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Entre os continentes africano, americano e europeu que compõe a tríade do Atlântico Negro, e aos quais podemos incluir também a Ásia pela relação com a expansão marítima preconizada pelos europeus, houve um sistema transcontinental de circulação de recursos naturais, sobretudo nos primeiros anos da era pós-colombiana. Porém, esse processo não se deu de

maneira simétrica, já que os europeus participaram dele na condição de conquistadores e colonizadores, e, aos africanos não foi conferida a real relevância de suas contribuições ao longo da história. Tratou-se, segundo Carney (CARNEY, 1999/2000/2001, p. 26), de uma “distorção” nas narrativas que sempre valorizaram as contribuições ameríndias e asiáticas em detrimento da africana.

A contribuição africana na disseminação das plantas é extensa e pouco conhecida. Em levantamento apresentado por Carney (2003, p.173) realizado no Caribe estão listadas 91 espécies, sendo que 52 são nativas da África, e as 39 espécies restantes são plantas do Velho Mundo, sobretudo do continente asiático, que já estavam presentes na África antes da escravidão transatlântica, e esse conhecimento por parte dos africanos foi fundamental para o desenvolvimento dessas espécies nas Américas.

A grande maioria dessas plantas chegou até as Américas nos navios negreiros, onde eram aplicadas nos mais variados usos, entre outros, na alimentação, nas práticas religiosas, no tingimento de tecidos como anota Carney (1999/2000/2001, p. 27). Algumas espécies de gramíneas que estão disseminadas hoje nas Américas, por exemplo, eram transportadas no fundo dos navios negreiros, mas para uso dos colonizadores, para servirem de “cama” aos africanos capturados (FILGUEIRAS, 1989).

Entre as plantas trazidas pelos africanos estão alguns tipos de arroz, que, já no século XVIII, era a base da alimentação de quilombolas na Guiana de acordo com relatos de colonizadores que combatiam os quilombos. O arroz era cultivado em áreas descampadas e pântanos interiores. De acordo com Vaillant (1948, p. 522 apud CARNEY e ACEVEDO, 1999, p. 126- 127), conforme consta nas lendas da tradição oral dos quilombolas da Guiana na região de Caiena, o arroz ali cultivado (do tipo baga) era de origem africana e os grãos haviam sido trazidos pelas mulheres africanas escravizadas escondidos entre seus cabelos.

No caso do arroz e de outras plantas, a transferência transatlântica não garantia por si só o desenvolvimento da planta no novo continente, mas era necessário o conhecimento das técnicas de cultivo dominadas apenas pelos africanos. No caso do arroz, alimento indispensável na culinária diaspórica, aos negros africanos coube a transferência de conhecimentos sobre as técnicas de cultivo do arroz, de beneficiamento e das diversas formas de preparo.

A mulher africana tem um importante papel na disseminação das plantas africanas nas Américas, desde o transporte em suas tranças até o conhecimento das técnicas e sua aplicação na medicina, culinária, curandeirismo e práticas religiosas.

De acordo com Carney (1999/2000/2001, p. 29), “os escravos africanos apropriaram-se desta herança cultural para preservar sua subsistência, sobrevivência, rituais, resistência e memória nos ambientes tropicais e subtropicais de seus confinamentos”.

Em Vila Bela, não era diferente: o conhecimento das plantas era um grande aliado para a sobrevivência da população. Os escravos eram acometidos por doenças então disseminadas na sociedade colonial, muitas delas provenientes dos contatos entre os indígenas, os europeus e os africanos, mas, sobretudo por doenças relacionadas à extenuante jornada de trabalho:

Com a chegada de Rolim de Moura em Vila Bela, capital da Capitania de Mato Grosso, escravos negros foram deslocados da mineração para trabalharem na abertura de estradas, construção de quartéis e casas para abrigar os soldados dragões, além da edificação dos alicerces à base de pedra e barro da casa dos Governadores (CHAVES, 2000, p.43-44).

Já que os negros estavam “abandonados aos seus próprios recursos”, o desenvolvimento do saber popular acerca das propriedades medicinais das plantas era o único recurso disponível para essa população (CARNEY, 1999/2000/2001, p. 26).

Apesar de não ser uma prática tão comum (CARNEY, 1999/2000/2001:26), os escravos africanos também faziam uso de plantas venenosas em atitudes de revolta e resistência em relação aos seus senhores. Esse conhecimento foi definido por Reis (2008, p. 151) como medicina anti-senhorial:

Os casos de envenenamento de senhores por escravos – assim como de escravos que envenenavam outros escravos e até animais – se repetem na documentação policial, embora raramente se informe sobre qual o ingrediente ministrado. Muitas vezes eram ervas e raízes da medicina africana, outras venenos comprados ou roubados a boticários e taberneiros, sendo o rosalgar o mais comumente usado. (...) a venda de ‘droga venenosa’ a escravos era estritamente proibida (...) mas o uso de plantas não podia ser controlado (REIS, 2008, p. 151-152).

Neste contexto, além do uso das plantas como veneno, algumas delas eram usadas apenas com o objetivo de aliviar os rigores da escravidão, por meio da tentativa de abrandar o rigor dos senhores de escravo, como as chamadas “plantas de defesa” como é o caso da guiné, também conhecida como “amansa-senhor” – erva de uso medicinal que tem propriedades antiespasmódicas (REIS, 2008, p.151-152).

Note-se que de acordo com Verger (1995, p. 40-41), a guiné foi levada do Brasil para a África, onde é conhecida por erva-de-alho, erva-da-guiné ou simplesmente guiné, nome dado antigamente a toda a região da costa ocidental da África (“Costa da Guiné”).

O movimento inverso também aconteceu, com os portugueses trazendo plantas que lhe interessavam, como a mangueira, jaqueira e o tamarindeiro, espécies nativas da Ásia e aclimatadas na África.

Também foram introduzidas espécies nativas da África: inhame, quiabo, melancia, mamona, dendezeiro, pimenta-da-costa, também conhecida por pimenta-da-áfrica, noz-de-cola (BARROS e NAPOLEÃO, 2003, p. 12-13). A propósito, quiabo é tida como uma palavra originada do quimbundo, cujos termos na sinonímia brasileira são guingombô, gombô, quibombó, quibombô, quigombó, quigombó, quimbombó, quimbombô, quingobó, quingombó, quimgombô (FERREIRA, 2004, p. 1677).

Aquelas espécies que não entravam no Brasil por interesse dos portugueses, mas que eram importantes na ritualística dos africanos, vinham contrabandeadas nos navios negreiros. O contrabando de espécies vegetais e de outros materiais importantes pode ter sido constante, sobretudo no século XIX. De acordo com Lühning (2006, p. 305-306), cartas de comerciantes do século XIX demonstram as grandes quantidades de noz-de-cola procedentes da África, também chamada de obi, fruto de palmeira, fundamental na ritualística do candomblé, apontando para o comércio de produtos religiosos existentes entre Brasil e África, como também a entrada ilegal por meio de contrabando, conforme relato coletado em reportagem do jornal “A Tarde” de 1923.

A propósito, o obi é usado como fonte de axé e também como instrumento oracular no jogo de búzios. No Brasil usa-se o fruto climatizado, de duas faces, e o importado da África, de quatro faces (PRANDI, 1991, p. 249): o obibanjá (nacional), o obiabatá (africano) juntamente com mais dois elementos vegetais complementam o instrumental do “olhador”, decifrador das

mensagens de Ifá e outros orixás. E ainda, segundo Lody (1998, p. 147), o obi é necessário à maioria dos rituais de sacrifício, vaticínios e demais alimentos de fundamentação religiosa. As árvores, as herbáceas, e todos os vegetais de uma maneira geral, estão entre os mais recorrentes registros do pensar simbólico dos seres humanos, das mais distintas culturas e dos tempos mais remotos. Registros pré-históricos do simbolismo atribuído as árvores podem ser observados em pinturas rupestres, como cenas de árvores rodeadas por figuras antropomórficas, sugerindo práticas rituais. Esse tipo de registro é comum na tradição nordeste, primeiro identificado na área arqueológica de São Raimundo Nonato/PI, e depois em outras localidades do nordeste do Brasil (RN, SE, BA, PE), sendo que “formas modificadas dessa tradição estejam também presentes no Ceará, no alto vale do São Francisco e no Mato Grosso”. A datação para a Tradição Nordeste varia de 12.000 a 6.000 (MARTINS, 2005; PROUS, 2007).

Essa tradição da arte rupestre se caracteriza, sobretudo pela representação de cenas cerimoniais, que são compostas por grafismos considerados “emblemáticos”, dentre elas as que envolvem não apenas árvores, mas também ramos de árvores, e que são chamadas de “cenas da árvore” nas quais figuras antropomórficas “dançam” ao redor de árvores, e figuras mascaradas “agitam” ramos num contexto que sugere a dança (MARTINS, 2005, p.246-250).

Figura 2.3-1: Arte Rupestre, Tradição Nordeste, estilo Serra da capivara. Grupos de figuras humanas associadas a árvores e ramos. Podem representar um antecedente do culto da jurema e do juazeiro, praticados por indígenas históricos do Nordeste, sendo: a,b,c) São Raimundo Nonato, PI, d,e,f,g,h) Carnaúbas dos Dantas, RN – Fonte:(PROUS, 2007p.74).

Martins sugere que estes grafismos associados a árvores e ramos possam ter relação com o culto da jurema e do juazeiro, próprio dos indígenas históricos do nordeste (MARTINS, 2005, p. 249). O culto da jurema que mais tarde influenciou os afrodescendentes na organização do candomblé de caboclo.

O significado simbólico dessas e de outras representações está associado ao fato de que os locais escolhidos por esses humanos pré-históricos para executá-las são locais geralmente não habitados, podendo ter sido escolhidos para esse fim, de modo que tanto o local quanto o grafismo têm uma relação simbólica (BORGES, 2008).

Assim, concentrando então a abordagem das pinturas rupestres no sentido da arte, da comunicação e da sacralidade, e baseando-se principalmente nas temáticas encontradas nos painéis dos abrigos, e possível afirmar que as imagens retratadas estão agregadas ao cotidiano, isto é, nas ações diárias, nas relações existentes entre o homem e seu grupo, e, entre o homem e a natureza (BORGES, 2008, p.83).

Na cultura africana, a árvore ocupa uma centralidade que se expressa de diversas formas, como “árvores de espíritos”, “árvores sagradas”, árvores às quais se atribuem relações religiosas ou anímicas com os “espíritos ancestrais” ou relações simbólicas, com o indivíduo, o povo, e com a humanidade, entre outras modalidades discutidas em Salum (1996, p. 55). Não apenas o baobá, mas outras árvores de tamanhos excepcionais são consideradas sagradas na África e suas folhas, raízes, galhos, sementes, frutos, e também seu tronco, são usados em rituais “sendo elementos propiciatórios nas transformações das rotinas ordinárias, cotidianas, para as extraordinárias, ligadas às origens primordiais” (BARROS, 2011). Da mesma forma, a mangueira substitui a gameleira, que é outra árvore sagrada de grande porte no Brasil (BARROS e NAPOLEÃO, 2003, p. 298).

Esse fenômeno de árvores sagradas “está presente hoje nos cultos de candomblés, seja como herança africana ou como fenômeno religioso universal, ou, ainda, [...] como uma ‘modalidade do sagrado’” (SALUM, 1996). Na organização de suas práticas rituais, africanos e afro-brasileiros selecionaram determinadas árvores por seu aspecto fenotípico, por suas propriedades medicinais, entre outras. Tais escolhas foram baseadas nas referências culturais do grupo, que remetem ao pensamento e práticas culturais ancestrais africanas.

Barros (2011, p. 37), afirma que “efetivado o processo de reconhecimento e emprego de plantas comuns aos dois continentes”, outras espécies tiveram que ser substituídas utilizando- se o padrão iorubano de classificação, sendo que o cheiro, a cor, o tamanho, o gosto, são algumas das características observadas nesse reconhecimento. Nem sempre o critério de substituição diz respeito às espécies e aos gêneros, e determinadas plantas foram classificadas por analogia por seus aspectos fenotípicos bem como propriedades terapêuticas e, mesmo se tratando de plantas diferentes, mantiveram sua denominação africana. Barros toma com referência o sistema de classificação de plantas dos iorubas, ou até mesmo dos jêjes, mas não se pode esquecer que outros sistemas africanos podem ter sido usados para essa substituição, como o banto, pois os primeiros cultos afro-brasileiros surgiram dessa matriz, lembrando da discussão que desenvolvemos sobre o calundu.

Há de se considerar que os símbolos “sofrem por mudanças, tanto na sua representação quanto no seu significado, e isso se dá em decorrência das próprias mudanças culturais, especialmente quando há interferências ou intrusão (endógena ou exógena) de outros valores e conceitos culturais” (BORGES 2008, p. 78). Para que uma informação seja precisa, isto é, para que de fato se torne uma mensagem, ela precisa fazer parte de um contexto. Neste caso, outros elementos devem estar conectados com o símbolo indicador da mensagem para que ele seja decodificado. Essa compreensão passa também por outro processo: o da motivação. Ao usar os símbolos, as sociedades o fazem por alguma razão, e a escolha de um ou de outro símbolo é decido de forma consciente ou inconsciente, mas que seja do conhecimento do grupo (BORGES, 2008, p. 80).

Com essa reflexão, pensando-se no valor simbólico que uma árvore ou uma herbácea pode ter – ou seja, no seu significado cultural, que é dinâmico – vemos como é complexo entender a atribuição de seu significado na diáspora Atlântica negra.

CAP. 3. TEM MANDINGA NO QUILOMBO? ANÁLISE DE DADOS

Neste terceiro capítulo analisamos os dados levantados na pesquisa, começando pela caracterização ambiental de Vila Bela da Santíssima Trindade. Dela depende parte importante de nossa análise e interpretação das relações do quilombola com o meio. Além da bibliografia sobre o tema, essa caracterização foi também foi formulada com dados observados em campo. Neste capítulo partimos também para a análise dos dados etnológicos e de paisagem observados nos contextos sistêmico e arqueológico, sendo que, iniciamos pela apresentação e discussão do contexto urbano de Vila Bela.

Como definido anteriormente (ver capitulo 1), observamos que os dados coletados no núcleo urbano não são de nenhum sítio específico, e foram coletados a partir da configuração de quintais da Vila. Com isso, reunimos dados para uma comparação entre o contexto urbano da Vila e o rural do Boqueirão, já que alguns dos sitiantes do Boqueirão possuem casas na Vila ou parentes próximos que vivem nela.

Associamos análise dos quintais da Vila abaixo descritos à das atividades realizadas durante a comemoração religiosa anual de 2009, quando pudemos observar alguns elementos da religiosidade e de formas de apropriação do espaço pelos vilabelenses, pertinentes à discussão proposta.

Depois passamos para o contexto da comunidade quilombola Boqueirão, tratando dos dois sítios no contexto sistêmico (SLM e SAK) e o do contexto arqueológico (SArqPB), todos eles de propriedade de descendentes da família Frazão de Almeida. Após a descrição dos sítios fazemos o cruzamento dos dados levantados nos sítios, na literatura e nos depoimentos do povo de santo.

Naturalmente, retomaremos aqui alguns dados já mencionados no capitulo 1, quando apresentamos a localização geográfico-histórica da área de pesquisa.

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Benzer Belgeler