B. Bireysel Hayatta Ahlâk
1. Kibir, Ġnsanları Kırmak (kötü lakap takmak)
Atualmente, qualquer estudo sobre gestão em saúde aponta para a necessidade do trabalho em rede. A noção (cada vez mais presente) de incompletude tem feito com que o trabalho em rede seja visualizado como uma exigência para qualquer tipo de atividade, na perspectiva de construção de vínculos horizontais, ancorados em princípios democráticos e na ampla participação negociada e propositiva.
Dessa forma, em um contexto de globalização da economia, aliado aos avanços no campo da tecnologia (com destaque para a informática), o conceito de rede tem se demonstrado um elemento estratégico no trabalho em qualquer instituição e para qualquer área.
O novo conceito de rede ganha complexidade, pois não são suficientes apenas o compartilhamento de objetivos comuns e a adesão a certos procedimentos tecnológicos, normativos e processuais. Há, igualmente, a exigência de uma adesão comprometida e de sintonia de expectativas e valores culturais entre os agentes e organizações que a compõem. Por isso mesmo, observa-se que as redes modernas mantêm-se num processo contínuo de busca de legitimação através de fluxos ativos de informação e interação (GUARÁ; CARVALHO, 1995, p. 14).
Em uma tentativa de classificar os tipos de rede, Sanicola (2008, p. 27) agrupou-as em quatro orientações metodológicas: como orientação terapêutica, que pode ser utilizada em um sentido clínico; como unidades de oferta ou recursos, estabelecendo uma organização em rede tanto de serviços como de pessoas; como community care, em uma perspectiva mais comunitária, com ampla utilização do terceiro setor; e, por fim, como intervenção de rede com enfoque nas redes naturais do sujeito.
Para a reflexão sobre a Rede Unida, a orientação metodológica de projeto de organização dos recursos em rede auxilia a problematizar tanto a sua formação como sua contribuição. Para a autora acima mencionada, antes de qualquer ação propriamente dita, é preciso compreender o território, entendido como o local onde atuará a rede, e suas características particulares, que apontaram os problemas e também os serviços e recursos disponíveis para o trabalho.
Como trabalho social de rede, prevê um movimento contínuo de circulação, comunicação e conexão de diversas naturezas, que aciona uma rede de recursos e a organiza em um sistema-agente (como equipe) em uma direção única (com o sistema de serviços). Portanto, esse tipo de rede pode ser visualizado como “instrumento de leitura da realidade e produto final do trabalho social”, capaz de ações e estratégias imbuídas de relações significativas entre seus atores (com as pessoas, com os serviços e com o território em que está envolvido) e uma função própria do operador de rede, ora como ordenador e construtor de redes, ora como coordenador e mediador dos recursos e serviços que já existem (SANICOLA, 2008, pp. 36-7).
Nesse sentido, os Programas UNI entenderam que seria importante aproveitar o espaço da Rede IDA, mas também trazer e implementar modificações na sua concepção e forma de trabalho. “E, sobretudo, vinham propor à Rede a ideia de passar a ser um ator político, que interviesse ativamente nos cenários das políticas de saúde e de educação” (FEUERWERKER; ALMEIDA, 2002, p. 174). Para isso, a proposta era de que a Rede se adequasse à realidade do SUS, incorporando não só projetos, mas pessoas e instituições, atuando de acordo com o paradigma do trabalho em rede.
O conceito e o paradigma do trabalho em rede permitem que os agentes e atores sociais implicados desenvolvam uma cooperação, conservando sua individualidade e autonomia. A ação em rede, efetivamente, dá espaço a uma forma de integração que permite que as diferenças sejam preservadas. A rede constitui uma construção social e organizacional na qual é possível realizar o máximo de integração com o máximo de diferenciação entre formal e informal, entre processos comunitários, mercado, Estado e terceiro setor (SANICOLA, 2008, p. 76)
Respeitando parte dessas características, foram realizadas várias oficinas e encontros para fomentar a discussão; em 1996, em Salvador (BA), por ocasião do Seminário Nacional, reuniram-se o Conselho Consultivo da Rede IDA e representantes dos seis projetos UNI do Brasil para construírem um programa das mudanças na formação de RHs e na possibilidade da junção desses atores em um sujeito político mais forte e atuante nas questões educacionais, sobretudo no campo da saúde. Fundava-se assim a Rede UNIIDA (BOLETIM INFORMATIVO, 1996).
A Rede passou a se chamar Rede UNIIDA e estabeleceu uma agenda de trabalho que mesclava aspectos para o fortalecimento da rede (internos) e outros que poderiam ser espaços de intervenção da rede. A metodologia utilizada para isso foi o planejamento estratégico situacional. De acordo com Sanicola (2008, pp. 64-7), o planejamento é um dos níveis de estruturação do trabalho em rede, somado ao nível institucional (as normas e legislações vigentes sobre a formação de redes pode reduzir ou não sua aplicabilidade); outro nível é o organizacional, que também está vinculado a normatizações de diversas ordens (como do Estado), porém possibilita iniciativas diversificadas, que permitem flexibilidade e proximidade com realidades e problemáticas vivenciadas pelos envolvidos.
O planejamento está contemplado no nível projecional e no nível operacional; no primeiro está a configuração de um projeto de dimensão coletiva em favor de determinado segmento ou em uma intervenção específica “que pressuponha a exigência de uma parceria viabilizadora de recursos com entidades estatais, sem fins lucrativos ou comunitárias, que identificam objetivos comuns e atuem em conjunto para enfrentar um problema ou uma necessidade emergencial” (SANICOLA, 2008, p. 66); no nível operacional estão as ações propriamente ditas em torno de uma situação real e a definição das intervenções individuais de cada membro da rede. Nesse sentido, merece destaque o papel do operador e sua capacidade de dar flexibilidade, agilidade e resolubilidade à rede, sendo seu produto final resultado das convicções pessoais e profissionais de seus operadores.
A formação da Rede Unida é expressão desse comprometimento com o debate democrático entres os seus membros. Em 1997, no III Congresso Nacional da Rede UNIIDA, efetivou-se a junção e a Rede passou a denominar-se Rede Unida. Nesse momento, foram apresentadas algumas alterações: incorporaram-se ao Conselho Consultivo representantes de segmentos comunitários, polos de capacitação em saúde da família e serviços de saúde. Também se identificou o ideário comum da rede em três planos: formação de RH, transformação do modelo assistencial e participação social (BARBIERI, 2006, p. 74). A Rede
UNIIDA procurou, dessa forma, atender às exigências do que de fato se caracterizava como rede.
Espaço de troca e divulgação de experiências de articulação entre universidades, instituições de ensino e pesquisa, serviços, comunidade, constituída por projetos, instituições e pessoas interessadas em promover mudanças no modelo de atenção, no modelo de ensino em saúde e nas formas de participação social, coerentes com os princípios do SUS (FEUERWERKER; ALMEIDA, 2002, p. 175).
Dessa forma, são fundamentais as redes para dar sustentação aos sistemas. No entanto, Sanicola (2008, p. 77) ressalta que as redes sociais estão em constante mutação, com fluxo contínuo de entrada e saída de pessoas, reforço e enfraquecimentos de seus laços.
Merece uma nota a presença do serviço social na Rede Unida. Para Docente/pesquisadora, um dos sujeitos da pesquisa de campo realizada para esta tese, no serviço social a Rede Unida “é uma ilustre desconhecida”, por falta de engajamento da profissão nesses espaços. São poucos os assistentes sociais que fazem parte da Rede Unida. Vera Maria Nogueira, outro sujeito desta pesquisa, participou ativamente da Rede, estando hoje afastada, e também demonstrou em seu depoimento o distanciamento que a profissão tem mantido em relação a esses espaços, resultado da falta de divulgação, alegando “não tenho notícia, não se fala, ninguém fica sabendo”. O serviço social tem investido pouco nesses espaços de interlocução com a saúde, sobretudo naqueles relacionados à formação profissional, como a Rede Unida e o Fnepas – o último mereceu maior atenção posteriormente. Muitas podem ser as hipóteses para essa realidade, alvo de intensa investigação ainda a ser pleiteada.
Dessa forma, com participações pontuais do serviço social, a Rede Unida foi se constituindo e, em um processo de legitimação, os congressos promovidos foram-na caracterizando como um importante sujeito político e com muito a dizer na direção da transformação na formação dos profissionais de saúde, com grandes contribuições para as mudanças curriculares nacionais dos cursos de graduação na área da saúde.