• Sonuç bulunamadı

2.3 FİZİKSEL UYGUNLUK

2.3.1 Fiziksel Uygunluk Parametreleri

2.3.1.5 Koordinasyon

O país que, inicialmente, rompeu com a tradição legalista do continente europeu foi a União Soviética, cuja ditadura do proletariado inaugurou a “consciência revolucionária” e, meses depois da implementação do regime comunista, em 30 de novembro de 1918, derrogou a legislação tzarista para começar um “período de total arbitrariedade”.66

63

Conforme PIRES, Ariosvaldo de Campos [colaboração e atualização de Sheila J. Selim de Sales].

Compêndio de direito penal. Parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 76.

64

SELIM DE SALES, Sheila Jorge. Escritos de direito penal. 2 ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. p. 49-50. As seguidas ofensas ao princípio da legalidade foram destacadas no profundo estudo realizado pela autora sobre o significado ideológico da parte especial do Código Penal nos países socialistas não democráticos.

65

Artigo 22. Nullum Crimen Sine Leqe. 1. Nenhuma pessoa será considerada criminalmente responsável, nos termos do presente Estatuto, a menos que a sua conduta constitua, no momento em que tiver lugar, um crime da competência do Tribunal. 2. A previsão de um crime será estabelecida de forma precisa e não será permitido o recurso à analogia. Em caso de ambigüidade, será interpretada a favor da pessoa objeto de inquérito, acusada ou condenada. 3. O disposto no presente artigo em nada afetará a tipificação de uma conduta como crime nos termos do direito internacional, independentemente do presente Estatuto.

Artigo 23. Nulla Poena Sine Lege. Qualquer pessoa condenada pelo Tribunal só poderá ser punida em conformidade com as disposições do presente Estatuto.

66

LUISI, Luiz. Um direito penal do inimigo: o direito penal soviético. In.: STREK, Lenio Luiz (Org.).

Como acentua Luiz Luisi, os juízes soviéticos orientavam-se exclusivamente pela “ideia do direito socialista” até que, em 12 de dezembro de 1919, foram timidamente limitados com a promulgação de um elenco de princípios destinados a servir de critérios em matéria penal, denominado “Princípios fundamentais do Direito Penal da R.S.F.S.R.”.67

Os referidos princípios, prossegue o professor gaúcho, “continham unicamente normas da parte geral” e nenhuma menção aos delitos em espécie e suas respectivas sanções.68

Sheila Jorge Selim de Sales observa que o denominado “socialismo penal” ou “direito penal socialista” tinha como uma de suas funções a “defesa e a consolidação da ordem socialista instituída contra o ‘capitalismo’, as atitudes ‘contra- revolucionárias’ e os ‘inimigos da classe proletária’”,69 constituindo-se basicamente num veículo de luta contra os opositores do Comunismo.

Através do referido sistema, o direito se subordina à política de matiz socialista, e a concepção formal de crime, como previsão legislativa, é substituída por uma concepção material, passando a ser entendida como ação socialmente perigosa.70

Esse período de gritante arbítrio só encolheu com a edição do primeiro código penal soviético, que entrou em vigor no dia 1º de junho de 1922, sem, contudo, resgatar o princípio da legalidade.

Com efeito, o art. 6º do referido estatuto estabelecia que “a lei penal se aplica a toda ação ou omissão contra a sociedade soviética ou tendente a abolir a

67

LUISI, Luiz. Um direito penal do inimigo: o direito penal soviético. In.: STREK, Lenio Luiz (Org.).

Direito penal em tempos de crise. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 115.

68

LUISI, Luiz. Um direito penal do inimigo: o direito penal soviético. In.: STREK, Lenio Luiz (Org.).

Direito penal em tempos de crise. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 115. O autor explica

ainda que eram enumerados cerca de 15 tipos diferentes de sanções, entre elas as privativas de liberdade, trabalhos forçados, declaração de ser inimigo da revolução, entre outros.

69

SELIM DE SALES, Sheila Jorge. Escritos de direito penal. 2 ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. p. 59. A professora da UFMG esclarece que o novo regime político passa a considerar “burguesa” a legalidade concretizada no Direito Penal liberal, que defendia a propriedade privada e os interesses capitalistas da classe privilegiada, passando o “sistema penal a ser concebido como instrumento de defesa da nova ordem instaurada pela revolução do proletariado” (SELIM DE SALES, Sheila Jorge.

Escritos de direito penal. 2 ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. p. 63).

70

SELIM DE SALES, Sheila Jorge. Escritos de direito penal. 2 ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. p. p. 60.

ordem jurídica instituída pelo poder operário no período de passagem à sociedade comunista”.71

Diante dessa fórmula ampla, permitia-se a punição de fatos não tipificados como crimes que, a critério do julgador, mostrassem-se perigosos para o alcance dos fins revolucionários.

Em novembro de 1926, foi editado novo código, que passou a vigorar no dia 1º de janeiro de 1927, sofrendo inúmeras alterações até sua revogação, em 1961.72

Esse código manteve a definição substancial de crime, mas só permitiu a criação de tipos penais pelo intérprete através da analogia.

Observa Luiz Luisi, no entanto, que a nova ordem normativa representou um avanço relativamente ao período anterior, porque a aplicação analógica tinha por base disposições da parte especial do código, ao passo que a lei revogada nem sequer exercia esse papel exemplificativo para o juiz, que era, portanto, “guiado quase exclusivamente pela consciência jurídica socialista e pelo interesse revolucionário”.73

Assim, consoante o art. 16, a pena criminal poderia ser aplicada em duas hipóteses: “se o fato fosse previsto em lei como crime e nas situações fáticas não expressamente previstas, mas que se mostrassem ‘perigosas’ para a ditadura do proletariado e se assemelhassem àquelas criminalizadas na parte especial, mediante aplicação analógica”.74

Não satisfeitos com a larga aplicação da lei penal por analogia, admitida expressamente nos Códigos de 1922 e 1926, os revolucionários mais radicais

71

SELIM DE SALES, Sheila Jorge. Escritos de direito penal. 2 ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. p. 65.

72

LUISI, Luiz. Um direito penal do inimigo: o direito penal soviético. In.: STREK, Lenio Luiz (Org.).

Direito penal em tempos de crise. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 117.

73

LUISI, Luiz. Um direito penal do inimigo: o direito penal soviético. In.: STREK, Lenio Luiz (Org.).

Direito penal em tempos de crise. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 117. No mesmo

sentido, Sheila J. Selim de Sales acentua que, com a utilização da analogia ao lado da definição substancial do crime, a parte especial do código penal, que, antes, não era levada em consideração, passou a desenvolver uma função exemplificativa, “enquanto ponto de referência para que se proceda à aplicação analógica, ou analogia legis” (SELIM DE SALES. Sheila Jorge. Escritos de direito

penal. 2 ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. p. 74).

74

SELIM DE SALES, Sheila Jorge. Escritos de direito penal. 2 ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. p. 73. Vale transcrever a redação do art. 16: “quando algum ato socialmente perigoso não esteja expressamente previsto no presente código, o fundamento e a extensão de sua responsabilidade se determinarão em conformidade com os artigos deste, relativos aos delitos de índole analógica.”

quiseram tornar o sistema penal ainda mais arbitrário e voltado para os interesses da classe operária.

Observa Luiz Luisi que, pouco tempo depois da entrada em vigor do Código de 1926, o promotor Krylenko, tendo como companheiro o jusfilósofo Paschukanes, “promoveu uma campanha visando a acabar com os restos da jurisprudência capitalista e a construir um direito penal rigorosamente obediente ao pensamento marxista”.75

O Projeto Krylenko pode ser considerado o ápice do modelo penal socialista, pois propunha um código penal desprovido de parte especial e, portanto, sem definição dos crimes nem a prévia cominação legal. O projeto, apesar de jamais ter entrado em vigor, tem relevância histórica, por delinear as bases do Direito Penal soviético daquela época, marcado pela incerteza do direito, pela absoluta discricionariedade do “juiz proletário” e, nitidamente, voltado para alcançar as finalidades políticas da revolução.76

O emprego da analogia não resistiu ao fim da Era Stalinista e, em 1956, foi desautorizado após o XX Congresso do Partido Comunista, vindo a ser expressamente proibido no Código Penal de 1960.77

A mudança, todavia, ocorreu nos moldes da “legalidade socialista”, que passou a definir o crime como “toda ação ou omissão socialmente perigosa, prevista na lei penal”.78

Em outras palavras, poderá haver exclusão do crime mesmo que um fato concreto, ainda que tipificado em lei, não se mostre perigoso para o Estado socialista.

Desse modo, assinala Sheila J. Selim de Sales, o juiz criminal permaneceu com enorme âmbito de discricionariedade, permitindo que convicções ideológicas influenciassem na decisão, pois só ele “poderá dizer, diante do caso

75

LUISI, Luiz. Um direito penal do inimigo: o direito penal soviético. In.: STREK. Lenio Luiz (Org.).

Direito penal em tempos de crise. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 118.

76

Para aprofundar o estudo sobre o Projeto Krylenko: SELIM DE SALES, Sheila Jorge. Escritos de

direito penal. 2 ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2005; LUISI, Luiz. Um direito penal do inimigo: o direito

penal soviético. In.: STREK. Lenio Luiz (Org.). Direito penal em tempos de crise. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 111-132. A propósito, diante das disposições exemplificativas de 65 delitos particularmente perigosos e 81 menos perigosos em seções separadas dos princípios gerais, o autor admite que, sem muito rigor técnico, há no projeto Krylenko uma parte especial contendo “exemplos” de crimes.

77

Conforme SELIM DE SALES, Sheila Jorge. Escritos de direito penal. 2 ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. p. 74.

78

concreto, se o fato típico praticado pelo agente é ou não socialmente perigoso, mesmo configurando-se todos os elementos da descrição legal”.79

Apesar da vivência do apogeu socialista, que consolidou a União Soviética e confirmou a onipotência do partido do proletariado, os índices de criminalidade mantiveram-se em permanente expansão, contrariando a ideia de que a coletivização dos meios de produção bastaria para eliminar paulatinamente as condutas desviadas.

Em vista dos excessos praticados pelos revolucionários e da profética “sociedade dos iguais”, o Direito Penal socialista, também conhecido como “socialismo real”, não tolerava os “diferentes”, revelando-se, no dizer de Mantovani, “entre as maiores tragédias e fraudes da história humana”.80

Benzer Belgeler