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O segundo sábado da pesquisa de campo foi marcado pela realização de uma observação participante onde uma família de agricultores foi acompanhada em sua preparação para a feira livre. Desloquei-me para o bairro rural Curuto, município de Araçuaí, onde fui recebido pela família de Seu Laércio e Dona Tina. No planejamento estava prevista minha chegada por volta das 16:00, para acompanhar o momento de colheita da produção agrícola na horta da família, mas por um atraso numa reunião entre a prefeitura municipal e a Emater de Araçuaí, Ranieri me levou à comunidade rural por volta das 20:00. Tive a oportunidade inclusive de participar de parte da reunião, onde foram discutidos os projetos realizados pela Emater durante o ano de 2007 e suas possíveis parcerias com políticas públicas da prefeitura no futuro.

Ao chegar à casa de Seu Laércio e Dona Tina, a colheita dos produtos agrícolas que seriam vendidos na feira já havia sido concluída, me restando, naquela noite, o acompanhamento da produção final de temperos caseiros por parte de André, filho do casal, e uma conversa informal com a família que durou cerca de duas horas.

Figura 74: Família de Seu Laércio e Dona Tina Fonte: Mateus de Moraes Servilha

Fomos dormir por volta das 22:00 e acordamos às 2:00 para carregar a carroça da família com os produtos a serem vendidos na feira, o que durou cerca de meia hora. Confesso aqui ter ajudado pouco, ou menos do que gostaria, por ter sido acordado quando a carroça já estava praticamente pronta. Partimos na carroça seu Laércio, Juliana (sua filha) e eu. Dona Tina rotineiramente se locomove para a feira através do ônibus de linha do bairro e o filho permanece na propriedade da família para tomar conta da casa. O casal possui ainda um filho mais velho que mora na cidade para trabalhar e completar seus estudos, contribuindo, ainda assim, como feirante aguardando a chegada da carroça, descarregando os produtos e permanecendo na feira durante toda a sua duração.

O caminho de carroça é longo e durou cerca de três horas. O desconforto, o frio e o sono foram para mim minimizados pela beleza do céu estrelado e da experiência. Para seu Laércio, que reclamou certo momento de seu problema crônico na coluna (problema este que deveria lhe tirar do trabalho pesado, o que não acontece por falta de alternativas), apesar das dificuldades, sua vida hoje é melhor do que no passado, tendo em vista a aquisição de sua carroça, substituta da antiga bicicleta com a qual realizava o transporte para a feira. Segundo ele, o trabalho antes era muito mais pesado, assim como menor a qualidade de vida de sua família. Hoje, diferente do passado, além da carroça, vive numa casa que suporta as chuvas e ventos e possui telefone e televisão e, o principal, conta com uma cisterna e uma barragem de água de chuva que possibilitam o plantio mesmo nos períodos de seca.

Durante parte do trajeto, seu Laércio descreveu, espontaneamente, as transformações na vida da família e de parte das comunidades rurais, conseqüências das políticas públicas de assistência ao agricultor familiar promovidas através de programas e recursos federais administrados localmente pela prefeitura e pela Ong Cáritas. Descreveu também as diversas dificuldades que passam na locomoção para a feira em tempos de chuva e no retorno da cidade devido ao forte sol e à ausência de uma cobertura em sua carroça. Explanou sua idéia de realização da Festa dos Charreteiros, assim como existem as festas do boiadeiro, cuja intenção seria a busca pela valorização e reconhecimento social dos que trabalham instrumentados pelas charretes.

transporte e oriundas de diferentes bairros rurais, formando assim uma fileira de charretes. A cidade estava deserta, mas já com suas luzes que permitiram a visualização das ruas e casas, assim como dos outros mercadores enfileirados, identificados até esse momento praticamente pelas saudações, gritos e prosas.

Ao chegarmos à feira, acompanhados do cachorro da família que, apesar das tentativas constantes de seu Laércio de afugentá-lo, nos seguiu até a cidade, iniciamos o descarregamento e a montagem da banca. Percebe-se nesse momento a grande quantidade de conversas entre agricultores feirantes que se tratam pelo nome e de forma bastante amistosa. Uma fogueira construída no meio da feira ajuda a esquentar quem dela precisar. Os charreteiros, após o descarregamento das mercadorias, levam suas charretes e animais condutores para um lugar já tradicionalmente escolhido por cada um, no caso de seu Laércio, uma árvore usada para amarrar sua mula, localizada em frente à casa de sua cunhada.

O momento de montagem das bancas é diverso. Existem bancas de diferentes tipos e qualidades. Algumas mais precárias, feitas da improvisação de caixas de verdura e tábuas (caso da banca de seu Laércio), outras com certa estrutura e algumas, poucas, com cobertura contra o sol e a chuva. Às 5:30h, a maioria das bancas já estava montada e fregueses começaram a chegar. Minha observação participante incluía, além da locomoção à feira, o trabalho na banca e a observação das relações estabelecidas entre a família e outros mercadores, assim como entre a família e seus fregueses.

Figura 75: Primeiros fregueses da banca de seu Laércio Fonte: Mateus de Moraes Servilha

O acompanhamento da rotina de uma família na feira trouxe muitas reflexões, que serão abordadas de forma mais aprofundada nos capítulos que se seguem. Cabe neste momento do trabalho, principalmente, a descrição das observações realizadas e dos acontecimentos interpretados aqui como relevantes. O respeito dos filhos pelos pais, e pelos mais velhos em geral, é marcante. Assim como é nítido o prazer dos mais novos de ali estarem acompanhando seus pais no trabalho que representa a fonte de renda de suas famílias. Respeito acompanhado de relações de ternura, de carinho com os mais novos, os “aprendizes”, por parte dos pais, cujo “ofício” de ensinar e transmitir seu trabalho e conhecimento é exercido com paciência e seriedade.

A relação da família com outros mercadores foi pautada pela constante troca de favores. A troca de uma mercadoria em falta e necessitada por um feirante para não perder sua clientela, é comum entre feirantes amigos. Num momento seu Laércio auxiliava seu vizinho de feira no troco, instantes depois emprestava sacolas plásticas para outro feirante, em seguida se retirava de sua banca para carregar as mercadorias de uma feirante cuja idade não lhe permitia mais tal trabalho braçal. Nesse momento ficamos a filha de seu Laércio e eu na

menina substituiu o pai como a principal vendedora da banca de sua família. Um senso de responsabilidade adquirido através do aprendizado cotidiano e do contato com a vida social da feira.

Aproxima-se nesse momento um comprador que seleciona as mercadorias que deseja e pede para Juliana guardar e aguardar seu breve retorno. Olhado com um breve olhar de desconfiança pela principal vendedora da banca, diz: “Vamo vê se minha palavra é palavra de cachorro”. Nesse momento seu retorno estava condicionado à valorização, ou não, de sua palavra como freguês, algo de enorme valia na vida social da feira. Tempos depois tive o prazer de ver tal senhor retornar, pagar e pegar sua mercadoria e dar um enorme abraço na mercadora que o atendeu, estabelecendo um vínculo social entre os dois alicerçado nos atos de troca, em suas diferentes, mas não hierarquizadas, posições na feira e na força da palavra.

Retorna seu Laércio do favor que foi prestar a uma amiga de feira, como ele disse, com certa demora, passa pela banca, confere sua normalidade e novamente adentra em meio à circulação de pessoas até ser perdido de vista. Juliana olha nesse momento pra mim e diz: “Meu pai só sabe conversar nessa feira”, e acompanha a frase com uma enorme gargalhada. As conversas de seu Laércio foram realmente constantes, mas ao mesmo tempo, nunca fizeram ele se distanciar por muito tempo de sua banca. Percebe-se a presença dele ou de sua esposa na banca em praticamente todo o tempo de feira, local escolhido como prioritário para a realização das conversas. Quando fregueses conversam com mercadores, determina-se para os primeiros a função de deslocamento pelas diferentes barracas. Assim como se anda para comprar produtos, se anda para rever amigos e colocar a prosa em dia. Quando a conversa é entre mercadores, percebe-se certo “revezamento” intra-familiar, que permite que as prosas ocorram sem que a banca fique desguarnecida.

Dona Tina, num dos momentos de boas conversas que estabelecemos, me revelou a importância das experiências vividas nos dias de feira para a construção de sua felicidade enquanto pessoa. Interessante ressaltar que, até esse momento, ela não possuía a compreensão de que meu estudo era acerca das relações sociais no mercado municipal, sabia apenas que eu a acompanhava, assim como a sua família, por estar realizando uma pesquisa sobre a feira. Por uma opção metodológica, não especifiquei, ao primeiro contato, meus objetos de observação,

por uma preocupação com um possível sentimento de intimidação que poderia fazer com que a família agisse de forma não espontânea no momento da observação participante. E realmente isso se demonstrou interessante, pois, por não imaginarem estarem sendo observados em suas formas de se relacionar com os outros freqüentadores da feira, agiram de forma natural e não tendenciosa.

Segundo Dona Tina, antes da aquisição da charrete ela permanecia, nos dias de feira, em casa cuidando dos afazeres domésticos e dos filhos, na época muito pequenos, enquanto seu marido ia à cidade de bicicleta vender seus produtos. Antes de começar a freqüentar a feira possuía uma vida bastante triste, com recorrente depressão, segundo ela muitas vezes sem sequer ter vontade de viver. Ao começar a freqüentar a feira toda a sua vida mudou, toda a sua tristeza e depressão se foram, pois agora, toda semana, ela aprende coisas novas, encontra os amigos, troca sorrisos e prosas. No momento de me despedir da família, ao final da feira, revelei o tema da minha pesquisa no mercado, o que surpreendeu Dona Tina com a mesma intensidade que fui surpreendido com seu relato espontâneo. Nesse momento ela se prontificou a repetir suas palavras sobre a importância da feira para sua vida, para que eu registrasse e introduzisse suas palavras, o que será feito no capítulo 6, nas reflexões do trabalho.

A realização de uma etnografia no mercado municipal foi de enorme valia para contribuir para minha compreensão acerca das relações sociais de troca no mercado municipal, e, principalmente, de sua complexidade tamanha que impossibilita a completude de reflexões e entendimento de sua totalidade. Muitos foram os “buracos”, os “vazios”, encontrados durante a realização da etnografia, assim como durante a análise do material coletado e produção deste texto, que revelaram a enorme gama de novas pesquisas possíveis sobre o tema e sobre o mercado.

A reflexão maior acerca do mercado e das relações sociais nele presentes, após três semanas freqüentando diariamente o mercado é que se trata de um espaço onde o homem rural se sente à vontade na cidade. Onde encontra seus pares e se defronta com dinâmicas e arranjos socioculturais e produtos que lhe dizem respeito, nos quais encontra significação e sentido, com os quais se identifica. No decorrer do trabalho buscaremos, através de tais reflexões, o aprofundamento da compreensão das relações de trocas, materiais e simbólicas,

“as luzes” da etnografia descrita somada às entrevistas transcritas e às reflexões teóricas já apresentadas.

5. AS RELAÇÕES DE TROCAS NO MERCADO MUNICIPAL DE