• Sonuç bulunamadı

1.6. SEÇĠM KAMPANYALARINDA SĠYASAL ĠLETĠġĠM

1.6.2. Kitle ĠletiĢim

Em nosso capítulo inicial, demarcamos um tripé para caracterizar os desafios epistemológicos da escrita da história em destaque a partir da década de 1970, no contexto da historiografia francesa. Nessas bases, que são interligadas entre si, estão as discussões a respeito da linguagem, do acontecimento e da narrativa. Já tivemos a

41 Com efeito, poderíamos simplesmente ter traduzido ont lieu como ocorreram. Contudo, a expressão

tiveram lugar conserva uma dimensão espacial que Ricoeur confere à memória e ao passado histórico,

tanto que ele inicia sua análise da epistemologia da história em A memória, a história, o esquecimento com uma investigação sobre aquilo que chama de O espaço habitado: “buscaremos aquilo que pode ser, no nível da operação historiográfica, o equivalente das formas a priori da experiência tais como as determina uma Estética transcendental de estilo kantiano: o que vêm a ser um tempo histórico e um espaço geográfico, levando-se em conta sua indissociável articulação?” (MHE: 181). Agradeço ao professor Fernando Nicolazzi por ter feito essa sugestão durante sua arguição na defesa da dissertação.

oportunidade de assinalar, ainda que de modo esquemático, a intervenção ricoeuriana nesses debates. Entretanto, faltou expormos os argumentos do filósofo a respeito do famigerado “retorno” da narrativa.

“O eclipse da narrativa” é o capítulo que nos fornecerá subsídios para a leitura feita por Ricoeur acerca do ressurgimento da narração. Esse texto inaugura a segunda parte da trilogia Tempo e narrativa, que é denominada História e narrativa. Não obstante a ausência de referências ao texto de Lawrence Stone sobre o tema, Ricoeur oferece uma leitura alternativa para a questão. O próprio título escolhido é sintomático a esse respeito. Dizer eclipse é bem diferente de falar em retorno ou ressurgimento.

O fundamental da argumentação ricoeuriana repousa sobre um duplo movimento. Em sua perspectiva, duas importantes escolas históricas – as duas primeiras gerações da Escola dos Annales e a Filosofia Analítica da História42 – rejeitaram o potencial heurístico da narração, mobilizando argumentos distintos. Segundo Ricoeur, embora essas correntes sejam bem diferentes entre si, elas têm como ponto em comum, além da crítica às filosofias especulativas da história, o repúdio ao caráter narrativo da historiografia: a) na historiografia francesa dos Annales, o ocultamento da narrativa é resultante de um deslocamento do objeto da história: passa-se do indivíduo ao fato social total; b) na Filosofia Analítica, o encobrimento deriva de um corte epistemológico entre explicação histórica e compreensão narrativa.

Ao ler os primeiros historiadores dos Annales, Ricoeur indica que a rejeição da narrativa decorre de uma crítica à história dos acontecimentos (histoire événementielle). Os historiadores franceses, cada um a seu modo, insurgiram-se contra os sentidos ontológicos e epistemológicos da noção de acontecimento histórico.43 O panorama

42 A chamada Filosofia Analítica da História preocupa-se, principalmente, com a análise dos procedimentos lógico-científicos do conhecimento histórico. Essa reflexão difere da Filosofia Especulativa da História, que busca conferir um sentido último para a totalidade do processo histórico. Em contrapartida, os autores analíticos se concentram no problema da cientificidade da história, em seus procedimentos explicativos, na análise lógica da linguagem e em sua objetividade. Para mais detalhes sobre essa corrente, conferir a introdução de Gardiner à segunda parte de sua coletânea de Teorias da

História (GARDINER, 2008, p. 323-333) e também a síntese presente em ARRAIS, 2010.

43 Eis uma síntese das características do conceito de acontecimento elencadas por Ricoeur: Sentido

ontológico: 1) ter-sido absoluto: acontecimento histórico é aquilo que efetivamente aconteceu, foi

produzido no passado. O simples fato de já ter ocorrido diferencia radicalmente o acontecimento de algo que ainda não ocorreu; 2) ação humana absolutamente passada: os acontecimentos históricos são obra de agentes humanos semelhantes a nós; 3) alteridade absoluta: a diferença, a alteridade do passado humano em relação ao presente afeta a capacidade de sua comunicação. Sentido epistemológico: 1) o acontecimento histórico ou físico possui uma singularidade não repetível que se opõe a universalidade de uma lei científica. “Acontecimento é aquilo que não acontece mais que uma vez” (T&N 1: 174); 2) o acontecimento possui uma contingência prática que se opõe à necessidade lógica ou física. “Acontecimento é o que poderia ter sido feito de outra forma” (T&N 1: 174); 3) a contrapartida da alteridade absoluta do acontecimento histórico é seu afastamento (desvio) em relação a modelos

começa com Raymond Aron, para quem “não existe uma realidade histórica já pronta antes da ciência que apenas conviria reproduzir com fidelidade” (T&N 1: 175). Com o propósito de criticar o chamado “positivismo” dos autores da Escola Metódica Langlois e Seignobos, Aron reagiu contra o primeiro pressuposto ontológico do acontecimento: evento histórico é aquilo que efetivamente ocorreu no passado. Como o historiador está implicado na explicação e compreensão do acontecimento, não existe a possibilidade de uma apreensão direta do passado. A historiografia procede de uma construção do fato histórico, e não trata com dados já prontos de antemão.

Henri Marrou, Marc Bloch e Lucien Febvre também engrossaram a fileira dos que lutavam em favor da construção do fato histórico, mas será o escalonamento de durações temporais do Mediterrâneo de Braudel que abalará de forma mais avassaladora o conceito de acontecimento. Segundo Ricoeur, Braudel “destruiu” a segunda pressuposição ontológica do conceito: “O acontecimento é aquilo que os agentes fazem ocorrer ou sofrer.” Outras pressuposições que estão ligadas entre si e receberam duras críticas de Braudel e seus seguidores podem ser arroladas: a) o indivíduo é o portador último da mudança histórica, ou, em outras palavras, o homem faz a história; b) as mudanças mais significativas são aquelas transformações pontuais que afetam a vida dos indivíduos.

A conclusão ricoeuriana é que, para as primeiras gerações dos Annales, uma história de acontecimentos (événementielle, que também poderia ser traduzida como factual) só pode ser uma história narrativa e com primazia da esfera política. O surpreendente, diz Ricoeur, é que o conceito mesmo de narrativa nunca foi problematizado como foram questionadas as noções de acontecimento e o primado da história política, que enfatiza os indivíduos. Para escapar da metodologia individualista, os Annales propuseram a ideia de história total, cujo objeto não é o indivíduo, mas o fato social total que abarca todas as dimensões humanas: econômica, social, política, cultural etc. Para se livrar do tempo breve do acontecimento, os historiadores annalistes operaram com um tempo social de duração mais longa, no qual se destacam categorias como estrutura, conjuntura, ciclos, tendências. Porém, não há uma reflexão de fôlego sobre a apresentação narrativa ou sua eventual alternativa (T&N 1).

Deslocando o eixo da historiografia francesa para a Filosofia Analítica da História, Ricoeur chegará a resultados semelhantes, embora tenha partido de outras construídos. Isto é, o acontecimento não pode ser reduzido a alguma constante apontada ou deduzida por um modelo.

discussões. Para ele, tanto os Annales quanto a Filosofia Analítica atacaram a noção de acontecimento e, por consequência, rejeitaram a narrativa. No entanto, o estatuto narrativo não era colocado no primeiro plano do debate. O ataque à compreensão empreendido pelos autores do modelo nomológico terá o mesmo resultado que a investida contra o acontecimento pelos historiadores da longa duração: o eclipse da narrativa.

No positivismo lógico, não é a prática dos historiadores que alimenta os argumentos –como no caso dos Annales –, mas a preocupação em afirmar a unidade da ciência. Ao contrário da historiografia alemã do final do século XIX e início do XX (com destaque para a distinção entre explicação e compreensão em Droysen, Dilthey e Weber), a Filosofia Analítica postula que a mesma racionalidade científica governa tanto as ciências naturais quanto as humanas. O ponto de partida será o ilustre texto de C. Hempel, A função das leis gerais em história (1942), cujo argumento central é bem conhecido: as leis gerais44 têm funções análogas na história e nas ciências naturais. Para o autor, a principal função das leis gerais é combinar os eventos em fórmulas que levem à explicação e à previsão.

Algo importante de ser sublinhado é que Hempel – por métodos díspares dos historiadores annalistes – também reprova a ideia do acontecimento como uma ocorrência única, singular e irrepetível. Em seu artigo de 1942, o filósofo alemão radicado nos EUA aproxima o acontecimento histórico do evento físico. Em outras palavras, ele propõe que as ocorrências sejam deduzidas45 a partir de duas premissas: 1) condições iniciais: que são os acontecimentos anteriores e as condições prévias e 2) enunciação de uma regularidade: que realiza a conexão causal entre o acontecimento e as condições iniciais. Se essa regularidade for confirmada, verificada na empiria, ela merece ser chamada de lei. Nesse sistema, explicar um acontecimento é cobri-lo por uma regularidade.

A conclusão de Hempel é que o historiador não produz mera descrição de eventos únicos e irrepetíveis do passado, pois, ao explicar esses acontecimentos, já se pressupõe, mesmo que tacitamente, um “esboço de lei”.46 Nesse primeiro momento, o

44 “Por lei geral, entenderemos aqui uma afirmação da forma condicional e universal capaz de ser confirmada ou infirmada por meio de adequadas descobertas empíricas” (HEMPEL, 2008, p. 422). 45

“Em todos os casos em que um evento de tipo C (causa) ocorra em determinado lugar e tempo, um outro evento de tipo E (efeito) ocorrerá num lugar e num tempo de modo típico relacionado com o lugar e o tempo da ocorrência do primeiro evento” (Ibidem, p. 422).

46 A postura hempeliana no referido artigo é um pouco ambígua, e o autor admite nuançar sua tese. Quando a historiografia não oferecesse uma “explicação forte”, ela forneceria “esboços de explicação”,

modelo nomológico não se refere de modo algum à natureza narrativa da história, nem ao estatuto narrativo do acontecimento. Os autores que pretenderam defender o modelo após Hempel esforçaram-se por minimizar as diferenças entre o modelo “forte” e as especificidades do conhecimento histórico. Para manter a viabilidade do raciocínio, foi preciso flexibilizá-lo. O enfraquecimento do modelo nomológico foi positivo, na opinião de Ricoeur, pois aumentou sua aplicabilidade e o aproximou do trabalho dos próprios historiadores. A primeira grande concessão foi concordar que as explicações oferecidas pela historiografia não funcionam da mesma forma que a explicação das ciências naturais.

A conclusão dessa longa discussão não se encontra no fim do texto “O eclipse da narrativa”. Apenas no capítulo “A intencionalidade histórica”, Ricoeur vai deixar mais claro como nem o novo conceito de temporalidade proposto por Braudel, nem a discussão sobre a explicação causal podem descartar o recurso à narrativa na escrita da história. O filósofo se esforçou para mostrar quais são os vínculos – ainda que indiretos – que podem ser traçados entre a composição da intriga, os Annales e os autores da Filosofia Analítica. Tais vínculos mostrariam que a narrativa não foi jamais abandonada completamente da prática historiadora, não obstante tenha ficado em segundo plano, tal qual um planeta que, durante o eclipse, é obscurecido por outro astro, mas não deixa de estar ali.

Benzer Belgeler