70 Pena-Casas-Degryse-Pochet, s.11.
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Os 20 poemas seguintes – a maior seqüência de Tempo espanhol – adentram Castela e o denominado Siglo de Oro, que entre os séculos XVI e XVII correspondeu ao período de maior esplendor nas artes espanholas. Murilo explicitou a importância crucial desses espaço e tempo espanhóis: “(...) o ambiente da meseta castelhana remete-nos a uma época nuclear da Espanha: quando de novo se encarna historicamente o tema da vocação sagrada do homem, aperfeiçoando-se a disciplina dos sentidos, ampliando-se a visão das fronteiras da morte; quando a consciência das duas tarefas, a terrestre e a transcendente, se resume na pessoa de Santa Teresa, segundo alguns tão reveladora da substância espanhola quanto Cervantes.” (PCP, 1144). Para a Antologia poética de 1964 que ele mesmo preparou, o maior número de poemas de Tempo espanhol advém desse período.371
Seguindo a tradição dos escritores da geração de 98372 – Murilo foi,
naturalmente, leitor de Unamuno e Azorín, entre outros – revisita o tópico da Castela escassa e áspera:
Na estepe de Castela o homem mede a sede, Mede o sol, desdém e força.
Na estepe de Castela
O homem mede suas malandanças, Caminha com a rudeza a tiracolo. Na estepe de Castela
Campos desnudos, vento e argila, Céu côncavo, cifrado,
Determinam o espaço substantivo,
371
“Santa Teresa de Jesus”, “São João da Cruz”, “Lida de Góngora”, “Tema de Calderón” e “Tempo de Quevedo” (Lisboa: Livraria Morais Editora, 1964).
372
O estilo do silêncio
E o silêncio cria o homem de Castela. (“Homenagem a Cervantes”, PCP, 587- 588)
As noções de concretude e depuração – associadas na imagem do “silêncio e solidão sólidos” de Toledo – , que caracterizam Tempo espanhol, encontram nessa parte sua formulação mais veemente.
Murilo, jamais circunscrito por um tempo determinado, estabelece paralelos entre o Siglo de Oro e o século XX, conjugando passado e modernidade. O início do poema “Ávila” aproxima o movimento do vôo sobre a cidade castelhana da experiência mística de Santa Teresa: “O avião abrindo curvas dá guinadas/ Como os movimentos da alma na escrita de Santa Teresa.” (PCP, 584). Por outro lado, como repetiria em várias passagens de Espaço espanhol, o avanço do progresso pode interferir em toda uma tradição:
(...)
Castela interior que me demarcas, Correspondes à outra Castela clássica, Ameaçada Castela: aqui a indústria
Já inaugura sua máquina indiscreta. (“Homenagem a Cervantes”, PCP, 588)
Desde que retire os homens da sua condição precária, o poeta não se opõe ao desenvolvimento. A resistência – uma das palavras-chave de Tempo espanhol – ao tecnicismo da época atual virá da memória do patrimônio artístico da Espanha, no poema em questão, o maior símbolo dele:
Mas, se deve nutrir teus homens secos,
Que venha e permaneça a máquina indiscreta: Frente ao excesso mecânico da técnica,
Frente a moinhos com radar, Dulcinéias de vidro, armaduras atômicas,
Responderá o equilíbrio de Cervantes. (PCP, “Homenagem a Cervantes”, 588)
A transposição de El Quijote ao presente do poeta dá-se também com outro texto fundamental do Siglo de Oro, La vida es sueño, no poema “Tema de Calderón”. Segismundo, ao ser retirado de sua “torre atômica”, depara-se com o desconcertante cenário de um centro urbano:
(...)
Caminho entre semáforos e máquinas. São andaimes, passos arritmados, poeira, As pequenas combinações da vida, suor,
A linguagem dos ácidos, nada álacre. (PCP, 597)
As dúvidas do Segismundo original ampliam-se e tornam-se os dilemas do intelectual contemporâneo:
(...)
Quem finalmente sou, esqueleto letrado, Alienado eco? A injustiça não me cabe A mim só: qualquer um a reclama e recebe. Mas eu sonho a injustiça, ou a suporto? Eu sonharei a vida, ou a vida me sonha?
Aprendi do meu sangue, ou da essência de Espanha? Calderón, ainda no contexto atual do século
LA VIDA ES SUEÑO. (PCP, 597)
De todos os modos, na leitura do ensaio “Escila y Caribdis de la literatura española”, de Dámaso Alonso373, Murilo destacara que o segredo do Siglo de Oro
estava na síntese da tradição medieval espanhola e do Renascimento europeu: “Esta es la clave del momento culminante de España, del momento en que se concentran nuestras energías y nuestros valores; por eso ha de ser también la explicación de toda el alma española.”374 Ernest Robert Curtius, em seu clássico
Literatura Européia e Idade Média Latina, defende a importância do Siglo de Oro ao se valer da noção de “teatro do mundo”, totalidade que seguramente fascinou Murilo: “(...) A literatura áurea espanhola conservou a substância do Ocidente cristão. Via na história um ‘arquivo dos tempos’ em que os povos de todas as épocas e lugares tinham consignadas suas recordações. Os reis e heróis, os mártires e camponeses são atores do grande teatro do mundo. Poderes sobrenaturais intervêm nos destinos. Tudo é dominado pelo encadeamento da graça e da sabedoria de Deus.”375
Além de acompanhar em suas leituras o desenrolar do “teatro do mundo”, recuperou o freqüentado tópico da brevidade da vida em “Inspirado em Lope de
373 V. Capítulo 2. 374
ALONSO, Dámaso. Estudios y ensayos gongorinos. Op. cit., p. 24. 375
CURTIUS, Ernest Robert. Literatura européia e Idade Média Latina. Trad. Teodoro Cabral e Paulo Ronái. São Paulo: Hucitec: Edusp, 1996, p. 195-1966.
Vega” e principalmente em “Tempo de Quevedo”, peça importante na concepção da História em Tempo espanhol:
Quevedo, a angústia do tempo Informa tua visão concreta.
A Espanha sem relógio mede o tempo No instrumento elíptico da caveira. Mas o último anjo, matemático, Virá para reunir a caveira geral, Virá para ceifar todo o angelismo: Empunhando a trombeta construída Com implacável certeza,
Medida e timbre justos, Fará o homem se conhecer Nos seus limites precisos. O tempo se medirá, concreto, Depois de esgotada a clepsidra. E tua angústia do tempo
- Tansitório Quevedo que já foste -, Aferida a rigor, torna-se vã.
Saberás. Saberás. (PCP, 597)
A representação do “fim dos tempos”, comum em obras como Tempo eternidade e Poesia liberdade, retorna em Tempo espanhol avaliada pelas diretrizes de sua poética: matemático, construída, justos, rigor. O que é direcionado a Quevedo vale para as outras figuras da coletânea, “transitórias” e que “já foram”, as quais, no Juízo Final, encontrarão a eternidade.