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ALBINATI, José Walter. Diários do processo de criação de Prazer. 2012 DIAS, Cláudio. Diários do processo de criação de Prazer. 2012

ESTEVES, Odilon. Diários do processo de criação de Prazer. 2012

SOUZA E SILVA, Marcelo. Diários do processo de criação de Prazer. 2012 PAES, Isabela. Diários do processo de criação de Prazer. 2012

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ANEXO A – FICHA TÉCNICA COMPLETA (Prazer, da Cia Luna Lunera)

Concepção e dramaturgia: Cia. Luna Lunera

Atuação e codireção: Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves. Codireção: Zé Walter Albinati

Orientação dramatúrgica: Jô Bilac Preparação corporal: Mário Nascimento

Residência artística: Roberta Carreri - Odin Teatret Pesquisa em artes digitais: Trem Chic

Direção: Eder Santos

Coordenação geral de produção videográfica: André Hallak Edição: Leandro Aragão

Produção: Barão Fonseca

Concepção cenográfica: Ed Andrade Assistente de cenografia: Morgana Mafra Execução do cenário: 100 Pregos

Figurino: Marney Heitmann

Assistente de figurino: Alexandre Frade Confecção de figurino: Maria Vieira Iluminação: Felipe Cosse e Juliano Coelho Assistente de Iluminação: Jésus Lataliza Participação afetiva: Cláudia Corrêa

Programação visual: 45 Jujubas - Marcelo Dante e Juliano Augusto Registro videográfico: Léo Pinho

Fotografia: Adriano Bastos e Carlos Hauck

Cia. Luna Lunera: Cláudia Correa, Cláudio Dias, Fernanda Kahal, Isabela Paes, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Zé Walter Albinati

Assessoria de comunicação: Ethel Braga Coordenação de produção: Cris Moreira Produção executiva: Vinícius Santos Administração: Graziane Gonçalves Contabilidade: Ricardo Silva

Assessoria jurídica: Drummond & Neumayr Advocacia Serviços gerais: Valmira Nascimento da Silva

PRAZER

espetáculo da Cia. Luna Lunera

Roteiro versão 22 de maio 2014

1– ENTRADA DO PÚBLICO

(Há quatro cadeiras espalhadas pelo palco. Enquanto os espectadores entram, os quatro atores escrevem as seguintes frases nas paredes, com giz.)

Cláudio (personagem: Camilo)

• Ser cotidiano é um vício.

• Eu queria ser eu mesmo por mais feio que isso fosse. • Que medo alegre, esse de te esperar.

• Há sempre um copo de mar pra gente navegar. • Um quase nada me faz feliz.

• Por tristeza tenho vontade de me abismar. • O que é o amor?

• Eu queria ser eu mesmo, cantando, por mais feio que isso fosse.

• Uma tepidez de vento trouxe uma doçura de ar. Tomara que traga outras.

Isabela (personagem: Isadora)

• Liberdade é não ter medo.

• A vida não é de se brincar. Em pleno dia se morre. • Tudo é só por enquanto. Enquanto estamos vivos. • O gozo é o domínio do aqui-e-agora.

• O maior desafio de um ser humano é tornar-se humano. • E se eu fosse eu, quem eu seria?

• Se eu fosse eu?

• Imaginar eu consigo. O que eu preciso agora é fazer. • Você sabe pedir o máximo de si mesmo?

• Quem pode dizer com sinceridade que se realizou na vida? • Quem pode dizer com sinceridade que venceu na vida? • E se o mar estivesse aqui dentro?

• EU SOU FEIO • JE SUIS LAID • (A)MAR

• Eu te ofereço meus pés descalços: esta é minha humildade e esta nudez de pés é a minha ousadia.

• Sou vigorosa, sou vigorosa, sou vigorosa. • Doze anos.

• E essa miséria de alma. • Dacoleba tutiban. • Zozuleba lebajan. • Atotoquina zefiram. • Que se possa dizer sim.

• Eu devia gritar pra todo mundo: • Não consigo falar.

• Não quero mais. Preciso de mais.

Odilon (personagem: Ozório)

• Você nem ao menos consegue sentir o que há de profunda e arriscada aventura nisso que nós estamos tentando?

• E ao coração que teima em bater, avisa que é de se entregar o viver. • Vou até onde eu conseguir.

• A alegria dos outros me espanta.

• Ele sempre fechava os vidros do carro por causa do mundo lá fora. • Manobra de Heimlich.

• Expulsar o ar, forçará o corpo estranho. • Vou até onde eu conseguir.

• Só muito mais tarde eu fui compreender que ESTAR também é DAR.

(À medida que terminam a escrita, cada um posiciona sua cadeira, uma a uma, em torno à uma mesa imaginária. E aguardam o terceiro sinal. )

2– LOCUÇÕES/ Terceiro sinal

Pouco antes do terceiro sinal, veiculam-se as locuções do teatro e/ou Festival. Quando há locução sobre equipamentos preventivos e sistema de segurança do espaço, Marcos faz os

gestos, ao estilo de um comissário de bordo, indicando as saídas, os extintores, etc.)

3– PRÓLOGO

Todos de olhos fechados, sentados à mesa (imaginária), só com as cadeiras.

ISADORA: Eu embaixo da cachoeira, sentindo a água bater forte quando eu era pequena. MARCOS: Hum... um bando de vagalumes que eu vi em uma mata, numa noite de réveillon.

Parecia um céu estrelado.

OZÓRIO: (pensa.) Um parto. Um parto que eu presenciei, no estágio ainda, que a mãe, assim

que a menininha nasceu, ela começou a cantar para a filha, “João e Maria”, do Chico Buarque, foi lindo. (Isadora reage achando lindo. De olhos fechados, ele e Isadora se procuram e se

beijam.)

MARCOS: Ah, os livros da Coleção Vagalume. Tem um que eu adorava, “Sozinha no

OZÓRIO: Hum, hum. Sabe que a primeira vez que eu gozei, por coincidência né, eu estava

lendo um livro da Coleção Vagalume!

MARCOS: “Sozinha no mundo”?

OZÓRIO: Não. “Um cadáver ouve rádio”... MARCOS: Tosco...

ISADORA: (Não dá corda pro assunto anterior.) Uma vez que eu desci um rio de canoa,

durante três dias e três noites sem parar.

OZÓRIO: (admira sutilmente.) Você fez isso, Dora? ISADORA: Foi incrível.

OZÓRIO: Quando foi que você fez isso? ISADORA: Ih...

MARCOS: Pois eu tinha pavor de descer até de tobogã! Vocês se lembram quando vocês me

obrigaram a descer em um toboágua? (Os outros comentam.) Eu ria tanto, só que de nervoso...

ISADORA: E você Camilo?

CAMILO: (tenta lembrar.) É que eu não estou me lembrando de nada. OZÓRIO: Como assim cara?

ISADORA: Faz um esforço.

CAMILO: Vale coisa que eu vi na televisão? (Abrem os olhos.) MARCOS: Não... televisão não vale.

ISADORA: Vale, claro que vale.

OZÓRIO: Ah! Vale! Se vale cinema, livro, exposição... televisão vale também! ISADORA: Vai, fechem os olhos. (Voltam a fechar os olhos.)

CAMILO: Então tá. O desfile das campeãs das escolas de samba do Rio de Janeiro, a

multidão subindo no carro alegórico para arrancar o plástico preto que cobria o Cristo Redentor do Joãozinho Trinta, que tinha sido proibido no desfile, nossa, foi de arrepiar.

ISADORA: Ahhhh... Café Muller, de Pina Bausch... OZÓRIO: Quem?

MARCOS: Pina Bausch?

ISADORA: Bailarina, coreógrafa alemã. Ela que dizia “Dance, dance, dance. (De outra

forma) Senão, estaremos perdidos.”

OZÓRIO: Ah, então foi daí que você tirou isso?

CAMILO: Aquela peça, que você levou a gente, argentina, que tinha o cara de terno correndo

na esteira sem parar.

ISADORA: O que desce uma piscina em cima da gente? CAMILO: Esse.

ISADORA: Fuerza Bruta. CAMILO: Nossa, muito bom. OZÓRIO: Fuerza Bruta?

CAMILO: Muito louco o cara correndo na esteira sem parar. OZÓRIO: Como assim descia uma piscina?

ISADORA: De verdade, em cima do público.

CAMILO: Era muito louco, o cara de terno correndo... OZÓRIO: Que loucura!

ISADORA: (Continua.) Bom gente, foi mais ou menos isso então que ele fez, só que fez por

escrito. Além de deixar um testamento, porque ele tinha casa, carro, tudo, ele quis fazer essa lista das coisas que mais tinham tocado ele na vida, das imagens mais belas, das transformações, das... Na verdade era uma lista das coisas que ele gostaria de deixar para as pessoas amadas, mas que não tem como, que é impossível, então ele fez esse “inventário imaterial”.

OZÓRIO: (acha curioso o nome.) Inventário imaterial, interessante né? MARCOS: E quando foi que ele fez isso?

ISADORA: Ele fez quando saiu o diagnóstico definitivo. Na verdade depois do tratamento

teve que fazer os exames de novo, e já sabia que ele teria, no máximo, dois ou três meses de vida. E nessa ocasião, pra dar a notícia, ele comprou uma garrafa de champagne, reuniu os amigos em casa, deu a notícia, e propôs um brinde.

MARCOS: Um brinde?

ISADORA: Um brinde porque ele era profundamente satisfeito com a vida que teve, que tinha

chegado muito além, tinha feito muito mais coisa do que podia imaginar, e por isso ele não queria ninguém triste, porque ele era profundamente satisfeito, a palavra é essa, satisfeito com a vida que teve, e também não queria ninguém com dó, “peninha”, tratando ele como se já estivesse morto, porque ele ainda estava ali, vivo...

MARCOS: Mas isso aconteceu mesmo, Isadora? ISADORA: Marcos, eu estava lá. Eu vi.

CAMILO: Eu acho que eu não ia reagir dessa forma.

OZÓRIO: No hospital a gente vê reação de todo tipo... mas como essa ... primeira vez que

ouço falar...

MARCOS: A gente não fez sobremesa hoje, né?

OZÓRIO: Esse jantar de hoje merecia uma sobremesa, hein! MARCOS: É. Merecia.

(Silêncio.)

CAMILO: (faz um pouco de mistério. Revela.) Mas eu trouxe. ISADORA: O quê?

CAMILO: A sobremesa. Torta de chocolate. OZÓRIO E ISADORA: Sério?

ISADORA: (Camilo confirma. Isadora festeja e propõe.) Vamos comer aqui embaixo. (vão para debaixo da mesa imaginária.)

MARCOS: A gente não cabe aí, Isadora. ISADORA: Cabe sim, Marcos, vem!

OZÓRIO: (pra Camilo) Coloca um pedaço do canto pra mim, grande, e eu quero com muita

cobertura!

ISADORA: Eu também, quero um pedaço enorme. MARCOS: Guarda um pedaço pra eu levar pra Laura! OZÓRIO: Tem muito, olha o tamanho da torta, Marcos. CAMILO: (lembrando.) “Vou até onde eu conseguir”? ISADORA: O quê?...

CAMILO: A cena do cara correndo na esteira me lembrou essa música “Pois é. Até onde o

destino não previu! Sem mais atrás, vou até onde eu conseguir!” (Pergunta pra si.) Até onde eu vou conseguir? (pergunta pra todos.) Até onde a gente vai conseguir?

BLACK OUT

4– APRESENTAÇÃO DOS PERSONAGENS: TROCA DE E-MAILS

(Começa a música do Fuerza Bruta. Algumas das frases que haviam sido escritas a giz, começam a ser projetadas na parede. Depois de um tempo, acendemos a luz em Isadora. Ela começa sua performance, lendo as frases. Na sequência, Marcos faz evoluções no avião, com gestuais de segurança. Ozório faz sua palestra, com tradução de Isadora).

ISADORA: (Lê as frases da parede, faz sua performance. É iluminada por Marcos e Ozório.) MARCOS: (iluminando a si mesmo) Excuse-me, sir. Would you like something to drink?

Water, coke, apple juice, orange juice, coffee, tea? Excuse-me, sir.

OZÓRIO: (Dá palestra da Manobra de Heimlich, no proscênio. Isadora faz tradução simultânea para o francês.) Se um corpo estranho bloqueia completamente as vias aéreas

superiores, impedindo a entrada de ar nos pulmões, qualquer pessoa no mundo reage levando as mãos ao pescoço - esse é o sinal universal da asfixia. (Isadora traduz.) Ao ver uma pessoa com esse sintoma, certifique-se se ela está mesmo sufocando, e então proceda com a Manobra de Heimlich – uma manobra simples, que pode ajudar a salvar uma vida. (Isadora passa a traduzir simultaneamente.) Posicione-se atrás da vítima, com o polegar entre o umbigo e o esterno. Feche a mão. Coloque a outra por cima. E pressione para dentro e para cima, forte e rápido. A compressão da parte superior do abdomen, contra a base do pulmões, expulsará o ar que ainda resta, e isso forçará a eliminação do corpo estranho.

(Camilo continua sentado na cadeira, em torno à mesa imaginária do prólogo, com as outras

três vazias, ao seu redor.)

CAMILO: Assunto Metas. Por aqui só metas, planos, prazos, relatórios. Estou ganhando a

vida a vida vendendo seguro de vida. Comprei um apartamento grande, massa, enorme, com cobertura e tudo. Vocês podiam vir passar o fim de ano aqui comigo no Brasil. Eu estou com muita saudade de vocês. De vocês e daqueles nossos jantares. Agora me contem, o que é que têm feito por aí?

OZÓRIO: Resposta Metas. MARCOS: Excuse-me, Sir.

OZÓRIO: Camilo que alegria receber notícias suas, primo. Por aqui muita correria, muito

trabalho. Eu acho que vai ser impossível a gente ir pro Brasil esse ano. Mas por quê que você não tira umas férias e vem passar um tempo aqui com a gente?

ISADORA: Resposta Metas: Camilo, que bom saber que você está bem... eu por enquanto

como garçonete, balconista, babysiter, essas coisas... outro dia fiz também a tradução de uma palestra do Ozório para um grupo de médicos franceses. Foi meu melhor trabalho até agora...

CAMILO: Assunto: notícias do Brasil. Ozório, as coisas estão complicadas na sua casa. Acho

melhor você ligar, escrever ou até mesmo cogitar voltar pro Brasil. Eu tava tentando acompanhar o rumo das coisas pra te ajudar, mas nossa família você sabe, esconde tudo, põe panos quentes. E comigo as coisas também estão muito estranhas. Eu ando muito esquisito...

MARCOS: Resposta Metas: Desculpa a demora em responder seus e-mails, Camilo. É que

por aqui minhas programações de voo estão mudando todo mês e eu tô sem tempo pra nada. A Laura tem reclamado que eu nem tenho parado em casa. Você acredita que quase perdi nossa comemoração de aniversário de casamento? Bom, no mês que vem eu vou ter uns dias inativos no Brasil. Vamos marcar um encontro aí, cara.

CAMILO: Assunto: Metas 2. Ozório. Não aguento mais falar em seguro de vida. Outro dia,

mandei um orçamento para um cliente, e no assunto do e-mail coloquei seguro de morte. Estou ganhando grana pra caralho, mas será que é só isso? (começa a passar a mão no pescoço como se estivesse se sufocando.)

OZÓRIO: Ao ver um indivíduo com esses sintomas, proceda imediatamente com a Manobra

de Heimlich. (Se dá conta de que se equivocou de idioma.) Perdón, perdón. Si usted ve una persona com estos síntomas asegúrese de que se está ahogando y luego proceda con la Maniobra de Heimlich, presionando hacia adentro, hacia arriba, fuerte y rápido.

MARCOS: Máscaras de ar cairão automaticamente do teto. Puxe uma delas para liberar o

fluxo, coloque-a sobre o nariz e a boca, ajuste o elástico e respire normalmente.

OZÓRIO: (continua a palestra falando baixo. Criando junto com Isadora e Marcos, a vertigem

do Camilo.) La compresión de la parte superior del abdomen contra la base de los pulmones expulsará el aire que permanece, y eso llevará a la eliminación del cuerpo extraño.

ISADORA: E ao coração que teima em bater avisa que eh de se entregar, o viver.

CAMILO: (No alto do prédio, vê o abismo. Enquanto ele fala, Isadora começa a se desenhar no chão.) Respirar, arfar, não respirar, tontura rotatória, náuseas, ânsia de vômito, ilusão de

movimento, sensação de vertigem. A cidade é tão bonita vista daqui de cima. Mas o abismo me atrai. Por que será que não consigo? É preciso coragem. É preciso coragem.

(Os quatro sentam-se lado a lado, nas cadeiras que estão sobre o praticável.)

5- LEADING POINTS