potência e desaparecimento de debilidades funcionais após a utilização da coca, embora não acredite que a coca produza tal efeito em todos os indivíduos (FREUD, 1989, p. 86).
Freud também aconselha a usá-la como estimulante afrodisíaco, como anestésico, no tratamento da asma, de doenças consumptivas, de desordens digestivas, para curar a histeria e a sífilis. Freud utilizou cocaína para tratar um amigo, o médico Ernest Von Fleisch Marxow, que havia se tornado dependente de morfina, prescrita para um quadro de dor intensa, por ter amputado a perna. O resultado foi um quadro de dependência dupla. A cocaína não produz dependência química. Esta é predisposição
efetiva psíquica da pessoa. Esta ideia contribuiu com o método dos processos inconscientes da Psicanálise.
Na época de Freud a cocaína viveu uma época de popularidade. Ela foi incorporada a uma grande quantidade de tônicos, refrigerantes e vinhos. O capitalismo moderno do século XIX tem o controle político do alcaloide da coca, cujo selo de mercadoria recebe pela vertente da indústria farmacêutica e da indústria química de bebidas e refrigerantes. A indústria americana da Coca-Cola por algum tempo teve a hegemonia do controle da cocaína na produção de refrigerante.
Na entrada do século XX se tomou conhecimento dos riscos que a cocaína oferecia, mas nem por isso inibiu-se o crescimento da demanda com o uso recreativo, constituído um negócio lucrativo de exportação ilegal nos países da América do Sul e da América Latina, cujo controle político primordial está ligado ao comércio ilegal do capitalismo pela vertente da economia da cocaína colombiana. “No caso da Colômbia, esse negócio praticamente destruiu a sociedade e acabou com a manutenção da lei e da ordem” (IVERSEN, 2001, p. 107).
Na abertura de Vigiar e Punir Foucault compara dois tipos de punição. O espetáculo do suplício, em que a punição está intimamente relacionada ao ato do crime em si, e as normas disciplinares da prisão, em que a punição está relacionada à correção do comportamento humano. Por isso que o crime clássico do século XIX é o homicídio. A criminologia e o sistema penal estão preocupados com as características psicológica, antropológica e moral do criminoso.
Na abertura da história da cocaína podem-se comparar dois tipos de crime, o homicídio e o tráfico de cocaína. O primeiro pode ser apresentado por Dostoievski em
O Crime e o Castigo, onde ele é mestre em criar um tipo psicológico e moral do criminoso. O segundo pode ser apresentado por Gabriel García Márquez em Notícia de
um Sequestro, em que relata o terrorismo da guerra do tráfico de cocaína na Colômbia.
Nas primeiras páginas de Crime e Castigo, Dostoievski cria o perfil antropológico e psicológico de Raskólnikof, homicida que premedita assassinar Alena Ivanovna, locatária, a quem deve uma quantia considerável de dinheiro.
Durante todo o romance Dostoievski vai elaborando o pathos do criminoso. Raskólnikof vivia num estado de excitação nervosa. A pobreza tomava-o por completo,
chegando ao ponto de ser indiferente a tudo e a todos. Reenuncia por completo às ocupações, andando de modo andrajoso; nem por isso se ressentia de seus trapos aquela alma de um infeliz rapaz.
Na primeira tentativa de assassinar a velha Alena Ivanovna salta à vista o duplo moral e psicológico do criminoso.
Raskólnikof saiu muito perturbado. Descendo a escada, parou repetidas vezes violentamente confuso; esta confusão cada vez mais aumentava de intensidade. Uma vez na rua, exclamou: “Meu Deus, como tudo isto é repugnante! Será possível que eu... Não! É uma loucura, um absurdo! Como pude ter tão horrível ideia? Pois eu seria capaz de tamanha infâmia? Isto é odioso, ignóbil, nojento!... E, no entanto, durante um mês eu... (DOSTOIEVSKI, 1994, 12).
Dostoievski vai dando vida e agravando a tensão psicológica de Raskólnikof na premeditação do assassinato de Ivanovna, com um agravante que não está previsto no planejamento do homicida, o assassinato de Isabel. Agora um homicídio duplamente qualificado doravante vai atormentar a consciência de Raskólnikof por ter assassinado uma pessoa inocente. Com o assassinato de Isabel vislumbramos o poder persuasivo da construção dupla moral psicológico criado por Dostoievski.
Mais nova do que Alena Ivanovna, de quem era apenas irmã colaça, Isabel tinha trinta e cinco anos. Trabalhava dia e noite para a velha. Em casa, fazia os serviços de cozinha e lavadeira. Fazia trabalhos de costura que vendia, ia lavar casas, e tudo quanto ganhava ia parar nas garras aduncas da irmã. Não se atrevia a aceitar nenhum trabalho, qualquer encomenda, sem prévia autorização de Alena Ivanovna (DOSTOIEVSKI, 1994, 46).
Na cena do crime Dostoievski cria a alma do criminoso. Combina no tempo e no espaço, atividade motora, perspicácia intelectual, improviso cotidiano e movimento da alma. A inércia do ambiente constitui nele uma atividade febril. O coração palpitava de tal modo que não conseguia respirar. Precisava fazer um nó corredio para adaptar a um casaco onde devia conduzir um machado. Rasgou uma camisa velha, fez uma ligadura que adaptou por dentro de um casaco, único que possuía, de modo que nenhum vestígio aparecia.
Para distrair a vítima, Raskólnikof confecciona um objeto sem valor, uma peça de madeira envernizada e bem embrulhada de modo que tomou uma forma
elegante e com um nó difícil de desatar. Enquanto Ivanovna tentava desatar o embrulho, por alguns segundo se distraiu do assassino, dando-lhes as costas. Raskólnikof “tirou o machado de debaixo do casaco, levantou-o no ar, segurando-o com as mãos, e quase maquinalmente, porque se sentia sem força, deixou-o cair sobre a cabeça da velha” (DOSTOIEVSKI, 1994, p. 54). O golpe fendeu a parte superior da cabeça, em seguida, deu-lhes mais dois golpes e a velha caiu morta. Enquanto revistava a casa, ouviu passos onde estava o cadáver e ouviu um grito, era de Isabel, Raskólnikof avança para o quarto com o machado.
O terror dominava-a por tal forma que, vendo-se ameaçada pela arma, nem sequer pensou em defender a cabeça, com esse gesto maquinal em que em tais casos sugere o instinto de conservação. Afastou apenas o braço esquerdo e estendeu-o vagarosamente na direção do assassino, como para desviar. O ferro abriu-lhe o crânio fendendo toda parte superior da fronte até quase ao sincipúcio. Isabel caiu redondamente morta (DOSTOIEVSKI, 1994, p. 55). Comparando as duas literaturas, pode-se constatar a tese de Foucault de que o crime de tráfico de cocaína é um fenômeno de mercado e um problema não mais do homem mas da cidade, um fato histórico em que o que está em jogo não é mais o perfil correcional e antropológico do criminoso, mas as manobras da política do tráfico de cocaína na forma do terrorismo e do sequestro, um delito coletivo de caráter sui generis no século XX que não se limita à sociedade colombiana, mas se espalha no risco de degradação que todas as cidades enfrentam.
Notícia de um Sequestro é um livro jornalístico. Nele Gabriel García Marquez faz uma reportagem sobre um sequestro coletivo de dez pessoas na cidade