O programa PIEF surge como uma forma de gestão do currículo, com margem de flexibilidade para integrar projetos individuais e coletivos (PUDIM).
Se por um lado e do ponto de vista dos professores o Programa PIEF apresenta obstáculos por outro apresenta claras vantagens para a aprendizagem dos alunos.
“Os ritmos de aprendizagem dos alunos são diferentes, os alunos chegam desmotivados; têm uma má imagem de si como alunos e da disciplina e ainda a falta de assiduidade.”
In, E2 Do ponto de vista das aprendizagens dos alunos, constatou-se através da observação etnográfica que alguns demonstram a sua insatisfação face à facilidade dos conhecimentos e até alguma desmotivação, quando o professor apresenta conteúdos demasiado acessíveis. “Já dei isso na escola dos Louros”, “já sei isso tudo”, de notar que alguns alunos têm como principal handicap o absentismo escolar. Pelo contrário, quando o ensino é diferenciado (3º ciclo) nota-se que os alunos são acompanhados nos seus ritmos de aprendizagem o que o torna mais eficaz e significativo.
sabemos que o processo de aprendizagem é bem-sucedido quando o aluno é forçado a superar os seus níveis de autonomia. Quando um aluno continua a trabalhar sobre conhecimentos e capacidades que já domina, as probabilidades de aprender algo novo serão poucas ou nenhumas. Por outro lado, se o grau de dificuldade das tarefas é demasiado elevado, o aluno sente-se frustrado e não aprende. (p.23)
Numa fase experimental do PIEF, os alunos foram convidados a selecionar as áreas curriculares que gostariam de frequentar. Segundo os docentes esta experiência não resultou, uma vez que os alunos não foram habituados a fazer escolhas. Um dos professores considera que esta opção não resultou com estes alunos mas poderá resultar com outros.
Nas entrevistas realizadas, quatro professores, das áreas curriculares mais teóricas indicaram o ritmo lento da aprendizagem dos alunos, o mesmo não sendo referido pelas áreas de cariz prático.
“O ritmo de aprendizagem é mais lento.”
“O trabalho em equipa dos alunos já foi mais proveitoso. É difícil criar um espírito de grupo, cooperação ou apoio. (…) A visão que têm de si é tão má que temos de desmontar essa ideia, vêm com a ideia que não conseguem aprender (…) mas depois dizem é só isso… é fácil. É preciso explicar a simplicidade da língua. Os resultados não são imediatos.”
In, E2 “Sabiam melhor a técnica que muitos outros alunos: O V. trabalha muito bem com o ferro (…)”
In, E3 De referir aqui que não existe um saber clássico, único, existem sim diferentes saberes, igualmente importantes onde os alunos encontram potencialidades de desenvolvimento pessoal no “saber fazer” em detrimento do saber pelo saber. Existe ainda uma complementaridade entre as atividades da escola e as atividades no meio envolvente, desde a limpeza, o cultivo da horta, a dança Hip-Hop, a solidariedade para com outras instituições, idas ao teatro e visitas de campo. Nesta sequência, os estágios também constituem uma outra forma de aprendizagem informal, no local de trabalho e acima de tudo, onde se desenrolam as aprendizagens mais significativas que encontram.
Os professores também relataram situações de aprendizagem informal, visitas de campo, aprendizagem através das artes; aprendizagens através de TIC. A área curricular de PUDIM com a aposta em projetos individuais e de acordo com as preferências, habilidades e objetivos dos alunos é uma mais-valia para a concretização dos objetivos pessoais. Esta área é adorada por uns e detestada por outros, principalmente aqueles alunos que têm falta de autonomia e apresentam ausência de iniciativa.
Os professores têm dificuldade em lidar com o desapontamento face à finalização dos projetos, infere-se que continuam a privilegiar os resultados em detrimento dos processos. Apesar de nem todos os alunos contribuírem, de igual modo, em cada uma das atividades, todos são envolvidos com maior ou menor grau de participação. Segundo Sacristán (2001),
o que a educação provoca nos indivíduos nem sempre é evidente para todos, no sentido que na vida social e no meio escolar nem sempre se aceita que todos sejam chamados a progredir nem, à partida, que todos possam chegar a ser iguais. (p. 51).
11.A Cultura da Escola Vila Mar
Segundo Fino (2000),
Inovar na escola será, de alguma maneira, colocar desafios à inércia cultural que ainda remete muito do que se faz no seu interior a uma origem longínqua. Será promover o aparecimento de uma cultura nova, neste caso, uma cultura menos dependente de uma ideia de escola entendida como uma espécie de federação de várias turmas que adotam, no essencial, procedimentos semelhantes, mas mais focada na turma como local onde a inovação pode acontecer, de facto, com maior probabilidade. (p. 385).
Esta escola apresenta-se como alternativa a um público emergente de situações sociais mais ou menos graves. Ela reúne a junção de várias vontades, visto que tem o domínio da Segurança Social através da sua diretora, Tribunal de Menores e Crianças em Risco e ainda a Secretaria Regional de Educação.
Relativamente aos docentes existe uma atitude de cooperação entre eles, que permite uma crítica mútua e construtiva e a tomada de decisões em conjunto. A uniformização das formas de atuação perante os alunos é uma vantagem e uma maneira de ultrapassar as dificuldades que ocorrem. A relação do coordenador, com os professores é muito próxima e amigável e acima de tudo profissional, valorizando-os através da auscultação de eventuais dilemas procurando soluções em conjunto, o que corresponde a um estilo
de liderança democrático. O coordenador é sempre um elemento muito presente e surge na sala de aula e em conversas informais assim como, incentiva as atividades extra-aula. (ver diário de bordo). O coordenador é também o decisor e amenizador de conflitos, depois de ouvidos, os alunos, os professores e outras entidades.
Do ponto de vista cultural, as atividades que desenvolvem, abarcam várias vertentes, uma vertente ecológica muito presente, devido à proximidade da Reserva Natural do Garajau onde se desenvolvem com frequência sessões de interesse ambiental e também à adoção do projeto Eco escolas que encontra professores implicados e que promovem estas iniciativas.
A vertente artística pela pintura dos murais e esculturas, e no currículo escolar se privilegiarem estes aspetos, oficinas e ateliê de artes. Esta vertente integra uma parceria com a comunidade com trabalhos sobre escultura “ Projeto Malmequer”, por exemplo. Os projetos de solidariedade, voluntariado e as saídas de campo semanais são projetos igualmente estimulados.
O ambiente humano da escola Vila Mar permite a abertura necessária à inovação, no sentido de valorizar em cada um dos seus elementos, as suas especificidades e desenvolver as suas potencialidades.
Mendes & Rodrigues (2003, p.84) a educação tem que acompanhar as necessidades e mudanças da sociedade e levar em linha de conta as características dos alunos, tornando-os coautores.
Fig. 10- Monstros do Mar26
26 Artefacto produzido pelos alunos Vila Mar. Foto do Serviço do Parque Natural da Madeira. In, CD. Retirado de: https://www.facebook.com/pages/Estabelecimento-Vila-Mar/184127798334832?fref=ts
Este é o exemplo de um artefacto produzido pelos jovens do Vila Mar no âmbito da Oficina de Escultura, que envolve a reciclagem, a criatividade e a preservação da fauna marinha.