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7. DENEYSEL BULGULAR VE TARTIġMA

7.2. Amonyum Geri Kazanımı

7.2.2. Desorpsiyonla sıvı faza aktarım

Eu faço versos como quem faz perguntas – que poema a vida traduz? Ao fio das linhas que tecem este trecho, eu experimento o prazer e o desafio de refletir e sentir um pouco da poesia tal como a gente a vive no Brasil, especialmente em Fortaleza, praiana capital do Ceará, no Nordeste. Eu convido a brevemente compartilhar intuições, dúvidas, incertezas,

48 A versão primeira deste tópico (BELTRÃO, 2011), originalmente escrita em francês, foi publicada como ensaio, intitulado Je fais des vers comme quelqu‟un qui pose des questions, na revista Cultures & Sociétés n° 17

(Paris: Ed. Téraèdre, janvier 2011, p. 60-65) no dossiê “Poètes, vos papiers! La poésie permet-elle de penser le monde autrement?”, coordenado por Jean-François Gomez. (Ver anexos.)

Escrever este texto teve papel vital no meu percurso durante o doutorado sanduíche. Poucos dias depois da partida de minha mãe, em 09/09/2010, J.-F. Gomez me dizia (correio de 12/09/2010): ―La perte d‟une mère est

une des aventures les plus puissantes de la vie d‟un homme. On sent que tu garderas la fierté que t‟as donné cette mère qui restera en toi pour toujours. / A perda de uma mãe é uma das aventuras mais poderosas da vida de um homem. A gente sente que guardarás a altivez que te deu essa mãe que ficará em ti para sempre‖. Em seguida (correio de 15/09/2010), convidava-me ―à écrire un témoignage sur ton expérience d' homme de radio etc. dans un texte qui insiste sur le rapport qu'ont les gens de chez toi à la poésie (à mon avis différent de la France) / a escrever um testemunho sobre tua experiência de homem de rádio etc. em um texto que insista sobre a relação que têm as pessoas de tua terra com a poesia (na minha opinião, diferente da França)‖. Ele me recordava que, para mim, (continuar a) escrever é essencial para viver. (Tornarei a citar este episódio.)

impressões de um poeta, professor e homem de rádio que vive no quotidiano – no ar, no palco, em sala de aula – a relação com a poesia que têm as pessoas do meu lugar, os que a escrevem, leem, escutam, cantam...

Falar de poesia suscita mais perguntas do que respostas – por claras razões. Tanto melhor, posto que para um poeta mais valem as questões do que os achados, mais sugerem as inquietações que o vazio, mais contam as dúvidas do que as certezas.

Das Indagações

A resposta certa não importa nada:

o essencial é que as perguntas estejam certas. (QUINTANA, 2005, p.278)

Falar de poesia me impõe silêncios que compõem pausas musicais. Eu esboço linhas e entrelinhas pensando, claro, nos leitores – de poesia, sobretudo – e sentindo, uma vez mais, o que esta palavra guarda em si de infinito e inefável. Se desabrocharem semântica e etimologia, o sentido de ―criação‖ estará nela sempre presente. O poeta cria o que pode se tornar real ou recria à sua maneira o que a realidade (ou o sonho) lhe revela. Por um lado outro, somente ele pode apreender uma dimensão desta distinta, mais sutil, estranha à maioria dos homens e mulheres que não amam a poesia, sob pretexto de não a compreender, de a considerar inútil ou de a considerar inferior à prosa. Prosaicas, essas pessoas – mas a gente bem precisa de ambas, lembremos uma vez mais que, segundo Edgar Morin (1997, p.41, tradução minha), ―o homem habita a Terra poética e prosaicamente ao mesmo tempo‖.

Poesia, pra que serve? Pra emocionar e a voz inspirar, pra inquietar e inquietude expressar. Pra despertar a beleza e embalar os sonhos… Pra traduzir o prosaico em sensibilidade. Em seu poema, o banco do jardim, Horácio Dídimo (2010)49 diz:

ela foi embora

mas as palavras que ela disse ficaram e conversaram muito tempo ainda

(DÍDIMO, 2010, p.12)

49 Na versão original deste texto (BELTRÃO, 2011), traduzi em francês os versos do poeta cearense: elle s‟en est

allée / mais les mots qu‟elle a dits sont restés / et ils ont conversé très longtemps encore. Quando preparava o

ensaio que deu origem a este tópico (ver nota anterior), recebi em Nantes o poético correio de Horácio Dídimo, que me enviara O Pequeno Leitor (DÍDIMO, 2010), onde eu reencontrei esses versos que eu trazia de cor, desde a leitura primeira, no Folhetim Literário Acauã (1985, o mesmo em que publiquei Os Cisnes) e em Amor, palavra que muda de cor (A palavra e a Palavra) (DÍDIMO, 2002). As palavras do mestre da simplicidade

Quando se lê um poema, ele conversa muito tempo na gente. Quando se partilha esse poema, ele tece laços. Quando a gente o aprende de cor, guarda um tesouro.

Sem ter à mão nenhum censo, ousaria dizer assim mesmo que os leitores de poesia no Brasil não são dos mais numerosos, mas são apaixonados. De fato, o que conta, não é o número de leitores, mas sua qualidade. São os bons leitores que carregam a obra ao longo do tempo – senão, como teriam chegado aos nossos dias os versos escritos no século XVII (quando não havia quase letrados no Brasil), tais como os de Gregório de Matos, conhecido como Boca do Inferno, assim chamado por causa do conteúdo erótico e das críticas – ácidas e sempre atuais – feitas às autoridades políticas e religiosas?

A cada canto um grande conselheiro. que nos quer governar cabana, e vinha, não sabem governar sua cozinha, e podem governar o mundo inteiro.50

(MATOS)

Se os editores nesse campo de poemas são raríssimos, em revanche muitos compatriotas meus sabem de cor versos ou mesmo poemas completos de Vinicius de Moraes, Thiago de Mello, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Patativa do Assaré, entre outros, que eles chamam à baila no momento propício: seja em um baile ou um sarau; seja quando de uma manifestação política, seja como palavras de sabedoria; seja para ilustrar o que dizem, seja para embelezar um gesto. Se não se contam vendas importantes nesse âmbito e se não há bardos em meio aos autores de best-sellers, os poetas populares – cantadores, emboladores – continuam fascinando um público entusiasta, versejando de improviso nas feiras e nas praças dos vilarejos e das capitais, sobretudo do Nordeste, acompanhados de suas violas ou pandeiros. E ainda se encontram, na literatura de cordel, publicações bem simples (que animam quem as lê, às vezes, para outros, mais velhos, que não sabem ou não podem mais ler). Ainda há cantorias durante as quais esses poetas populares se juntam para desafios – sobre os mais diversos temas, tanto as tradições e as lendas, quanto a exploração dos operários e camponeses – e isso durante horas encarrilhadas com tiradas de versos improvisados até que um deles não mais consiga o outro acompanhar.

Em meio a esses diversos poetas, Geraldo Amâncio, Lourinaldo Vitorino, Oliveira de Panelas, destacaria o cearense Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (CARVALHO, 1997), mestre maior da poesia e da simplicidade.

50 No ensaio original, traduzi o célebre pioneiro poeta: Dans chaque coin un très grand conseiller / Veut nous

gouverner la maison, et vigne, / Ils ne savent pas gouverner leur cuisine, / Et ils peuvent gouverner le monde entier.

Eu venho desde menino Desde muito pequenino Cumprindo o belo destino Que me deu Nosso Senhor Eu nasci pra ser vaqueiro Sou mais feliz brasileiro Eu num invejo dinheiro Nem diproma de dotô Carrego nesses meus óio O sinal do Redentor Me tenho nessa parada Quanto mais feliz eu vou Não nasci pra ser guerreiro Nem infeliz estrangeiro Eu num me entrego ao dinheiro Só ao oiá do meu amor51

(PATATIVA DO ASSARÉ)

Bem verdade, Patativa e outros poetas populares não têm mesmo razão alguma para invejar os que fizeram avançados e longos estudos, para quem os mais caros papéis são com frequência seus títulos; eles têm a maestria da palavra – seu ritmo, sua harmonia, sua métrica, suas rimas, suas possibilidades de improvisação, de expressão do imaginário e de recriação do vivido. Patativa cantou em versos a vida no sertão do Nordeste, a beleza e a miséria que ali existe, as injustiças sociais e a discriminação contra as pessoas simples, sendo um dos representantes da voz do povo brasileiro, sufocada durante os longos anos de ditadura militar (1964 - 1985). Aliás, depois do golpe de estado dos militares, foi em poemas e canções de protesto que vários artistas, tais como Ferreira Gullar e Thiago de Mello ou os compositores Chico Buarque e Gonzaguinha denunciavam – frequentemente em uma linguagem velada, para escapar à censura – a tortura, o exílio, a perseguição e a opressão que nós sofremos.

Em meu país, o poeta oscila qual equilibrista entre as imagens que dele fazem: o talentoso, o porta-voz, o sonhador, o ingênuo, o romântico, o sensível, o louco... Em Citação, poema que é uma das epígrafes desta tese, Quintana (2005) escreve:

E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: ―A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância‖.52

(QUINTANA, 2005, p.293)

51 No ensaio original (BELTRÃO, 2011), também Patativa precisei ousar traduzir, mas naquela publicação citei somente este trecho: Je viens depuis tout petit, / depuis très très très petit, / accomplissant le beau destin / que

m‟a donné Notre Seigneur (…)/ Moi, je n‟envie pas l‟argent / ni les diplômes de docteur.

52 Na tradução publicada no ensaio original (BELTRÃO, 2011), assim traduzi: Et mieux on pourrait dire des

poètes ce qu‟a dit des vents Machado de Assis : “La dispersion ne leur enlève pas l‟unité, ni l‟inquiétude la constance”.

Esse pássaro, a um só tempo exótico e familiar, tem nele o grão da beleza, certamente. Ele responde aos afetos, ou melhor, ele interroga a afetividade humana, seja ela formidável, perturbadora, fascinante, esmagadora, transcendente – seja como for, múltipla. Quem conhece e ama a poesia sabe muito bem que há diversas naturezas de poetas, vários tipos de poemas e que dizer o que é um poeta talvez seja mais complexo que definir o que é a própria poesia. Em todo caso, acredito estarmos de acordo que o poeta é o artista que domina a linguagem pelo ritmo, pela harmonia e pela imagem; o poeta é aquele que vivencia e desperta em outrem a emoção poética. Mas não tenho a intenção de teorizar muito sobre essas questões neste trecho. Preferiria lhes deixar um tiquinho das emoções e dos sentimentos tão intensos que povoam o reino das palavras onde eu vivo.

Para mim, o ideal seria escrever da maneira mais simples, com palavras que tenham o sabor do quotidiano, sem malabarismos linguísticos, como alguém que fala com alguém, como aquele que conta seu dia, pela beleza seduzido.

Simples

Meu ideal seria escrever de maneira bem simples. Com palavras que têm aquele gostinho de habituais. Sem sustos gramaticais,

como quem conversa.

Meu ideal seria escrever o gostoso-de-dizer. Imagens simples: bem-ditas.

Meu ideal seria escrever poesia como quem conta seu dia ou declara seu amor.

(BELTRÃO, 2009, p.43)

A palavra quer percorrer os labirintos do ouvido – ela espera na pele do papel pelo olhar que a encantará, a voz que a pronunciará.

Palavra Viva

Para o poeta João Alfredo A palavra ama os labirintos dos ouvidos. A palavra vive a pulso no papel

à espera do olhar encantado que a vem despertar. A palavra paira no ar.

(BELTRÃO, 2007, p.15)

No Ceará, minha terra, eu digo poesia no ar, nos programas Sem Fronteiras: Plural pela Paz e Todos os Sentidos, em uma rádio pública, e nos palcos locais, em apresentações

poético-musicais que faço com outros artistas. É aliásquase sempre em espaços públicos que viceja a poesia no Brasil, principalmente em centros culturais, mas também em praças e teatros. As iniciativas dos poderes públicos ainda são insuficientes e são alvo de variadas críticas, por serem tímidos seus passos no longo percurso a compartilhar entre os artistas e seus públicos.

Resta a dizer que pululam, em Fortaleza como em outras cidades, gestos espontâneos de indivíduos ou de pequenos grupos que resistem e insistem, não somente difundindo, mas sobretudo vivendo a poesia: os poetas anônimos que publicam seus versos e deambulam pelos espaços públicos, buscando vendê-los a pessoas que por eles sequer se interessam frequentemente; o Templo da Poesia, delicadeza no centro de Fortaleza, onde qualquer pessoa pode apresentar seus poemas, ideia semeada pelo poeta Ítalo Rovere; os saraus Pão e Poesia, durante os quais a atriz e cantora Joana Angélica reúne outros artistas e quem gosta de poesia para compartilhar o pão que ela faz e as poesias que os participantes trazem…

Os que amam a poesia em nossa terra compõem esse coral original no qual os gestos de comunhão fazem ecoar as palavras pronunciadas. Essa gente se reconhece nas ruas, na praia, no sertão, na serra: um olhar, um trecho de Vinicius assobiado, um verso de Patativa dito de cor nos revelam; desvelam nossos silêncios e nossas palavras… Nossos corpos dançam juntos, sedentos de poesia, saciados por nossos encontros, pelas sementes que guardam nelas os mistérios de sempre. E se nós vivemos nos nossos dias em um país que reconquistou a democracia, a liberdade de expressão, a possibilidade de sonhar e de realizar alguns dos sonhos que nos inspiram, sabemos e sentimos ainda e sempre que a poesia e a música, em meio aos gestos humanos grávidos de política, dão voz e asas ao pássaro cujas penas nunca hão de parar de mudar e de nos fazer mudar ao fio dos versos que nos fazem perguntas.

Poeta niversitaro, Poeta de cademia, De rico vocabularo Cheio de mitologia, (…) Canto o que minha arma sente

E o meu coração incerra, As coisa de minha terra E a vida de minha gente. Patativa do Assaré