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Princípios e finalidades da educação B Compromisso da escola c B A organização educacional Qualidade da educação d Organização do sistema educacional e Organização curricular f

Corpo e movimento g C O corpo e o movimento da criança no Ensino

Fundamental

Quadro III – Categorias intepretativas

A) A formação da criança

A criação da primeira categoria foi constituída a partir da primeira e segunda Unidades de Análise. Elas dizem respeito ao reconhecimento dos direitos à educação e aos princípios que orientam a formação educacional da criança. Assim, denominou-se esta categoria de “A formação da criança”.

Inicia-se essa discussão destacando o que consta na Constituição Federal: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” (BRASIL, 1988, art. 205)

Então, não é por acaso que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996) reafirme o que está na Constituição Federal quando estabelece que “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” (Art. 2º) e que os demais documentos oficiais acompanhem essa afirmação.

Isso não significa que antes da promulgação da lei e da constituição, esse direito não existia, mas é a partir da legalidade que ele foi declaradamente garantido. Segundo Cury (2008), ao declarar o direito a educação, a legislação tira do esquecimento que a criança é portadora de um direito, alertando aos que não sabem ou se esqueceram disso.

Uma vez que haja esse reconhecimento legal, a criança é mais do que somente um sujeito de direitos, é um sujeito de direitos públicos e sociais, criando obrigações públicas por parte do Estado e das famílias (ARROYO, 1994), que passam a ter obrigações legais quanto ao cuidado e à educação da criança.

Isso fica explícito no artigo 5º, quando a LDBEN estabelece que

O acesso à educação básica obrigatória é direito público subjetivo, podendo qualquer cidadão, grupo de cidadãos, associação comunitária, organização sindical, entidade de classe ou outra legalmente constituída e, ainda, o Ministério Público, acionar o poder público para exigi-lo (BRASIL, 1996).

Uma vez que o poder público seja acionado, o Estado deve investigar, dar providências e, em alguns casos, recorrer à justiça para garantir esse direito.

Na primeira e segunda unidades de análise foi observado que há a pretensão de que todos tenham acesso à educação e permaneçam na escola, possibilitando à criança uma aprendizagem bem sucedida. Para isso, deve haver o oferecimento de oportunidades para que todos possam ter um desenvolvimento pleno em um princípio de igualdade. Essa unidades também consideram as diferenças socioculturais que geram diferentes necessidades de aprendizagem, em outras palavras, o direito de cada criança deve ser reconhecido imparcialmente sem deixar de considerar a diversidade, de forma que haja equidade para uma sociedade mais justa quanto ao acesso e permanência na escola.

Entretanto, a garantia de acesso não é suficiente, não basta estar na escola para que a criança aprenda. “Democratizar o acesso sem garantir a aprendizagem escolar é uma forma de tratar igualmente sujeitos com histórias desiguais” (BARBOSA; CRAIDY, 2012, p. 26).

Nesse sentido, os documentos enfatizam a garantia à aprendizagem:

A educação inclusiva busca tornar efetivo o direito à Educação. Tal direito não se restringe apenas ao acesso, mas a uma educação de qualidade que garanta a aprendizagem dos alunos assegurando-lhes a igualdade de oportunidades e proporcionando, a cada um, tudo aquilo de que necessita, em função de suas características e necessidades individuais. (SÃO BERNADO DO CAMPO, 2004, p. 81)

[...] a atenção à diversidade é um princípio comprometido com a equidade, ou seja, com o direito de todos os alunos realizarem as aprendizagens fundamentais para seu desenvolvimento e socialização. (BRASIL, 1997a, p. 63)

O direito de aprender é, portanto, intrínseco ao direito à dignidade humana, à liberdade, à inserção social, ao acesso aos bens sociais, artísticos e culturais, significando direito à saúde em todas as suas implicações, ao lazer, ao esporte, ao respeito, à integração familiar e comunitária. (BRASIL, 2010c, p. 26)

Pelo que se pode observar, nos documentos há a preocupação em considerar a criança em um princípio de igualdade de direitos, sem deixar de considerar a diversidade. Segundo Lima (2007, p. 20), “os seres humanos são diversos em suas experiências culturais, são únicos em suas personalidades e são diversos em suas formas de perceber o mundo”. Nesse sentido, o exercício dos direitos deve levar em consideração a existência das diferenças, tanto do ponto de vista individual, que interferem no processo de aprendizagem de cada criança, quanto nas condições concretas de existência das diferentes populações.

Essa assertiva legal coloca a criança como cidadão, e como tal, portador de direitos. Mas é importante ressaltar que esta cidadania não deve ser reduzida a uma questão meramente jurídica, é preciso haver um compromisso social no efetivo reconhecimento e exercício desta cidadania, excedendo o meramente formal proposto pela legislação e atrelando-se a um tipo de ação social que considere as possibilidades concretas de sua realização (BORGES, 2009).

Os documentos ressaltam, ainda, a liberdade, a solidariedade humana, o respeito e a cooperação como primordiais para o processo educacional, preparando a criança para o exercício da cidadania.

Ao elencar a liberdade demonstram a intenção de que as questões éticas morais devam ser trabalhadas no contexto educacional, pois o exercício da liberdade traz consequências tanto para quem a pratica quanto para as outras pessoas que compõem um grupo social. Nesse sentido, só é possível praticar a liberdade pelo ato moral. Por sua vez, “o ato moral supõe a solidariedade e a reciprocidade com aqueles com os quais nos comprometemos” (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 304).

Sendo assim, o professor deverá trabalhar, também, com conteúdos valorativos de respeito, solidariedade e cooperação para que a criança desenvolva um comportamento moral consciente, livre e responsável. Nas palavras de Borges “seria colocar nas mãos dos educadores a função de ensinar uma moral que amplie a cidadania para além do direito [...]” (2009, p. 147).

A partir desses pressupostos é explicitado nos documentos oficiais que a aprendizagem da criança deve ser garantida para que ela consiga atingir o seu pleno desenvolvimento, situando a educação no campo da formação humana que tem como tarefa desenvolver as crianças como seres humanos em sua plenitude (ARROYO, 1999), assegurando

[...] os direitos fundamentais inerentes à pessoa, as oportunidades oferecidas para o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. São direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito mútuo, à liberdade, à convivência familiar e comunitária (BRASIL, 2010b, p. 17).

Para que a criança desenvolva essas características com liberdade e dignidade é preciso que esses aspectos sejam balizados por uma formação que conduza a criança a refletir sobre as diferentes realidades de maneira autônoma e crítica.

Tanto a autonomia quanto a crítica não são coisas fáceis de serem aprendidas, pois, segundo Saviani (2005), a aprendizagem se dá quando se adquire um habitus. Para tal é necessário repetir muitas vezes determinados atos até eles se fixarem. Entretanto, o mesmo autor ressalta que o aprendiz não é livre enquanto não dominar totalmente estes atos. “Por paradoxal que pareça, é exatamente quando se atinge o nível em que os atos são praticados automaticamente que se ganha condições de se exercer, com liberdade, a atividade que compreende os referidos atos” (SAVIANI, 2005, p. 19). De certa forma a aquisição do habitus faz parte do processo de ganho de autonomia.

No entanto, autonomia, além de exigir o fazer sozinho, sem ajuda, envolve a liberdade de escolha, pois, caso contrário, a criança poderá agir somente se for dirigida. Assim, é preciso que a criança constitua diferentes

habitus: físico, mental, moral, espiritual e social para que possa fazer escolhas

com liberdade.