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Como já apontamos, a constituição do estranhamento se dá no âmbito da reprodução social – para além do trabalho. Portanto, significa que o estranhamento se liga ao trabalho – fundador de sua possibilidade ontológica – pela relação mais geral entre trabalho e reprodução social. Lessa (2002) observa que, “segundo Lukács, a totalidade social é sempre o complexo mediador entre o impulso fundante do trabalho (e, com as devidas mediações, do complexo que dele se desenvolveu diretamente, a economia) e cada um dos complexos sociais parciais, entre eles os estranhamentos.” (LESSA, 2002, p. 170).

Na consubstanciação da totalidade social operam fundamentalmente três articulações ontológicas: 1) o impulso a genericidade, intrínseco à categoria do trabalho, que transforma todo ato singular em socialmente genérico – generalização; 2) a tensão permanente entre os elementos genéricos e os particulares – tensão essa que é básica para a formação da consciência social do indivíduo, ou melhor, é “a base para a elevação à consciência, em escala social, do caráter genérico de ser humano” (LESSA, 2002, p. 172); 3) o surgimento, com o desenvolvimento da sociabilidade e a intensificação e ampliação das contradições entre os elementos genéricos e os particulares, “da necessidade de mediações sociais que explicitem, tão nitidamente quanto possível, as exigências genéricas que vão gradativamente se desenvolvendo.” (LESSA, 2002, p. 172).

73 A primeira articulação refere-se ao processo de síntese dos atos singulares dos indivíduos concretos que se elevam à totalidade genérica. Processo radical mais essencial de produção do mundo dos homens – processo de generalização intrínseco ao trabalho.

A segunda articulação está diretamente relacionada à primeira e refere-se à ineliminável presença da contradição entre elementos genéricos e particulares em cada ato humano. Ou seja, no nódulo mais essencial do trabalho se desdobra uma tensão entre a singularidade e a universalidade. Pelo trabalho, uma situação concreta singular se generaliza confrontando-se assim tanto com o passado (com o que era antes de transformar) como com o futuro (com o que se tornou) ao produzir a objetivação de transformar-se em um produto singular. Portanto, determinações reflexivas – formas especificamente sociais da ativa apropriação do real pela consciência, no contexto da busca dos meios – articulam, no núcleo mais essencial do trabalho, as esferas da universalidade e da singularidade.

Dessa situação primária, há o desdobramento, na esfera da práxis social mais desenvolvida, de níveis mais complexos de contraditoriedade entre as alternativas singulares e universais colocadas ao indivíduo a cada momento historicamente determinado, no seu cotidiano, forçando-o a escolher entre “as necessidades, interesses e valores humano- genéricos e as necessidades, interesses e valores apenas particulares.” (LESSA, 2002, p. 171). Nesse sentido, Lessa enfatiza que “nas sociedades de classe, essas opções normalmente se colocam sob a forma do predomínio de uma classe sobre os interesses da totalidade social.” (LESSA, 2002, p. 171).

Vale lembrar também que essa tensão opera um papel decisivo no processo de individuação (atualização da singularidade à individualidade), bem como na reprodução social. Por mais simples que seja, essa tensão (e sua essência de contradição entre a generalidade e a particularidade) é o fundamento ontológico de todo conflito social, expressa a possibilidade da humanidade cada vez mais conquistar a consciência da contradição entre os momentos humano-genéricos e os meramente particulares.

Tal constatação nos remete à análise do terceiro nexo ontológico decisivo na consubstanciação da totalidade social, qual seja da necessidade de mediações cada vez mais explícitas para atender as necessidades genéricas cada vez mais complexas. Portanto, para atender a essas necessidades genéricas é preciso antes identificá-las e consubstanciá-las em objetividades sociais que possam ser observadas nas diversas situações. Com isso, surgem valores como justiça, igualdade, liberdade etc. para expressar concretamente as necessidades sociogenéricas (coletivas) postas na processualidade do mundo dos homens. Assim, ao contribuírem decisivamente na identificação das necessidades essencialmente genéricas, tais

74 valores operam “um papel central na elevação à consciência, em escala social, da contradição singular/universal, gênero/indivíduo.” (LESSA, 2002, p. 172).

Importante ressaltar que, a necessidade da mediação desses valores, essa necessidade social, é a base ontológica genética e dinâmica de complexos como os costumes, a tradição, o direito, e a ética7. Tais complexos, cada um com suas especificidades, exercem o papel social de operar no espaço aberto pela contraditoriedade entre o gênero e o particular, possibilitando aos indivíduos o reconhecimento da forma e do conteúdo que essa contraditoriedade apresenta, em cada momento, no âmbito da reprodução social. Com isso, possibilitam aos indivíduos escolherem entre valores mais humano-genéricos ou valores que expressam os interesses particulares e/ou de grupos sociais.

Entendemos que o jogo também pode ser incluído nesse rol, uma vez que é essencialmente a articulação de uma situação imaginária com regras/objetivos na esfera da reprodução social. Portanto, também apresenta permanentemente a contraditoriedade entre o gênero e o particular mimetizados e, inclusive, apresenta estreitas ligações com os complexos dos costumes, da tradição, do direito e da ética.

Em síntese, a gênese do estranhamento é a contradição entre a generalidade da sociedade e a generalidade dos indivíduos nela inseridos frente aos obstáculos socialmente construídos à realização humano-genérica no próprio desenvolvimento social objetivo. Portanto, sendo o indivíduo um complexo de complexos, é inevitável que o estranhamento se manifeste também na sua imediaticidade. Nas palavras de Lukács, citado por Lessa (2002), “como estranhamento do homem de si próprio (estranhamento do singular de sua própria generalidade).” (LESSA, 2002, p. 174).

Mesmo sendo um fenômeno social que só pode ser superado coletivamente, o estranhamento, nos atos cotidianos dos indivíduos singulares, ocupa a centralidade do problema em relação ao pleno desenvolvimento de sua personalidade quanto à sua superação ou permanência na vida do indivíduo. Isso significa que os estranhamentos advindos do trabalho abstrato da reprodução social afetam e contribuem na determinação das individualidades e ao constituí-las terminam por contribuir também para o desenvolvimento da totalidade da substância social.

Em síntese, a gênese e o desenvolvimento do estranhamento se dão na esfera da reprodução social enquanto obstáculos ao pleno desenvolvimento da humanidade genérica

7 Lessa e Tonet (2008, p. 82) explicam que: “A ética é justamente o contrário da moral. Lukács afirma que a

ética é a expressão mais explícita das necessidades humanas (coletivas e individuais). Enquanto expressão das necessidades humanas, a ética é importante para que os homens tomem consciência do que são, das suas reais necessidades como seres humanos.”

75 dos indivíduos. Nesse sentido, o dever-ser e o valor ocupam papel central no processo de objetivação (causalidade posta) e de exteriorização (ação de retorno dos valores e processos valorativos da objetivação ao seu criador e/ou do objetivado aos indivíduos) enquanto elos ontológicos que articulam trabalho e reprodução social.

A partir disso, Lessa (2002) avança na exploração da ação dos estranhamentos no dever-ser humano, mostrando que é no âmbito dessa articulação com o dever-ser dos homens que Lukács argumenta “serem os valores potencialidades objetivas da materialidade que apenas podem se atualizar na relação com as finalidades postas pelo pôr teleológico.” (LESSA, 2002, p. 176).

Vejamos, portanto, sempre nos apoiando na ontologia lukacsiana trabalhada por Lessa (2002), como o filósofo húngaro tratou da questão da liberdade com base na articulação essencial entre objetivação, exteriorização e estranhamento. Para nosso estudo, a liberdade é um valor fundamental por situar-se na essência do complexo jogo, ou melhor, o jogo inaugura e desenvolve-se na esfera da liberdade.

Benzer Belgeler