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1.4. Gabraslar İçin Trabzon’un Önemi ve Trabzon Dukalığı

1.4.3. Konstantinos Gabras (ö. 1140)

Retomando, então, as considerações realizadas desde o início deste capítulo, é apropriado afirmar que a relação do homem com o espaço traz consequências para o caráter, a qualidade, o valor do espaço que experimenta e também para a subjetividade humana.

Os espaços (naturais ou produzidos pelo homem) nos proporcionam determinadas sensações perceptuais e subjetivas – sensações que, por serem humanas, já carregam também

20 AUGÉ, Marc. Não-lugares. Introdução a uma antropologia da supermodernidade.3. ed. Campinas, Papirus,

significados erigidos culturalmente. Atribuímos significado e sentidos a este espaço a partir dessas sensações e percepções (ou concomitante a elas) e a partir da experiência que vivemos

ali. A experiência vivida (crucial para o processo de apropriação do mundo e seus significados),

por sua vez, ao mesmo tempo que abarca essas percepções e sensações, é fundamental para que sensações e percepções sejam sentidas e percebidas e estará permeada tanto pelo intuito que nos levou até lá quanto pelo que este espaço ou lugar possibilita viver, pelo caráter individual ou coletivo da atividade ali realizada e pelo tipo de relações humanas envolvidas ou pressupostas por tal lugar.

Por sua vez, os espaços (lugares) construídos ou que sofreram qualquer tipo de intervenção humana intencional (os espaços arquitetônicos21) são organizados, arranjados segundo sua função, seu propósito e, como qualquer espaço, também proporcionam sensações subjetivas. A própria constituição e organização desse lugar (as formas e dimensões totais e de cada lugar e cada espaço interno, a relação entre eles, sua distribuição e disposição no todo e em relação uns aos outros, as aberturas e fechamentos, a sua “porosidade” ou “compactação”, etc.) impõem um ritmo, facilitam ou dificultam usos, práticas e experiências. A arquitetura, portanto, cria e organiza, entre outras coisas, a funcionalidade de um espaço, propondo certos usos para ele – e nos indica isto também pela disposição, qualidade e estética dos elementos que utiliza nesta construção. Ao fazer isto, a “arquitetura” está criando um lugar e está propondo significações específicas para aquele ambiente.

Assim, conforme afirma Viñao Frago (1998, p. 64)22, “o espaço jamais é neutro”: O espaço comunica; mostra, a quem saber ler, o emprego que o ser humano faz dele mesmo. Um emprego que varia em cada cultura; que é um produto cultural específico, que diz respeito não só às relações interpessoais – distâncias, território pessoal, contatos, comunicação, conflitos de poder –, mas também à liturgia e ritos sociais, à simbologia das disposições dos objetos e dos corpos – localização e posturas –, à sua hierarquia e relações.

Essa “força semiótica da arquitetura”, da qual também fala Tuan (1980, p. 174), afeta as pessoas (seu comportamento, sua subjetividade e relações sociais):

[...] Uma vez terminado o edifício ou o complexo arquitetônico, torna-se então, um meio ambiente capaz de afetar as pessoas que nele vivem. O espaço

21 Pois foram “arquitetados” (imaginados, elaborados, criados, organizados, construídos) pelo homem. Estes

incluem não somente as “construções” (como uma casa, um prédio), mas qualquer espaço que tenha sofrido a intervenção humana. Essa intervenção altera o espaço (“natural” ou não) não só fisicamente: supõem intenção, objetivo, função, significação (se abro uma clareira no meio da floresta ou faço um buraco no chão já crio um espaço outro; já estou “dando espaço” para algo; já o estou dotando de função, significado, etc. ou estou “abrindo espaço” para que funções, significados, etc. sejam-lhes conferidos). Nesse sentido, em seu livro “A construção do sentido na arquitetura”, Coelho Neto (1999 apud REIS-ALVES, 2007, s/p) afirma que a arquitetura não é apenas “organização do espaço”, mas também o ato de criá-lo.

22 Viñao Frago está, neste trecho, fazendo referência ao texto “La dimensión oculta” de Edward T. Hall (México:

construído pelo homem pode aperfeiçoar a sensação e a percepção humana. É verdade que, mesmo sem forma arquitetônica, as pessoas são capazes de sentir a diferença entre interior e exterior, fechado e aberto, escuridão e luz, privado e público. Mas este tipo de conhecimento é rudimentar. O espaço arquitetônico – até uma simples choça rodeada por uma clareira – pode definir estas sensações e transformá-las em algo concreto. Outra influência é a seguinte: o meio ambiente construído define as funções sociais e as relações. As pessoas sabem melhor quem elas são e como devem se comportar quando o ambiente é planejado pelo homem e não quando o ambiente é a própria natureza. Por último a arquitetura “ensina”. Uma cidade planejada, um monumento, ou até uma simples moradia pode ser um símbolo do cosmos. Na falta de livros e instrução formal, a arquitetura é uma chave para compreender a realidade. (TUAN, 1983, p. 114)

A arquitetura educa. E isso nos remete diretamente a Escolano (1998, p. 39): “[...] toda arquitetura é definitivamente necessária, mas também arbitrária; funcional, mas também retórica. Seus signos indiciários deixam, em seu contato, traços que guiam a conduta. A antropologia do espaço não pode deixar de ser, ao mesmo tempo, física e lírica”

Há, portanto, significados embutidos na “pedra erigida”, que não são aleatórios. E isso gera interpretações, ou seja, a partir disso há construção e reconstrução de significação pelos sujeitos que experienciam esse espaço, esse lugar.

Dessa forma, a construção dos significados e sentidos de um lugar e seus usos é influenciada, em parte, pelos elementos simbólicos e arquitetônicos dispostos ali e pela distribuição, dimensão e organização dos lugares e espaços que o constituem e que foram arrumados por esse lugar. No entanto, ela estará também e em grande medida, como dito anteriormente, embasada na experiência cultural dos sujeitos que o “habitam” e na experiência pessoal de cada um deles. Ou seja, os espaços arquitetônicos, estes lugares, são criados, construídos, constituídos e organizados para determinado uso, determinada finalidade e carregam, portanto, um significado. Por outro lado, o uso ou a experiência vivida nos e dos espaços e lugares faz criar novos ou outros sentidos para esses.

O homem, assim, ao experienciar um espaço ou um lugar instituído (que carrega uma função social específica) transforma-o em lugar habitado: se apropria dele impregnando-o com suas vivências, sua história, sua memória, sua cultura, e também, ao fazer isso, cria (ou “descobre”) novos espaços e lugares, dando espaço ao espaço (TUAN, 1983; HEIDEGGER, 2001). Dessa forma, ao mesmo tempo em que acolhe os significados propostos pela configuração espacial original do lugar, concede (e cria) novos significados e sentidos a esse lugar e aos usos concebidos antes de sua permanência ou passagem por ali (a partir de sua “bagagem” cultural e de sua “visão de mundo”). O espaço arquitetônico, portanto, faz a mediação entre a ideia ou o propósito original de sua criação (seja ele social, pedagógico,

religioso, recreativo, artístico, etc.) e a experiência dos sujeitos que o vivem – que atualizam seus significados.

Fazendo um paralelo com a língua, concluo que, por tudo que foi exposto acima, o espaço arquitetado pelo homem é um signo (e, como todo signo, é, portanto, ideológico – carrega significados). Ele nos diz algo. Enuncia. Mas não com palavras e sim a partir de sua organização, divisões, dimensões, iluminação, aberturas e fechamentos, passagens, formas, cores, marcas. Se o espaço arquitetônico enuncia algo (como a palavra para Vigotski e para Bakhtin), este enunciado, no entanto, só pode ser “ouvido” quando o experienciamos. A

experiência é o diálogo do homem com o espaço. E essa é vivida num dado contexto situacional,

social, cultural e histórico. Nesse diálogo com os espaços e os lugares, negociamos e reconstruímos seus significados e, dessa negociação e reconstrução, internalizamos aquilo que chamamos sentido – que, como já apontei, se processa mediante a enunciação, no encontro com o signo vivo23, e que é fruto de um processo dialético, interno-externo, pessoal-social, intra- inter-subjetivo (BAKHTIN, 2006; VYGOTSKY, 1998).

Porém, parafraseando Smolka (2004), assim como os espaços e os lugares não podem definir e prever todos os significados e sentidos que serão ali vivenciados, também a produção desses significados e sentidos não será ilimitada. Há contingências dadas pela própria “arte das disposições espaciais” (FOUCAULT, 2009): a ordem espacial organiza um conjunto de possibilidades e proibições (CERTEAU, 1998, p. 178) para a atuação dos sujeitos. E também, como salientado anteriormente, o contexto (cultural, situacional, relacional) dessa produção delimita, em maior ou menor proporção, as possibilidades de experiência e (re)significação. Dessa forma, no caso do espaço construído (arquitetônico), a negociação de significados e, consequentemente, dos usos e apropriações que se pode fazer desse lugar pode ser facilitada (ampliada) ou restringida pela sua configuração espacial. Ou seja, a maior ou menor flexibilidade de ação e significação vai depender, e muito, da própria concepção e estruturação deste lugar. E isso também levará (um alguém específico ou um grupo) à sua percepção como lugar instituído apenas – porque sua função na sociedade, na cidade, no mundo é reconhecida, mas limita ou não permite que se crie novos ou outros sentidos para ele – ou como lugar habitado – porque abre-se a experiências diversas e personalizadas, abre-se à produção de sentidos vários e porque, portanto, permite ao sujeito a possibilidade vivê-lo “ativamente” e torná-lo seu.

Sendo assim, lugares erigidos numa perspectiva mais utilitária ou disciplinar vão restringir ou delimitar de forma bastante rígida as possibilidades de experimentação, apropriação, significação e usos dos seus espaços. Lembremos aqui da racionalidade e a planificação “panópticas” descritas por Foucault (2009) – típicas das instituições modernas (prisões, fábricas, hospitais, quartéis e escolas) das sociedades disciplinares e de controle – que mostram o quanto os espaços institucionais podem ser criados e construídos de maneira a conformar corpos e mentes “dóceis”, implicando, de antemão, a “não-autonomia do campo de ação” dos sujeitos (CERTEAU, 1998, p. 83). Poderíamos qualificar esses espaços (ou lugares) como totalitários, pois, de acordo com Viñao Frago (1998, p. 61):

[...] Um projeto totalitário seria aquele em que os indivíduos, isolados ou em grupo, não dispusessem de espaços ou de tempos. De espaços aos quais lhes dessem sentido fazendo deles um lugar. Seria aquele em que alguém [ou uma prática ou uma ideia] ocupa todos os espaços e tempos possíveis, aquele no qual não restem nem resquícios nem intervalos.

Por outro lado, lugares concebidos de maneira mais fluida – que preveem intervalos, interstícios, espaços-entre, espaços não previamente estruturados para ou por uma função específica – permitirão uma construção de lugares e de espaços e de significados e usos mais temporal, humana, conjunta e processual, de acordo com os grupos que passarem por ali e propósitos diversos. Pensemos, como um exemplo extremo, nas “Invenções” do artista Hélio Oiticica (FAVARETTO, 2000): “espaços de experimentação” criados a partir da sua ideia de participação do espectador como transformadora do espaço-obra-de-arte e de si mesmo. Segundo Favaretto (2000, p. 30), sobre os propósitos de Oiticica, “o estabelecimento de novas relações estruturais e humanas através da criação de ambientes que não sejam meramente utilitários e racionais” oferece a possibilidade de transformações de comportamentos e reelaboração de relações (espaciais e pessoais, humanas). Isso porque o indivíduo que participa da experimentação-criação desses espaços “desconstrói experiências [...] e referências [...] impedindo a fixação de uma ‘realidade’ constituída [...]” e, assim, “abre-se” para si mesmo (FAVARETTO, 2000, p. 139). Pensemos também no “espaço potencial”, construto do psicanalista Winnicott (1994), cuja importância para o desenvolvimento de sujeitos autônomos é destacada pelo autor: é um espaço (físico e mental) que possibilita uma vivência diferenciada e onde nasce o prazer pela experiência, local onde a criança edifica seu espaço de criação e onde a essência da criatividade está no processo de destruir e recriar os objetos e suas relações. Esses exemplos de espaços “fluidos” fazem lembrar Tuan (1983, p. 59 – grifos nossos) quando diz: “[...] liberdade implica espaço; significa ter poder e espaço suficiente em que atuar. Estar

livre tem diversos níveis de significado. O fundamental é a capacidade para transcender a condição presente [...].”

Os espaços criativos e de experimentação são, portanto, ambientes não utilitários e racionais. Eles permitem o estabelecimento e a experimentação de novas relações estruturais e humanas, oferecendo a possibilidade de transformações do comportamentos e reelaboração dos significados e práticas ali dispostos. Não são lugares pré-formatados, totalitários, que preveem apenas determinados tipos de comportamento (pré-estabelecidos) e que se impõem aos sujeitos, impondo seus inflexíveis significados. Eles reinstauram a autonomia do campo de ação dos sujeitos como autores de suas práticas e de si mesmos, permitindo uma “mobilidade plural de interesses e prazeres” (CERTEAU, 1998, p. 51). Estão abertos, portanto, à experimentação pessoal e relacional; à expressão espontânea de ideias, sensações, ações; a apropriações diversas, astúcias, táticas e bricolagens; ou seja, à construção de sentidos múltiplos para esses lugares e para os saberes e práticas aí desenvolvidos e vivenciados.

Esses dois tipos (digamos, extremos ou opostos) de espaços ou lugares remetem-nos à diferenciação, feita por Cardoso (1988), entre ver e olhar. Ou seja, remete-nos também à diferença de “atitude”24 dos sujeitos envolvida na relação que estabelecerão com estes espaços e que sofrerá sua influência:

O ver, em geral, conota no vidente uma certa discrição e passividade ou, ao menos, alguma reserva. Nele um olho dócil, quase desatento, parece deslizar sobre as coisas; e as espelha e registra, reflete e grava. Diríamos mesmo que aí o olho se turva e se embaça, concentrando sua vida na película lustrosa da superfície, para fazer-se espelho... Como se renunciasse a sua própria espessura e profundidade para reduzir-se a esta membrana sensível em que o mundo imprime seus relevos. Com o olhar é diferente. Ele remete, de imediato, à atividade e às virtudes do sujeito, e atesta a cada passo nesta ação a espessura de sua interioridade. Ele perscruta e investiga, indaga a partir e para além do visto, e parece originar-se sempre da necessidade de “ver de novo” (ou ver o novo), como intento de “olhar bem”. Por isso é sempre direcionado e atento, tenso e alerta no seu impulso inquiridor... Como se irrompesse sempre da profundidade aquosa e misteriosa do olho para interrogar e iluminar as dobras da paisagem (mesmo quando “vago” e “ausente” deixa ainda adivinhar esta atividade, o foco que rastreia uma paisagem interior) que, freqüentemente, parece representar um mero ponto de apoio de sua própria reflexão.

Dessa maneira, para o autor, o ver está relacionado a uma postura de passividade do sujeito; é uma “fé perceptiva”, uma crença na “totalidade significativa”; e “supõe um mundo pleno, inteiro e maciço”, um espaço inteiramente articulado (CARDOSO, 1988, p. 348-350). Já o olhar supõe um espaço “aberto”, instável, fragmentado; “nasce desta descontinuidade,

deste inacabamento do mundo: o logro das aparências, a magia das perspectivas, a opacidade das sombras, os enigmas das falhas, enfim, as vacilações das significações [...]” (CARDOSO, 1988, p. 350). Envolve, portanto, a alteridade, o estranhamento e a atividade do sujeito que mira os interstícios, as lacunas, as brechas desse mundo inacabado – o que o permite “saltar do espaço das significações estabelecidas e mergulhar no mundo temporal do sentido” (CARDOSO, 1988, p. 350).

Se, como já dito aqui, na construção de sentidos de algo participam tanto o sujeito quanto a própria coisa percebida (vivida) e o que carrega de elementos culturalmente simbolizados e significados, consequentemente a ocorrência do “ver” ou do “olhar” (ou esta “atitude” do sujeito perante algo), em relação a um lugar, vai depender de ambos. Por um lado, e em certa medida, vai depender do quanto o sujeito realiza a (re)elaboração dos significados impostos pela configuração espacial e estética desse lugar e de como se apropria delas (de forma mais reflexiva, própria, singular, “ativa” – conferindo-lhe e construindo para ele um sentido próprio, pessoal – ou de forma mais acrítica, “massificada”, “passiva” – apenas se “conformando” aos seus significados convencionais). Mas também, por outro lado, vai depender do quanto este lugar, ou este espaço, se oferece a (e permite) esses diferentes tipos de experiência (“ver” ou “olhar”). Ou seja, se a relação do sujeito com o espaço (e a apropriação de seus significados) pode ser mais “passiva” ou mais “ativa” (ou qualquer medida entre estes dois pólos), e se isto, segundo Cardoso (1988), depende do (e revela o) seu modo particular de perceber e se relacionar com o mundo, com os outros, com os lugares, símbolos, significados (ou seja, sua singularidade), isso, acrescento, dependerá também de quanto este espaço ou este lugar, por sua configuração (que é cultural), acolhe e permite estas diferentes maneiras de atuação e significação (ou se as impõem de modo mais “totalitário”). E mais: se a singularidade, numa abordagem histórico-cultural, é fruto de nossas relações e experiências com a cultura, com o mundo e com os outros, este processo de significação e elaboração mais “passivo” ou mais “ativo” da experiência e do espaço vividos e dos elementos simbólicos presentes dependerá também deste outro fator, fundamental: as relações humanas e as práticas ali vivenciadas, realizadas ou propostas (por pessoas concretas) – que são cruciais para permitir ou instigar a percepção e a ação dos sujeitos envolvidos num ou noutro sentido.