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C. Ġçtimai Hayatta Ahlâk

7. EĢitlik

Os Polos de Capacitação em Saúde da Família são parte de um conjunto de medidas de sustentação para o referido Programa, tendo em vista que, nas avaliações sobre o desenvolvimento do SUS, sempre esteve presente a questão dos recursos humanos. Conforme apontado anteriormente, a estratégia de saúde da família trouxe uma nova forma de pensar e fazer quanto aos serviços de saúde. Embora movimentos de articulação entre ensino e serviços de saúde tenham sido implementados e um processo de mobilização e discussão sobre a necessidade de mudanças na formação dos profissionais de saúde esteja em curso, é fato também que em um País como o Brasil, de dimensões continentais e realidades tão distintas, esses movimentos têm se dado em ritmos diferentes e, portanto, os seus primeiros resultados são bem pontuais e específicos de algumas cidades e regiões brasileiras (FEUERWERKER, 2002).

Os Polos foram criados para atender às necessidades de formação e desenvolvimento de recursos humanos para apoiar a estratégia de Saúde da Família, valorizando a articulação ensino-serviço. São definidos como a articulação de uma ou mais instituições voltadas para a formação e educação permanente de recursos humanos em saúde, vinculadas às universidades ou instituições isoladas de educação superior, com Secretarias de Estado e/ou Secretarias Municipais de Saúde, através de convênios ou consórcios para implementar programas destinados ao pessoal de prestação de serviço em Saúde da Família no âmbito de um ou mais municípios. Trata-se, portanto, de uma rede de instituições comprometidas com a integração ensino-serviço,

voltada para atender à demanda de pessoal preparado para o desenvolvimento da estratégia da Saúde da Família no âmbito do SUS (GIL; CERVEIRA; TORRES, 2002, pp. 114-5).

Nesse sentido, os Polos foram pensados para atender a três necessidades: a capacitação, a formação e a educação permanente.

Em síntese, a questão da educação está intimamente ligada a classe social e portanto, entrelaçadas a um determinado projeto hegemônico em disputa. Sendo assim, a forma e o conteúdo que os mais variados processos educativos possuem estão vinculados a um tipo de sociedade. Não é adequado isolar as estratégias no campo educacional, em um sentido ampliado, das grandes questões que envolvem a humanidade, como a ética, multiculturalismo, a sustentabilidade, o trabalho e outros, inseridos em um contexto de desenvolvimento global e desigual dos países. Essa observação é necessária para que se perceba que a discussão proposta não pretende abarcar somente o formato dos mecanismos, ou das ações, e muito menos avaliar seus impactos mas sobretudo, apanhar o lugar estratégico que tais ações desempenham na disputa de diferentes projetos societários.

Nesse sentido, os polos de capacitação cumpriram com sua tarefa de visualizar a complexidade das relações de formação para os trabalhadores de saúde, cruzando informações que expuseram a fragilidade do ensino na graduação, as disparidades regionais e locais dos polos e das unidades de saúde da família, bem como as dificuldades financeiras e sobretudo o formato dado à iniciativa; ou seja, a falência do modelo de cursos e palestras, bem como denunciou o enfoque biomédico e curativo. Dessa forma, emerge a necessidade de reforçar outras formas de realizar e impactar o cotidiano dos trabalhadores de saúde na atenção básica e suas necessidades de formação, lhe conferindo estatuto de sujeito do processo e não mais passivo espectador.

Como desdobramento, são enfocadas ações importantes como as Residências Multiprofissionais de Saúde da Família21 e os Polos de Educação Permanente

A valorização da educação permanente – EPS advém do esgotamento do modelo anterior descrito acima. Dessa maneira, tem em sua base a reorientação da formação e

21 Tem-se assistido a um cansativo processo estabelecido pelo MS de implantar projetos e políticas e, ao mesmo

tempo, suspendê-las ou esvaziá-las de conteúdo político. Um importante exemplo é a criação das Residências Multiprofissionais em Saúde da Família, recentemente implantadas, que vivenciam a “corda bamba” do Ministério sobre sua continuidade ou mudança para Residência Multiprofissional Hospitalar. Ainda, o privilegiamento da modalidade de programas de pós-graduação stricto sensu profissionais. De acordo com o MEC, “O objetivo do programa é contribuir para a criação, o fortalecimento e a ampliação de programas de pós- graduação stricto sensu que tratem de assuntos relativos a práticas em saúde. Ampliar a produção científica sobre questões relacionadas a práticas em saúde e apoiar a ampliação de recursos humanos capacitados para atuar na área também são finalidades da iniciativa”. Disponível em:

capacitação de recursos humanos, tendo como fundamento os princípios do SUS a partir da realidade dos serviços de saúde, valorizando seu caráter continuado e multiprofissional.

As residências multiprofissionais têm inspiração nas residências médicas, que desde 1950 configuraram-se como uma forma de educação continuada no contexto da pós-graduação. Foi a partir da década de 1980, com a instituição do SUS – e, portanto, com a incorporação de outras demandas no campo da formação dos trabalhadores de saúde, para além das médicas – que se projetou e pleiteou a residência para outras profissões (MOURÃO et. al., 2006).

Com a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (2004), com foco nos processos educativos desenvolvidos no cotidiano dos serviços, a proposta de residência multiprofissional ganhou fôlego. O Ministério da Saúde, amparado por vários atores, com destaques para as categorias presentes nos serviços de saúde, tomou para si a responsabilidade de conduzir este processo. Inúmeras experiências foram ativadas pelo Brasil e focaram a questão da educação permanente como motriz do trabalho a ser desenvolvido pelos residentes. Na análise de Mourão et al. (2006, p. 362) a presença do serviço social nesse modelo de formação se faz essencial, pois a graduação com enfoque generalista não contempla todos os conhecimentos necessários para a atuação em determinadas áreas, tornando valioso o processo de formação pela residência.

O sujeito da pesquisa representante/Fnepas endossou tal afirmação a partir de sua experiência em um curso de especialização em Saúde e Serviço Social na UERJ, onde é docente. Para ele,

a formação continuada é importante. O serviço social, como outras profissões, tem um buraco na formação intermediária, entre o mestrado e a graduação, que é esse discurso de atualização ou mesmo de especialização. Aí poderiam também ser abordados por essa temática [saúde] (Representante/Fnepas, em entrevista realizada para esta pesquisa).

Espaços já citados, como as residências profissionais e multiprofissionais, cursos de especialização lato sensu, cursos de aprimoramento em saúde com vários enfoques, são alternativas no sentido da formação continuada e permanente. Objetivam complementar e aprofundar o estudo e a reflexão sobre determinada área de interesse ou atuação, a fim de dominar sua especificidade e, consequentemente, seus reflexos nas ações e prioridades estabelecidas mediante o exercício da profissão.

Devem-se relembrar importantes críticas feitas por Gadotti ao processo de educação permanente, quando polemiza que o essencial não é aumentar a “quantidade” da educação, mas sim garantir sua qualidade (1991, p. 97). Outra provocação advém da realidade de que nem todos os indivíduos têm acesso a esse tipo de educação, considerando suas diferenças

sociais e econômicas. De tal maneira, que a formação intermediária é dependente do sujeito profissional e de sua capacidade, entre outras, financeira, de ativá-la.

Esse mosaico de experimentos, projetos e iniciativas representa, enfim, um esforço grandioso, complexo e diverso, que está sendo enfrentado com responsabilidade por parte dos sujeitos envolvidos. Todavia, é preciso tomá-los não isoladamente como resultados particulares de reivindicações específicas da saúde, mas, sobretudo, como uma nova forma de pensar a educação e sua relação com a sociedade.

Muitos autores trabalharam a questão da educação com diferentes perspectivas (dentre outros, FREIRE, 1983; MÉSZÁROS, 2005; MORIN, 2005). O conceito de educação adotado nesse trabalho pretende entendê-la como um “complexo e largo processo humano” (NAGEL, 2001, p. 100).

Educação implica formação do homem e compreende inúmeros processos, incluindo-se, dentre eles, os ativados pela própria escola em seus diferentes graus, modalidades, estratégias ou técnicas. A educação, na perspectiva adotada, pleiteando mudanças nos homens, não estaria limitada apenas à escolarização ou educação formal. Enquanto uma busca intencional de novos comportamentos para responder melhor às (novas) exigências da vida, a educação contaria, para a sua concretização, com outras instituições como a família, a igreja, o setor jurídico e, principalmente, os meios de comunicação, e estaria associada, em sua raiz, à substituição ou à reprodução (ainda que sob formas novas) da ordem social (NAGEL, 2001, p. 100).

Compreendida dessa forma, é impossível pensar a educação descolada de um movimento maior que está intrinsecamente ligado ao trabalho e à economia. Para Mészáros (2005), a educação institucionalizada serviu não só ao propósito de fornecer os conhecimentos e a mão-de-obra necessária ao desenvolvimento do capital, mas também cumpriu o seu dever de gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes.

Dessa forma, a educação desempenha um papel fundamental na sociedade, na medida em que permite a socialização dos conhecimentos culturais, científicos e um conjunto de valores que deverá preparar o indivíduo para a vida em sociedade. Portanto, o conceito de educação está articulado ao de cidadania.

No caso brasileiro, as reflexões sobre cidadania e educação devem situar-se sobre a forma como a sociedade está alicerçada em suas estruturas de poder, já que são essas que direcionam uma determinada concepção de educação para servir a um estatuto de cidadania. Para Chauí (2000), a sociedade brasileira é verticalizada em todos os aspectos e as relações sociais e intersubjetivas são sempre de mando e obediência. “As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação mando–obediência. O outro

jamais é reconhecido como sujeito nem como sujeito de direitos, jamais é reconhecido como subjetividade nem como alteridade” (CHAUI, 2000, p. 89).

Dessa forma, o direto social ainda convive com a visão de favor, benesse e a tutela em muitos espaços e políticas, bem como, na atual conjuntura, intitulado de “privilégio”. A cidadania no Brasil é um processo inconcluso, porque não consegue ser efetivada enquanto acesso aos direitos sociais, sobretudo quando pensados no binômio acesso-qualidade, mas também é inconclusa porque não consegue sair do “discurso” e ser materializada na prática, com ampla participação dos sujeitos sociais nos processos decisórios e no usufruto das conquistas sociais, políticas e econômicas.

A cidadania compreende vigoroso chamado à participação na vida social e no Estado, obras dos homens e patrimônios comuns a todos. Além do mais, a cidadania constitui um princípio de igualdade, realizado na igualdade jurídica e materializado numa sucessão de direitos. Assim é relevante o papel da participação no conjunto da democracia liberal (VIEIRA, 2004, p. 192).

Quando se reconstrói a trajetória da redemocratização do País, recupera-se o enorme apelo que o conceito de cidadania teve e sua permeabilidade enquanto luta social. Na saúde não foi diferente e o movimento da reforma sanitária foi e continua sendo um de seus maiores defensores.

Sendo assim, é no contexto do SUS e de suas múltiplas frentes de ação que a questão dos trabalhadores de saúde eclodirá, e com ela a preocupação de visualizar esses sujeitos como cidadãos e portadores de uma demanda legítima e urgente: a formação permanente e qualificada. No próximo capítulo, retornar-se-á a problemática da formação de RH, sobretudo enquanto projeto de formação profissional que privilegia a graduação, como etapa primordial e fundamental. Ainda, abordou-se a relação do serviço social com tal questão em um esforço de refletir sobre a articulação dos elementos: saúde, formação profissional e serviço social.

III

–DESENVOLVIMENTO DE RECURSOS HUMANOS E

SUAS IMPLICAÇÕES PARA O SERVIÇO SOCIAL

3.1 Notas introdutórias sobre as exigências para os Recursos