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Construído no século 14, o castelo impressiona por seu exterior, que se destaca da paisagem sobre uma colina solitária.

(ADRIANA SETTI)

Junto ao movimento estético romântico, na área da arquitetura, um movimento, que, assim como os românticos, buscava uma retomada de alguns valores contrários aos neoclássicos, nasceu a partir de 1780: o Neogótico.

Assim como o vampiro, como conhecemos hoje, veio de uma associação com a estética do Romantismo, um dos símbolos máximo desse vampiro é seu Castelo que, por razões óbvias da retomada do ar sombrio dos castelos medievais, para assossiar-se ao estereótipo vampírico, foi “construído” sobre a estética do Neogótico.

Todas as referências arquitetônicas do Neogótico expressaram uma atmosfera que inspirou o mito do vampiro. O castelo mais famoso é o do Drácula, de Bram Stoker.

Sob a influência do Neogótico, o Castelo de Bran fica localizado próximo de Bran Pinto (na vizinhança da cidade de Brasov, no condado de mesmo nome). Hoje é um monumento nacional e marco histórico da Roménia.

A fortaleza está localizada entre as fronteiras da Transilvânia e Valáquia, encravada na floresta no sopé dos Cárpatos. Conhecido habitualmente como o "Castelo do Drácula", foi denominado como a residência da personagem que dá título ao romance Drácula, de Bram Stoker, obra que, ao utilizar o castelo sob influência neogótica promoveu a persistência do mito de que este castelo teria servido, em tempos, de residência ao Príncipe Vlad Tepes, então governador da Valáquia.

Imagem 13: O castelo de Bram. Fonte: Wikipédia

Imagem 14: Cruz na entrada do castelo de Bram. Fonte: Andarilhos do mundo.

Imagem 15: Castelo de Bram. Fonte: Wikipédia.

O príncipe Vlad Tepes, apelidado de "o Empalador", que serviu como fonte de inspiração histórica para a personagem principal do romance Drácula, utilizou o castelo com fins militares durante o seu reinado no século XV. É provável que o príncipe tenha passado vários dias fechado nas masmorras enquanto os otomanos controlavam a Transilvânia.

A associação romântica e vampírica a esse governante, bem como os conceitos neogóticos de suas torres pontiagudas e a sua localização remota, têm rendido fama ao castelo, uma vez que o local constituiu um cenário perfeito para um filme de terror.

Assim, com as características do Romantismo e do Neogótico, tendo como exemplo o romance de Bram Stoker, percebemos um continuísmo histórico das características dessas estéticas, aplicadas em mitos que perduram até a atualidade.

Pois percebe-se, até os contos vampíricos atuais, a utilização de castelos ou moradias sóbrias, escuras e afastadas da cidade, com a finalidade de preservar e esconder o vampiro e seu clã, permitindo-lhes o resguardo necessário.

Para a idealização dessa nova estética, houve um crescente interesse sobre a era medieval, alguns connoisseurs margearam uma abordagem apreciativa com relação às artes produzidas pelos medivos, mais precisamente nas arquiteturas, artes funerárias, vitrais e iluminuras.71

Chamado de Neogótico, Anglican Gothic Revival, Gothic Revival, Neo-Gothic, Néo-gothique, Style à la cathedrale, Style Troubadour e Victorian Gothic, surgiu na França do século XVIII, quando Alexandre de Laborde, erudito, afirmou que “a arquitetura gótica tem uma beleza própria”, sendo algo inovador à França Neoclássica.

A forte questão nacionalista e uma necessidade sentimental, agregadas às figuras heroicas nesse ressurgimento social, foram marcantes o suficiente para que houvesse essa nova estética.

O pitoresco das ruínas medievais chamava a atenção dos britânicos e alemães, que elevaram esses traços ao status de qualidades estéticas. Tanto que detalhes góticos, como exemplo, da Villa Twickenham, Walpole, por volta de 1770, continham apelo rococó.

71Cf. FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. 2ª. Edição. Tradução: Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2008. E MENEGUELLO, Cristina. Da ruína ao edifício – Neogótico, reinterpretação e preservação do passado na Inglaterra vitoriana. São Paulo: Annablume, Fapesp, 2008.

Imagem 16:Villa Twickenham, Walpole. Fonte: Site Portraitminiature.blogsopt

Arquitetos neoclássicos, como Robert Adam e James Wyatt, promoviam detalhamentos góticos em salas, bibliotecas e capelas, buscando inspirações românticas em uma abadia gótica, a Abadia de Fonthill (1823) em Wiltshire.

Assim, de acordo com Pugin (in: Dias, 2008)72, a estética neogótica teria como principais características a decoração como enriquecimento da estrutura arquitetônica essencial, a adequação dos materiais utilizados aos tipos de construções, uma grande correspondência entre o interior e o exterior, a retirada de qualquer elemento que não fosse necessário à comodidade, à estrutura e à conveniência e, por fim, a capacidade de exprimir com objetividade a finalidade que cada construção deveria ter.

72C.f. O SÉCULO XIX E O NEOGÓTICO NA ARQUITETURA BRASILEIRA: UM ESTUDO DE CARACTERIZAÇÃO. Publicado por Pollyanna D´Avila G. Dias em Revista Ohun, ano 4, n. 4, p.100- 115 , dez 2008.

Imagem 17: Abadia de Fonthill (1823), gravura da época. Fonte: Wikipédia.

Com projeto de William Adam, o Castelo de Inveraray, construído em 1746, assinala os primeiros sinais neogóticos na Escócia. Apesar das referências góticas, o neogótico buscava um artificialismo pitoresco de outras estéticas, não buscava o ideal medieval. Essas novas construções ignoravam o conceito estrutural gótico, apenas ornamentavam com arcos ogiavais, contrafortes e torres agulhadas.

Imagem 18: Castelo de Inveraray, Escócia. Foto: Harry_nl (nome fictício, retirado da internet), 2006.

Seguindo uma geração, a arquitetura e os conceitos estéticos do gótico passaram a ser utilizados com maior frequência, passou-se até a criar características desse Neogótico, como exemplo a Attempt to discriminate the styles

of English arqchitecture from the Conquest the Reformation, preceded by a sketch of the Grecian and Roman orders, with notices of nearly five hundred English buildings, de Thomas Rickman, escrita em 1814.

A proposta do Neogótico foi de rompimento, assim como o Romantismo, com as normas clássicas, superando as regras do desenho arquitetônico instituidas por Andrea Palladio (1508 – 1580), na arquitetura britânica entre 1715 – 1750. Caracterizando-se pela simetria e regularidade, era conhecido como palladianismo.

Na Europa do século XVIII, a referência ao passado estava em evidência, devido a diversosfatores, entre alguns, os ideais românticos, as descobertas arqueológicas de Herculano e Pompeia e os trabalhos do gravurista e arquiteto Piranesi. A “romantização do passado” ocorreu emdiversas áreas do saber, incluindo a arquitetura. O movimento romântico deu-se primazia ao subjetivismo e à poiesis buscando abandonar osvalores teóricos dos clássicos e neoclássicos, sobrepondo a sensibilidade à razão.

(DIAS, 2008, pp. 100-115)

A superação dessa estética frente ao que foi produzido deu-se pela busca por assimetria e irregularidade das linhas nas construções, criando efeitos insólitos e surpreendentes. O efeito positivo dessa nova forma de construção foi validado pela vitalidade do repertório técnico e formal do gótico, como em obras de arquitetos como Christopher Wren (1632-1723), John Vanbrugh (1664-1726) e William Kent (1684 ou 1685-1748).

Apesar de, no início, o conceito do Neogótico ter sido apenas detalhes, como o arco ogival e torres agulhadas, acrescidos às construções Neoclássicas; no ano de 1830, Arcisse de Caumont consolida bases para um ressurgimento do Gótico na França. Fundou a Societé des Antiquaires de Normandy epublicou um número grande de trabalhos sobre arquitetura normanda.

Essa retomada dos valores Góticos que a França estava utilizando, nos anos subsequentes a 1830, foi de vital importância para a consolidação das bases neogóticas. A novela de Victor Hugo, Notre Dame de Paris, na qual, a catedral era, ao mesmo tempo, cenário e protagonista obteve um grande sucesso. Essa influência ficcional da novela fez a monarquia francesa criar o posto de Inspetor-Geral de

Monumentos Antigos, gerido por Prosper Merimée em 1833. O arquiteto Viollet-le-

iniciar restauros nos edifícios mais simbólicos da França, como a Catedral de Notre Dame, Vézelay, Carcassone, Saint Chapelle, o Castelo de Roquetaillade, a Abadia de Monte Saint-Michel e o Palácio Papal de Avinhão.

Imagem 19: Catedral de Saint Chapelle – Paris. Fonte: Restaurada por Viollet-le-Duc

Como principal nome do movimento Neogótico, arquiteto e teórico, Viollet-le- Duc atuou como grande nome francês no restauro de edificações. Mesmo sem ter o conhecimento dos modelos de construção original, le-Duc não hesitou em substituir elementos originais do Gótico. Com sua interpretação e abordagem lógica do Gótico, estava em contraste com as origens românticas desse movimento estético, sendo considerado como um prólogo para uma verdadeira estrutura moderna.

Com a inserção do ferro como matéria prima a ser empregada em construções do Neogótico, além da pedra, le-Duc viu-se em um impasse. Respeitava o gótico arqueológico de Ruskin, ou seja, um respeito à estrutura original gótica, edificações feitas somente em pedras, entretanto, considerava o ferro como material importante e, devido à industrialização, fundamental para as construções modernas. Os preceitos de uma estruturação original foram perdendo força, em meados do século XIX, quando edificações começam a ser erguidas com estruturas pré-fabricadas, como o Palácio de Cristal, de ferro e vidro, e o pátio envidraçado da Universidade de Oxford, com princípios góticos feitos a partir do ferro.

O teórico inglês Augustus Welby Nothmore Pugin (1812- 1852) a partir de 1831 publicou diversos volumes sobre o gótico e projetou a Casa do Parlamento em Londres. Posteriormente, outro teórico inglês, John Ruskin escreveu The Seven Lamps of Architecture (1849) e The Stones of Venice (1853) onde defendeu que a arquitetura contemporânea deveria possuir um ideal revivalista.

Pugin (1812-1852) classificou os seguintes princípios para orientação do movimento neogótico:

1) A decoração como simples enriquecimento da estrutura essencial;

2) A adequação das construções às características dos materiais empregados;

3) A correspondência entre interior e exterior;

4) A exclusão de qualquer elemento que não seja necessário à comodidade, à estruturae à conveniência; 5) A capacidade de exprimir claramente o fim ao qual cada edifício é destinado.

Em Entretetiens sur l’architecture, entre os anos de 1863 e 1872, le-Duc

apresentou ousados projetos de edificações que combinavam ferro e pedra, influenciando arquitetos importantes como Gaudí na Espanha e Bucknall na Inglaterra. Essa nova arquitetura metalizada, ou Gótica metalizada, como foi conhecida à época de Viollet-le-Duc, proporcionou estruturas flexíveis, possibilitando soluções improváveis, o que não ocorreria apenas com pedra, como exemplo a ponte Calvert Vaux no Central Park de Nova Iorque. Esse novo tipo de construção pode ser considerado como o presságio do que seria a estética do Art Nouveau no final do século XIX.

Imagem 20: Ponte Bow Bridge – por Calvet Vaux – construída em meados do século XIX. Fonte: wikipedia

O Neogótico estava maduro o suficiente na Inglaterra, tanto que Charles Locke Eastlake, professor, produziua History of the Gothic Rerivalism, em 1872, e posteriormente, em 1928, Kenneth Clark escreveu um ensaio mais completo:The

Gothic Revival: An Essay.

O movimento do revivalismo gótico foi ao encontro de uma estrutura social cristã inglesa. A Igreja nacional experimentava o ressurgimento da ideologia e dos

ritos anglo-católicos, chamado de Movimento de Oxford, ou a Eclesiologia. Assim, tornou-se necessária a construção de novas igrejas que reunissem a crescente população.

Os organizadores do movimento eclesiológico tinham a certeza de que a estética do Gótico era a única adequada para uma igreja paroquial, privilegiando uma das vertentes góticas, o gótico decorado.

[…] O termo pode vir a designar uma congregação local, uma denominação, uma causa, a igreja de caráter universal ou “invisível” ou até um prédio onde se reúne um grupo de adoradores. Em cada contexto deve-se assegurar qual o uso que se faz do termo. Usaremos aqui como definição prática de igreja, “um agrupamento de crentes que vivenciam um relacionamento de dependência (fé) em Jesus Cristo, unindo-se para cumprirem a missão entregue por Deus”.

[…] Na Bíblia, a igreja não é uma instituição, mas um organismo vivo que se vai transformando em termos organizacionais. De certa forma, a igreja é, conforme implicação de Romanos 9.25 e 1a Pedro 2.9-10, o povo de Deus em desenvolvimento. Logo, ao tratar da igreja, é necessário tratar de dois aspectos da mesma: o organismo e a estrutura organizacional que se vêm desenvolvendo naturalmente. Esta é necessária, mesmo que não deva ser vista como o aspecto principal.

[…] é de uma assembleia, tratados por muitos no sentido de “comunidade”. Geralmente se pensa em termos de haver uma convocação de caráter político, sendo uma reunião do povo para decidir ou ouvir decisões de importância geral para o mesmo. […].

(HARBIN, 2006, p.04).

A influência neogótica do século XIX teve seu continuísmo e materializou-se em construções contemporâneas, como na construção, na segunda metade do século XX, como a Catedral de Leverpool, de Giles Gilbert Scott, a reconstrução do campus da Universidade de Yale, por James Gamble Rodgers e os primeiros prédios do Boston College, de Charles Donagh Maginnis. O arquiteto, Ralph Adams Cram, da Catedral de São João, o Divino, em Nova Iorque, afirmou que “o estilo concebido e aperfeiçoado por nossos ancestrais é incontestavelmente uma herança nossa.

Imagem 21: Boston College. Fonte: Panoramio.

O Neogótico foi a fonte de inspiração para a construção física dos castelos dos vampiros, pois se somou à irregularidade e à presença das construções góticas com todo o sentimentalismo romântico, consubstanciado na construção do mito do vampiro moderno. O castelo ajudava na caracterização sombria do vampiro.

A Idade Média foi lida de maneiras pessoais pelos românticos, que tinham uma visão imaginativa e próxima ao folclore medieval, cheios de superstições. Tinham uma percepção um tanto diferente do ideário da estética do Gótico original, mas mais próxima da, como afirma Duby, ideia de iluminação: Luz, perseguição de

um Deus encarnado, lucidez, lógica: a nova estética, em 1190, está implantada em todo o Norte do reino, de Tours a Reims (DUBY, 1978. p.129).

Desse modo, castelos medievais, casas em ruínas e igrejas góticas fazem parte do repertório empregado por essa forma estética. É interessante notar que o Romantismo, dando continuidade às mudanças culturais do século XVIII, explora uma sensibilidade poética ligada à contemplação das ruínas. Umberto Eco chama a atenção para o fato de que “a ruína é apreciada exatamente por sua incompletude, pelos sinais que o tempo inexorável lhes deixou, pela vegetação inculta que a recobre, por seus musgos e suas fissuras” (ECO, 2004. p.285).

Essas ruínas normalmente se situam imersas dentro da natureza; contudo, diferentemente da tradição neoclássica, a natureza romântica pode se configurar não só no seu registro pitoresco, mas também no âmbito do sublime, entendido por Kant como aquilo que muitas vezes nos conduz para a experiência da comoção.

(MARTONI, s/p).

Imagem 22: Catedral de Trondheim. Fonte: Revista Brasil-Europa

Benzer Belgeler