5. SONUÇLAR
5.1. Kişisel ve Örgütsel Faktörler
Propomos que nossa leitura e análise se desenvolvam através de seções. Como na parábola em questão o chefe da casa passará o dia contratando trabalhadores sazonais em diferentes momentos, conduziremos o estudo comentando cada um desses convites consecutivamente. O primeiro deles já estava implícito no versículo 1, mas se completa no seguinte, como lemos:
(1) Pois o Reino dos Céus é semelhante ao homem chefe da casa, o qual saiu
junto à aurora (para) contratar trabalhadores para a sua vinha.
(2) E tendo combinado com os trabalhadores de (um) denário o dia, enviou-os
para a sua vinha.60
Aqui, a relação entre os personagens pode ser melhor compreendida se nos utilizarmos de alguns recursos da Semiótica, que empregamos a partir de Teoria Semiótica do Texto de Diana Luz Pessoa de Barros, ou mais especificamente, de seu capítulo sobre sintaxe narrativa (2011, p. 16-41). Por exemplo, no texto o chefe da casa propõe um contrato aos trabalhadores, contrato que é firmado oralmente. Os trabalhadores, personagem coletivo do qual não temos descrições detalhadas, ainda que não ganhem voz nesse ponto da narrativa aceitam o contrato, conforme as breves palavras do narrador no versículo 2. Empregando os instrumentos da Semiótica dizemos que o chefe da casa assumiu um papel actancial bem definido, o de destinador, que convence os demais personagens a fazer o que ele quer
Das Coisas do Campo. Campinas: Editora da Unicamp, 2012. CÍCERO, Marco Túlio. Da Amizade. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
60 Texto grego: (1) ~Omoi,a ga,r evstin h` basilei,a tw/n ouvranw/n avnqrw,pw|
oivkodespo,th|( o[stij evxh/lqen a[ma prwi> misqw,sasqai evrga,taj eivj
to.n avmpelw/na auvtou/Å (2) sumfwnh,saj de. meta. tw/n evrgatw/n evk
persuadindo-os por meio de uma tentação ou oferta. O que impulsiona os trabalhadores a responder positivamente à sua proposta é o desejo de receber um denário em troca de seu dia de trabalho; eles confiam no contratante e firmam um acordo na esperança de receber essa moeda de prata cunhada em Roma, que levava a imagem e a inscrição do imperador e que equivalia ao salário de um dia de trabalho de um lavrador (Moxnes, 1995, p. 70). Esse denário é, portanto, um valor que os trabalhadores desejam, mas não possuem, e isto nos permite provisoriamente pressupor a oposição entre senhor e servos também em termos de riqueza e pobreza, posse e escassez. O enredo vai se caracterizando assim como a busca por um valor, pelo salário de um denário que se poderia conseguir por meio do trabalho na vinha ao longo de um dia. O destinador, nosso oikodespotes, além de ser o protagonista eleito, assume por sua posição social e econômica privilegiada o controle das ações dos demais personagens.
Até esse ponto ainda podemos dizer que a parábola lidava apenas com elementos ordinários, retratando eventos cotidianos como este em que um patrono contrata trabalhadores temporários para suas terras. É a partir do versículo 3 que o texto começa a surpreender seus leitores ao colocar elementos não tão comuns, e a tensão vai aumentando gradativamente.
Considerando os versículos seguintes estruturalmente, identificamos três novos momentos de convites ao trabalho por parte do chefe da casa, todos marcados pelo uso de um mesmo verbo, o particípio aoristo evxelqw.n (de evxe,rcomai), que traduz-se por tendo
saído (Luz, 2003, p. 190). Decidimos, já interpretando o texto, chamar esses novos convites
de convites fora de hora. Tomada essa decisão, apresentamos abaixo um quadro com o texto traduzido e já divido didaticamente em três partes:
Trabalhadores da Teceira Hora
(3) E tendo saído por volta da terceira hora viu outros parados na praça sem
ocupação. (4) E para aqueles disse: “Ide vós também para a vinha, e o que
for justo vos darei”. (5a) E eles foram.61
Trabalhadores das Sexta e Nona Horas
(5b) E tendo saído de novo por volta da sexta e nova hora fez do mesmo
modo.62
61 Texto grego: (3) kai. evxelqw.n peri. tri,thn w[ran ei=den a;llouj e`stw/taj evn
th/| avgora/| avrgou,j (4) kai. evkei,noij ei=pen\ u`pa,gete kai. u`mei/j eivj
to.n avmpelw/na( kai. o] eva.n h=| di,kaion dw,sw u`mi/nÅ (5a) oi` de.
avph/lqonÅ
62
Texto grego: (5b) pa,lin Îde.Ð evxelqw.n peri. e[kthn kai. evna,thn w[ran
99 Trabalhadores da
Undécima Hora
(6) E tendo saído por volta da undécima (hora) encontrou outros parados e
disse-lhes: “Por que ficastes parados aqui todo o dia sem ocupação?”. (7)
(Eles) dizem a ele: “Porque ninguém nos assalariou”. (Ele) diz a eles: “Ide vós também para a vinha”.63
No versículo 3 lemos que o chefe da casa volta a circular pela cidade por volta de nove horas da manhã (terceira hora) e encontra homens ociosos. Hoje, os leitores que se pautam nas traduções de Mateus para o português podem ser levados a pensar que os tais “sem ocupação” estavam sem ter o que fazer até esta hora por vontade própria, e de maneira equivocada podem construir para suas leituras personagens preguiçosos ou coisa parecida. Todavia, o texto grego evidencia outro sentido, o de que aqueles homens não haviam escolhido ficar desocupados; na verdade, estavam sem ocupação por falta de oportunidades de trabalho, conforme também deixa claro o versículo 7, onde novos desocupados dizem que estão ociosos porque ninguém os assalariou. O denário que antes aparecia como valor desejável, embora não fosse mais do que o salário suficiente para manter os trabalhadores no nível de subsistência, e que por certo objetivava a troca por outros bens como comida, bebida e roupa, não poderia ser adquirido por esses ociosos involuntários. A perspectiva econômica deles era a de carência ao final do dia, de falta de elementos fundamentais para a sua sobrevivência. A narrativa lida, portanto, com o desemprego, com relações de trabalho entre patronos proprietários de terras e homens humildes, assim como lida indiretamente com as relações sociais da vida urbana e com sua dependência em relação às áreas rurais produtivas.
Procurando fundamentar ainda melhor nossa leitura, notemos que esses personagens, os trabalhadores sem ocupação, são encontrados num cenário específico: eles estavam parados na avgora (evn th/| avgora), termo que traduzimos por praça. A expressão grega (cujo paralelo latino seria fórum) remete a um lugar público presente em todas as cidades provinciais, onde estavam os principais edifícios públicos e que era o centro da vida urbana havia séculos (Grimal, 1991, p. 49). Para as grandes cidades a avgora tinha a importância de concentrar em si as atividades comerciais, pelo que nalguns casos é até um sinônimo de mercado (Coenen (et. al.), 2000, p. 371). O historiador Norberto L. Guarinello
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Texto grego: (6) peri. de. th.n e`ndeka,thn evxelqw.n eu-ren a;llouj e`stw/taj
kai. le,gei auvtoi/j\ ti, w-de e`sth,kate o[lhn th.n h`me,ran avrgoi,È (7)
le,gousin auvtw/|\ o[ti ouvdei.j h`ma/j evmisqw,satoÅ le,gei auvtoi/j\ u`pa,gete kai. u`mei/j eivj to.n avmpelw/naÅ
escreveu: “Em termos arqueológicos, reconhecemos uma pólis grega por sua ágora e uma pólis romana, ou latina, por seu fórum. Eram os espaços fundamentais de reunião do povo” (2013, p. 82). Podemos dizer que o uso da avgora no texto mateano ressalta ainda mais o cenário urbano que norteia a construção do discurso evangélico. Voltando ao texto, quer dizer que os homens desocupados estavam no centro da vida comunitária citadina, o local certamente mais propício para aqueles que procuravam por uma oportunidade de trabalho (Carter, 2007, p. 571). Em História Social do Proto-Cristianismo os autores usam exatamente Mateus 20.1-16 como exemplo neotestamentário que ilustra o uso de avgora como termo que designa o comércio de escravos ou o recrutamento sazonal de trabalhadores assalariados livres (Stegemann (et. al.), 2004, p. 53, 261). Enfim, tudo isso mencionamos para que não fiquem dúvidas quanto à compreensão do estado dos “desocupados” da parábola, que são vítimas do desemprego e da pobreza.
Depois dessas considerações sobre os personagens sem ocupação, voltamos à narrativa e vemos que o oikodespotes é apresentado como uma solução aos problemas daqueles homens: ele oferece a oportunidade de trabalho que procuravam na praça. E ele continua oferecendo trabalho a todos os homens sem ocupação que encontra ao longo do dia, ao passo que suas ações vão se tornando cada vez mais surpreendentes até que contrata trabalhadores quando o dia útil está para acabar, por volta de 17 horas (undécima hora). Atentemos para os horários dos convites, que se sucedem de três em três horas, até que o intervalo é alterado no final. Entre a hora nona e a undécima hora só se passaram duas horas; isso destaca o fato de que os últimos trabalhadores contratados teriam somente uma única hora para trabalhar até que o dia fosse considerado findo. Uwe Wegner, ao estudar as características das parábolas do Novo Testamento mencionou que nelas se aplica o que ele chamou de “lei da repetição”, afirmando que a mensagem central das parábolas sempre estará vinculada mais diretamente ao último exemplo dado quando houver uma série repetitiva (1998, p. 207). Em nossa parábola, depois de vários convites para os trabalhadores fora de hora, são os homens da undécima hora que ganham destaque segundo essa “lei da repetição”. Isso talvez explique porque nesse ponto o narrador foi mais prolixo que nos demais.
Já encontramos aí vários elementos incomuns na narrativa, embora nenhum deles possa ser considerado realmente fantástico. Como administrador, o chefe da casa parece ter cuidado de suas reais necessidades logo cedo, quando contratou os primeiros homens para trabalhar na vinha. Os demais convites parecem não atender aos interesses do patrono, e sim dos desocupados; noutras palavras, a motivação para os demais convites não é a necessidade
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do contratante, e sim, o seu desejo de suprir às necessidades econômicas dos que estavam sem ocupação. Se os trabalhadores atuam em busca dos seus denários, o oikodespotes parece agir por motivações não econômicas, mas por alguma forma de compaixão, ou por algum outro ideal que supera suas ambições materiais. Quando voltamos a pensar no “Reino dos Céus” que a parábola propõe discutir, encontramos um lugar de trabalho que oferece oportunidades a todos, cujas vagas são ilimitadas; um lugar que é governado por um homem de interesses incomuns, que se importa com as necessidades dos servos. Se aquele quadro de homens desempregados esperando o dia todo na praça de uma cidade por alguma oportunidade de trabalho é um retrato cotidiano para o leitor, podemos supor que o Reino dos Céus é apresentado até aqui como uma boa oferta, como uma sociedade de oportunidades sem iguais que está aberta a gente desafortunada. Mesmo lidando com figuras ordinárias, a narrativa nos conduziu até o ponto de questionarmos sua plausibilidade; começamos a entender que ela não fala apenas da vida, do mundo do autor, mas trata de outra suposta realidade que chama de Reino dos Céus.
Mas o texto ainda nos deixou curiosos com outro elemento enigmático que é de fundamental importância. Entende-se que a partir do versículo 3 os contratos entre
oikodespotes e os trabalhadores foram firmados a partir de ofertas incertas: “... o que for justo
vos darei”. Essa indefinição em relação ao salário é decisiva para manter a dúvida do leitor, é uma lacuna intencional que aumenta o interesse pelo final da história, que dá maior visibilidade à conclusão. É muito provável que o leitor (modelo), não conhecendo o fim da história, reaja a essa imprecisão proposital fazendo suposições baseadas nas regras que regem seu próprio mundo; ou seja, é provável que o leitor suponha que o pagamento destes trabalhadores fora de hora será proporcional ao tempo de trabalho deles. Tal leitura é prevista pelo autor, aparentemente até preparada por ele, mas está equivocada; essa é exatamente a estratégia usada para chocar o leitor ao final da história. Essa também foi a opinião defendida por Daniel Marguerat e Yvan Bourquin, quando escreveram sobre o narrador e sua estratégia nessa parábola de Mateus 20:
O narrador pode chegar ao extremo de ter em vista enganar o leitor. Na parábola dos operários da undécima hora, o senhor vinhateiro emprega os operários em horas diferentes prometendo-lhes ‘o que for justo’ (Mt 20,4); eles concluem (e o leitor com eles) que o salário será proporcional à duração do trabalho; a parábola funciona narrativamente em torno desse ‘ponto de incerteza’ que servirá para pôr em crise a noção de justiça que o leitor
partilha com os personagens da narrativa (20,13-15). (Marguerat; Bourquin, 2009, p. 159)