Esta questão deu origem às categorias centrais a) Alterações que obrigam à reformula- ção da relação afectiva; b) Instabilidade instalada na relação e c) comparação pré-lesão.
a)Alterações que obrigam à reformulação da relação afectiva
Nesta categoria os sujeitos identificam alterações de ordem psicológica e emocional na sua relação afectiva, decorrentes da lesão. Essas alterações estão identificadas num todo, como sendo, quer de carácter negativo, quer positivo. Em minoria, existem pessoas que, apesar de considerarem ter havido alterações, não as classificam como sendo negativas ou positivas para a sua vida presente.
Esta categoria central inclui as categorias conceptuais: a) Alterações no relacionamento com impacto positivo; b) Alterações no relacionamento com impacto negativo; c) Sem impacto e d) Alterações do relacionamento sem especificação.
No Quadro 22 apresenta-se uma sistematização das categorias conceptuais e descritivas que deram origem à categoria central Alterações que obrigam à reformulação da relação afectiva, bem como exemplos do discurso dos sujeitos.
Quadro 22
Discurso dos participantes relativamente à categoria central Alterações que obrigam à reformulação da relação afectiva
Categoria conceptual
Categoria
descritiva Exemplo de discurso Ref. N
Alterações no relacionamento com impacto positivo 59 25 Conversas sobre o tema
S2: “‘tá sempre a dizer para eu ‘tar à vonta- de, que tudo se vai recompor”
S14: “Nós conversamos muito”
24 16
Relevância dos por- menores
S25: “agora dou valor a outras coisas, a uma mentalidade diferente, a uma mentalidade mais aberta”
S29: “anda sempre a ver se me falta alguma coisa, se não falta”
15 6
Melhorou
S2: “ainda ficou mais meiguinha depois deste acidente”
Categoria conceptual
Categoria
descritiva Exemplo de discurso Ref. N
Segurança
S18: “ela disse logo para eu não me preocu- par que ‘tava tudo no controle dela” S20: “toma conta de mim, ajuda-me, é um querido”
5 5
Mais união entre o casal
S13: “estamos mais unidos”
S31: “até nos aproximou mais” 3 3
Mais tempo S8: “temos mais tempo” 1 1
Paciência do parceiro S28: “para já ainda tem muita paciência
comigo” 1 1
Amadurecimento S14: “amadurecemos” 1 1
Criação de objectivos futuros
S8: “espero que quando sair daqui já consi-
gamos viver sozinhos” 1 1
Empenho S13: “é uma fase em que ela está a empe-
nhar-se” 1 1
Valorização do prazer do outro
S26: “desde que tive a lesão prefiro dar
prazer à pessoa que está comigo” 1 1
Alterações no relacionamento com impacto negativo 57 23 Abalo na auto-confiança
S2: “tenho muito medo porque ‘tou assim, ‘né?”
S9: “agora afasto-me e quando as miúdas aparecem para me falar”
13 8
Diminuição do inte- resse do parceiro
S1: “acho que ela não se excita comigo” S10: “no sexo noto que ela não tem paciên- cia”
9 4
Complicações nas actividades
S19: “não fazemos as mesmas coisas que os outros casais fazem”
S21: “agora primeiro que, por exemplo, conseguimos sair de casa nem imagina”
8 4
Falta de diálogo
S1: “às vezes ‘tou quase a tocar no assunto, mas depois há alguma coisa que me impe- de”
S17: “depois que isto me aconteceu ela nunca mais falou disso e eu também ainda não lhe toquei no assunto
5 3
Dependência emoci- onal
S4: “estou mais preso à minha namorada agora”
S8: “por causa da minha dependência criou- se uma relação”
4 4
Alteração da vida sexual
S29: “na parte sexual mudou tudo”
S30: “a vida sexual tem muita importância e isso não corre bem”
3 3
Abandono
S23: “tinha um amigo especial e desapare- ceu um mês depois de isto me acontecer” S35: “A minha mulher deixou-me depois de eu ter ficado assim”
3 2
Negligência emocio- nal
S5: “com o tempo as coisas têm esfriado mais”
S5: “não está tão atencioso”
2 1
Inconformismo S3: “na minha cabeça, na minha forma de
Categoria conceptual
Categoria
descritiva Exemplo de discurso Ref. N
S3: “acho que é derivado a isto, não me conformar com isto”
Diminuição do desejo
S32: “o desejo diminuiu”
S32: “basta o meu desejo já não ser o mes- mo, para não estar tão disponível”
2 1
Culpa S3: “se puxa pelo assunto eu digo logo que
se estou assim é por culpa dela” 2 1 Mudanças de com-
portamento
S10: “houve umas alturas mais lá atrás que eu andava chateado, ficava agressivo e ela é que pagava”
1 1
Aumento da agressi- vidade
S3: “torno-me agressivo nas conversas e
coisa que eu não era antes” 1 1 Alteração da natureza
da relação
S8: “Nesses primeiros 3 meses pedi dela mais amizade do que propriamente ser mi- nha namorada”
1 1
Nervosismo S27: “quando tive sentia-me muito nervoso
cada vez que íamos para a cama” 1 1
Alterações do relacionamento sem especifica-
ção
6 6
Mudanças S24: “houve coisas que mudaram”
S32: “A nossa vida mudou a muitos níveis” 3 3 Pequenas
alterações
S3: “talvez tivesse mudado um pouco” S5: “Eu acho que mudou alguma coisa, assim muito ao de leve, mas mudou”
2 2
Grandes alterações
S4: “mudou tudo quase, a forma de estar e
de ser” 1 1
Sem impacto
7 6
Sem impacto S7: “Nenhum”
S29: “até ver tem sido superado” 4 3 Tudo bem S2: “Para já acho que ‘tá tudo espectacular”
S12: “Para já ‘tá tudo a correr bem” 2 2 Relação normal S8: “a relação em termos afectivos acho que
está normal” 1 1
Em Alterações no relacionamento com impacto positivo 25 indivíduos, em 59 ocasiões, apontaram como aspectos muito positivos no relacionamento o facto de conversarem muito sobre a situação com os parceiros e de darem mais relevância aos pormenores agora do que antes. No geral, o discurso revelou que a relação melhorou, permitindo mais segurança e união entre o casal. Alguns sujeitos disseram, ainda, ter mais tempo agora para o companheiro e apontaram, também, a paciência do outro, o empenho e o amadurecimento da relação. A criação de objectivos futuros e a valorização do prazer do outro, são aspectos, igualmente, descritos como impacto positivo.
Relativamente à categoria conceptual Alterações no relacionamento com impacto nega- tivo, surgem 23 participantes, em 57 situações a referirem-se, na sua maioria, ao abalo na auto-confiança e à percepção de diminuição do interesse do parceiro. As complica- ções nas actividades de vida diária e lúdicas, a falta de diálogo e a dependência emocio- nal, são igualmente apontadas como alterações de impacto negativo. Outros aspectos negativos focam-se nas mudanças em termos de vida sexual, bem como na diminuição da libido. O abandono do outro e a negligência emocional percebida pelo sujeito, são, igualmente, ocorrências assinaladas. Por fim, alterações do comportamento verificáveis no próprio sujeito, como a atribuição de culpa, o aumento da agressividade e o nervo- sismo, são factores que contribuem para o surgimento de problemas no relacionamento.
Na categoria Sem impacto, 6 pessoas, em 7 situações, assumiram que a lesão não cau- sou nenhum impacto na relação, permanecendo tudo dentro dos parâmetros normais anteriores.
Na categoria conceptual Alterações do relacionamento sem especificação, em 6 momen- tos, 6 indivíduos apontaram vagamente mudanças sem especificação.
b)Instabilidade instalada na relação
Nesta categoria central os sujeitos identificaram factores decorrentes do acontecimento, que consideram existir no contexto da relação e que, por si só, poderão ser sintomas de instabilidade entre o casal.
A única categoria conceptual emergente possui a mesma denominação da categoria cen- tral, ou seja, Instabilidade instalada na relação. Por 26 circunstâncias, 17 participantes assumiram que o medo do abandono, o afastamento entre o casal, o seu afastamento e as incertezas relativamente à construção de um futuro em conjunto, são aspectos negativos que surgiram no seio do relacionamento como consequência do evento. Outros, ainda, referiram-se à ausência de relação afectiva, pelo que não podem construir discurso rela- tivamente a esta questão.
No Quadro 23 apresenta-se uma sistematização da categoria conceptual e descritivas que deram origem à categoria central Instabilidade instalada na relação, bem como exemplos do discurso dos sujeitos.
Quadro 23
Discurso dos participantes relativamente à categoria central Instabilidade instalada na relação
Categoria conceptual Categoria descritiva Exemplo de discurso Ref. N
Instabilidade instalada na relação
26 17
Medo do abandono
S32: “há sempre medos, há sempre um fantasma, o fantasma do abando- no”
S33: “tenho medo de ser trocado”
16 13
Afastamento entre o casal
S32: “ajo menos também e isso pode afastar-nos no futuro”
S34: “não houve aproximação ne- nhuma porque eu ainda não quis”
4 3
Ausência de relação afectiva
S16: “Não tenho neste momento relação afectiva ou amorosa” S17: “tenho… uma amiga… a gente encontrava-se e tal… tínhamos sexo, mas não havia compromisso”
3 2
Evitamento
S34: “eu evito ‘tar com ela” S34: “nem quero que ela venha aqui ver-me assim”
2 1
Incertezas relativas ao futuro a dois
S19: “não sei se o amor que sentimos um pelo outro é suficiente para ela continuar muito tempo ao meu lado, tipo para casarmos ou assim”
1 1
c)Comparação pré-lesão
Nesta categoria central 5 sujeitos, por 8 vezes, expressaram as grandes diferenças entre a forma como se percepcionavam antes do acidente e o momento presente. Referem-se à facilidade e simplicidade da relação anteriormente, bem como ao sentimento de algum saudosismo e nostalgia.
No Quadro 24 apresenta-se uma sistematização da categoria conceptual e descritivas que deram origem à categoria central Comparação pré-lesão, bem como exemplos do discurso dos sujeitos.
Quadro 24
Discurso dos participantes relativamente à categoria central Comparação pré-lesão.
Categoria conceptual Categoria descritiva Exemplo de discurso Ref. N
Comparação pré-lesão
8 5
As coisas mudaram muito S32: “já nada é igual ao que era
antes do meu acidente” 4 3 Antes era simples e fácil
S21: “antes era tudo tão simples
entre nós” 3 2
Saudades do antes S24: “eu sei que sente saudades
Questão 4: “Presentemente através de que forma atinge o auge da sua actividade