INVENTARIADO (A) ANO TALHERES MÓVEIS VILA TORAL DA FORTUNA
Manoel Pereira 1763 6 pratos,
4 colheres
Caixa e canastra Sobral 1:178$885
Maria Rodrigues 1774 6 colheres, 5 garfos, faca de mesa e 2 copos de vidro
Camas, priguiceiro, estrado, mesa, banco, estante de livros e oratório
Aquiraz 5:570$535
Josefina Maria 1779 2 serrinhas de
mesa Cômoda, cama de couro, 2 cadeiras e caixa Aquiraz 276$040
Manoel Cordeiro 1790 - Cama de vento, 2 malas Sobral -
Manoel de Barros 1797 2 colheres Canastra Aquiraz 275$930
Antonio Antunes 1804 - Canastra S. João
do Príncipe
240$566
Tereza Martins 1809 6 colheres 2 jogos de mala S. João
do Príncipe
1:330$400
Luiza Paes 1810 1 prato Caixa e malas Sobral 889$570
Anna Ferreira 1817 - - S. João
do Príncipe
497$980
José Diniz 1820 6 colheres e 5
garfos - São João do
Príncipe
1:807$810
FONTE: VIEIRA JÚNIOR, Antônio Otaviano. Entre paredes e bacamartes: história da família no sertão (1780 - 1850). Fortaleza: Demócrito Rocha, Hucitec, 2004. p. 124.
No Brasil-Império, a pecuária continuou ocupando papel de destaque na Província do Ceará. Desse modo, a atividade do criatório engordou as rendas provinciais. Porém, as vicissitudes climáticas,
acarretando secas, aliada à manutenção de técnicas rústicas no trato do gado condicionaram quedas periódicas na arrecadação fiscal. Com base nos Relatórios dos Presidentes da Província do Ceará observamos que poucas foram as ações diretas para fazer face a esse quadro desfavorável e muitas foram as lamúrias. Na primeira metade do século XIX, os Presidentes da Província pouco conheciam o Ceará: a agricultura não respondia às necessidades populacionais, havia déficit na balança comercial e a principal fonte de renda cearence, o gado, sofria grandes perdas nos períodos de estiagem:
“[...] nossa importação he extremamente grande em relação à nossa exportação: isto indica falta de producção no paiz; o que por ultimo sempre nos trará huma banca róta, mormente se tivermos a infelicidade de huma sêcca no sertão, que diminuindo nossos gados, nos prive do dinheiro que por compra d’elles entra na Provincia, e que faz deminuir a falta de pezo na balança da exportação. Todo este mal parte da falta de braços, que se empregam na lavoura; o que sendo geral em todo o Brazil, mais notavel se faz no Ceará, onde a escravatura sempre foi pouca, não tendo havido muita introducção de Africanos” (Relatório dos Presidentes da Província do Ceará, 1836: 7).
A Província sempre perdia arrecadação devido à cobrança não eficiente dos dízimos do gado: “os
Arrematantes, e Collectores se queixão de que os Fazendeiros ou nada pagão, maltratão com palavras, e os ameação; ou quando muito pagão, o terço ou menos do que devem” (Relatório dos
Presidentes da Província do Ceará, 1838: 45). Podemos supor que diante desse sistema falho, aliado a um interior pouco desbravado, havia relações ilícitas na forma de troca de favores, e alguns proprietários de terras certamente se beneficiavam com isso.
Em períodos favoráveis, a “indústria do criatório” também era vulnerável às lógicas de mercado: “He pois a creação dos gados grossos e miudos a riqueza principal dos habitantes desta Provincia, e parece-me que este producto tem augmentado muito nos ultimos annos, pela maior regularidade, que tem havido nos invernos. Por isso o gado tem barateado de preço, talvez mais do terço comparativamente ao que gosava em 1836: as fasendas de crear estão mais ou menos abarrotadas; e como em annos regulares os seos productos crescem rapidamente, e mais que a demanda do genero nos mercados ordinarios; discobrio-se ultimamente hum novo mercado e novas vias para transportar ao lugar do consumo. Deo motivo a esta descoberta, a rebeldia dos paizanos no interior do Maranhão; a qual interceptando grande parte do comercio dos gados do continente para a Ilha, veio esta a sofrer penuria e encarecimento de carne verde, e secca. Então algum especuladores emprehenderão lá transportar embarcado o gado vivo deste Provincia; e os grossos lucros que colherão d’alguns carregamentos excitarão, e ampliarão as especulações [...]” (Relatório dos Presidentes da Província do Ceará, 1840: 11).
A exportação das reses por terra para as Províncias do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco no século XIX ganhou um novo mercado concorrente, o Maranhão, cujo comércio era realizado através de embarcações. Esse comércio era todo de carne verde, apesar da Província do Ceará ter desenvolvido no século XVIII fábricas de salga de carne no litoral que implicaram em enorme ganho para os seus produtores. Tal atividade foi praticamente extinta no século XIX: “antigamente se
salgavão, e exportavão as carnes, que ainda hoje se conhecem com o titulo de carne do Cará, o que foi abandonado pela facilidade de levar o gado em pé às Feiras de Pernambuco, e a outras” (Relatório
dos Presidentes da Província do Ceará, 1844: 15). Sabemos que tal explicação não corresponde à realidade. O fim da salga de carnes envolveu outros fatores além da simples facilidade de se transportar o gado vivo. Esse discurso, juntamente com o outro de que grande parte das terras disponíveis no Ceará eram favoráveis apenas à criação de gado e que a seca era um fenômeno intransponível, acompanhará os Relatórios dos Presidentes da Província durante todo Império. O tom do discurso desses relatórios é, por vezes, de lamentações relacionadas às perdas advindas das secas e, outras vezes, de esperança por invernos favoráveis às atividades econômicas. As obras públicas empreendidas e relatadas nesses documentos normalmente tiveram enorme atraso na sua execução e consequente aumento orçamentário.
De fato, a “indústria do criatório” (como recorrentemente é chamada nesses documentos) no Ceará permaneceu vinculada à comercialização do produto vivo, perdendo assim o valor agregado atribuído aos seus derivados: “a creação do gado poderia dar origem entre nós a algumas especies de industria,
que ainda não tiveram o necessario impulso, como o fabrico da manteiga, o aperfeiçoamento dos queijos, o preparo dos couros, a tosquia e cardatura das lãs” (Relatório dos Presidentes da Província
do Ceará, 1852: 66).
Para se ter ideia das oscilações na arrecadação dos dízimos de gado, basta observar a tabela a seguir:
TABELA 16: ARRECADAÇÃO DOS DÍZIMOS