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2.6. Diz Osteoartiritinde Görülen Yürüyüş Bozuklukları

2.6.1 Kinetik Değişiklikler

A comunidade estudada está localizada na margem direita do rio Mosquito, na porção sudoeste do município de Porteirinha, no norte do estado de Minas Gerais, no vale do rio Verde Grande48, a aproximadamente 590 km de Belo Horizonte, conforme mapa apresentado a seguir. As características do quadro natural, como a irregularidade e, por vezes, a escassez de chuvas e suas consequências, situam a região no semi-árido nordestino. Por isso, a região também é conhecida como área do semi-árido mineiro e integra a Área Mineira da SUDENE49 (AMS) desde 1963 (OLIVEIRA, 2000).

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A comunidade está dispersa em uma área de aproximadamente 7 km2 e possui dois pontos ou núcleos mais densamente povoados: um mais central onde se localizam o campo de futebol, duas vendas50 e uma pequena igreja, construída no início da década de 1990; no outro, situa-se a escola e uma pequena venda que funcionou por algum tempo. Como se trata de uma comunidade rural, não há ruas. Uma estrada não pavimentada é a principal via de ligação com outras comunidades e cidades vizinhas (Porteirinha, Nova Porteirinha e Janaúba). A ligação entre as casas é feita por caminhos de terra batida – abertos por moradores ou pelo pisoteio de gado – que cortam os quintais e margeiam as cercas das pequenas propriedades. Há poucas casas de pau-a-pique ou construídas com adobe. Durante muito tempo esses foram os principais materiais usados para construção de casas, mas têm sido, progressivamente, substituídos por tijolos e telhas produzidos em cerâmicas instaladas em cidades vizinhas. Atualmente, as casas são, em sua maioria, construídas em alvenaria.

Não há rede de esgoto e poucas casas contam com instalações sanitárias no seu interior. A maioria dispõe de fossa séptica e as “privadas” são construídas no quintal, separadas das casas. A água que abastece a maior parte das casas é buscada no rio em baldes ou garrafas plásticas. Há dois poços artesianos para atender parte da população, justamente a população residente nos dois pontos mais adensados: um ao lado da escola municipal, perfurado em 2001; o outro ao lado de uma das vendas na parte mais central da comunidade, entrou em funcionamento em 2006.

A água não é tratada e a forma de distribuição é precária, uma vez que é captada do poço, bombeada para um reservatório e distribuída por meio de canos colocados ao longo da estrada. Cada morador se responsabiliza pela ligação da água para sua casa através de canos ou de mangueiras. Ainda assim, representa um ganho importante para a população uma vez que a situação é mais precária para quem precisa buscar a água diretamente do rio. A construção de um chafariz é reivindicação antiga dos moradores, pois o rio que corta a comunidade tem sido amplamente explorado para irrigação em pequenas e médias propriedades e tem

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suas águas poluídas devido ao grande volume de defensivos agrícolas usados nas plantações ao longo de suas margens e ao manuseio inadequado desses produtos.

Em meados da década de 1990, iniciou-se o processo de eletrificação da comunidade 51 com recursos conseguidos pela associação de moradores. Com isso, vários moradores adquiriram televisores que se configuram como mais uma opção de entretenimento. Chama a atenção o número de antenas parabólicas “plantadas” nos quintais ao lado de casas humildes. Dentre os entrevistados, apenas um não possui televisão em casa, mas assiste a alguns programas, especialmente telejornais, na casa de uma vizinha. Durante as visitas feitas a diversos moradores, foi possível observar que o principal canal sintonizado foi o da “Canção Nova”, da Igreja Católica, seguido da Rede Globo. Os entrevistados disseram preferir a “Canção Nova” por causa da programação que lhes permite assistir a missas, terços, ofício e por atribuírem uma função formativa a esses programas. Julgam ser mais proveitoso passar o dia ouvindo cantos e orações, reafirmando o pertencimento religioso, ampliando seus repertórios, especialmente porque podem aprender os cantos das celebrações do domingo. Três entrevistadas disseram não perder tempo com novelas e que só mudam de canal quando seus maridos ou filhos desejam assistir ao jornal ou a um jogo de futebol. Apenas D. Rosa disse se distrair vendo novela e, de fato, quando a entrevista foi realizada, a televisão estava sintonizada em uma novela vespertina.

É importante dizer que entre os cinco sujeitos da pesquisa, apenas Maria do Carmo não é aposentada e estuda à noite. O único homem do grupo, embora aposentado, ainda trabalha como diarista e não tem televisão em casa. Entre as três restantes, duas são responsáveis pelas atividades domésticas e frequentaram aulas de um programa de Educação de Jovens e Adultos à noite. Desse modo, de fato, há pouco tempo para assistirem a programas na televisão. O que pude observar nas diversas visitas e durante a realização das entrevistas foi que a televisão ficava ligada na sala, com o volume mais alto e era ouvida enquanto eram realizadas as tarefas domésticas. Algumas tarefas, como cortar verduras, descascar o alho, por exemplo, eram realizadas diante da TV. De modo geral, a televisão era mais ouvida A ( ! * 3 * ( 5 # %%A ! / " = " ' ' " ' O K ' '' ! / ) ! 3 ! " ( ' + ! 3 7 ( M H ! / E * ; $ @

que assistida, cumprindo uma função parecida com a do rádio, sendo “olhada” ou assistida quando algo chama a atenção ou surge o desejo de conferir o que está sendo transmitido. D. Justiniana, especialmente, diz que “mais ouve que vê televisão”, pois, segundo ela, “num tem tempo de ficar parada olhando... a gente vai fazendo o que tem de fazer e assuntando... se dá curiosidade a gente vai lá e olha um pouco... mas televisão num me empata o tempo não”52.

Chama a atenção, entre os entrevistados e mesmo ao andar pela estrada da comunidade, que poucas são as pessoas que ouvem rádio. De modo geral, observei televisores ligados e crianças e/ou adultos assistindo a programas diversos (infantis, novelas, telejornal etc) ou aparelhos de som reproduzindo CD’s, também, contemplando gêneros musicais diversos. Apenas o senhor Domingos, que não possui TV em casa, afirma que sempre gostou de ouvir rádio e demonstrou conhecer bem a programação de uma rádio de Janaúba. D. Rosa e D. Justiniana afirmaram que não costumam ouvir rádio, mesmo quando perguntadas se, quando eram mais novas, ouviam a rádio Aparecida53, por exemplo. D. Maria de Jesus também informou que quase não liga televisão e não ouve rádio. Maria do Carmo informou que ouve rádio de vez em quando, prefere ver/ouvir a Canção Nova e ouvir os CD’s que os filhos lhe dão, geralmente de padres ou cantores católicos. Disse que ouve rádio, principalmente aos domingos pela manhã, para ouvir a missa e a homilia, aprender cantos novos, pois como era a dirigente da comunidade, aproveitava o que o padre dizia na missa para ajudar na hora de celebrar o culto na comunidade. Desse modo, principalmente, rádio e televisão entram como fortes componentes de difusão cultural.

Retomando a caracterização da comunidade, de acordo com dados do Programa Saúde da Família (PSF) do município de Porteirinha, ela possui cento e vinte famílias, totalizando, aproximadamente, trezentas e cinquenta e cinco pessoas54. A grande maioria de seus moradores é negra ou parda. De acordo com

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estudos realizados por Costa (1999; 2005), os vales do rio Verde Grande, do Gorutuba e a região em que se localiza a comunidade, fazem parte do “campo negro da Mata da Jaíba” ou “território negro ampliado da Jahyba”. O autor apresenta dados acerca da formação histórica do norte de Minas Gerais e do sul da Bahia, características ambientais e registros escritos sobre confrontos entre brancos e negros, ou “não-brancos”, que confirmam a existência de aquilombados na região. Diz ele,

Sua história nos aponta para a existência de um conjunto de grupos negros localizados em margens de lagoas e rios que formam a bacia do rio Verde Grande, afluente da margem direita do rio São Francisco e que aí se localizaram devido às condições que foram favoráveis a que instalassem formas alternativas de resistência no contexto de domínio escravocrata então vigente no país. Recorrendo ao conceito histórico de campo negro, criado para dar conta das relações estabelecidas entre negros aquilombados e a sociedade que os circundava, postulo a existência de um campo negro no interior das matas do vale do rio Verde Grande. (...) A minha postulação desse campo negro está afeta às relações que a comunidade de Brejo dos Crioulos55 travou historicamente com outras localidades existentes no vale do rio Verde Grande e com as povoações situadas ao longo do rio São Francisco, notadamente Brejo do Amparo, Morrinhos e Malhada e nos altiplanos com Contendas, São José do Gorutuba, Porteirinha e Tremendal. O conhecimento de tais relações foi-me possibilitado por ter acesso à memória social do grupo que informa a existência de negros aquilombados no território onde se encontram situados desde meados do século passado (COSTA, 1999, p.13-14, grifos meus).

O conceito de território negro ampliado, segundo Costa (2005) informa “a existência de um conjunto de localidades articuladas entre si por meio de rede de relações sociais, sejam relações de parentesco ou de compadrio, sejam relações econômicas, culturais ou políticas” (p.14). Em relação ao “território negro ampliado da Jahyba”, o autor destaca relações por ele identificadas a partir do estudo realizado na comunidade negra rural de Brejo dos Crioulos como: “as articulações entre esta comunidade e centenas de outras se dá por meio de relações de parentesco e compadrio”; “relações econômicas para a comercialização, seja por escambo ou não, de produtos agro-pecuários”; “relações culturais na co-participação de festas de santos e outras – promessas, contratos, casamentos – nas

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proximidades da comunidade ou em romarias a localidades mais distanciadas56”; “e, finalmente, por relações políticas na articulação para as lutas travadas historicamente para resistir aos processos de territorialização que ocorreram na área desse território negro ampliado” (COSTA, 2005, p.14-15, grifos no original).

Para fundamentar a existência desse “campo negro” no território do vale do rio Verde Grande, Costa (1999) lança mão de informações colhidas entre historiadores regionais que informam a ocorrência de “intensas fugas de escravos, para os afluentes pestilentos como o rio Verde Grande, Pequeno e Gorutuba, etc. (onde) criaram quilombos e eram imunes às maleitas” (Pires, 1997 apud Costa, 1999, p.17). O autor destaca, também, informações obtidas sobre as atividades desenvolvidas pelos membros da bandeira de Mathias Cardoso de Almeida57 no sertão médio sanfranciscano. Segundo ele,

Em sua História Geral das Bandeiras Paulistas, Taunay (1948) informa que, a partir dos anos 1660, os paulistas que se fixaram nessa região tinham como função, aprear indígenas para venda nas Vilas de São Paulo e de Salvador e para exterminar quilombos existentes na área. Ao instituírem os currais da Bahia os membros da bandeira fundante da sociedade norte mineira e sul baiana deram partida a um novo processo de territorialização (COSTA, 2005, p.15, grifos no original).

Além de informações sobre a existência de quilombos na região norte de Minas Gerais, especialmente no vale do rio Verde Grande, Costa (2005) destaca as características ambientais dessa região que teriam desestimulado a ocupação por parte da população branca e favorecido certo isolamento que contribuiu para a formação de quilombos. Conforme o autor,

As condições ambientais do vale do rio Verde Grande, situado em território mineiro e baiano, foram propícias à fixação de africanos e de seus descendentes que fugiram à escravidão para instaurarem formas alternativas de resistência ao sistema social vigente no país durante o período colonial e imperial. A existência de uma densa floresta de caatinga arbórea com milhares de lagoas originadas de assoreamentos em dolinas formadas por sedimentação de dutos aqüíferos subterrâneos, tornou a malária endêmica e impossibilitou durante um largo período da história a sua utilização tanto pela população indígena quanto pela população branca que ocupavam o norte de Minas e o sertão sul da Bahia, até meados do século XX (COSTA, 2005, p.13). AM= , L = O = L 5 ! ? 5 " " ! " AH . , ! ! ! / , $ ? , ! /2 . . ! . , / , $ ? %%%

Na memória local, há uma forte referência a “um tempo antigo” em que havia muita “maleita” ou “malária” na comunidade. Segundo D. Maria de Jesus, muitas pessoas na comunidade foram acometidas por esse mal que causava grande sofrimento, especialmente por não haver muitos recursos disponíveis para tratar a febre e as dores que mantinham o doente preso à cama por vários dias, senão os remédios caseiros e as benzeções.

Ainda de acordo com Costa (2005), na segunda metade do século XX teve início “o processo de desterritorialização vivenciado pelas comunidades negras desse território negro ampliado” (p.15, grifo no original). Esse processo, segundo o autor,

ocorreu subjacente à expansão da fronteira agrícola nacional no escopo da modernização conservadora da agricultura a partir dos anos 1960. Pouco antes, nos anos 1940 com a implantação de estrada de ferro ligando a região sudeste ao nordeste e com o combate à malária no Governo Dutra nos anos 1950, transformaram as terras existentes em terras mercantis, se até então elas detinham apenas valor de uso para as populações negras, com essas ações agregou-se-lhes valor de troca. Entretanto, somente após a anexação da região norte mineira à área de atuação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), que viabilizou aporte financeiro para transformação de fazendas em empresas rurais vinculadas à modernização da agricultura (COSTA, 2005, p.15).

Esses três elementos (implantação da estrada de ferro, combate à malária e financiamento), segundo o autor, foram fundamentais para a atual configuração do norte de Minas Gerais, pois viabilizou a ocupação branca e a constituição das grandes fazendas, especialmente para criação de gado, que são avistadas quando se passa pelas rodovias que ligam as cidades da região. Ainda sobre o processo de ocupação branca das terras norte mineiras, Costa destaca que,

os fazendeiros ou membros das altas classes urbanas em processo de afazendamento vieram secundados por bandos de jagunços armados até os dentes e impuseram à população negra a estratégia da diáspora para longe de seu território ancestral, a resistência com a morte de muitos e a permanência em condições de miserabilidade na reprodução de cada família (COSTA, 2005, p.16).

Conforme enfatizado por Costa (1999; 2005), tratou-se de um processo marcado pela violência física, pela truculência e também pela violência simbólica.

Sobre a comunidade de Brejo dos Crioulos, especificamente, o autor destaca o ardil de “fazendeiros ou membros das altas classes urbanas em processo de afazendamento” que, aliados aos donos de cartórios, apresentavam documentos de origem duvidosa, compravam ou enviavam mensageiros ou “jagunços” para “negociar” pedaços de terra que sempre tinham sua extensão aumentada nas escrituras posteriormente lavradas (COSTA, 1999). Para esse autor, os moradores que tradicionalmente ocupavam as terras do norte de Minas Gerais se viram diante de uma lógica diferente daquela a que estavam acostumados em que bastava dizer- se dono de certa propriedade e habitá-la por gerações. Essa lógica, associada à oralidade, segundo o autor, foi contraposta a uma outra assentada na escrita, a literacy, que, naquele contexto, representou um instrumento de opressão e de dominação.

Dayrell (2000) também identificou processo semelhante de expropriação da terra sofrido pelos geraizeiros58 de Riacho dos Machados, que se emancipou de Porteirinha em 1962. De acordo com depoimentos e documentos obtidos durante pesquisa realizada na região, Dayrelll (2000) afirma que “Entre as décadas de 30 e 40, tem início o que eles [os geraizeiros] chamam de ‘demarcação’ ou ‘divisão das terras’” um processo que, segundo ele, “pouco contribuiu na desconcentração fundiária. Pelo contrário, reforçou os proprietários de maior poder econômico” (p.223, grifos no original). Se, em um primeiro momento, essas demarcações não trouxeram grandes mudanças para os moradores locais, nas décadas que se seguiram, 1950 e, especialmente, 1960-70, eles foram paulatinamente sendo expulsos de suas terras. As formas como esse processo se deu foram diversas: ora de forma violenta, ora por demarcações que ultrapassavam indiscriminadamente os limites dos terrenos – novamente, cercas e documentos foram usados para “encurralar” os moradores (DAYRELL, 2000). Houve, também, processos em que a saída foi negociada, sendo que “o fazendeiro fornecia um lote ou uma casa para o morador se transferir para a sede do município. Sem opções, muitos aceitavam a oferta, com a expectativa de encontrar estudos para os filhos ou de se empregar nas ‘firmas’” AP ! ! = T ) ) , ! " & . ! * ! & < * . " . * # ' . * " * 0 2 . ! 0 * . J " _ . 3 # " . . & C / ! ! H

(DAYRELL, 2000, p.225). As “firmas”, segundo o autor, são as empresas de reflorestamento que chegaram ao município por volta de 1975 e implantaram seus projetos florestais nas chapadas dos gerais, desmatando e substituindo a vegetação nativa por monoculturas de eucalipto.

Assim como Costa (1999, 2005) e Dayrell (2000), embora esses pesquisadores tenham também buscado outras fontes, busquei nos depoimentos orais informações sobre a ocupação da comunidade. De acordo com relatos da moradora mais antiga, D. Maria de Jesus, as terras que formam Barra do Dengoso já eram ocupadas no final do século XIX. Ela nasceu na comunidade e se lembra de moradores idosos, todos negros, que ali moravam há muito tempo. Segundo informou, ao longo das décadas de 1930 e 1940, começou a intensificar a entrada de outras famílias, parentes dos então moradores e outros que começaram a se estabelecer na região por meio, principalmente, de compra de terras de antigos moradores. Em seus relatos, todo o processo de ocupação e ampliação da comunidade aconteceu de maneira pacífica: as famílias faziam a divisão de seus terrenos à medida que os filhos se tornavam adultos; mesmo antes de se casarem, especialmente os homens, iniciavam a plantação de lavouras ao lado das realizadas pelo grupo familiar – o trabalho, ou melhor, ser trabalhador e ter sua própria roça eram indicadores importantes de que o rapaz estaria “pronto” para casar, seguindo a lógica do pai provedor. Com o casamento dos filhos, era realizado o fatiamento do terreno para que a nova família se estabelecesse e tivesse os meios para se manter59.

As informações dadas por D. Rosa60 acerca da motivação para sua família se mudar para Barra do Dengoso traz, no entanto, situações de constrangimento, violência e expropriação, como as descritas por Costa (1999; 2005) e Dayrell (2000). Segundo informou, sua família morava em Lagoa Grande,

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uma comunidade negra pertencente ao município de Janaúba, mas teve de abandonar as terras devido a ameaças de fazendeiros que, por volta da década de 1950, começaram a cercar terras, ultrapassando os limites de seus terrenos e invadindo as terras que pertenciam à família da entrevistada. Segundo D. Rosa a família passou a ser ameaçada por homens armados a mando de fazendeiros locais. Disse que a família suportou por algum tempo, mas, diante da ameaça de morte, resolveram vir para Barra do Dengoso, deixando para trás casa e plantações. A vinda para a comunidade foi viabilizada por parentes que possuíam terras ali e ajudaram a família a se instalar e a recomeçar.

No entanto, segundo D. Rosa, as situações de conflito motivadas pela posse da terra não ficaram restritas àquelas vividas em Lagoa Grande, que culminou na mudança da família. Em Barra do Dengoso, um parente perdeu parte de suas terras para um fazendeiro que negociou com ele uma gleba, mas apresentou documentação referente a uma parcela muito maior que a inicialmente negociada. Após a morte de seu esposo, D. Rosa teve dificuldades em manter em dia a pagamento do ITR e, por isso, necessitou vender parte do terreno para pagar despesas referentes à regularização e ao inventário de partilha. Recentemente, a família tem sido vítima, ainda, de problemas de demarcação com um fazendeiro vizinho e, segundo informou, estava em litígio por conta de uma faixa de terra invadida pelo fazendeiro.

Podemos observar que a aparente tranquilidade e harmonia destacada por D. Maria de Jesus, que não vivenciou situações de conflito em razão da posse da terra, não é confirmada por D. Rosa que viveu tais situações ao longo de sua vida. É possível que as relações de vizinhança estabelecidas por D. Maria de Jesus tenham sido relações mais horizontais, conforme Costa (1999), isto é, relações mais solidárias baseadas no parentesco e no compadrio. Vale destacar que seu pai possuía grande extensão de terra com documentação, segundo ela, e quando precisaram vender para quitar dívidas de impostos, no caso o ITR, seus irmãos mais velhos pediram a ajuda de um compadre que possuía um terreno que limitava com o

Benzer Belgeler