NET PRESENT VALUE IN LEASING
1.1. Konuyla ‹lgili Temel Kavramlar Asgari Kira Ödemeleri (K):
Nas festas populares, os capoeiristas “estava sempre dando o ar da sua
graça96”. O calendário das festividades aparece de forma acentuada no período
correspondente ao verão, de acordo com os manuscritos de Daniel Coutinho
(1909/1977), o Mestre Noronha que nos deixou um rico e inspirador material com suas memórias da capoeira. Através desse manuscrito, podemos dar os primeiros passos para localizar a presença da capoeira nas festas populares da cidade do Salvador; para isso, também contamos com as informações de Waldeloir Rego e com o depoimento oral.
A festa não é o tempo livre e nem o tempo disponível em oposição ao mundo do trabalho; o tempo da festa é a linha de fuga em que ocorre a produção de uma determinada cultura que, historicamente, utilizou-se desses dispositivos para mostrar sua arte de fazer: dançar, comer, namorar, jogar, beber e até mesmo brigar. Em conseqüência, às vezes, a festa se torna, para uma determinada visão de mundo, como: o ópio do povo, alienação, o pecado pelo o não trabalho (“quem trabalha deus ajuda”) e “coisas de vagabundo”.
Para outra visão de mundo, é o momento de ligação do presente com o passado, de sociabilidade entre os sujeitos, de continuidade das tradições, de resistência à produção capitalista na exploração do trabalho – “o direito à bagunça” de conexões entre o profano e o religioso, e, sobretudo as realizações experimentais das paixões humanas. Sendo assim, podemos considerar a festa como momento que não interrompe a cotidianidade e nem mesmo a sua oposição, “é antes, aquilo que renova
seu sentido, como a continuidade o desgastasse e periodicamente a festa viesse recarregá-lo novamente no sentido de pertencimento à comunidade97”.
Abib se refere às “festa de largo” como espaços privilegiados para os capoeiras:
As festas populares, as chamadas “festas de largo”, eram um dos espaços privilegiados onde a capoeira baiana se mostrava e se desenvolvia. Eram os momentos em que os grandes capoeiristas da época exibiam seus dotes e sua destreza, e também, não raro, onde aconteciam confusões, brigas, desordem e perseguições por parte da policia. Mas, sem dúvida, as festas de largo foram espaços importantes de desenvolvimento e de popularização da capoeira baiana,”98
97 MARTIM-BARBERO. Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de
Janeiro: Ed. UFRJ, 2003. p.142
98 ABIB, Pedro Rodolpho Jungers. Capeira Angola: cultura popular e o jogo dos sabres na roda. 2004. f.
Na continuidade desse entendimento, a festa não era o momento todo harmonioso e exclusivamente de alegria e de diversão. Não são esses aspectos que definem as festas populares, mas as contradições sociais de um povo pobre que, mesmo em condições adversas, empreende uma outra produção material e simbólica da cultura e luta para que seus saberes e seus desejos sejam reverenciados. As duplagens culturais aparecem novamente reconhecendo as diferenças culturais e o dinamismo com que estas festas populares são organicamente vividas: de dor e de alegria, prazer e angústia, do riso e do choro, mostrar e esconder. Então vamos a elas.
Ao falarmos em seguida das danças, das brincadeiras e das batucadas não se deve pensar em um único samba de roda, mas nos diversos lugares onde as pessoas se concentravam, de barraca em barraca, de beco em beco, de gole em gole de cachaça. Ocorria uma dinâmica nômade dos participantes ao interagir nos diversos locais. Para tanto, vamos acompanhar as pegadas e os cacos valiosos da história deixados pelo Mestre Noronha:
A primeira festa do cachimbo. Eu mestre Noronha sempre fui procurado para botar capoeira neste grande festa tradicional que antigamente hera na feira do lugar muito perigoso que era nesta de S. Nicodemos agora foi transferida para o cais do porto ....” “Conhecida como festa do cachimbo ande comparicia mutos mest capoeristas com suas gingas de corpo e valentia com suas bouca de calcas largas chapeu cab bento de 3 – prova que era a lei do bamba. Porem todos mi respeitava grossa a deus-xangou.99
A festa de São Nicodemos ou do cachimbo era realizada no mês de novembro e abria o ciclo dos festejos baianos. A festa realizava-se no cais do porto, local frequentadíssimo pelos capoeiristas-estivadores, capoeirista-carroceiro, capoeirista– trapicheiro, enfim, trabalhadores. Dessa maneira, a presença deles neste festejo ocorria “naturalmente” pela configuração geográfica do local.
99 COUTINHO, Daniel. O ABC da Capoeira Angola: os manuscrito do Mestre Noronha. Brasília DF.
(Tocadores de samba100)
No trecho acima, temos vários aspectos que não se restringem ao local da roda, mas à indumentária que os agentes culturais usavam antigamente, como um chapéu “cab bento de 3 – prova” que corresponde à forma de usar o chapéu. A roda era o local onde se instituía uma outra lei com códigos próprios, ou seja, uma outra ordem “que era a lei dos Bambas” e não das instituições do Estado. Através do relato de Noronha, pode considera o corpo enquanto território de linguagem e expressão da ginga e da valentia; o corpo capaz de produzir enunciados coletivos diferentes daqueles que estamos acostumados a ter como referência de beleza e de bons costumes.
A segunda festa referendada pelo Mestre Noronha é a festa da Conceição da Praia que, no calendário, corresponde ao dia 8 de dezembro, embora a festa seja precedida de novena que começa no dia 1 de dezembro. Nossa Senhora da Conceição da Praia e a protetora dos pescadores, e a movimentação da festa ocorre com a
100 Fotografia de GAUTHEROT, Marcel. Bahia: Rio São Francisco, Recôncavo e Salvador . Rio de
procissão pelas ruas daquela localidade, com as barracas vendendo comida típica da terra e bebidas. No turno da manhã, acontece o ritual religioso e, em seguida, o momento profano com as batucadas, muito samba e capoeira.
(Imagem da Festa da Conceição da Praia101)
Através da imagem fotográfica percebe-se a presença maciça da população baiana, tanto durante a procissão, como em seguida nos momentos das batucadas. Todo o perímetro, correspondente à rampa do Mercado Modelo até a Igreja da Conceição da Praia é tomado por uma multidão de pessoas que participam dos festejos. “Na rampa do cais chegam os saveiros e os saveiristas de corpos atléticos,
roupa branca, sapatos novos e chapéus de palha. Durante o ano eles trouxeram peixes e frutas e agora vieram buscar proteção para enfrentar o mar”102 (grifo meu). Os participantes dos festejos vinham das diversas regiões do Estado, pois o fluxo comercial da cidade do Salvador com as outras cidades do recôncavo baiano, naquela época, gerava um mercado comercial intenso. A relação estabelecida entre trabalho e festividade se constituía pela dinâmica da reciprocidade, por uma certa devoção e que deveria ser reverenciada em forma de agradecimento.
101 Credito da fotografia COSTA, Welson Americano. Cidade do Salvador: terra do meu coração.
Salvador: Tipografia Beneditina, 1953. p. 135, 137. .
102 FÉLIX, Anísio. Bahia, pra começo de conversa. Prefeitura Municipal de Salvador. Salvador: 1982. p.
(Baiana de Acarajé na festa da Conceição da Praia103)
Noronha traz os nomes de vários mestres da capoeira e considera a festa da Conceição como a festa da padroeira dos capoeiristas:
“[...] roda de capoeira ande aparecia os grandes mestres da Bahia afamados – Noronha Livino Maré Candido Pequeno Lucio Peqeno – Percilio – Euticio das Mahiadas – Ozeas Ança Preta – Juvenal Engraxate – Agé do pau da Bandeira – Guerado Chapeleiro – Chico 3 Pedaços – Piroca do Peixe – Filriano Bigode de Ceida – Antonio Galindeu – Antonio Boca de Porço – Algimiro Olho de Pombo – Gueraldo Pé de Abelha, Este grandes mestre que com sua jinga de corpo atrahia todois pesoal da festa da padroeira nossa.104”
Dentre vários aspectos importantes, serão considerados dois apenas. O primeiro diz respeito aos nomes dos mestres com seus respectivos apelidos, que é uma prática social à qual se podem atribuir vários significados, desde a brincadeira de criança em colocar apelido, cuja intenção era de ridicularizar o outro, até um certo tipo de relação social na qual o apelido representa semelhanças física com bicho, personalidade, tipo do trabalho, maneira de jogar, fama conquistada por motivos diversos.
103 Credito da fotografia COSTA, Welson Americano. Cidade do Salvador: terra do meu coração.
Salvador: Tipografia Beneditina, 1953. p. 141
Também é muito corriqueiro, no sistema carcerário, as pessoas serem identificadas por um apelido, como uma forma de construção de uma outra identidade. Os estigmas criados a partir dos apelidos que muitas vezes reforça estereótipos pejorativos. Assim os processos de identificação dos capoeiras, considerados valentões, vagabundos, desordeiros e capadócios, surgiu a partir das condições sociais de um povo sem direito às condições básicas de vida e que foi determinado por uma ordem vigente para caracterizar aqueles que não seguiam os “bons costumes’. Alguns desses Mestres citados foram sujeitos da pesquisa realizada por Adriana e Josilvaldo Pires que buscaram compreender o cotidiano dos capoeiras na capital baiana, investigando as relações de poder no espaço público “assim como as estratégias de
resistências aos mecanismos de repressão, sobrevivendo como uma prática social105”.
O segundo aspecto, que toca diretamente a problemática do trabalho, está relacionado com a potência do corpo no seu gingado para atrair não só os capoeiristas, mas também o publico presente à festividade. O corpo é o elemento de comunicação, de sedução e de encantamento das imagens formadas para quem assiste à roda, é o desejo de seduzir o público para que ele perceba os saberes culturais que os capoeiristas produzem na sua arte de fazer. Através da roda de capoeira e de samba potencializa a vontade de quem quer ser visto.
105 OLIVEIRA, Josivaldo Pires. Pelas ruas da Bahia: criminalidade e poder no universo dos capoeiras na
Salvador republicana (1912-1937). 2004. f. 11. Dissertação (Mestrado em História)- Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, 2004.
(Roda de Samba na Festa da Conceição da Praia106)
Na festividade “o choro é de berimbaus, pandeiros, reco-reco, agogôs e
atabaques. As negras mais velhas ostentam os seus balanandãns”, pano da costa,
saias rendadas e se misturam com os gringos nas barracas ou nas rodas de samba para o samba de roda. Capoeira pode matar um”107,”. O estrangeiro (o gringo) o participante-espectador do samba de roda e da capoeira levava não só a simples curiosidade em contemplar as danças e as brincadeiras, mas a sua própria satisfação de se divertir como parte integrante da festa.
O acolhimento pelos produtores culturais “os de dentro“, pelos os “de fora” perpassam por reposições históricas que podem representar inúmeros interesses que vão desde a vontade de mostrar a sua cultura, como elemento importante da sua história até os benefícios em conseguir um trocado a mais.
A festa de Santa Bárbara, da qual os capoeiristas participavam, conforme o Mestre Noronha, é outra festa importante na tradição festiva da cidade. É realizada no Mercado de Santa Bárbara, na Baixa do Sapateiro, no dia 4 de dezembro, iniciando-se com uma missa na Igreja do Rosário dos Pretos, no Largo do Pelourinho. Após a missa,
106 Credito da fotografia COSTA, Welson Americano. Cidade do Salvador: terra do meu coração.
Salvador: Tipografia Beneditina, 1953. p.143
107 FÉLIX, Anísio. Bahia, pra começo de conversa. Prefeitura Municipal de Salvador. Salvador, 1982. p.
os fiéis saem pelas ruas em procissão pelas ruas do Terreiro de Jesus, Praça da Sé, descem a Ladeira da Praça e pára no quartel do Corpo de Bombeiro de quem a Santa é Padroeira.
No dia 5, a festividade continua no mercado de Santa Bárbara com muito samba e capoeira, terminando, no dia seguinte, com o tradicional caruru de 50 mil quiabos, pois no candomblé a santa é reverenciada por Iansã, deusa do raios e do trovão, cujas cores das veste são vermelha e branco, “ao som do de atabaque, pandeiros,
berimbaus. Capoeira era joga pra valer. São desta época os capoeiristas Pedro Porreta, Pedro Piroca, Chico Três Pedaços e Brocoló, além de outros temidos valentes que nem
mesmo com a presença da policia se intimidavam”108. Os personagens citados por Félix
são figuras conhecidas pela historiografia da capoeira baiana.
O local da roda no “...mercado da tradicional baixa dos Sapateiros para disputar
ceu gope de alta tracão de sua defeiza para o público dar o seu valor como
capoeirista109”, Mestre Noronha mostra a disputa com um golpe de alto impacto para o
público presente dar valor, ou seja, a peleja entre os corpos, um cobrando um golpe do outro. Com isso, fica evidente que o público gostava de ver um tipo de jogo que não se restringe apenas à brincadeira ou apresentações, mas o desafio constante de quem está jogando com a intenção de pegar, desequilibrar, derrubar o seu oponente.
Mestre Noranha já começa a se referir ao espectador, capaz de perceber, no jogo da capoeira, aquele corpo-capoeira que por um instante conseguiu desequilibrar o seu oponente. A valorização do corpo-capoeira pelo seu êxito dada pelo espectador, revelando a importância do público naquele momento, ou seja, não era um simples observador, mas um avaliador que se manifestava com semblantes assustados, rostos risonhos, caretas, pequenos comentários e outras gesticulações. Então, o olhar do público tinha um valor significativo para o jogador, portanto, ele se preocupava em não cair com a “bunda no chão”, pois, como fala Mestre João Pequeno “a pior situação para
o capoeirista é cair com a bunda no chão”
Em seguida, Mestre Noronha, nos seus manuscritos, considera a festa de Santa Luzia, comemorada no dia 13 de dezembro. Essa festa também é precedida de novena,
108 Idem. p. 8
109 COUTINHO, Daniel. O ABC da Capoeira Angola: os manuscrito do Mestre Noronha. Brasília DF.
e a realização da festa ocorre no largo da Igreja do Pilar. Para os fiéis, a principal atração é uma fonte milagrosa na igreja do Pilar, onde os fiéis banham os olhos e, através da fé, busca-se a cura de doença ou a proteção de enfermidades. Noronha escreve o seguinte: “somo convidados pella commicão do festeijo para bota a
tradicional Capoeira Angola...110” A comissão de festejo geralmente é organizada pelos
moradores do bairro, os devotos da Santa, a instituição pública e a comunidade. O convite revela o reconhecimento que é dado aos capoeiristas na festa, uma certa importância deles na festividade, enquanto personagens históricos nas tradições populares da Bahia.
Outra festa famosa e rica de intensas relações sócio-culturais do povo baiano é a festa do Rio Vermelho, conhecida como festa da rainha do mar, Yemanjá, realizada no dia 2 de fevereiro, no largo de Santana, junto à igreja de Nossa Senhora de Santana, na casa de peso dos pescadores onde são recebidas as oferendas para serem ofertadas à rainha das águas, Yemanjá, Nas ruas do bairro, as barracas ficam repletas de gente comendo, bebendo e dançando. Pela tarde, as embarcações seguem em procissão para colocar os presentes. Noronha descreve “... Rio Vermelho Lucaia 2 de
fevereiro capoeira candrobé e muito pai de santo e mãe de santo e...” “... de muito saveiro para levar o presente da mâe dauga, no alto mar...”111
O mestre evoca elementos que compõem a festa de Yemanjá. Percebemos que ele traz referências fortíssimas ao candomblé enquanto instituição religiosa que tem importante contribuição na realização das festas, referindo-se também a um certo de alinhamento da capoeira com o candomblé e o samba, mostrando a força da espiritualidade nas práticas culturais e como elas vão interagindo umas nas outras. No entanto, isso não quer dizer que a capoeira tem os mesmos aspectos do candomblé, mas há ligação que os sujeitos históricos estabelecem ao interagir com essas duas organizações.
110 Idem, p. 5
(O capoeirista plantando bananeira e o outro marcando o dinheiro com o pé112)
A fotografia acima compõe o cenário de outras fotografias presentes no livro Bahia Boa Terra Bahia na parte referente à festa do Rio Vermelho. A fotografia congela o momento em que o corpo-capoeira, plantando bananeira, se prepara para pegar com a boca o dinheiro em cima do lenço e também o seu oponente-parceiro, com o pé, marcando o território.
Esse tipo de jogo, o mestre João Pequeno denominou como “pega laranja no
chão tico-tico”, que consiste num tipo de jogo em que os jogadores têm o objetivo de
pegar o dinheiro com a boca e, ao mesmo tempo, impedir que o opoente-parceiro o pegue. Para o mestre Gigante “é difícil apanhar o dinheiro na boca, o outro que ta
jogando, ele não deixa, e não deixa você apanhar, aquele jogo que você botar o pé, quando você vai com a boca pra apanhar o dinheiro, bota o pé pra apanhar o dinheiro, é aquele protocolo pra você apanhar o dinheiro113”.
A performance do corpo-capoeira em jogo é impressionante; ele deve ficar atento não só para evitar que o outro jogador pegue o dinheiro, mas também para a própria
112 Fotografia de Piere Veger, retirado do livro de AMADO, Jorge. DAMM, Flávio. CARYBÉ. Bahia, boa
terra Bahia. Rio de Janeiro: Agencia jornalística IMAGE, 198-. p. 47
113 ASSIS, Francisco de. Mestre Gigante. Entrevista realizada na sua residência Av. Cardeal da Silva
complexidade do jogo de atacar e se defender. O dinheiro, geralmente colocado pelo público, deve ser conquistado pela sua capacidade tática e técnica no jogo, mesmo que seja uma aparente simulação. A brincadeira e o jogo dramático de atacar e defender e pegar o dinheiro com a boca institui uma outra dinâmica cultural que estabelece fortes laços entre os que observam o jogo com os que jogam.
(Jogadores disputando o dinheiro no jogo “pega laranja no chão tico-tico”114)
Embora o capoeirista use todo o seu repertório motor para obter êxito, a boca, cavidade situada na cabeça, delimitada externamente pelos lábios e intimamente pela faringe que a faz abertura inicial do tubo digestivo, nesse tipo de jogo, tem significado importante; ela é um dispositivo cultural que, além de incrementar as dificuldades do jogo, representa as estratégias utilizadas pelos capoeiristas de criar novos artifícios para chamar atenção do público, funciona de mais um atrativo para, entre tantos. Mestre Gigante explicou que o dinheiro servia para “tomar tangerina”:
114 Fotografia de Piere Veger, retirado do livro de AMADO, Jorge. DAMM, Flávio. CARYBÉ. Bahia, boa
era nas festas de largo, fulano, um dia de domingo. Você tem berimbau? Tenho. Você tem pandeiro? Tenho. Vamos pra porta do armazém do fulano de tal, assim, assim, e assim? Vamos. Era isso. Ai estava todo mundo sem nada, coitadinho, e querendo todo mundo tomar refrigerante, entendeu? Ai ia pra porta da venda, e formava uma roda, e jogava um dinheiro pra apanhar com a boca, e hoje não se fazia mais isso. Então, aquele dinheiro, é pra ser dividido com todos, quem jogava e quem não jogava, e ai, eles tomavam uma pingazinha, coisa ai e tal115.
Se os “bons costumes” consideram o dinheiro como uma coisa suja, e que as pessoas têm que lavar a mão após o manuseio, no jogo em que é entoado um determinado toque no berimbau, que Mestre Gigante tocou para gente durante a entrevista, bem como entoou a letra: “pega laranja no chão tico-tico, se meu amor for se
embora, eu não fico”, pegar o dinheiro com a boca é um ato de sagacidade, de
esperteza e de elogios do público.
Seguindo as pistas deixadas pelo o Mestre, a partir de suas lembranças e não a ordem do calendário “oficial”, passamos para a festa do Senhor do Bonfim. Noronha cita a festa do Senhor do Bonfim, padroeiro da Bahia e que corresponde, no candomblé, a Oxalá, como a maior tradição da Bahia. Essa festa, ou a Lavagem do Bonfim, consta de um cortejo que sai da porta da Igreja da Conceição da Praia e vai até a Sagrada Colina, com a participação popular.
Na região embaixo da colina, após a lavagem da escadaria da igreja, a festa continua e vai até o domingo. Noronha descreve vários tipos de manifestações populares presentes na festa do Bonfim: “ ... ternos de reis ranxos bunba meu boi e
outras divercão –batu – san – de meia travesa caminzão – barravento – são as 3 catigoria de samba na roda de Bamba)....”116 Na tradicional festa do Bonfim, as manifestações populares de todos os gêneros participam do cortejo que é regado com muita dança, comida e bebida. Muitos vão a pé ou nas carroças enfeitadas e após o ritual do cortejo e da lavagem da escadaria da igreja do Bonfim,“os pobres iam para os
botequins volantes, o samba, a capoeira, o ar livre das praças. Os ricos, para os salões ou construções abarracadas atrás da igreja jantar e ouvir modinhas”117.
115 ASSIS, Francisco de. Mestre Gigante. Entrevista realizada na sua residência Av. Cardeal da Silva