1. KANAL AÇMA
2.3. Sevk Kızağı İle Konik Tornalama
2.3.3. Konikliğin Mastar İle Kontrol Edilmesi
Começamos traçando uma hermenêutica fenomenológica do ritual processual judiciário na qual emergem semelhanças com o ritual religioso. Trata-se de uma primeira abordagem que pretende ter como guia teórico a hermenêutica fenomenológica. Esta tem o sentido que lhe atribui Etienne Alfred Higuet. Optamos por esta abordagem porque, como diz Higuet possibilita interpretar a Religião, e no caso, a sacralidade dos rituais judiciários como linguagens específicas, que procuram, em particular, reconstruir e captar as intenções significantes dos rituais. "O ser humano se reconhece interpretando-se em suas obras que podem ser chamadas de arquivos da humanidade" (HIGUET, 2013, p. 461 grifos do autor).
Uma parte importante desses arquivos encontra-se no "acervo" dos rituais judiciários e nas circunstâncias e pessoas que os realizam
A tese da grande obra de Rappaport que demonstra a relação entre ritual e Religião e sua relevância na formação da humanidade pode ser aplicada na formação e na dinâmica dos rituais do judiciário. O autor nota que nos rituais as expressões são predominantemente verbais. "En los rituales humanos las expresiones son predominantemente verbales, esto es, expresiones con palabras" (RAPPAPORT, 1999, p. 66). O que também coincide com Croatto quando afirma que "o rito pede a palavra de uma forma natural" (CROATTO, 2010, p. 329). Daí a relevância da linguagem e da terminologia processual e sua semelhança com a linguagem litúrgica, como veremos mais adiante.
Rappaport nota a rigidez e a invariabilidade dos procedimentos, "podemos recordar aquí los procedimientos más bien rígidos o incluso invariables de la sala de un tribunal" (RAPPAPORT, 1999, p. 70). Assim como a presença dos mitos quando afirma que "mito implica ritual, ritual implica mito, son uno y el mismo" (RAPPAPORT, 1999, p. 64). Essa aproximação entre mito e ritual do judiciário também será tratada mais adiante.
Croatto entreviu a ligação entre rito e símbolo, algo que é também evidente no ritual do judiciário."A palavra do mito será necessária para o rito" (CROATTO, 2010, p. 329).
Os ritos e os rituais do judiciário agem sobre o comportamento humano e são capacitados para equacionar cada movimento de interlocução entre corpo e espírito, como podemos inferir da posição de Vilhena:
Durante a ação ritual, é possível expressar socialmente através de suas várias linguagens todo um complexo onde o subjetivo e o objetivo, o individual e o
comunitário se mesclam em manifestações de desejos, saudades, dores, alegrias, amores, ódios, medos, esperanças, desesperos. Em ritmos que alternam momentos de efervescência emocional, de pausas e de movimentos, os ritos agem sobre os participantes, colocando em dinamismo corpo, espírito, imaginação, sentimentos que se traduzem em ações e práticas sociais (VILHENA, 2013).
Quando Croatto diz que o rito religioso encena, teatraliza, faz, e figura como modelo a ação humana, é muito natural afirmar que o ritual do judiciário também tem essas características.
Se o "ritualismo sacraliza o próprio rito e expressa a sacralidade que permeia toda a ação" (CROATTO, 2010, p. 353), acreditamos poderá dizer o mesmo do ritualismo do judiciário, pois os ritos que envolvem a sentença ou as determinações do juiz adquirem sempre poder vinculante, não apenas porque cumprem determinações positivas da lei, mas porque se fundamentam na moral e na justiça49 que, em última análise, se reportam à lei divina impressa na natureza humana.
Aqui explicitam-se as perguntas e as respostas que Fabio Mariano faz em seu texto, Fundamentos axiológicos do direito: a relação constitutiva entre direito e valor. Pergunta-se: "A justiça, afinal, de onde vem? Quem a emana? Por qual razão? Será aquilo que Parmênides nos ensina: há uma unidade, e esta se aloca na supremacia de um Deus único" (MARIANO, 2010, p. 77). Parmênides viu na divindade o fundamento último da justiça que os rituais judiciários fazem valer.
Podemos aplicar ao ritual judiciário o que diz Terrin do ritual religioso:
O rito coloca ordem, classifica, estabelece as prioridades, dá o sentido do que é importante e do que é secundário. O rito nos permite viver num mundo organizado e não-caótico, permite-nos sentir em casa, num mundo que, do contrário, apresentar- se-ia a nós como hostil, violento, impossível (TERRIN, 2004, p. 19).
Dessas atribuições do rito podemos inferir que, à semelhança do ritual religioso, o processual judiciário traz ordem, organização, classificações, prioridades, sentido, enfim organiza o que sem o ritual seria caótico e hostil.
Embora no ritual do judiciário não se possa falar da presença explícita do numinoso, acreditamos poder falar de uma santidade implícita, eis que o judiciário é reverenciado seja pelos juízes, seja pelos demais atores do processo cujas regras são observadas como sagradas.
Além disso, pode-se observar no ritual do judiciário a junção introduzida por Terrin entre drómenon (ação) e o legómenon (palavra, mito), que se manifestam num agir
49 Antoine Garapon diz que a justiça, muitas vezes reduzida ao direito, isto é, ao texto, apresenta-se amputada de
"holístico", isto é, total, que não é do tipo instrumental, nem induz uma causação entre meios e fins.
Terrin não tem dúvida de que o ritual religioso é "um ato de adoração; é expressão de um "todo", no nível comunitário um ato de culto que tem sua direção intencional metaempírica e como tal é capaz de unificar de maneira profunda a experiência do real" (TERRIN, 2004, p. 35).
Talvez a expressão "adoração" usada por Terrin extrapole a sacralidade da ritualística do judiciário, mas "respeito" e "reverência" são atitudes visíveis, embora não transcendem o empírico eis que são rituais constituídos de regras práticas. Sem dúvida, porém, o ritual do processo jurídico tem a força de unificar as experiências inseridas na prática da aplicação da lei. É visível também no ritual processual judiciário o aspecto comunitário, um "estar e fazer juntos" (TERRIN, 2004, p. 37).
O rito remete-nos simbolicamente ao gesto primordial. Essa posição de Croatto pode ser aplicada aos ritos jurídicos no que refere-se aos ritos jurídicos contemporâneos, pois a dinâmica ainda hoje vigente: intimação, oitiva, sentença, absolvição, condenação, reclusão, são resquícios dos tribunais medievais e faz lembrar que dialogamos com uma instituição religiosa do passado que ainda empresta seu organismo vivo de outrora aos Tribunais de hoje. Todos os ritos de ontem e de hoje foram criados para defender a sociedade e para coartar as ações criminosas.
O rito que confina às instituições jurídicas deriva das instituições sociais e possui a função de exercer o controle e execução das funções legais com o objetivo de manter a ordem social. Cada rito leva-nos à compreensão originária do transcendente. Quanto mais próximo está o rito do ordenamento jurídico, mais próximo da organização social, maior a possibilidade do controle social por parte do Estado, e até mesmo do Direito. Assim como as instituições sociais possuem sua dinâmica, o mesmo acontece com as instituições jurídicas. Estas carregam uma herança que podemos observar por meio das lentes da história. Esta herança dos rituais sagrados nas estruturas do judiciário torna-se patente nas instituições sociais, e constituem uma fundamentação legítima da estrutura de cada sociedade. O rito sempre fez parte da estrutura completa da sociedade e não se distinguia entre sagrado ou profano.
Esta posição se esclarece se voltarmos ao capítulo primeiro da nossa dissertação para verificarmos pelas lentes de Durkheim a constatação de que nas sociedades tradicionais o rito não separava o momento social do religioso, aliás transformava este último numa variante dependente do primeiro aspecto. Por sua vez, o rito religioso transfere toda a sua força
simbólica e coesiva para o social. Desta feita em As formas elementares da vida religiosa, ainda que o sagrado se manifeste no cotidiano, é no culto ao Totem que o sagrado se apresenta de forma legítima, ou seja, não há dicotomia entre sagrado e profano, mas o sagrado do culto é a extensão do cotidiano que se manifesta ritualisticamente por meio do culto totêmico. O rito investe, legitima o Totem. O social entende-se como um organismo independente e autolegitimado pelo sagrado. Terrin explicita mais claramente esta posição.
Esse processo e essa submissão total do momento religioso ao social é lida pelo sociólogo francês sobre o pano de fundo da categoria do "totemismo", através de uma pesquisa que se concentra sobretudo no significado do totem em respectivamente, de "sagrado" e de "social". Se afinal, o totem representa - na leitura que dele faz Durkheim - tanto o sagrado quanto o social, o sociólogo francês acha que o sagrado recai por inteiro dentro do perímetro do segundo e, portanto, nada mais é que o espelho do mundo social (TERRIN, 2004, p. 52).
No que diz respeito aos aspectos totêmicos da figura do juiz, será um tópico a ser aprofundado mais adiante.
O rito é parte do percurso da história e situa-se na articulação entre tradição, memória, conservação e transformação. Desde a sua origem mostra-nos as condições ou situações sociais que influenciam diretamente as condutas das pessoas.
Cabe ainda fazer referência ao direito processual entendido como expressão de poder do Estado. Relembrando Durkheim podemos afirmar que as regras dos rituais do judiciário são um instrumento de equilíbrio entre os grupos que constituem a sociedade. Assim os ritos judiciários por suas características de sacralidade figuram como parte dos instrumentos que movimentam e dão estrutura para a formação das instituições.
As instituições sociais remetem-nos às características que pontuam a organização social intimamente vinculadas às normas institucionais a que os indivíduos se submetem. O ritual processual judiciário, por sua venerabilidade exerce sobre as pessoas padrões de conduta. Essa imposição é gerada pela forma com que os rituais são realizados. Cada instituição social possui sua dinâmica. O mesmo acontece com as instituições judiciárias. As estruturas do judiciário são obrigadas a seguir o que o ordenamento jurídico determina, e este, por sua vez, é obrigado a seguir o que é determinado pelos ritos para manter a ordem social.
Concluindo esta primeira aproximação entre a Religião e os rituais do judiciário podemos afirmar que a hermenêutica fenomenológica já nos ajudou a captar as intencionalidades religiosas desses rituais, fazendo interagir o quadro fenomenológico com o contexto em que se expressam finalidades míticas.
A hermenêutica com sua estreita ligação com a área da Religião já nos ofereceu a possibilidade de primeiras aproximações de seu conceito de ritual com o ritual judiciário. Permitiu-nos verificar que o rito judiciário aparece como um elemento que desperta a consciência de estruturação e organização da sociedade e do mundo.
Mas é necessário adentrarmos pela dinâmica do espaço, das pessoas envolvidas especialmente o juiz, das vestes, da linguagem, dos símbolos e do mito, elementos que escondem e ao mesmo tempo manifestam a sacralidade. Escondem porque o positivismo jurídico não admite a presença do sagrado nos rituais judiciários. Manifestam, porque, na realidade essa presença existe. É o que veremos no item seguinte.
4. O tribunal do Júri e demais tribunais. Seus rituais e as semelhanças com os rituais