Toda geração se rebela de algum modo contra as convenções de seus pais; toda obra de arte expressa sua mensagem a seus contemporâneos não só pelo que contém, mas pelo que deixa de conter.
(ENRST GOMBRICH)
Com a ascensão da burguesia ao poder francês em 1789, surgiu a necessidade, frente às artes, de se ter uma estética que comportasse o contexto social e com o perfil dessa nova sociedade. Para Argan (1992, p. 12), com o “anti- historicismo próprio do Iluminismo” a tradição clássica se interrompe. “Só mais tarde porém, com os impressionistas, sairá definitivamente do horizonte da arte”.
Argan, em seu livro A arte moderna, afirma a consolidação da filosofia da arte
a partir de meados do século XVIII, em duas teorias de mundos diferentes, o Neoclássico e o Romantismo. Essas teorias se opõem e convergem pelas consciências criadas pelos processos da Revolução Industrial, da Revolução Francesa e conquistas napoleônicas, para uma possível unidade cultural, que talvez pudesse culminar em uma unidade também política na Europa.
A chamada burguesia capitalista industrial consolidara um padrão estético e artístico próprio, o Neoclássico. Em forte oposição a esses padrões aristocráticos vigentes, há quase três séculos, buscou-se um novo conceito que abarcasse a arte e a sociedade: O Romantismo.
Os rápidos desenvolvimentos do sistema industrial, tanto no plano tecnológico como no econômico-social, explicam a mudança contínua e quase ansiosa das tendências artísticas que não querem ficar para trás, das poéticas ou correntes que disputam o sucesso e são permeadas por uma ânsia de reformismo e modernismo. [...]
O desejo de uma arte que não seja apenas religiosa, mas expresse o ethos religioso do povo... e restitua um fundamento ético ao trabalho humano, que a indústria tende a mecanizar, leva à revalorização da arquitetura gótica”. “Na arquitetura gótica a nova civilização
industrial vê não só um antecedente, mas a prova de uma ‘espiritualidade’ que o tecnicismo moderno, pelo menos em teoria, não deveria negar e sim exaltar. [...]
A pintura romântica quer ser expressão do sentimento; o sentimento é um estado de espírito frente à realidade... sendo o sentimento o que há de mais natural no homem, não existe sentimento que não seja sentimento da natureza.
(ARGAN, 1992, p. 17/ 29/ 33).
Essa nova era artística europeia, surgindo em oposição ao Renascimento e ao Barroco, eleva o nível teórico da filosofia da arte; surgindo um ideal de arte absoluta, um entendimento da Arte não mais como uma forma simples de se compreender a realidade, a transcendência religiosa ou a moralidade. Esse novo conceito de arte buscava, para a Arte, um fim em si mesmo, a criação deveria ser uma experiência primária, introspectiva, sensorial e não mais derivada de fatores externos ou de uma realidade observada.
Assim, de acordo com Argan67, o Romantismo consubstancia a ideia de que a
arte deva ser representada como inspiração, mas não seria uma intuição do mundo, nem revelação ou profecia de verdades arcanas, mas sim um momento de recolhimento e reflexão, a compreensão da renúncia ao mundo pagão dos sentidos, ou do pensamento de Deus, dos dogmas cristãos.
A Arte ganhou um pouco mais de autonomia, criaram-se novos conjuntos de regras, diferenciou-se o que seria Arte de Artesanato, isso se fez necessário quando a dependência do patronato esteve em declínio e os novos “dominantes”, o industrial e o Estado, que proporcionavam transformações técnicas e lucros, dominaram o cenário de comercialização artística. A Imprensa, cada vez mais presente no dia a dia das pessoas, teve papel importante na divulgação desse novo conceito estético.
Com todo esse momento de transformação, o movimento romântico ganhou força, foi estruturado e os artistas buscaram liberdade poética, desprendendo-se das regras teóricas impostas pela Academia de Belas Artes do Neoclássico em uma tentativa de rompimento com uma arte burocratizada e estreita, sem criatividade e cheia de cânones.
Rebeldia e gosto pela liberdade, tanto poética quanto social, eram os pilares desse novo movimento, artista e escritores buscando travar discussões em assuntos contemporâneos ao Romantismo, mas voltados para o cotidiano burguês do século XIX. Entretanto, opostamente ao seu antecessor neoclássico, o movimento que se desenhava era voltado ao lado emotivo, intuitivo e psicológico, desprezando o racionalismo iluminista.
O Romantismo, dentre várias facetas, discutia sobre uma nova forma de manifestação cultural. Foi uma época de transformações e rupturas com os padrões estabelecidos pela Academia de Belas Artes, lutas e incertezas frente às novas mudanças, um novo gosto pela sensibilidade moderna, uma forma de expressar o “eu” interior.
Contudo, para que se chegasse a esse nível de mudanças de comportamento, foi necessário que um grupo de estudiosos e intelectuais estivesse interessado em discutir e colocar em prática as ideias de Herder 68 , de desenvolvimento e evolução constantes da humanidade.
Ao final do processo de formação do campo, o processo de especialização levou ao aparecimento de uma produção cultural destinada ao mercado e uma produção de obras “puras” apenas para a apropriação simbólica. Os excluídos destes ambientes de legitimação, dominados no interior do campo, em geral provindos de classes populares ou da pequena burguesia, como Courbet, são levados a reconhecer tais distinções de posições e a se aproximar do “popular”.
Com a autonomia relativa do campo, os agentes passavam a se preocupar com o primado da forma sobre a função da obra de arte, criando-se um público especializado e conhecedor.
68 Johann Gottfried Herder (1744-1803), Na estética, à qual os iluministas tinham dado pouca atenção, Herder ensina, entre outras coisas, a relatividade da noção do belo. Divergindo de Kant, afirma ele que não existe no homem uma faculdade especial para a percepção do belo, encarregada de formar juízos estéticos universais. Os juízos estéticos e a noção de belo variam de povo para povo e de época para época. Em vista disso, somente um estudo histórico acurado e aprofundado pode fornecer a chave para a compreensão da concepção estética de um povo em determinado momento da história.
Com referência à história, destaca-se a tese herderiana, segundo a qual ela seria uma revelação divina. Herder pensa que não é somente a natureza que é uma manifestação de Deus (como afirmavam os humanistas), mas também a história. Isto é evidente especialmente no caso da religião, a qual merece, por isso, uma consideração bem diferente da que lhe dispensaram os iluministas. http://www.dialogocomosfilosofos.com.br/category/herder/ (acessado em 05/05/2012).
Concomitantemente, o artista pouco a pouco passa a duvidar da pretensa autonomia atribuída a sua função social com o avanço da Revolução Industrial e da mercantilização da produção cultural, que como explica Walter Benjamin, levaria a obra de arte no século XX à destruição da sua aura na era da reprodutibilidade técnica da imagem.
(ANDRADE, 2006, p. 02).
Para compreensão do ideário do Romantismo, há que se retroceder ao Pré- Romantismo. Totalmente avesso ao classicismo, esse movimento buscou a substituição da razão pela sensibilidade, caminhando ao encontro do que os artistas e escritores acreditavam buscar: liberdade. Valorizavam o inconsciente, o mistério, a melancolia, a angústia, o pessimismo, a emoção e a idealização de uma nova realidade diferente, buscando o conhecimento não mais através de experiências empíricas, mas sim da experiência dos sentidos.
A insatisfação com o mundo tecnológico e a forma engessada de viver do indivíduo levou o ser romântico a uma evasão daquela realidade burocratizada, podendo expressar-se de várias outras maneiras como por meio da fuga para a natureza e ao passado – relembrando períodos pré-revolução –, recolhimento ao interior de si, cultivo do lado noturno da vida, o místico e o sobrenatural, loucura e a evasão por via do devaneio e até da morte.
Foi no somatório dessas características que o morto-vivo existente até então começou a deixar as suas características rústicas e monstruosas, sendo compreendido física e mentalmente nos moldes dessa sociedade romantizada, uma associação ao “vilão” burocrata e mitos e lendas cristãs, principalmente, sobre o retorno de mortos à vida. Criou-se então um primeiro estereótipo do vampiro romântico.
Toda essa mudança radical culminou na ideia do nacionalismo69, propondo
que cada povo deveria ser único, criativo e deveria poder expressar suas características em forma de linguagens e tradições, revivendo o passado e a busca
69 A corrente historicista-nacionalista contrapõe-se à cosmovisão iluminista e ilustrada imperante no século XVIII, em cuja episteme o homem é tomado em sua universalidade e não em sua especificidade local. O historicismo-nacionalista, tendo no Romantismo seu suporte cultural, vai de encontro a essa visão iluminista, reforçando o que é relativo, local e específico a cada povo, região e cultura (FANINI, s/a, p. 2).
por valores fraternais da Idade Média. Um conjunto de conceitos propícios ao aparecimento de um novo vampiro, mais adequado aos novos valores sociais.
Como características principais, desenvolveram-se ideais de individualismo, quando o homem burguês libertou sua expressividade e sentimentos às emoções mais íntimas, senso de mistério, reformismo, escapismo, fé, sonho, culto à natureza, retorno ao passado e ufanismo. No campo da literatura, reduziu a poesia ao lirismo, imaginação e sentimento.70
O Romantismo rompeu com a antiga ideologia de uma ordem revelada e imutável da criação, de um modelo universal e que seria a fonte de todo o saber: a razão. Seria um ambiente no qual a existência humana poderia ser estimulada e cada um reagiria de uma maneira diferente, de acordo com cada emoção, dependendo da ocasião. A natureza não mais seria o modelo de toda invenção, mas sim, uma concepção de que seria intermediada pelo viés ideológico.
Seria, portanto, a estética romântica uma evolução teórica do Neoclássico, na qual a arte nasceria da própria arte, através de seus significados e momentos sociais, ou seja, uma arte baseada nos sentimentos e emoções e não mais em regras e padrões.
A partir da crise do universalismo das nações, e tendo elas de se reconstruírem em si mesmas, as histórias deveriam ser criadas à maneira do sentimento popular, com razões para uma autonomia particular de criação e em uma raiz em comum, o Cristianismo. Seriam esses argumentos importantes para uma coexistência civil.
O Romantismo surgiu também pela inclusão de uma ideologia neoclássica que não mais serviria ao novo momento social. Deu-se a transição de uma racionalidade considerada arcaica para uma profunda e irrenunciável religiosidade que sempre esteve atrelada às artes.
70Cf. SAFRANSKI, Rüdiger. Romantismo - uma questão alemã. Tradução: Rita Rios. São Paulo: Estação Liberdade, 2010.
É o Romantismo que torna a estética uma doutrina da arte, que também corresponde a uma doutrina de vida e ação. Isto implica que a mera descrição empírica da relação entre as artes não se fazia suficiente, seria necessário chegar a uma dedução filosófica do ordenamento sistemático – ordenar e analisar de forma dialética as relações que antes eram simplesmente listadas. Enquanto o Iluminismo tentara estabelecer os limites recíprocos dos campos de conhecimento, sobretudo das artes, para que um não tentasse invadir o território das suas vizinhas, o programa do Romantismo indicado por Schlegel, e seguido por todos os teóricos românticos, consiste em primeiro lugar em estabelecer a correspondência, as afinidades e mistura das formas artísticas.
(ANDRADE, p. 4, 2006)
O romântico é aquele que não trabalha com formas acabadas e/ou perfeitas do neoclássico, com contornos definidos e íntegros, o que ele faz é um processo contínuo, de forma aberta, na busca pela superação dos limites definidos no tempo e espaço, sendo esse um caráter mais pictórico. Buscaram-se interesses pela antiguidade pagã, medieval cristã e renascentista.
A arte torna-se a dimensão privilegiada da concepção de mundo romântica, pelo seu caráter visual imediato e pela sua função pedagógica de aperfeiçoamento do homem em direção ao Absoluto (à unidade). Como afirma Ernest Fisher, através da arte o homem anseia por superar suas limitações e por “uma plenitude, na direção da qual se orienta quando busca um mundo mais compreensível e mais justo, um mundo que tenha significação”. Esta plenitude só poderia ser atingida se se apoderasse das experiências alheias que são potencialmente suas, pois pertencem à humanidade. A definição da função da arte de Fisher condiz com a perspectiva romântica da realidade e da arte, “anseia por unir na arte o seu “Eu” limitado com uma existência humana coletiva e por tornar social a sua individualidade”, pois a arte é um meio impensável para a união do indivíduo com o todo, reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e ideias.”
A estética do Romantismo ainda mantinha traços da temática da modernidade como dissoluta dos laços sociais, expressando uma vontade em retrabalhar a união entre o ser humano e a natureza, o homem em sociedade. Seria uma reinterpretação, em sua estética, dos princípios entre religião e nacionalidade, dois pilares que, na visão romântica, seriam a nova ordenação do mundo novo.
Essa reinterpretação conceituada pelo movimento romântico iniciaria pelo viés anticapitalista, uma busca pelo contraponto às mazelas e à penumbra social. Tinha, por conceito, reabilitar uma história, redefinir valores e funções da civilização. A experiência nostálgica do artista recai sobre um período pré-capitalista, ou em um modelo que ainda estaria em pleno desenvolvimento, que ainda não atingira sua estrutura completa em uma visão altamente crítica à modernidade.
Não distante dessa visão romântica sobre sociedade, o vampiro clássico interpreta essas angústias e a vivência em sua “vida”, tempos passados das quais o capitalismo não era o motor social e a vida seria considerada melhor. Uma nostalgia e uma repulsa ao presente tecnológico.
O vampiro romântico foi criado nos moldes de uma sociedade que sofria e era temente a seu futuro, que buscava motivos e razões, além da máquina, para continuar a existir.
Imagem 12: St. Michael defeats the Devil (Eugene Delacroix: 1854/1861) Fonte: Galeria Saint-Sulpice, Paris.