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6. DENEYSEL ÇALIġMALAR

6.1. Klinoptilolit ve Ġdrar Numuneleri

O poema, essa estranha máscara, mais verdadeira do que a própria face.

Quintana

Inumeráveis bons autores35 discutiram poesia. A eles, peço licença. Hei de lhes passar ao largo. Estas folhas hão de vir das sementes ―apalavradas‖ pelos próprios poetas. Dos (outros e novos) sentidos que eles dão à linguagem – que reinventam, sem reis, luxuriantemente livres.

O sentido normal das palavras não faz bem ao poema. Há que se dar um gosto incasto aos termos.

Haver com eles um relacionamento voluptuoso. Talvez corrompê-los até a quimera.

Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los. Não existir mais rei nem regências.

Uma certa luxúria com a liberdade convém. (BARROS, 2010)

Difícil pensar sobre o poeta, ou tentar apreender o que sente ou diz de si, sem considerar o que os vates falam da própria poesia. Mundo em que vivem, vida que mudam, a poesia traduz o indizível. Ou melhor, diz o intraduzível, pois em silêncio deve permanecer o que nas entrelinhas quer morar.

Vinicius de Moraes, em Poética (II) (1980, p.351), toca a questão dos princípios que regem esta arte (sua), deixando aberta a janela do verso vertido para a incerteza: casa ou torre ou templo, ele nos convida a entrar; em nada lembrando casa de ermitão, torre de marfim ou templo de impenetráveis dogmas, mas já tangenciando concretude e transcendência, já transmutando em poética alquimia o próprio espaço e o próprio tempo.

Poética (II)

Com as lágrimas do tempo E a cal do meu dia Eu fiz o cimento Da minha poesia. E na perspectiva Da vida futura Ergui em carne viva Sua arquitetura.

35 Sem pretender lista exaustiva, torno a sugerir a leitura de Sânzio de Azevedo, Alfredo Bosi, Antônio Cândido, Afrânio Coutinho, Horácio Dídimo e Massaud Moisés.

Não sei bem se é casa Se é torre ou se é templo: (Um templo sem Deus.) Mas é grande e clara Pertence ao seu tempo – Entrai, irmãos meus!

(MORAES, 1980, p.351)

A poesia tem uma dimensão espiritual. Isso nada tem a ver com nenhuma religião específica, claro, mas com o que é essencial para a humanidade, posto que a espiritualidade faz parte da essência (de cada dia – desde e para sempre). Para alguns, a poesia é um ―credo‖, nome mesmo de um poema de Elisa Lucinda (2008, p.146):

(...) Porque sou humano e creio no divino da palavra, para mim é um oráculo a poesia!

É meu tarô, meu baralho, meu tricô, meu I-Ching, meu dicionário, meu cristal clarividente,

meus búzios, meu copo com água, meu conselho, meu colo de avô,

a explicação ambulante para tudo o que pulsa e arde. A poesia é síntese filosófica, fonte de sabedoria,

e bíblia, dos que, como eu, creem na eternidade do verbo, na ressureição da tarde e na vida bela.

Amém.

(LUCINDA, 2008, p.146)

Sobre a dimensão espiritual da poesia, muito mais a dizer – e de indizível. Por ora, me contento em amealhar os trechos que espero melhor coser para a tessitura final desta tese. Por ora, me limito a citar meu íntimo apelo e oração, em parte traduzidos em Poesia nossa de cada dia (BELTRÃO, 2009, p.37, aqui revisto, com o acréscimo do verbo ―haver‖ em vez do artigo ―os‖ no oitavo verso).

Poesia nossa, que estais em nós, pronunciado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, sejam feitos vossos versos, amanhã e agora qual outrora.

A inspiração nossa de cada dia nos dai hoje. Perdoai a nossa parca poética

assim como nós perdoamos haver poucos leitores. Não nos deixeis sem o vosso sopro,

mas guiai-nos no entusiasmo de criar.

Certo é que ainda pouco vejo e posso dar a ver do que me é que possível alcançar. Mais evidente parece o inatingível, o inefável. Por isso revejo e revisito poemas que li ou fiz, em busca de encontrar e aqui tentar esclarecer como veem o que fazem os que de poesia são feitos, quer queiram ou não, uma vez que o chamado ou a questão essencial – como bem dizia Rilke (1993, p.27) – não admitem negativa; não aceita ―não‖ como resposta a pergunta fundamental para o poeta:―é necessário que eu escreva?‖

Muitas vezes o paradoxo experimentado ou pronunciado pelos bardos é surpreendente: no tópico seguinte veremos as reflexões de Quintana e Pessoa sobre o poeta como fingidor ou farsante. Desde a matéria com que trabalha, o terreno é decerto incerto, como na epígrafe deste trecho, em que Quintana aponta que o poema é estranha máscara, posto que mais verdadeira é que a própria face. Revelam-se os vates em suas linhas e nas entrelinhas se ocultam. Não poderia deixar de frisar que, interrogado sobre a ideia de fazer sua autobiografia, Quintana respondeu que todos os poemas são autobiográficos! Neste jogo de luz e sombra, de claro e escuro, de esconde e mostra, sinto eu que quanto mais me exponho, mais guardo de mim. Um meu conterrâneo, escritor maior e mestre da simplicidade, vivencia o contrário disso; na abertura de O Menino Impossível, diz Horácio Dídimo.

Para os possíveis leitores Quem aprender

A ler os meus poemas Pelo avesso

Verá que o que parece ser o fim É apenas o começo

E quanto mais eu me escondo Mais eu apareço

(DÍDIMO, 2010, p.3)

Os poemas vivem na gente, nas coisas, nos fatos, no tempo, no lugar, na efemeridade tão eterna de ser. Por isso, o poeta diz e desdiz sem se contradizer ou pelo menos sem medo da humana e necessária contradição. A propósito, Quintana disse uma vez que quem nunca se contradiz em algum momento está mentindo. Um texto seu se chama: Contradições?

...mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira. E por isso é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, com toda a sinceridade, as coisas mais opostas.

Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo. (QUINTANA, 2005, p.251)

Com este faz coro outro moderno aedo, de quem é bem conhecido mesmo o apelido de Vina. Ele nos faz ver que poetas convivem com o paradoxo e a contradição.

O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos. (...)

É que a vida é para todos um fato cotidiano. Ela o é pela dinâmica mesma de suas contradições, pelo equilíbrio mesmo de seus pólos contrários. O homem não poderia viver sob o sentimento permanente dessas contradições e desses contrários, que procura constantemente esquecer para poder mover a máquina do mundo, da qual é o único criador e obreiro, e para não perder a sua razão de ser dentro de uma natureza em que constitui ao mesmo tempo a nota mais bela e a mais desarmônica. Ou melhor: para não perder a razão tout court.

Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. (MORAES, Sobre poesia, 1980, p.537)

Já em trecho anterior (1.2.5), aquele que ficou conhecido como o Poetinha anunciava:

A vida do poeta tem um ritmo diferente

Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.

(MORAES, 1980, p.73)

Parece o poeta conciliar contradições e opostos, ou conviver bem (ou mal?) com não haver como conciliar o que a se contradizer e se opor persiste.

O mestre de Alegrete, além de apontar a contradição inerente ao fazer poético, canta o caráter intrinsecamente autobiográfico dos poemas, as duas facetas reunindo.

O poeta canta a si mesmo

porque nele é que os olhos das amadas

têm esse brilho a um tempo inocente e perverso... O poeta canta a si mesmo

porque num seu único verso pende – lúcida, amarga –

uma gota fugida a esse mar incessante do tempo... Porque o seu coração é uma porta batendo a todos os ventos do universo.

Porque além de si mesmo ele não sabe nada

ou que Deus por nascer está tentando agora ansiosamente respirar neste seu pobre ritmo disperso!

O poeta canta a si mesmo porque de si mesmo é diverso.

(QUINTANA, 2005, p.488-489)

Intrínseca diversidade, íntima contradição, milenar paradoxo vivem em ser poeta. Dizia o alegretense serem todos os poemas... de amor, importunado com quem versos de amor de sua lavra almejava. Fala(,) Mario Quintana.

Se o poeta falar num gato, numa flor,

num vento que anda por descampados e desvios e nunca chegou à cidade...

se falar numa esquina mal e mal iluminada... numa antiga sacada... num jogo de dominó...

se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade se falar na mão decepada no meio de uma escada

de caracol...

Se não falar em nada

e disser simplesmente tralalá... Que importa? Todos os poemas são de amor!

(QUINTANA, 2005, p.474)

Mais brevemente, o mesmo dizia também ele em (ou de) um Diálogo Inútil:

– Mas por que tu não fazes um poema de amor? – Todos os poemas são de amor.

(QUINTANA, 2005, p.250)

São de amor compartilhado. E amor não pode haver, não pode ser de todo amor, se não for compartilhado. E o amor com a poesia comunga sua aversão a regulamentos e dicionários. Conforme a pena de Drummond:

Amor é estado de graça e com amor não se paga Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários.

Entre amor e palavras, bom recordar que Dídimo nos segreda:

a palavra amor muda de cor

O que completaria o poeta amazonense Thiago de Mello cantando:

(...) tens de guardar dia a dia, mesmo doendo, o amor no teu coração: sabendo que amor só cresce quando se reparte inteiro, e se deixa de crescer, de ser amor também deixa.

(MELLO, 1986, p.15)

Qual a poesia, o amor muda, cresce, se reparte sendo inteiro, aumenta quando se dá, foge a dicionários e regras, contraria a gramática, convive com contradições e paradoxos bem humanos... e por toda a gente experimentados.

Não há poesia sem partejar. Leitor e poeta são uma díade. Se o dia do diálogo se completa e se inteira, logo dois são. Assim é entre o radialista e o ouvinte, assim é entre quem escreve e quem lê. Por isso, dizem alguns dos que escrevem poesia que são também poetas os que os leem. Em Os Poemas, recorda Quintana:

Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão.

Eles não têm pouso nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti...

(QUINTANA, 2005, p.469)

Estavam em ti, leitor, leitora, as mesmas palavras com que o vate vai-te convidar à página, com que o aedo aereamente reúne na terra das folhas futuro, passado e presente, de sementes a frutos, de frutos a sementes, nem sempre cronologicamente, nem sempre logicamente.

Escrevo para esse solitário que me lê, (...) para sentir-me menos só, para senti-lo em minha solidão. Escrever é estender uma mão, abri-la, buscar no vento um amigo capaz de apertá-la. É uma tentativa de criar uma comunidade. E nada mais (PAZ, 1999, p.351).

Eis um pouco como me sinto no momento de irradiação de cada programa diante da multidão de sujeitos dispersos e no próprio momento em que fio e desfio estas linhas em

desalinho que encontrarão abrigo nos olhos de alguns solitários que me leem, no labirinto dos ouvidos solidários que escutam minha voz plasmada na pele desta página. Vejo cada questão que toco ao longo deste texto como uma porta aberta na direção de outras portas abertas... ou a serem abertas...

Horácio Dídimo diz que o poeta é o afinador de palavras... Afinar as palavras para que cantem, como desde muitos séculos, desde quando poesia e música vivem em conjunção, digo, em comunhão, digo, em par. ―A poesia é a arte de comunicar a emoção humana pelo verbo musical‖ (René Waltz, apud Massaud Moisés, 1977). Evito voltar a detalhes bem sabidos da convivência íntima entre as artes em diversas culturas, como a grega e a chinesa.

Mais valioso que escrever é viver a Poesia. Edgar Morin, em Amour, Poésie, Sagesse (1997, p.10, tradução minha)36 diz que ―O amor faz parte da poesia da vida. A poesia faz parte do amor pela vida. (...) Se a poesia transcende sabedoria e loucura, precisamos aspirar a viver o estado poético, e evitar que a prosa devore nossas vidas, que são necessariamente tecidas de prosa e poesia‖.

A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo, é mais que a literatura, leva-nos à dimensão poética da existência humana. Revela que habitamos a Terra não só prosaicamente – sujeitos à utilidade e à funcionalidade –, mas também poeticamente, destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase. Pelo poder da linguagem, a poesia nos põe em comunicação com o mistério, que está além do dizível (MORIN apud ANTÔNIO, 2009, p.117).

Severino Antônio (2009), em constelar diálogo com Morin, Bachelard e outras vozes, propõe uma ―nova escuta poética da educação e do conhecimento‖ que inspira minha busca de autoconhecimento, de sentido, de felicidade e de serventia para o estudo que ora gero: ―A imagem poética existe sob o signo de um ser novo. Esse ser novo é o homem feliz. A verdadeira poesia é uma função de despertar. O poeta fala no âmago do ser. A poesia é a criação do ser pelas palavras‖ (BACHELARD apud ANTÔNIO, p.117). Segundo Severino Antônio (2009), essa nova escuta poética da educação e do conhecimento traz várias religações, ―como as dos campos de saber, a da subjetividade-objetividade, a do cognitivo- afetivo‖ (ANTÔNIO, 2009, p.18) e traz também ―o engendramento de novos modos de raciocinar, de interpretar e de exprimir o mundo e a nós mesmos‖ (ANTÔNIO, 2009, p.18). O autor adota o poema como ―a metáfora para expressar o novo modo de sentir, de pensar, de conhecer, de educar‖ (ANTÔNIO, 2009, p.128).

36 L‟amour fait partie de la poésie de la vie. La poésie fait partie de l‟amour pour la vie. (...) Si la poésie

transcende sagesse et folie, il nous faut aspirer à vivre l‟état poétique, et éviter que la prose n‟engloutisse nos vies, qui sont nécessairement tissées de prose et de poésie.

Essa poética revela-se reconhecimento da interdependência e da irmandade de todas as coisas e, assim, em muitos aspectos, constitui-se inseparável de uma nova ética, de reverência pela vida, de renovado amor pela tessitura de vozes que constituem o real. Representa, ainda, uma reeducação da sensibilidade e da inteligência e, reciprocamente, para que floresça, precisa ser alimentada por novos modos de sentir e de pensar (ANTÔNIO, 2009, p.14).

Não havendo fim para a busca artística ou científica, em algum momento parar é preciso (ou necessário, posto que impreciso). Vinicius nos aproxima da poética e das Histórias de Vida e Formação, que querem revisitar passado, para melhor ver presente e bem gerar futuro. Em Poética (I), de novo pela alquimia da palavra transmutando tempo e espaço, o poeta do amor maior dá um laço eterno no infinito, de nós desfeitos e refeitos.

Poética (I) De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo. A oeste a morte Contra quem vivo Do sul cativo O este é meu norte. Outros que contem Passo por passo: Eu morro ontem Nasço amanhã Ando onde há espaço: – Meu tempo é quando.

(MORAES, 1980, p.277)

Em sua ―reflexão‖ sobre poética, Vinicius nos aproxima das Histórias de Vida e Formação (HIVIF): para esta abordagem o tempo faz curva, a gente reúne em si e em seu dizer de si: o passado, o presente, o futuro, não necessariamente nesta ordem.