Fig.1-A Escola Vila Mar11
10Retirado de http://www.peti.gov.pt/upload_ftp/docs/pief.pdf, consultado a 20 de Dezembro de 2012.
6.4.1 Primeiro contacto com a escola Vila Mar
Depois da entrevista preliminar fui encaminhada para um local um pouco afastado, atravesso uma ponte, chego a uma sala de convívio, encontro um educador social e um professor. Depois de um diálogo breve, fui encaminhada para o interior do estabelecimento onde se desenrolavam as aulas propriamente ditas, no momento da entrada fui surpreendida por um toque de uma campainha o que indicia que a escola tradicional encontra-se presente. O corredor estreito, levou-me às salas de aula, onde estavam na altura cerca de oito alunos, dois na aula de artes, estes alunos desenhavam ajudados por um professor. Na sala de informática, um outro aluno aparentemente sem orientação, encontrava-se também um professor. Dois alunos, numa outra sala de aula de Ciências Naturais, junto da secretária do professor, três alunos numa outra sala na aula de formação para a cidadania, a professora mantinha-se de pé junto à secretária, os alunos trabalhavam uma ficha de trabalho sobre as alterações climáticas. Pelo que me apercebi este ambiente não é de todo natural, os alunos não falavam limitavam-se ao “Bom dia”. Estavam muito “obedientemente” a realizar as tarefas propostas.
Procurando sintetizar os aspetos apresentados nesta fase preliminar da investigação, podemos inferir que o programa PIEF apresenta potencialidades, quer como meio de inclusão, quer de inovação das práticas pedagógicas. Esta afirmação fundamenta-se nos percursos curriculares que permitem respeitar os ritmos de aprendizagem individuais. Por outro lado, o espaço, algumas estratégias, os toques não se coadunam com a inovação.
6.4.2 Contexto escolar
Este estabelecimento existe como escola desde 1989, inicialmente vocacionada para o ensino regular (1º Ciclo e alfabetização) e pré-profissional. Mais tarde, em 1997, iniciou-se a experiência da escola a tempo inteiro e a partir de 2002 abriram-se Cursos do ensino Recorrente Alternativo/oficial. Posteriormente, em 2007, no sentido de melhor corresponder às necessidades da população acolhida no estabelecimento Vila Mar, a escola implementou cursos de educação e formação (nível 1 e 2). O edifício foi ocupado antigamente por outros serviços públicos (antiga Escola de Enfermagem do
Funchal). Alguns espaços sofreram pequenas remodelações e deslocalizações, designadamente o bar dos professores e funcionários por não oferecer segurança, devido aos efeitos de erosão e corrosão marinhas. Existem também, nesta área prédios desabitados e em mau estado de conservação e por isso, desativados.
A instituição Vila Mar localiza-se no Funchal, numa propriedade que se estende da orla marítima até a rua do Lazareto. Neste espaço estão implantados seis edifícios, dois desativados devido ao seu estado de degradação, dois a funcionar como oficinas, salas de aula, sala multiusos, cozinha e refeitório geral, secretaria, gabinetes técnicos. Na restante propriedade, e do lado Oeste, foram construídas seis moradias, de tipo unifamiliar, onde funciona o acolhimento institucional das crianças e jovens.
Estas unidades residenciais funcionam 24 horas por dia, todos os dias do ano, sendo o funcionamento de cada unidade assegurado por uma equipa de educadores. A instituição dispõe de uma equipa técnica composta por dois psicólogos, técnicos de serviço social e colaboradores distribuídos pelas áreas de produção alimentar; administrativa e de manutenção e limpeza.
A escola é constituída por quatro salas de aula, uma de informática; três salas de aula normais, um ateliê e ainda uma outra sala designada de semi-internato, normalmente supervisionada por um educador e /ou professor. No andar inferior localiza-se a sala de professores e a sala de jogos (bilar e snooker). No andar superior encontra-se a secretaria e o escritório da diretora, gabinetes / sala de psicologia. No espaço circundante à escola funciona uma dependência do Parque Natural da Madeira, cuja parceria permite usufruir de uma sala multiusos e uma biblioteca, a primeira decorada pelos alunos, e usada sempre que necessário para ações de sensibilização. Sobressai a quem visita esta escola, os murais com pinturas e algumas esculturas que se enquadram em vários espaços, salas de aula, corredores, residências e espaços comuns.
O funcionamento obrigatório exigido para esta instituição tem um horário alargado das 9 às 17h30, de segunda a sexta.
Segundo um dos professores inicialmente este estabelecimento tinha um nome diferente do atual, sendo conhecido por “Polivalente”. Tinha uma conotação negativa, pelo que houve uma mudança do mesmo para o atual Vila Mar. Neste ano letivo, a escola é constituída por 43 alunos e 11 docentes. No entanto, esse número de alunos é variável ao longo do ano. Relativamente à participação dos pais na vida escolar resume-se a contatos esporádicos de vinda à escola. O educador é a pessoa que mantém esse contacto quer na instituição quer na ida ao domicílio. No natal existe um jantar convívio para pais e encarregados de educação em cada uma das residências.
Esta instituição educativa apresenta as suas especificidades de forma singular, uma vez que tem ao seu serviço, pessoas com determinadas características (professores, educadores, funcionários administrativos e alunos) e está inserida num contexto próprio (comunidade local).
No primeiro contacto com a escola, fui movida pela curiosidade de perguntar como conseguem ultrapassar o problema dos comportamentos desviantes, o professor responsável respondeu:
“É na base da negociação inicialmente tem de se saber ouvir, deixar o aluno falar, porque eles gostam de partilhar as suas histórias, chegam cá com muitas crenças de incapacidade, vão ultrapassando aos poucos essas barreiras. O primeiro período foi de adaptação, ninguém os sentava para poderem aprender, disse a tutora, verifica-se uma certa evolução dos alunos. (…). O coordenador revela compreensão, empatia e ajuda para com os professores e alunos. O contexto escolar é caraterizado por alguma violência verbal e incidentes. O Cí, numa das aulas de Comunicar em Português, intervém desadequadamente, a professora responde, “ao falares com essa força é como me desses um estalo”.
Um outro episódio ocorreu numa ação de sensibilização sobre os resíduos sólidos, dinamizada por uma pessoa convidada,
“ O prof. B. interrompe, (momento de tensão, mal tinha começado a ação de sensibilização o professor B. pediu desculpa pela interrupção) e chamou a
atenção do Di que não podia ter o telemóvel na sala de aula. Retirando-lhe os auriculares do ouvido. O Di sentindo-se intimidado, respondeu agressivamente e com gestos igualmente de agressão. Vai- me bater também leva…. O professor B disse, se queres estar aqui. Não podes ter o telemóvel. A situação serenou o educador que estava ao lado tentou acalmar, mas a revolta do aluno continuou, contestando até o papel do dinamizador da ação de sensibilização.”
Diário de bordo, dia 9 de novembro de 2012 Existem também outros incidentes fora do comum, com alguns alunos que não estão no seu estado normal, designadamente, ameaças a professores.