Como visto na seção 2.1.1, o direito a um meio ambiente saudável é expresso por diversas partes que compõem a legislação brasileira, especialmente na Constituição Federal do Brasil de 1988. Porém, conforme foi mostrado nesse trabalho, os habitantes da Comunidade Lagoa do Pecém não têm acesso a esse direito, sofrendo os impactos devido a exposição a uma atmosfera com altas concentrações de material particulado provenientes do transporte de carvão mineral por CT1, além dos níveis de ruído acima do aceitável, conforme as multas aplicadas pelo IBAMA visto anteriormente, a despeito de todo o acompanhamento ambiental feito pelo controlador das correias.
Apesar desses transtornos serem deletérios para a Comunidade e o fato dela reivindicar a solução para o problema ser legítimo, a ocupação de parte da área é atualmente irregular. A ocupação da área se deu quando CT1 estava em construção (2011), conforme informações obtidas na análise da Audiência Pública realizada na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (ALCE) para discutir o assunto (TV ASSEMBLEIA, 2015), no entanto, somente em 2013 foi declarada a área de utilidade pública do CIPP, pelo Decreto Estadual No 31.357 de 3 de dezembro de 2013. Neste decreto parte da Comunidade foi incluída na área de utilidade pública, a tornando, portanto, como de ocupação irregular. Essa área foi analisada no Cenário 1 deste trabalho. Dessa forma, se assim for mantida a atual conjuntura, a área não contemplada da Comunidade ainda continuará a sofrer os efeitos nocivos do funcionamento de CT1, isso sem levar em consideração a possibilidade dos problemas se agravarem com o funcionamento de CT2 futuramente.
Pode-se ainda destacar que, de acordo com a Tabela 1 que trata dos tipos de obrigatoriedades no que se refere aos passivos ambientais, o passivo gerado pela operação da correia transportadora de carvão mineral é do tipo legal. Isso se deve ao reconhecimento do passivo e a ação de correção por parte do Governo do Estado Ceará ser feita por força de Lei.
A Figura 39 mostra a evolução do passivo ambiental para os cenários 1 e 2 usando a Expressão (29) em conjunto com os dados da Tabela 27. É possível notar a linearidade dos valores de VPA com o tempo, fato esse que pode ser explicado pelo baixo impacto da parcela CGA que é dependente do tempo.
Foi consenso na Audiência Pública citada anteriormente que a solução viável para o problema seria a desapropriação da Comunidade e a tomada de medidas de mitigação dos efeitos causados pelo funcionamento das correias, tais como: substituição e/ou lubrificação dos roletes das correias, aplicação de telas protetoras para diminuir o efeito de tiragem de material por parte dos ventos fortes, por exemplo.
Ainda foi declarado na Audiência Pública que alguns moradores do centro do distrito do Pecém perceberam após o início da operação de CT1 a presença de material particulado similar a carvão, especialmente em zonas mais elevadas como prédios. Apesar de não ter sido objeto de investigação, esse fato pode indicar que a extensão do passivo causado pelas correias pode ter atravessado as fronteiras da Comunidade Lagoa do Pecém.
Figura 39 – Evolução de VPA para os cenários 1 e 2 com o tempo.
5 CONCLUSÃO
Por meio deste trabalho foi mostrado a materialidade dos impactos negativos causados pelas correias transportadoras do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, especialmente aquela que transporta carvão mineral, impactos esses que correspondem ao passivo ambiental gerado pelo seu funcionamento. Foram identificados danos causados por material particulado presente no ar e altos níveis de ruído emitidos pelas correias. Como reflexo desses problemas ambientais, a população local reportou diversos tipos de problemas, especialmente aqueles relacionados à saúde, tais como problemas respiratórios, problemas de pele e problemas de insonia.
Por meio do uso de ferramentas advindas da Economia Ambiental, particularmente o Método da Valoração Contingente (MVC), foi calculado o valor do passivo ambiental (VPA), ou seja, as obrigações reconhecidas para com o meio ambiente devido aos danos causados. O VPA foi dividido em duas parcelas, com o objetivo de melhorar a compreensão do problema: o Custo de Regularização Ambiental (CRA) e os Custos Ambientais Acumulados (CAA).
Foi realizada a análise dos passivos em dois cenários distintos. O primeiro compreende a determinação de VPA decorrente da parte da Comunidade que está situada na zona declarada de utilidade pública, que corresponde a 20.604m2. O segundo cenário compreende a determinação de VPA compreendendo toda a Comunidade, que corresponde a 68.296m2.
A aplicação do MVC, de pesquisas e de questionários feito em campo, revelou que o VPA obtido para o primeiro cenário (levando em consideração os efeitos do material particulado e os problemas de ruído em conjunto - VPAC – para o ano de 2017) corresponde a R$ 1.658.174,11, que compreende a soma dos resultados para CRA de R$ 1.266.115,80 e para CAA de R$ 392.058,31. Já para o segundo cenário, o VPA obtido corresponde a R$ 4.588.847,51 abarcando valores de CRA igual a R$ 4.196.789,20 e de CAA igual R$ 392.058,31, sendo, portanto, o mesmo CAA do cenário 1. A grande diferença entre os VPAs de cada cenário se deve à maior participação da parcela de CRA no segundo cenário (91,5% do VPA) em relação ao primeiro (76,4% do VPA), sendo essa basicamente dependente da área da Comunidade a ser desapropriada.
Também foram analisados os VPAs derivados dos impactos isoladamente, diferentemente da análise anterior que levou em consideração os impactos em conjunto. Para o primeiro cenário foi obtido o VPA decorrente do material particulado (VPAP) de R$ 1.478.343,56 e para o VPA decorrente dos problemas de ruído (VPAR) de R$ 1.413.375,88. Para o segundo cenário foi obtido VPAP de R$ 4.409.016,96 e VPAR de R$ 4.344.049,28. Ao contrário do que manda o senso comum, o VPAC é diferente da soma direta entre VPAP e VPAR nos dois cenários. A explicação se deve à baixa influencia obtida da valoração dos impactos causados à Comunidade no valor total do passivo ambiental, além do custo de desapropriação não ser acumulativo nessa soma.
O problema causado à Comunidade Lagoa do Pecém é essencialmente de ordem fundiária, conforme tentou-se mostrar até aqui. Logo, a solução mais viável, e é a que está sendo adotada pelo Governo do Estado Ceará até a conclusão desse trabalho, é a desapropriação das famílias afetadas e a mitigação dos danos causados por meio de alterações no equipamento. No entanto, essa solução só contempla parte da Comunidade que se encontra dentro da área declarada de utilidade pública, que corresponde ao primeiro cenário de estudo, não possuindo, portanto, nenhuma indicação no que se refere ao restante da comunidade. Caso essa indicação se concretize, esses passivos, em tese, continuarão existindo para o restante da Comunidade e, portanto, sendo uma solução ineficaz e não definitiva para o problema.
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