Este capítulo não trata das reflexões teóricas e análises realizadas a partir da experiência etnográfica, mas da vivência e da realização da mesma. Revelam- se aqui os primeiros contatos, as dificuldades e as descobertas encontradas durante a pesquisa de campo, assim como minhas primeiras percepções acerca do mercado. A primeira? Sem dúvida o barulho. A minha simples aproximação do mercado, ainda em sua área externa, me trouxe o som de conversas e diálogos constantes, que propiciados a quem nesse espaço se insere, à primeira vista desorganizado e confuso, mas na verdade, e o tempo nos permitiu essa compreensão, com certa organização e regras bastante complexas.
Seus freqüentadores se relacionam através de normas e regras sociais, assim como são as disposições de cores e cheiros, os diálogos e sons diversos e a circulação constante de pessoas e mercadorias. Diálogos, sempre. No primeiro dia
Não se passaram cinco minutos até que dois senhores pediram permissão pra se sentarem ao meu lado e iniciarem uma boa conversa. Minha primeira constatação. Já haviam percebido a entrada de um “estranho” no local, o que, segundo eles foi facilmente constatado por meu rosto novo no lugar e pela minha forma de me vestir. E assim foram os primeiros dias, observado e identificado, logo à primeira vista, como novidade no mercado.
A receptividade é grande, tendo em vista a freqüente chegada e passagem de turistas, assim como a presença passada de outros pesquisadores no mercado. Segundo os mercadores, minha presença se revelou a primeira cuja intencionalidade fosse a compreensão das relações sociais nele presentes. Iniciou- se então a fase de observação direta que durou três dias, antes que se iniciassem as entrevistas semi-estruturadas e uma etapa de observação participante, que será aprofundada a frente.
Circulando entre os freqüentadores do mercado, muitas e diversas foram as primeiras percepções. Cachorros, fumo, hortaliças, estilingue, rapadura, cesta de palha, cachaças, camelôs, trajes, chapéus e sandálias de couro, comportamentos, sorrisos, conversas, vendedores ambulantes, prestadores de serviço, requeijão, queijo, doces de leite, de mamão, de amendoim e rapadura, balaio e peneira de palha, jequi, gamela e colheres de pau de todas as formas e tamanhos. As prosas durante os momentos de compra e venda, o reconhecimento mútuo dos freqüentadores (ainda que nem todos saibam o nome de todos, mas ainda sim se reconhecem), as brincadeiras entre amigos, o perfil dos mercadores e freqüentadores.
Há sempre uma barraca com o som ligado tocando músicas que são ouvidas no ambiente ao redor. Um camelô de CDs “piratas” na área externa ao mercado não somente reproduz os discos que vende, mas também os DVDs através de uma televisão instalada em sua barraca. E várias são as formas de chamar a atenção e atrair os fregueses. Não existem nomes nas barracas e sim a forma como são conhecidas popularmente. “Banca da Nieta”, “banca de Seu Baiano”, “banca da Rosinha do tempero”, é dessa forma que os freqüentadores do mercado se relacionam com os mercadores e suas lojas. As formas de divulgação de seus produtos e suas qualidades enquanto mercadores são produzidas através da relação oral, do chamado boca-a-boca, entre os fregueses (entre os quais estão incluídos os próprios mercadores que compram entre si). Não há publicidade
através de mecanismos como jornal, televisão, panfletos, rádio e internet, a construção da clientela é feita através de conversas cotidianas, de amizades, de relações de vizinhança (no mercado e nas comunidades) e, sempre importante, na confiança na palavra do mercador no ato de vender, assim como do freguês no ato de comprar, quase sempre fiado.
A caderneta, como nomeiam os mercadores, é encontrada em praticamente todas as bancas do mercado. Compra-se sem dinheiro no decorrer do mês, e, no momento de recebimento do salário, da aposentadoria ou da contribuição de programas governamentais de redistribuição de renda, a conta é quitada. A clientela, em sua grande maioria constituída de aposentados da zona rural do município de Araçuaí, outros, em menor número, da periferia urbana, caracteriza- se pelo deslocamento à cidade para a resolução de questões pessoais, tais como recebimento da renda mensal, pagamento de contas e consulta médica, permanecendo por lá até o horário de retorno do transporte público para seus respectivos bairros. Nesse intervalo eles passam o tempo no mercado fazendo compras, revendo amigos e “jogando conversa fora”, como eles dizem.
O horário oficial de funcionamento do mercado, das seis às dezoito horas, funciona apenas no papel. À medida em que os transportes de linha partem do terminal rodoviário, localizado no entorno do mercado, para comunidades da periferia ou rurais, as vendas vão diminuindo, assim como a circulação de pessoas. Assim o horário de fechamento da maioria das bancas coincide com o horário de saída do último ônibus, aproximadamente às quinze horas e trinta minutos. Vão-se os aposentados, fecham-se as bancas, mesmo faltando ainda cerca de duas horas e meia para o fechamento das portas do mercado.
Pouco antes da partida dos aposentados é possível observar um grande número deles concentrados na área de alimentação, o Empório Popular Canoeiro, conversando e bebendo refrigerante ou cachaça. Simultaneamente vêem-se jovens, apesar de em menor número, também conversando e tomando, alguns deles, cerveja. O empório é um dos mais relevantes locais de conversa do mercado. Mas não o único. Ao descermos da área da alimentação para as bancas de carnes vemos (e ouvimos) mercadores vizinhos conversando entre si e ou com fregueses, certas vezes postados ao lado de fora de suas bancas. Continuamos descendo em direção à área de cereais e observamos vendedores de fumo jogando
que se consideram amigos próximos. É comum percebemos maior amizade entre os concorrentes que entre vendedores de diferentes tipos de produtos, principalmente por suas bancas estarem localizadas próximas, possibilitando um contato diário mais constante.
Figura 72: Jogo de baralho entre vendedores Figura 73: Aposentado tomando refrigerante de fumo e conversando no Empório Popular Canoeiro Fonte: Mateus de Moraes Servilha Fonte: Mateus de Moraes Servilha
À medida que os dias se passaram, minha relação com os freqüentadores do mercado, em especial os mercadores, se tornou mais próxima e as entrevistas começaram a ser realizadas. Muitos já me conheciam pelo nome e conheciam minha intenção no mercado, tendo em vista minha “visita” a eles com conversas informais e, em alguns casos, complementada com o consumo de produtos, tais como lanches, água e doces. Através de tais conversas foram escolhidos os entrevistados.
O prazer da realização deste trabalho foi imenso, assim como as dificuldades encontradas. Entrevistar mercadores, algo que parecia não tão assustador, se revelou uma tarefa árdua e cheia de entraves. O primeiro problema encontrado esteve no ato de entrevistar pessoas que se encontravam em seu momento de trabalho, cuja prioridade nos momentos de mercado aberto é a venda de suas mercadorias. A pesquisa teve de se atentar, em muito, com a mínima interferência possível na rotina do mercado, para fins acadêmicos e, principalmente, por uma preocupação com o trabalho dos entrevistados. Um segundo problema encontrado foi a gravação das entrevistas num local onde
ruídos e sons estão sempre presentes no ambiente. Este problema foi constatado na verdade, de forma mais clara, no momento da transcrição das entrevistas, mas é aqui apresentado para alertar futuras pesquisas e pesquisadores que se aventurem em desafios semelhantes.
A relação com os mercadores foi diversa. Alguns não deram entrevista por estarem em horário de trabalho. Outros preferiram não participar como entrevistados por timidez ou desconfiança. Um caso de resistência explícita à pesquisa foi encontrado no momento em que um mercador se ofendeu com a entrevista que era realizada com sua esposa em sua banca (entrevista esta que foi paralisada nesse momento e não transcrita). Mas muitos, a grande maioria, foram os mercadores receptivos ao trabalho e ao momento das entrevistas. O número de entrevistados não foi maior por um problema temporal, não estrutural.
Cabe aqui um agradecimento ao Seu Baiano, mercador que em primeiro lugar me cedeu uma entrevista e, com espontaneidade, revelou suas práticas constantes de negociação através das trocas materiais. Ao ser questionado, respondeu imediatamente: “Uai, agora mesmo troquei umas mercadorias por esses ovos aqui”.
Em minha “rotina etnográfica”, chegava ao mercado no momento da abertura e nele ficava até seu fechamento. Em alguns dias almocei na casa onde estava hospedado, mas na maioria dos casos preferi almoçar nas bancas do próprio mercado, como forma de permanecer lá mais tempo e observar o funcionamento e as relações presentes no horário das refeições. Uma mercadora, num desses momentos, me chamou a atenção, Dona Emília, pela forma peculiar de receber os fregueses, sempre, apesar de acompanhada de suas filhas, pessoalmente e com muita prosa. Ao conversar com amigos da cidade fui saber depois que sua banca era a preferida e já muito conhecida dos artistas que costumam se apresentar na cidade.
Talvez possamos dizer que a permanência no mercado por cerca de oito horas tenha trazido algumas dificuldades diferentes das já mencionadas. Cansaço, desidratação, dor nas pernas, em resumo, alguns reflexos, já esperados, de um trabalho incessante na cidade de Araçuaí num período do ano considerado seco e quente. Houve dias em que o retorno a casa onde me hospedara fora acompanhado de um banho, um lanche, um colchão, algumas poucas (as possíveis) reflexões e
descanso, mas ainda assim foram dias de aproveitamento do “tempo livre” para conversas com pessoas da cidade sobre o mercado. Os sábados foram os dias de trabalho mais intenso. Dias de feira, que apesar de acabarem mais cedo, por volta das treze horas, era vivido com mais intensidade pelo maior numero de circulação de pessoas, pelas suas peculiaridades e por sua freqüência semanal.