3. AKM ÇALIŞMA MODLARI
3.4 Kontak Dışı Mod
Outra forma de usar as maldições era como garantia do cumprimento de leis, ou tratados. Em épocas remotas, quando os meios de comunicação eram precários, provavelmente este expediente tenha sido muito usado. Pelas suas características ameaçadoras, a maldição podia ser uma boa maneira de levar o amedrontado súdito à obediência. Ainda que as forças visíveis, os exércitos e a gua rda do rei, não estivessem presentes em todos os lugares para manter a ordem e fazer valer as suas determinações, a palavra dele estava e, através dos decretos, orientavam a sua população e ameaçavam os desobedientes.
Geralmente as maldições se encontravam no final da redação das leis. Em primeiro lugar vinham as ordens e após elas a maldição para quem não as cumprisse (Logo mais será apresentado um modelo).
Levando em conta que a maldição era assunto levado muito a sério no mundo antigo, e que se chegava a pensar que ela era automaticamente eficiente, capaz de afetar por si só àqueles que as desprezassem,231 pode-se concluir que elas eram um bom instrumento de
controle social, o qual dificilmente os governantes dispensariam.
Este uso no final de leis pode ter a sua forma primitiva nas alianças que eram praticadas pelos Hititas. John Bright, ao explicar a forma destas alianças utilizadas pelo antigo povo hitita, mostra que uma cópia do tratado era depositado no templo do vassalo, provavelmente para lembrar-lhe do juramento de lealdade que fez. Nele são invocados vários deuses, os quais
são obrigados a abençoar o vassalo obediente e a lançar maldições sobre os desobedientes.232
Outro exemplo semelhante pode ser encontrado em uma inscrição fenícia, onde três deuses são invocados para que agissem contra os possíveis infratores dos compromissos assumidos. Assim diz parte desta inscrição: "Que Baal Samem, Baal Malaga e Baal Safon possam suscitar um vento do mal contra seus navios, desfazer suas amarrações. (...) Que uma forte onda possa afundar no mar".233
No capítulo 6 de Esdras encontra-se um texto que mostra o uso de maldição para garantir o cumprimento do decreto de Dario, rei da Pérsia, em favor dos repatriados de Judá. O decreto vai do versículo 6 até ao 11. Nele, Dario dá todas as suas ordens e orientações aos opositores dos judeus para que a reconstrução do templo em Jerusalém não fosse mais interrompida por eles. Pelo contrário, eles deveriam dar apoio e providenciar o pagamento das despesas que fossem feitas na construção. Ele “deu a Zorobabel todos os benefícios do dinheiro e proteção estatais, sem o toque profanador da interferência estatal”.234 Veja o texto:
6 "Agora, pois, Tatanai, governador do Além-do-Rio, Setar-Buzanai e
vós, seus colegas, e autoridades de Além-do-Rio, afastai-vos de lá;
7 deixai que o governador de Judá e os anciãos dos judeus trabalhem
neste Templo de Deus: eles podem reconstruir este Templo de Deus no seu lugar.
8 Eis o que ordeno acerca do que deveis fazer no tocante a estes anciãos
dos judeus, para a reconstrução deste Templo de Deus: como os bens do rei, isto é, com os impostos do Alé-do-Rio, as despesas desta gente lhe serão reembolsadas com exatidão e sem interrupção.
9 Ser-lhes-á dado cada dia, sem falta, segundo as indicações dos
sacerdotes de Jerusalém, tudo o que lhes for necessário para os
232 John Bright, História de Israel, São Paulo, Edições Paulinas, 1978, p.134.
233 Tércio Machado Siqueira, A teologia da maldição, em Tércio Machado Siqueira; J. C. Lopes & Valdir R. Steuernagel, Descubra agora os enganos do cristianismo pagão, São Paulo, Exodus, 1997, p.39.
holocaustos do Deus de céu: novilhos, carneiros e cordeiros, trigo, sal, vinho e óleo,
10 para que possam oferecer ao Deus do céu sacrifícios de agradável
odor e para que orem pela vida do rei e de seus folhos.
11 Ordeno também que se alguém transgredir este edito, arranque-se de
sua casa uma viga de madeira; ela será erguida e nela seja enforcado e sua casa seja convertida num montão de imundícies por causa dessa culpa."
Um decreto como este tinha boas chances de não ser cumprido. Afinal, Dario estava ordenando aos adversários do povo judeu que os ajudassem na despesa de construção e até mesmo na de manutenção do culto (6,8.9), quando, na verdade, a intenção deles era fazer com que a obra fosse frustrada. Assim, talvez, por causa desta possibilidade clara de desobediência, Dario tenha lançado mão de duas ameaças no final do decreto.
Em primeiro lugar, após o decreto referente à reconstrução do templo, decretou que se alguém alterasse as suas palavras fosse morto e tivesse a sua casa transformada em um monturo (v. 11) e, em seguida, usou uma maldição nos seguintes termos: “Que o Deus que faz habitar ali seu Nome abata todo rei e todo povo que ousar modificar ou destruir este Templo de Deus em Jerusalém! Eu, Dario, dei esta ordem. Que ela seja pontualmente executada” (Ed 6,12).
Não é possível avaliar o grau de eficiência da maldição em relação a levar seus súditos a obedecerem, já que Dario usou-a em conjunto com outra ameaça, aos olhos modernos bem mais concreta, mas é surpreendente como eles obedeceram, ao menos aparentemente pelo texto, sem questionar. Aqueles que pareciam tão determinados a interromper a reconstrução efetuada pelos judeus, simplesmente, “obedeceram fielmente as instruções enviadas pelo rei Dario” (Ed 6,13).