KAVRAMSAL ÇERÇEVE
2.5. Korozyon Çeşitler
A principal lei que regulamenta a oferta de educação nos estabelecimentos penais é a Lei de Execução Penal (LEP), Lei n. 7.210, de 1984, que define o papel da educação nas políticas de execução penal. No capítulo II, afirma que a assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade, afirmando ainda que tal assistência se estende ao egresso do
sistema penitenciário e compreende a assistência material, à saúde, jurídica, educacional, social e religiosa.
No que se refere à assistência educacional, os artigos de 17 a 21 estabelecem que a assistência educacional compreenderá a instrução escolar e a formação profissional do preso e do internado; que o ensino de primeiro grau será obrigatório, integrando-se ao sistema escolar da unidade federativa; que o ensino profissional será ministrado em nível de iniciação ou de aperfeiçoamento técnico e que a mulher condenada terá ensino profissional adequado à sua condição; que as atividades educacionais podem ser objeto de convênio com entidades públicas ou particulares; e que os estabelecimentos penais devem ser dotados de biblioteca, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos. No capítulo I, que trata dos objetivos da LEP, o artigo 3º afirma que ao condenado e ao internado serão assegurados todos os direitos não atingidos pela sentença ou pela lei, o que equivale a dizer que, embora tenham temporariamente suspensos seus direitos civis, todos os demais direitos da pessoa presa devem ser regidos pelas mesmas leis que regem o conjunto da sociedade. Assim, o direito à educação da pessoa presa está respaldado em diferentes leis brasileiras e tratados internacionais dos quais o Brasil é país signatário.
A começar pela Constituição Federal que, em seu artigo 205, reconhece a educação como um direito de todos e dever do Estado e da família, devendo ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e a sua qualificação para o trabalho. No artigo 208 a Constituição afirma que a educação é dever do Estado que deve ser efetivado mediante a oferta de ensino fundamental obrigatório e gratuito, inclusive para todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria e que deverá haver progressiva universalização do ensino médio gratuito.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação LDB, Lei n. 9.394/96, em seu artigo 37, parágrafo 1º, afirma que os sistemas devem assegurar gratuitamente aos jovens e aos adultos que não puderam efetuar os estudos na idade regular oportunidades educacionais apropriadas e exames, destacando as características específicas dessa modalidade de ensino e dando aos estados autonomia para sua oferta conforme a demanda e a realidade de cada localidade e do seu público.
Apesar de ser posterior à LEP, a LDB não faz qualquer referência específica à oferta de educação para os jovens e adultos privados de liberdade, mas essa omissão é corrigida pelo Plano Nacional de Educação – PNE, instituído pela Lei n. 10.172, de 2001.
O Plano faz referência ao atendimento educacional aos jovens e adultos privados de liberdade e, na meta 17, prevê que a EJA seja implantada, em nível fundamental e médio, em todas as unidades prisionais e nos estabelecimentos que atendem adolescentes e jovens em conflito com a lei. Prevê ainda que sejam oferecidos programas de formação profissional e educação a distância. A meta 26 do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos determina que os poderes públicos deverão apoiar a elaboração e implantação de programas para assegurar a educação básica no sistema penitenciário.
O parecer n. 11 do Conselho Nacional de Educação da Câmara de Educação Básica, que data de 2000 e traz as diretrizes para educação de jovens e adultos, também faz referência ao direito à educação nos estabelecimentos penais. Afirma que a educação voltada para o público jovem e adulto deve considerar as situações, os perfis dos estudantes, as faixas etárias e se pautará pelos princípios de equidade, diferença e proporcionalidade na apropriação e contextualização das diretrizes curriculares nacionais e na proposição de um modelo pedagógico próprio. O Parecer destaca que a educação voltada para o público jovem e adulto deve dar cobertura a trabalhadores e a tantos outros segmentos sociais como donas de casa, migrantes, aposentados e encarcerados.
Esse documento é considerado de grande importância no âmbito do marco legal da EJA, porque contribui para eliminar o caráter compensatório historicamente atribuído a essa modalidade, além de reforçar seu caráter de direito inalienável de todo cidadão e de toda cidadã, sendo vista como caminho para enfrentar uma imensa dívida social existente em nosso país e como forma de eliminar uma realidade de profundas desigualdades sociais. As diretrizes curriculares para educação de jovens e adultos foram construídas a partir de uma ampla consulta à sociedade civil e aos vários movimentos e segmentos que historicamente se envolveram com a oferta de EJA em nosso país e, entre outros méritos, resgata o legado da educação popular, lembrando que a EJA é herdeira desse movimento iniciado no Brasil nos anos 1950 e 1960, do qual nasceu um conjunto de ideias políticas, filosóficas e pedagógicas que foram se aperfeiçoando no interior dos
movimentos de resistência da década de 1970 e início da de 1980 e que hoje ainda inspiram as práticas pedagógicas mais progressistas no campo da educação.
Nesse sentido, tratar o tema da educação nas prisões no âmbito das políticas de educação de jovens e adultos representa não só a garantia de que ela seja inserida em um campo de tradição e de luta pelo direito à educação para todos, mas, principalmente, garantir que sua oferta não se resuma aos processos formais de transmissão e aquisição de aprendizagens. Como se sabe, a EJA pretende se ocupar dos diferentes saberes e dos diferentes processos de aquisição e produção de novos conhecimentos, o que pressupõe a existência não de um “público alvo” – tomado como passivo diante das ações do mestre que tudo sabe –, ou de uma “clientela” – como se tratássemos de práticas mercantis –, mas de sujeitos que se constituem como autores de seu próprio processo de aprendizagem: “mulheres e homens, seres histórico-sociais, capazes de comparar, de valorar, de intervir, de escolher, de decidir [...]”. (FREIRE, 1996, p. 33).
Em 2010, o movimento em defesa do direito à educação nas prisões alcançou uma importante vitória com a aprovação, no Conselho Nacional de Educação e Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, das Diretrizes Nacionais para a oferta de educação de jovens e adultos em situação de privação de liberdade.
Essas Diretrizes, assim como as de EJA, também foram fruto de um amplo processo de escuta da sociedade civil e governos estaduais, envolvendo diferentes atores vinculados à educação em prisões, incluindo profissionais da execução penal e internos do sistema penitenciário. Esse processo, coordenado pelo Ministério da Educação e Ministério da Justiça, teve início em 2005, no âmbito das ações do Projeto Educando para Liberdade e contou com o apoio de organismos internacionais como a UNESCO e a Organização dos Estados Ibero-Americanos.
A importância desse documento, como veremos mais adiante, é que ele incorpora as principais discussões e preocupações que envolvem a oferta de educação em prisões hoje, no Brasil, e busca suprir as lacunas deixadas pela legislação que até então vinha servindo de respaldo para defesa do direito à Educação de Jovens e Adultos privados de liberdade.
No âmbito internacional, as regras mínimas para o tratamento de prisioneiros, aprovadas no I Congresso das Nações Unidas sobre Prevenção do Crime e Tratamento de
Delinquentes, realizado em Genebra, em 1955, são consideradas um marco na legislação internacional em defesa dos direitos à educação das pessoas presas. No entanto são consideradas ainda tímidas por não apresentarem orientações mais específicas para o atendimento a esse público.
A Conferência da UNESCO sobre a Educação de Adultos, realizada em Hamburgo em 1997, reafirma a importância da EJA para lidar com os desafios e complexidades do mundo atual, contando para isso com a “energia, a imaginação e a criatividade de todos por ela atendidos” (CONFINTEA V, Declaração de Hamburgo, 1997: item 9) e, ao se referir ao segmento prisional, a V CONFINTEA recomenda que o direito à educação dos presos seja respeitado pelos países signatários “que devem pôr em marcha nas prisões amplos programas de ensino, com a participação dos detentos, a fim de responder às suas necessidades e aspirações em matéria de educação” (CONFINTEA V, 1997: Agenda para o Futuro, tema 8, item 47).
Na VI Confintea, realizada em 2009 no Brasil, o processo de inclusão da temática no texto final foi tenso e enfrentou a resistência de países europeus e dos Estados Unidos. Alguns representantes de países latino-americanos também evitaram maior comprometimento. A defesa foi feita pelo Uruguai, com o apoio da RedLECE, mas o texto final foi reduzido de um parágrafo a uma frase, que afirma que os países signatários devem se comprometer em reforçar que a oferta de educação de adultos nas prisões seja apropriada a todos os níveis (CONFINTEA VI, 2009: tema 15).
Outros importantes documentos internacionais que datam de 1990 e que ratificam o direito à educação das pessoas privadas de liberdade são: “As regras mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça de Menores” (Regras de Beijing)7
e os documentos aprovados pelo Conselho Econômico e Social da ONU8 sobre a educação em espaços de privação de liberdade e sobre a educação, capacitação e consciência pública na esfera da prevenção do delito. Esses documentos fazem uma série de recomendações aos Estados Membros, entre as quais destacam-se: que proporcionem diversos tipos de educação que contribuam para a prevenção do delito, a reinserção social dos reclusos e a redução dos casos de reincidência; que as políticas de educação em espaços de privação de liberdade orientem-se no desenvolvimento de toda a pessoa,
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Resolução n. 40/33 da Assembleia Geral da ONU.
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levando em consideração os seus antecedentes de ordem social, econômica e cultural; que todos os reclusos devem gozar do acesso à educação, sendo incluídos em programas de alfabetização, educação básica, formação profissional, atividades recreativas, religiosas e culturais, educação física e desporto, educação social, ensino superior e serviços de biblioteca; que a educação deve constituir-se como elemento essencial do sistema penitenciário, não devendo existir impedimentos aos internos para que participem de programas educacionais oficiais; e que devem propiciar os recursos necessários à equipe e docentes para que os reclusos possam receber a instrução adequada.
Foram aprovadas também em 1990 outras duas importantes Resoluções (n. 45/11 e n. 45/12), pelas quais são ampliados os marcos já estabelecidos, declarando-se que todos os reclusos têm direito a participar de atividades culturais e educativas, objetivando o desenvolvimento pleno da pessoa humana.
Cabe ressaltar que os tratados internacionais, embora nem sempre respeitados pelos países signatários, possuem efeito jurídico, principalmente no cenário internacional, regulamentando as relações jurídicas entre países e organizações.
1.3 Desafios para efetivação do direito à educação de jovens e adultos privados de