1. KANAL AÇMA
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A laicidade adquiriu estrita neutralidade do Estado e a separação rígida entre este e os credos religiosos. Como vimos, etimologicamente, laico é o oposto de clerical. Assim a sociedade se torna laica quando os leigos substituem os clérigos em diversas funções de controle. É o que vem ocorrendo há vários séculos na nossa sociedade Ocidental. Na nossa sociedade o clero foi levado a paliar carências manifestas, por razões de natureza histórica. Depois da queda do Império Romano, a Igreja católica desempenhou um papel que ia muito além daquilo que estava implicado no princípio de separação entre espiritual e temporal, presente no Novo Testamento.
A laicização deu sentido quando a sociedade não se organizou nem funcionou em conformidade com os valores e princípios de ordem religiosa, mas sim de acordo com suas próprias regras e fundamentos específicos.
A longa evolução ocorrida a partir do século XVIII fez a laicidade ser mais intensa na França do que em outros países. A partir da Revolução, uma forte corrente laica adotou ideologias anticlericais/antirreligiosas que conseguira criar uma legislação tendente, progressivamente, a desatar os elos seculares que uniam Igreja católica ao Estado.
De início a Lei Constitucional de 1884 eliminou a referência às preces feitas quando do reinício das atividades parlamentares. Logo mais a Lei de 1901 regulamentava a liberdade de associação com medidas restritivas para as agremiações religiosas. Estas leis prepararam o terreno para a Lei de 09 de dezembro de 1905 que legislou a separação entre Igreja e Estado. Mas essa lei em momento algum utiliza-se da palavra laicidade.
A República Francesa foi qualificada de laica pela Constituição da IV e da V República, o que deu sentido diferente. A consistência da laicidade veio com o artigo primeiro da Constituição francesa de 4 de outubro de 1958 com a afirmação da França como uma República indivisível, laica, democrática e social. O valor jurídico concedido à laicidade
44Sobre legitimação ver Max Weber e Peter Berger. As legitimações são as respostas a quaisquer perguntas
consuma-se com o registro no texto de direito escrito com o sentido da neutralidade religiosa do Estado.
O valor da laicidade já vem desde a elaboração da Constituição da IV República. Por intermédio dela podemos entender que uma nação é composta de pessoas que não têm as mesmas crenças, e o Estado tem o dever de permitir que cada um dos cidadãos viva em conformidade com as exigências de sua consciência. Por laicidade podemos entender o resultado da doutrina da neutralidade, ou seja, da imparcialidade do Estado em relação a todos os membros da comunidade nacional. A Constituição da V República francesa garantiu a igualdade perante a lei de todos os cidadãos, sem distinção de origem, raça ou religião, sendo assim, respeita todos os credos. Estas leis ampliaram a igualdade de direito proclamada na França desde 1789.
A sociedade francesa foi uma das primeiras que se fundamentou duradouramente num elo jurídico, o da nacionalidade, independente de qualquer outra consideração de origem, filiação linguística, cultural, étnica ou religiosa. O alcance do princípio de laicidade depende tanto da legislação e da jurisprudência quanto da Constituição.
A laicidade do Estado foi firmada de fato antes de ser proclamado de direito. O fim da colaboração entre Estado e Igreja antecipou na prática a legislação. A Lei de 1905 só veio para garantir a separação e dar firmeza simbólica e prática. Apesar que no contexto religioso da época, os eclesiásticos foram afastados do ensino público simplesmente por serem eclesiásticos pois os serviços públicos eram obrigados a respeitar a neutralidade.
O significado de laicidade adquiriu sua conotação a partir dos elementos que caracterizam a história da França, onde era forte a presença da Igreja católica nas instituições e nas suas reivindicações. A história da laicização na França possibilitou-nos entender o Estado laico fundamentado na razão humana, encarnada na ideia de completa neutralidade, o interesse geral passou a incumbir-se do conjunto dos interesses temporais da coletividade, deixando para as pessoas jurídicas privadas e para os indivíduos as tarefas de cuidar das necessidades de ordem espiritual.
Da França veio o modelo de separação absoluta e radical entre o temporal e o espiritual. Nessa lógica, o Estado se abstinha de intervir no campo religioso e vice versa.
Epílogo
A separação entre Direito e Religião vem com o enfraquecimento da hegemonia da Igreja católica cujos primeiros sintomas surgem no Renascimento, que marca o declínio da
Idade Média e o advento da modernidade. O teocentrismo é contestado pelo humanismo, que é ao mesmo tempo um retorno à cultura clássica pré-cristã e uma via para uma sociedade secularizada. A Reforma Protestante e as guerras de religião introduziram a mediação dos árbitros leigos independentes do recurso ao clero e às leis eclesiásticas.
A sociedade organiza-se com suas próprias forças e leis e a Religião vai se recolhendo ao foro íntimo das pessoas. A expropriação dos bens eclesiásticos foi também um passo para a secularização da sociedade.
A secularização envolve a libertação do homem moderno da tutela da Religião. A hermenêutica bíblica com a introdução do método-filológico prevaleceu sobre a leitura alegórica das sagradas escrituras, o que provocou um movimento de secularização no âmbito da própria teologia. A ênfase aos direitos naturais, dependentes da razão, conduziu à secularização da ética outrora totalmente submissa à lei divina. Caminha-se para uma dessacralização do mundo ao lado de certa sacralização do Estado, que Rousseau veio definir como religião civil. Esta religa o povo à própria Pátria com seus dogmas ditados diretamente pelo Estado que fundamenta e dá vigor ao contrato social.
Com a Revolução Francesa decreta-se o fim do pacto social e político que vinculava Deus, o povo e a realeza. A revolução firmou a tomada do poder pela burguesia laica destronando o poder do clero, da nobreza e do poder feudal.
Nesse clima revolucionário prevalece o laico e o secular sobre o religioso. Processo que Weber vai denominar de desencantamento do mundo eliminando o caráter mágico da religião. Esses rituais mágicos foram substituídos pela racionalidade e em vez dos mandamentos divinos surgem as leis e os códigos que regulam a vida prática da sociedade e dos indivíduos. O protestantismo, em lugar da mística salvacionista do catolicismo, institui a salvação pela eficiência e pela prosperidade, reforçando assim a propriedade capitalista e seu aspecto progressista na base de um trabalho racional e eficiente.
A corrente de sociólogos adeptos ao processo de secularização propensa a assinalar o decréscimo e até mesmo o fim da religião começou a ser contestada pelos sociólogos que Pierucci denominou de "religionistas". Estes definem a teoria da secularização como algo "equivocado".
Berger é um dos principais defensores da existência de um processo de dessecularização. Embora a modernização apresente algumas nuances secularizantes, esse processo provocou o surgimento de novos movimentos de contra-secularização. Além da novo vigor dos movimentos religiosos milenares, notam-se também estratégias de adaptação utilizadas pelas instituições religiosas.
Entretanto o fenômeno social da secularização teve como resultado a laicização do Estado e consequentemente do Direito que o rege, em oposição à clericalização do Estado e do Direito. Essas instituições agora são determinadas pelos ideais de racionalidade, autonomia, emancipação, progresso, democratização e emancipação do Estado face à tutela da Igreja e de qualquer religião. Esse processo não significa laicismo, que seria o Estado assumindo uma posição adversa à religião. Trata-se de uma separação entre religião e Estado.
O Estado deixa de exercer o poder religioso e as confissões religiosas deixam de exercer o poder político.
O Direito, que rege o Estado, participa dessa separação e também se laiciza não sendo mais submisso a nenhum credo religioso, legislando e julgando de maneira isenta de todos as querelas que se lhe apresentam, inclusive as que dizem respeito às demandas que atingem, civilmente, as instituições religiosas, como os direitos à sepultura religiosa, as possíveis isenções fiscais, o direito à liberdade religiosa etc.
Este capítulo assim elaborado dá margem à pergunta central de nossa pesquisa. Uma vez secularizado, laicizado e separado da religião, o ritual do direito processual na atualidade também se apresenta secularizado ou ainda mantém reminiscências, semelhanças e até identidade com o ritual religioso, especialmente num fórum peculiar que é o Tribunal do Júri? Qual seria o alcance desta afirmação de Calamandrei (1995): "Os juízes são como membro de uma ordem religiosa"?
Capítulo III. Rito, Ritual no judiciário contemporâneo em geral e no tribunal do júri: