A segunda possibilidade da prática da psicanálise no campo do trabalho que queremos destacar é a que seria exercida dentro de um DD3P, contribuindo com saber fazer com o trabalho e o sintoma. Se, para uma compreensão mais acurada das relações do sujeito com o trabalho e o sintoma, acreditamos importante a escuta e a condução clínica feita um a um, na perspectiva de promoção de saber fazer com o trabalho, atentar para o que se produz no âmbito coletivo, como a ergologia ensina, pode ser não menos importante.
Tomaremos aqui as conversações como uma experiência com a psicanálise em grupos, que pode servir de inspiração e método para pensarmos a atividade de um psicanalista dentro de um dispositivo dinâmico a três polos. O termo “conversação” não é novo nas ciências sociais e na psicologia, sendo encontrado associado a uma grande diversidade de temas, frequentemente como sinônimo de uma conversa que se estabelece com o intuito de intervenção e/ou coleta de dados em uma investigação. Os trabalhos científicos que empregam o termo, muitas vezes, focam a compreensão do funcionamento dos grupos, sua dinâmica, as formas de interação entre os integrantes e papel do líder. Em uma pesquisa de doutorado, Vasconcelos (2010), encontrou seu uso em trabalhos que se referenciavam na
psicanálise desde o início do século XX. Alguns dos autores mais conhecido são Lewin, Bion e Foulkes, teóricos que estudaram a psicologia dos grupos e utilizaram a conversa em suas metodologias.
O uso do termo “conversação” que nos interessa remete a um dispositivo de associação livre coletivizada, tal como Miller anuncia, por exemplo, ao propor ao Campo Lacaniano que a psicanálise assumisse, em sua extensão, novas possibilidades de trabalho frente aos sintomas contemporâneos:
A Conversação é uma situação de associação livre, se bem sucedida. A associação livre pode ser coletivizada na medida em que não somos donos dos significantes. Um significante chama outro significante, não sendo tão importante quem o produz em um momento dado. Se confiamos na cadeia de significante, vários participam do mesmo. Pelo menos é a ficção da Conversação: produzir-se – não uma enunciação coletiva — senão uma “associação livre” coletivizada, da qual esperamos um certo efeito de saber. Quando as coisas me tocam, os significantes de outros me ajudam e, finalmente resulta, às vezes, algo novo, perspectivas inéditas. (MILLER, 2005b, p.16).
Seguindo essa orientação, em 1996, foi criado o Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Infância (CIEN). Desde então, vários laboratórios do CIEN têm se desenvolvido em países como França, Argentina e Brasil. Com o objetivo de promover o diálogo da psicanálise com outros saberes que incidem sobre as crianças, os laboratórios do CIEN são formados por equipes interdisciplinares, que utilizam a conversação como método de pesquisa e intervenção, no desafio de operar sobre a incidência e os efeitos de segregação contemporânea sobre crianças e adolescentes.
Segundo o anuário do CIEN Brasil 2009/2010 (MATTOS;TELLES, 2010), seu objeto é a psicanálise como pesquisa, ensino e formação, que encontra nesse espaço a especificidade de uma interdisciplinaridade não pluridisciplinar, inscrevendo suas atividades sob a orientação do Campo Freudiano, como proposto por Lacan. A interdisciplinaridade do CIEN propõe parcerias em torno de temas de pesquisa para os participantes “[...] se deixarem ensinar pelas experiências e práticas de cada um” (LACADÉE apud MATTOS;TELLES, 2010, p. 4-5).
Os efeitos das conversações nesses espaços têm sido reconhecidos na:
[...] queda de alguns ideais, nos abalos das identificações, na emergência do sujeito, na escuta de um saber inédito, no uso singular de uma ficção, assim como na invenção de novas soluções aos problemas e impasses da infância e da juventude em nosso país” (MATTOS; TELLES, 2010, p. 2-3).
Com laboratórios em Belo Horizonte, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, as conversações interdisciplinares no CIEN, entre o discurso analítico e os das outras disciplinas, não pretendem promover uma clínica, mas permitir uma conversa, uma troca, onde, parafraseando Lacadée (apud MATTOS;TELLES, 2010), o mal-dizer possa encontrar a felicidade de outras palavras. Lacadée ainda diz:
A via do CIEN é a de cuidar sempre da ampliação da conversação com os outros atores sociais, que, frequentemente, a partir de seus pontos de impasses, demandam encontrar um lugar que os ajude a transformar seus impasses em questões, e, logo após, em objetivos de pesquisas interdisciplinares. Isso torna possível, por exemplo, o estudo de significantes obscuros, que são cada vez mais veiculados no nosso mundo de avaliação e controle, onde o maior risco é de ver desaparecer a importância da palavra, da língua articulada e a dimensão do dizer. É, de fato, esse dizer, aquilo que um sujeito enuncia, que está atualmente em perigo, na medida em que este dizer está cada vez mais desacreditado. (LACADÉE apud MATTOS;TELLES, 2010, p. 8).
Na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, a conversação tem sido empregada como método de pesquisa e intervenção por pesquisadores do Núcleo Interdisciplinar de Psicanálise e Educação (Nipse). Ao se referir ao trabalho da psicanálise aplicada ao campo da educação, Santiago (2009) apresenta o “método da conversação” como possibilidade de intervenção pela oferta da palavra:
Para se propor a experiência da psicanálise aplicada ao campo da educação, é preciso considerar-se, inicialmente, que a operação analítica se produz para além do enquadramento clínico, muitas vezes tomado restritamente, como ocorre, no espaço de um consultório, entre o paciente e o psicanalista que o escuta e intervém em seus ditos. Os efeitos do discurso analítico ultrapassam esse espaço e decorrem da instalação de determinadas coordenadas simbólicas, que pode ser feita por alguém que, a partir de sua própria experiência de análise, se tornou analista. (SANTIAGO, 2009, p. 68).
A mediação do analista, com sua oferta de palavra, segundo Santiago (2009, p. 73), fazendo referência a Miller, “deve visar a uma mutação do falar à toa – ou seja, a possibilitar que o falar descompromissadamente sobre o sintoma assuma a forma de uma questão e a própria questão, a forma de uma resposta”.
Na conversação, busca-se fazer valer a singularidade do sentido daquilo que se diz para além da norma, do universal, da regularidade, do consenso das ideias compartilhadas que não conduzem ao particular, ao detalhe de cada um. Nesse sentido, a pesquisa é feita com os indivíduos enquanto sujeitos, e não sobre eles. No sujeito é pressuposto um saber sobre aquilo que o aflige, sendo a ele ofertada a
palavra, que, tomada, permite aprender com o outro. Nenhum saber é imposto, para que a representação do sintoma para o Outro possa apresentar suas nuances e se singularizar.
A proposta de trabalho da psicanálise em coletivos não é pautada pelos universais do grupo, mas pela particularidade de cada um que ali se encontra. A singularidade é destacada pelas intervenções que o clínico faz em sua posição no grupo, buscando fazer com que cada um volte o foco para sua tarefa e se responsabilize por seu produto, ambos sempre únicos. Se o clínico garante o funcionamento do grupo, é sem se deixar servir de ideal para seus integrantes. Nisso ele se diferencia de um líder, permitindo que, no lugar do ideal, uma falta possa aparecer. Ao não apresentar um saber pronto, acaba por provocar a elaboração singular. O que é preservado como homogêneo no grupo é a proposta, a cada um, de apresentar um produto singular. É exatamente no movimento de se evitar que a falta de saber seja preenchida por um ideal coletivo que o clínico, ao contrário do líder, permite ao sujeito se servir da falta como ponto de partida para uma criação não segregadora.
São os efeitos imaginários, próprios das identificações que permitem a constituição do grupo, que o clínico se propõe a tencionar, vigilante às diferenças de cada participante que possam favorecer a sustentação da singularidade durante os encontros. Essa é a principal orientação de trabalho. A presença do analista no grupo é atenta aos momentos necessários e parcialmente previsíveis dos sujeitos. Explicitaremos melhor esse ponto.
Lacan inicia, já em 1945, sua tarefa de situar a lógica à qual os coletivos se submetem. Afirma que há um tempo de ver, um tempo de elaborar e um tempo de concluir, lógica que envolve sempre um percurso solitário, mas não sem os outros:
Basta fazer aparecer no tempo lógico dos outros a menor disparidade para que se evidencie o quanto a verdade depende, para todos, do rigor de cada um, e até mesmo que a verdade, sendo atingida apenas por uns, pode gerar, senão confirmar, o erro nos outros. E também que se, nessa corrida para a verdade, é apenas sozinho, não sendo todos, que se atinge o verdadeiro, ninguém o atinge, no entanto, a não ser através dos outros. (LACAN, 1945/1998, p. 211-212).
Segundo Tarrab (2011, p. 03), a lógica coletiva inaugurada por Lacan deve ser contraposta à da psicologia das massas de Freud. Na perspectiva introduzida por Lacan, o laço coletivo encontraria uma “[...] variante numa lógica coletiva que se situa com respeito à falta no Outro, com respeito ao furo no saber”, diferentemente
do laço que se situa com respeito a um ideal que satura a falta. Para Freud, por sua vez, haveria dois vetores nas identificações grupais: um vertical, do líder e seus membros, sustentado pela identificação a um ideal, e outro horizontal, dos membros entre si, sustentado por uma identificação grupal. O que Lacan faz é subverter tanto a posição do líder no grupo quanto a de seus membros, já que a função do analista passa a ser exatamente a de não sustentar um ideal universal. Em uma situação paradoxal, cabe ao clínico enlaçar o grupo e marcar uma separação entre seus membros.
O que a experiência da psicanálise nos coletivos demonstra é que, em um primeiro tempo, o grupo serve a uma contenção e à demarcação do sofrimento, pelo compartilhamento e pela identificação aos demais. Cria-se aí certa consistência grupal, que empresta, imaginariamente, concretude ao problema do sujeito ao incluir sua queixa em um coletivo. Em um segundo tempo, é à singularidade que se precisa abrir espaço. Aqui, o sintoma, acolhido como modo particular de o sujeito conectar- se à cena coletiva, pode permitir a abertura a um trabalho de elaboração de saber em torno disso que resiste ao saber. O tempo da elaboração é o que precede qualquer conclusão, e essa pode não passar de um uso mais útil do próprio sintoma no âmbito coletivo.
A prática da conversação pode ser aproximada do DD3P e encontrar aí um legítimo lugar. Em ambos os casos, de certa forma, os profissionais estão atentos às normas que o meio propõe ao uso de si (ao sujeito) e às possibilidades de suas renormalizações, sempre parcialmente singulares. A particularidade que a psicanálise aponta no trabalho com os grupos centra-se no manejo das identificações coletivas, visando a destacar da produção no grupo aquilo que há de mais particular em seus integrantes, ou, com a ergologia, as renormalizações que os singularizam. Isso não é possível sem um manejo diferenciado daquele do líder. O clínico deve operar para evitar efeitos segregadores de “cola” ou de idealização do saber no grupo. Essa parece uma importante baliza, que permite avançar em uma perspectiva clínica do manejo do uso de si com coletivos de trabalhadores, principalmente quando temos como foco o saber fazer com o mal-estar no trabalho.
Na experiência que trazemos aqui com os teleatendentes, o que foi relatado sobre as normas antecedentes e as renormalizações presentes nesse contexto de trabalho foram construções a partir de conversas com os próprios trabalhadores. Elas foram obtidas, muitas vezes, individualmente, em seções clínicas no
departamento de saúde do sindicato ou no trabalho de coleta de dados de nossa dissertação de mestrado, mas também coletivamente, em cursos dialogados em “Comissão Interna de Prevenção de Acidentes” (CIPA) sobre o tema da saúde mental no trabalho ou em discussões, no sindicato, com teleatendentes.
Como apontamos, defendemos a necessidade de ampliar o debate com esses trabalhadores, agora de posse da perspectiva de trabalho que conjuga psicanálise e ergologia. Buscamos, assim, aprofundarmo-nos na astúcia do uso que é feito pelos teleatendentes das ferramentas de que dispõem, de maneira a incluir o saber fazer com o mal-estar no trabalho.
Acreditamos que a implantação de um DD3P com trabalhadores teleatendentes, com a presença de um analista trabalhando com as metodologias da psicanálise em grupos, a exemplo das conversações, pode trazer contribuições no saber fazer no trabalho e ampliar as margens de ação na categoria de trabalho em questão.