Fonte: desenhos produzidos por Flor de Liz, Lúcia, Valente, Ari, Paixão e Nay; organizados pela pesquisadora (APÊNDICE Q - U).
Alguns trechos, referente a questões pessoais pela escolha do tema esporte:
Eu particularmente gostei desse tema porque é algo que quero para minha vida, trabalhar com esporte também (SARADO).
Eu cheguei o grupo tava formado, eu faltei a aula que tava formando os grupos, daí eu tive a oportunidade de entrar em todos, só que eu optei pelo esporte por conta que eu gostava, por ser uma paixão. Eu gosto de praticar esporte, futebol, eu tento né? (PAIXÃO).
Cheguei no meio do ano, então, não fiz parte da escola, mas tirando a música, o esporte é uma coisa que já faz parte da minha vida. Como eu fiz no desenho né, ó? Fiz o desenho do skate, da piscina da natação, jogo basquete, academia, arte marcial, vôlei, corrida, tudo faz parte da minha vida e eu gosto (MOTA).
Aqui é quando eu era pequeno e ficava jogando bola com os amigos na chuva, lá na rua. Jogava era de muito. Praticamente a gente foi criado numa quadra. O que eu mais gosto é de jogar bola. [...] Todo dia tem racha na quadra (da escola). [...] Gostei logo. É que é mais em comum comigo, o esporte (DYLAN).
Desde de pequeno fui acostumado a ser... fui criado numa quadra de verdade. [...] Porque é como se fosse o que eu mais conheço. O que eu tenho mais concepção, o que eu sei mais, o que sou acostumado aqui (BOB).
Nestes cinco relatos, podemos observar que a escolha foi feita por influência do desejo que ganhou força nas ações cotidianas vividas no passado e no presente auxiliando numa projeção futura, portanto, fazendo do esporte um ponto de partida que já se sabe, mas que se quer continuar aprendendo. Desse ponto de vista, dizer que pesquisar um tema ligado ao esporte tem sentido, não é dizer simplesmente que tem uma significação (que pode inscrever-se em um conjunto de relações); é dizer que, também que ele pode provocar um desejo, mobilizar, pôr em movimento um sujeito que lhe confere um valor (CHARLOT, 2000). Por isso, que uma escolha pode ser mobilizada também por um gostar associado a um benefício trazido pelo esporte, como é relatado por uma jovem:
Meu desenho é esse. É... Esse tema eu achei interessante porque o esporte sempre foi presente na minha vida. Não só na minha vida, mas na de amigos que eu tinha. Desde pequena eu sempre acompanhei isso porque o esporte trouxe muita coisa pra mim, muito benefício na minha vida. E esse tema eu achei super importante, bacana, curti muito. Porque através dele quando eu era bem pequena tinha problema de saúde e foi através do esporte que consegui me manter. [...] Eu tinha arritmia aí através da natação, vôlei, essas coisas... Educação Física ajudou bastante. [...] Aqui (mostrando seu desenho) é quando eu era bem pequenininha que eu fazia natação. Aqui é o incentivo do esporte que ajudou muito a me recuperar. Aqui é quando eu brincava na escola. As meninas e os meninos da outra escola brincavam juntos. Aí a gente brincava de vôlei, tudo que era atividade que tinha relação ao esporte a gente estava lá, curtindo muito (MISS MODEL).
Neste caminho, outros jovens relataram a escolha da temática esporte trazendo a
multiplicidade de relações (6) subdivididos em duas categorias: pessoal-pesquisa-
comunidade (3) e interpessoal-pesquisa (3).
[...]Eu particularmente queria esporte no meu bairro porque eu até escrevi aqui ‘Eu moro no bairro Montese, mas com pouco local para pratica de esporte’, eu vejo crianças na rua, até desenhei dois meninos, jogando bola, na rua, em frente de casa. Espaço tem, só que prefeitura e governo não se mobilizam pra colocar pessoas pra incentivar o esporte gratuito na comunidade. Porque o que tem é pago [...]Aqui representa que na comunidade do Montese tem espaço, só que não tem ninguém, ninguém se sensibiliza em ir atrás do poder público para ajeitar a quadra que tem, o campo (CIDA).
Eu resolvi falar do esporte porque o esporte é visto como se fosse pelo lado masculino, só os homens que pudessem praticar, mas eu também acho que o esporte não é só voltado para os homens, ele também é voltado pelas crianças, como jovens e também, para as mulheres, porque todos podem fazer o esporte e eu fiz um desenho como se fosse uma menina jogando bola. Ela é uma menina. Ela brinca de balanço, mas também pode jogar bola. Como ela falou (cida), a gente não conhece o bairro pra saber o que é que tem de esporte e qual era o tipo de pessoas faziam. A gente viu que os homens praticam mais do que as mulheres. Tipo assim, eu queria que as mulheres praticassem mais porque elas são muito sedentárias, essas coisas, é assim. (IARA).
Nos trechos acima, podemos observar a problematização de questões sociais como o gênero e o esporte; o descaso governamental e, até mesmo, da própria sociedade civil e a comprovação de que os homens praticam mais o esporte que as mulheres. Sem falar na problematização da falta de espaços de lazer para a prática do esporte:
“É... Tipo assim... No começo a gente achou que o tema ia ser fácil da gente aprender, mas ao longo do trabalho eu vi que o esporte não era somente a questão de lidar com o trabalho... Eu nunca me esqueci da apresentação do trabalho que o menino disse que cada esporte tem suas regras. E com isso a gente aprende com o esporte, regras, ter limites pra tudo. E outra, é... A questão do lazer é como a Cida disse, não tem um canto especifico para as crianças e os jovens se interterem, ocupar a mente, não tem nada! (VIDA).
Percebemos nos relatos dessas jovens, denúncias cheias de indignação e desejo por mudanças que influenciam em suas vidas, mas na vida de todos. Fazem parte do mesmo grupo de pesquisa mediatizado pela problematização de sua realidade desafiadora, exercendo uma análise crítica do problema, “um encontro que proporciona a denúncia do mundo para sua transformação” (FREIRE, 1987, p. 98).
Vale ressaltar, no relato da jovem Vida, a referência feita ao trabalho de pesquisa de outro grupo, no tema esporte, que a marcou pelo fato de trazer uma relação entre as regras do esporte e os limites na vida, fazendo-nos refletir sobre o aprender para a vida, já que, segundo Charlot (2001) é fundamental para os jovens. A pesquisa tem contribuído neste sentido, quando percebemos a problematização das suas relações com o mundo, já que não pode haver conhecimentos se os educandos não são chamados a conhecer (FREIRE, 1987).
Desse modo, percebemos que a relação escolar se modifica, os educandos se tornam investigadores críticos em diálogo com o educador que também, é um investigador crítico. Vale relembrar, que as pesquisas são em grupos de trabalho formados
prioritariamente, pelo interesse temático, no entanto, percebemos que existem outras formas de identificação que não são ligadas diretamente ao tema, mas por relações afetivas interpessoais.
Algo que pode ser percebido em menor quantidade se comparados a relação pessoal, no entanto, traz reflexões pertinentes ao exercício da docência. Relativo ao esporte houveram escolhas baseadas na relação interpessoal-pesquisa (3) dentro como fora da escola, pelo laço afetivo com determinadas pessoas que são interessadas pelo tema e conseguem gerar mobilização, pelo fato de que aprender é um processo relacional. Para nossa reflexão, trazemos os trechos relacionados:
“Todos os grupos estavam formados e minha vontade era fazer sozinha, porém, a professora me falou que eu não podia, aí como o único grupo que eu era mais chegada, eu fui para esse do esporte na comunidade (NAY).
E no decorrer da escolha do tema, eu fiquei indecisa pra escolher porque eu não tinha muita relação com o esporte entendeu? Mas ai no meio do ano, quando a gente ficou pesquisando fazendo os trabalhos é... eu consegui me habituar ao tema pois eu achei muito importante pra sociedade (BONECA).
Estas duas jovens induzem o nosso olhar para a formação dos grupos para construção do processo investigativo, que auxilia nesse desejo por fazer um trabalho mesmo sem haver interesse aparente sobre o tema fazendo sua ressignificação. Retomamos aqui uma questão importante, o outro como presença fora de si percebida pelo inacabamento humano que busca tanto na relação eu-outro como no engajamento na construção de si e de um mundo pré-existente ser reconhecido pelo outro enquanto sujeito (CHARLOT, 2000). Já que, é na ‘outredade’ do não-eu, ou do tu, que me faz assumir a radicalidade do meu eu” (FREIRE, 2014, p.42).
Temos aquele jovem que tomou para si o sonho do outro, ao ponto de torna-lo seu:
Aqui é eu com meu tio. Meu tio sempre me influenciou nessa parte no esporte. Desde quando era pivete, pequeno mesmo. Ele sempre queria que eu jogasse. Só isso mesmo. [...]Já pela questão do bairro da gente ser a Parangaba, lá tem uma quadra que a gente é acostumado a jogar e só isso mesmo. Aí como a gente acha mais fácil pra falar, aí nós escolhemos o esporte mesmo. [...] A gente tirou de letra. (BRISA).
Nesse caminho, é importante refletirmos sobre algumas questões que extrapolam a escolha do tema, mas que estão diretamente ligadas a ela: como a visão que os jovens têm sobre o esporte, a relação que eles atribuem ao uso de drogas e a prática esportiva; os benefícios para si como para a comunidade e a relação com o lazer no cotidiano. Importante
refletirmos sobre a problematização dessas questões, fazendo com que os jovens passem da curiosidade ingênua para curiosidade epistemológica (FREIRE, 2014), compreendendo a história como possibilidade e não como determinismo. No entanto, percebemos que muitos continuam transmitindo visões sobre esporte com pouca reflexão, embora trabalhem com esse tema ligada à sua pesquisa, isto é, ao aprofundamento.
Segundo Bento (2013) estamos vivendo uma “conjuntura corporal” associada a estreita relação entre desporto e a saúde veiculados em campanhas de promoção de estilo de vida saudável orientando para prevenção de doenças, fomento a saúde e aumento da quantidade e da qualidade de vida. Nesse sentido, podemos observar que alguns discursos trazidos pelos jovens para justificar sua problematização estão em questões veiculadas pela mídia, que muitas vezes, mistifica as práticas esportivas como possibilidade de ascensão social:
[...]o esporte, ele muda nossa vida em diversas coisas, também assim, é... se ele não é deficiente e vira deficiente, aquilo dali é um bairro muito grande, mas através do esporte tem vários paraolímpicos, teve paraolimpíada, com várias pessoas que não tem uma perna, um braço, mas fazem esporte e isso fazem elas superarem aquilo. O esporte ajuda muito, o esporte nos ajuda a vencer na vida (CIDA).
Como também, ser a salvação do corpo doente:
O esporte em si não é só futebol, ele nos ensina também regras... tudo. É o tipo da coisa ele, tem gente que pensa que ‘sofri um acidente, minha vida acabou, eu não vou mais poder praticar a mesma coisa que antes’ e o esporte ensina que não é isso, a gente pode sim, lutar, persistir nos sonhos da gente como passa muitas vezes no Globo Esporte pessoas que doentes psicologicamente e passam a mudar de vida por causa do esporte (VIDA).
Importante nos questionarmos sobre a necessidade de desmistificar questões que interferem diretamente no acesso desses jovens, das camadas populares, a prática esportiva. Sem dúvidas estes jovens trazem preocupações como fazer a comunidade refletir nos benefícios da prática cotidiana:
Quando fala em esporte, imagina que vai jogar uma bola, vai andar de skate, vai fazer com a própria coisa e não procura saber do resto, é um assunto bem complexo né? Sobre os benefícios que a pessoa vai poder estar adquirindo em exercícios é... a prática... E, também, é algo que está relacionado envolvendo a sociedade né? As pessoas, devido saber iam se botar em prática no seu dia-a-dia. (SARADO).
No entanto, na prática não é possível para todos, pelas horas de trabalho excessivas, pela falta de alimentação adequada, por inúmeras questões que podem ser vivenciadas com eles, fazendo-os refletir corporalmente. Eles mesmos apontam algumas questões como o uso de drogas e o esporte:
A questão do lazer é como a Cida disse, não tem um canto especifico para as crianças e os jovens se interterem, ocupar a mente, não tem nada! Então, é por isso que tem muita criança envolvida com coisas que não era nem pra saber, os jovens já envolvidos com drogas, essas coisas (VIDA).
[...] algumas crianças que poderiam estar usando drogas podiam estar jogando bola. [...] No meu bairro as pessoas fazem os dois. Fuma primeiro e depois vai jogar. [...] Se droga não. Fuma maconha. Maconha não, mas o que os traficantes vendem é (BOB).
Isso pode ajudar tanto o físico como o emocionalmente a pessoa, pode ocupar a cabeça com outra coisa, pode também tirar das drogas (IARA).
Quando contrastamos esses relatos acima pensamos sobre essas duas visões: primeiro, a falta de lazer/esporte influenciando no envolvimento com as drogas e, o segundo, as pessoas se drogam e praticam esporte do mesmo jeito. Um estudo recentemente difundido no portal eletrônico de notícias da Universidade de São Paulo (REDAÇÃO CIÊNCIAS DA SAÚDE, 2017) falando sobre o esporte não afastar os adolescentes do consumo de drogas evidenciou que a maioria dos jovens praticam esportes em academias e clubes não pela valorização da saúde, mas pela aparência física. Embora o sentido que estes jovens trazem não se refere de fato a questões estéticas, é importante ser problematizado no contexto escolar, no caso das escolas deste estudo, uma possibilidade está nas aulas voltadas a saúde do aluno, podendo se estender a oficinas temáticas.
Outra questão, que foi trazida o uso das tecnologias em detrimento das práticas corporais:
[...] na nossa sociedade as crianças não suportam, por exemplo, brincadeiras. É... elas se importam mais com as novas tecnologias enfim, celulares, tabletes (BONECA).
Sedentarismo e internet (afastando os jovens dos esportes) (BRISA).
Mas se perguntarmos a estes jovens se todos têm computador e acesso à internet em casa ou em suas escolas, vamos perceber que isso não é uma realidade da grande maioria. Todas estas questões nos mostram que o esporte por ser fenômeno social com regras, exigências morais e éticas podem contribuir para alguns problemas na educação atual, já que ele pode fomentar desejos, trazer preceitos e deveres para nós motivando nossas ações (MOREIRA; SIMÕES; MARTINS, 2011) como pode ser observado no relato desses jovens:
Eu nunca me esqueci da apresentação do trabalho que o menino disse que cada esporte tem suas regras. E com isso a gente aprende com o esporte, regras, ter limites pra tudo (VIDA).
Traz muitos benefícios para sua vida. Mesmo que seja praticado ou como lazer (BOB).
[...]acho que o esporte não é só voltado para os homens, ele também é voltado pelas crianças, como jovens e também, para as mulheres, porque todos podem fazer o esporte e eu fiz um desenho como se fosse uma menina jogando bola (IARA).