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6 Ŕ Políticas de arabização e Políticas linguísticas

Logo após as suas independências, Tunísia, Argélia e Marrocos organizaram novas constituições que ressaltassem a soberania nacional, eliminando qualquer vestígio que representasse a política colonial. Essas novas constituições tiveram por base fundamental uma identidade árabe-mulçumana e políticas linguísticas que destacavam como língua oficial e nacional a variante clássica do árabe, interpretada como uma língua única, sacra e homogênea. Assim, os três países edificaram seus projetos de nação em cima dessas representações, com o objetivo de resgatar uma cultura anterior à chegada do colonizador. Entretanto, sabemos que a restituição de um estágio idêntico anterior ao da colonização não seria mais possível. O contato linguístico e o processo histórico ocorridos ao longo do período colonial mudariam para sempre as sociedades magrebinas.

Projetos de arabização foram implementados pelos governos, através da generalização e obrigação da utilização da língua árabe em um cenário linguístico altamente fracófono. Estes projetos tinham por base dois conceitos: o da “arabização-tradução” e o da “arabização- conversão”. A primeira estipulava que todas as práticas linguísticas oficiais, antes em língua francesa, deveriam ser obrigatoriamente em árabe. A segunda, de caráter mais ideológico, estava ligada aos discursos das frentes revolucionárias que defendiam a liberdade nacional e o islã como cultura da nação. O discurso político fez da arabização um combate não somente da língua árabe contra a língua francesa, mas uma oposição de visões políticas. Aqueles que optavam pelo bilinguismo árabe-francês, são vistos como defensores do antigo sistema colonial.

O árabe clássico foi eleito a língua nacional e oficial da nação, enquanto as variantes dialetais, o francês e o berbere foram rejeitados como línguas faladas pelas populações. As variantes dialetais são vistas como formas “degradadas” da variante clássica, sendo impossível a representação destas nos discursos oficiais, pois elas marcariam ainda uma fragmentação identitária da irmandade árabe-mulçumana. Os discursos as citam como:

línguas sem normas, línguas sem história, línguas vulgares, línguas pobres ou línguas profanas. A mesma rejeição se passa com o berbere, completamente suprimido pelos discursos oficiais. Quanto à língua francesa, era vista como uma ameaça à soberania nacional, marcando a presença do colonizador. Ao optar pelo monolinguismo, os novos governos pós-coloniais acabaram por seguir o mesmo processo de homogeneização linguística-cultural que a França realizou ao longo do século XIX.

6.1 Ŕ Discurso e identidade

Para Patrick Charaudeau, dentre os principais fundamentos do ato comunicativo está a atribuição da legitimidade ao sujeito falante. O reconhecimento do direito à palavra por si só não basta ao indivíduo para estabelecer comunicação, também se faz necessário o reconhecimento da identidade desse sujeito pelo seu interlocutor, tornando-o assim um sujeito competente.

A comunicação estabelecida a partir desse princípio não é apenas referencial, pois a linguagem cria sentido. Ou seja, temos então uma construção do sentido entre os parceiros no ato de linguagem que determina os seus modos de existência, ao mesmo tempo em que constrói representações sobre o mundo. O sentido, apesar de poder ser partilhado pelo senso comum, nem sempre está baseado em critérios de verdade. Ele é resultado das relações dentro de uma comunidade, de simulacros, da atribuição de papéis aos indivíduos, da “metaforização e da figuração de nossas palavras”. O que nos indica que nunca o sentido está restrito ao eu ou

ao outro, mas está na representação que faço de mim e do outro, imagem construída de acordo com interesses e expectativas dentro da comunicação. CHARAUDEAU in LARA, MACHADO, EMEDIATO (2008):

“O sentido é, ao mesmo tempo, nosso mito e nosso real. Ele se constrói na

confluência entre o dito e o não dito (o explícito e o implícito). Ele não é apenas o dito, ele não é também apenas o não dito. O sentido nasce da relação entre os dois. [...] sob a aparente tranquilidade de palavras, um turbilhão de significações implícitas.”

Podemos destacar quatro princípios que norteiam o ato de comunicação: o princípio da interação, da pertinência, de influência e o da regulação, que podemos descrever como:

 Interação: fenômeno de troca entre dois indivíduos. Para o ato comunicativo há sempre o eu e o outro, ao mesmo tempo em que o outro constitui o eu, sendo então uma co-construção;

 Pertinência: de relevância pragmática, o destinatário da fala supõem que o seu interlocutor tem um projeto de fala com uma razão de ser. Ambos devem possuir em comum um mínimo de saberes compartilhados para constituir o ato, pois do contrário não seria possível a comunicação;

 Influência: refere-se ao agir sobre o outro (com finalidade acional ou psicológica) através do seu projeto de fala, o que implica no uso de estratégias discursivas pelo falante, levando em conta aspectos e imagens sobre seu parceiro.

 Regulação: determina as condições de troca entre os parceiros, que se reconhecem como legitimados, para que a comunicação atinja seu fim. Podemos ver este princípio como uma “luta discursiva”, onde cada vez que um indivíduo cede seu turno de fala ao outro, perde um pouco da sua legitimidade, podendo até mesmo desaparecer.

A partir da descrição dos princípios que regem o ato de linguagem, temos a compreensão da construção do contrato de comunicação, que determina, por sua vez, uma parte a identidade dos falantes.

Para Charaudeau, “discurso” é um termo que pode carregar várias acepções, mas, para o autor, não podemos compreendê-lo como linguagem verbal. Ele está além de um conjunto estruturado de signos formais. Ele ultrapassa esses códigos, pois é o lugar da “encenação da significação”. O texto não é o discurso, mas sim a materialização da encenação do ato de linguagem, e, por sua vez, atravessado pelo(s) discurso(s). A encenação discursiva se serve de gêneros e estratégias para construir o sentido.

O discurso também se relaciona a um conjunto de saberes compartilhados e construídos (consciente ou inconscientemente) pelo grupo social. Os discursos sociais (chamado também de imaginários sociais pelo autor) mostram como as práticas sociais são imaginadas em uma determinada cultura e a elas são atribuídas valores e representações que as determinam e as qualificam.

Os imaginários sociodiscursivos são de extrema importância para a análise das constituições aqui selecionadas a fim de compreender como o discurso político constrói suas verdades baseado em representações sociais que circulam em uma comunidade, e de como a ação política é um bem soberano em vista da promoção de um ideal social. A partir da grande e caótica diversidade de interesses, os indivíduos acabam por ser organizar em comunidades “essenciais” e “determinadas”, buscando uma unidade social, que estão representadas nos discursos e materializadas através de símbolos e imagens. Com isso, os indivíduos agem por uma coerência inconsciente, que é o lugar do real, ao mesmo tempo têm a necessidade de racionalizar o real através de discursos para justificá-lo (CHARAUDEAU, p.192, 2008):

“Por meio desses discursos de representação, os indivíduos se reconheceriam

exclusão, e desse modo construiriam para si próprios uma „consciência social‟ que seria alienada pelos discursos dominantes que provêm de

diversos setores da atividade social (direito, religião, filosofia, literatura, política, etc.), constituindo uma ideologia dominante.”

Assim, a ideologia é a articulação entre significação e poder, fundada por quatro premissas: a legitimação, a dissimulação, a fragmentação e a reificação. A primeira consiste em racionalizar a sua legitimidade a fim de justificar a sua posição de domínio; a segunda visa a mascarar a relação de dominação existente; a terceira leva à oposição de grupos entre si, e, por fim, a reificação naturaliza a história como se ela fosse atemporal.

As representações sociais objetivam a interpretação da realidade, associando a elas símbolos e significações, que são por sua vez, um conjunto de valores, crenças, opiniões, conhecimentos produzidos e partilhados pelos membros de um mesmo grupo sobre um dado objeto. Assim, os indivíduos organizam, classificam e julgam o mundo, e também podem, através de rituais, estilos de vida e signos simbólicos, se exibirem como um grupo social específico.

6.2 - Os imaginários sociais e as constituições de Argélia, Tunísia e Marrocos

O imaginário social é uma imagem que interpreta a realidade, fazendo-a entrar em um universo de significações. Ele também funda a identidade social de um grupo, na medida em que é o elemento de coesão-significação dessa. Para Charaudeau, o sentido investido no imaginário não é falso, nem verdadeiro. Ele é da ordem do verossímil, ou seja, do possivelmente verdadeiro.

Para desempenhar o seu papel identitário, o imaginário social necessita se materializar através de símbolos, construções emblemáticas, como bandeiras, lemas, e outros. Tudo será sustentado pelo discurso social, seja pela tradição escrita ou oral, para serem transmitidos de geração em geração. Com isso, podemos identificar algumas temáticas discursivas

encontradas nos imaginários sociais, que nos interessam particularmente na análise das constituições dos países magrebinos, são eles: o imaginário da tradição, o imaginário da modernidade e o imaginário da soberania popular.

Para melhor desenvolver os imaginários identificados, abaixo estão trechos das constituições a serem trabalhadas. A seleção levou em conta três fatores: a ideia de Estado- Nação apresentada, os símbolos que representam o povo magrebino e as políticas linguísticas oficiais dos países. Os trechos selecionados também correspondem a épocas distintas: a primeira versão se refere à época logo após a independência colonial e a última versão é mais contemporânea. Elas podem ser encontradas em sites oficiais dos governos de Argélia, Tunísia e Marrocos, em língua árabe e francesa. Os trechos a seguir estão em francês.

Constituição do Marrocos (1962) « Préambule

Le Royaume du Maroc, État musulman souverain, dont la langue officielle est l'arabe, constitue une partie du Grand Maghreb.

État africain, il s'assigne en outre, comme l'un de ses objectifs, la réalisation de l'unité africaine. [...]

Article premier.

Le Maroc est une monarchie constitutionnelle, démocratique et sociale. Article 2.

La souveraineté appartient à la nation qui l'exerce directement par voie de référendum, et indirectement par l'intermédiaire des institutions constitutionnelles. [...]

Article 4.

La loi est l'expression suprême de la volonté de la nation. Tous sont tenus de s'y soumettre. La loi ne peut avoir d'effet rétroactif. [...]

Article 6.

Article 7.

L'emblème du Royaume est le drapeau rouge frappé en son centre d'une étoile verte à cinq branches.

La devise du Royaume est : Dieu, la Patrie, le Roi. [...] Article 19.

Le Roi, « Amir Al Mouminine » (commandeur des croyants), symbole de l'unité de la nation, garant de la pérennité et de la continuité de l'État, veille au respect de l'Islam et de la Constitution. Il est le protecteur des droits et libertés des citoyens, groupes sociaux et collectivités.

Il garantit l'indépendance de la nation et l'intégrité territoriale du royaume dans ses frontières authentiques. [...] »

Marrocos (versão 2011)

“Article 5

L'arabe demeure la langue officielle de l'Etat. L'Etat œuvre à la protection et au développement de la langue arabe, ainsi qu'à la promotion de son utilisation. De même, l'amazighe constitue une langue officielle de l'Etat, en tant que patrimoine commun à tous les Marocains sans exception L'Etat Œuvre à la préservation du Hassani, en tant que partie intégrante de l'identité culturelle marocaine unie, ainsi qu'à la protection des expressions culturelles et des parlers pratiqués au Maroc. De même, il veille à la cohérence de la politique linguistique et culturelle nationale et à l'apprentissage et la maîtrise des langues étrangères les plus utilisées dans le monde, en tant qu'outils de communication, d'intégration et d'interaction avec la société du savoir, et d'ouverture sur les différentes cultures et sur les civilisations contemporaines.”

Constituição da Tunísia (1956) « Préambule

Au nom de Dieu

Clément et miséricordieux,

Nous, représentants du peuple Tunisien, réunis en assemblée nationale constituante.

Proclamons la volonté de ce peuple, qui s‟est libéré de la domination étrangère grâce à sa puissante cohésion et à la lutte qu‟il a livrée à la tyrannie, à l‟exploitation et à la régression : - de consolider l‟unité nationale et de demeurer fidèle aux valeurs humaines qui constituent le patrimoine commun des peuples attachés à la dignité de l‟Homme, à la justice et à la liberté et qui oeuvrent pour la paix, le progrès et la libre coopération des nations,

- de demeurer fidèle aux enseignements de l‟Islam, à l‟unité de Grand Maghreb, à son appartenance à la famille arabe, à la coopération avec les peuples « africains pour édifier un avenir meilleur et à la solidarité avec tous les peuples » qui combattent pour la justice et la liberté [...]

Article premier

La Tunisie est un Etat libre, indépendant et souverain ; sa religion est l'Islam, sa langue l'arabe et son régime la République.

Article 2.

La République Tunisienne constitue une partie du Grand Maghreb Arabe, à l'unité duquel elle oeuvre dans le cadre de l'intérêt commun. [...]

Article 4

Le drapeau de la République Tunisienne est rouge, il comporte, dans les conditions définies par la loi, en son milieu, un cercle blanc où figure une étoile à cinq branches entourée d'un croissant rouge.

La devise de la République est : Liberté, Ordre, Justice. [...] Article 15

Tout citoyen a le devoir de protéger le pays, d'en sauvegarder l'indépendance, la souveraineté et l'intégrité du territoire national.

La défense de la patrie est un devoir sacré pour chaque citoyen. [...] Article 40

Peut se porter candidat à la Présidence de la République tout Tunisien, jouissant exclusivement de la nationalité tunisienne, de religion musulmane, de père, de mère, de grands-pères paternel et maternel tunisiens, demeurés tous de nationalité tunisienne sans discontinuité. [...] »

Tunísia (versão 2003)

“Article premier

La Tunisie est un Etat libre, indépendant et souverain ; sa religion est l'Islam, sa langue l'arabe et son régime la République.”

Constituição da Argélia (1963) « Préambule

Le peuple algérien a livré en permanence, pendant plus d‟un siècle, une lutte armée, morale et politique contre l‟envahisseur et toutes ses formes d‟oppression, après l‟agression de 1830 contre l‟Etat Algérien et l‟occupation du pays par les forces colonialistes françaises.

Le 1er Novembre 1954, le Front de libération Nationale appelait à la mobilisation de toutes les énergies de la Nation, le processus de lutte pour l‟indépendance ayant atteint sa phasefinale de réalisation.

La guerre d‟extermination menée par l‟impérialisme français s‟intensifia et plus d‟un millionde martyrs payèrent de leur vie, leur amour de la patrie et de la liberté.

En mars 1962, le peuple algérien sortait victorieux de cette lutte de sept années et demie menée par le Front de Libération Nationale.

En recouvrant sa souveraineté, après 132 années de domination coloniale et de régime féodal, l‟Algérie se donnait de nouvelles institutions politiques nationales. [...]

La Révolution se concrétise par : [...]

L‟Islam et la langue arabe ont été des forces de résistance efficaces contre la tentative dedépersonnalisation des Algériens menée par le régime colonial.

L‟Algérie se doit d‟affirmer que la langue arabe est la langue nationale et officielle et

qu‟elle tient sa force spirituelle essentielle de l‟Islam ; toutefois, la République garantit àchacun le respect de ses opinions, de ses croyances et le libre exercice des cultes. [...]

Principes et objectifs fondamentaux

Article 1: L‟Algérie est une République démocratique et populaire.

Article 2 : Elle est partie intégrante du Maghreb arabe, du monde arabe et de l‟Afrique. Article 3 : Sa devise est : „Révolution par le peuple et pour le peuple‟.

Article 4 : L‟Islam est la religion de l‟Etat. La République garantit à chacun le respect de ses opinions et de ses croyances, et le libre exercice des cultes.

Article 5 : La langue arabe est la langue nationale et officielle de l‟Etat.

Article 6 : Son emblème est vert et blanc frappé en son milieu d‟un croissant et d‟une étoile rouges. [...]

Article10 : Les objectifs fondamentaux de la République algérienne démocratique et populaire sont :

- la sauvegarde de l‟indépendance nationale, l‟intégrité territoriale et l‟unité nationale ; [...] - l‟élimination de tout vestige du colonialisme ; [...]

Dispositions transitoires

Article 75 : Provisoirement, l‟hymne national est „KASSAMEN‟. Une loi non constitutionnelle déterminera ultérieurement l‟hymne national.

Article 76 : La réalisation effective de l‟arabisation doit avoir lieu dans les meilleurs délais sur le territoire de la République. Toutefois, par dérogation aux dispositions de la présente loi, la langue française pourra être utilisée provisoirement avec la langue arabe. [...] »

Argélia (versão 2008)

“Article 1er - L‟Algérie est une République Démocratique et Populaire. Elle est une et indivisible.

Art. 2 - L‟Islam est la religion de l‟État.

Art. 3 - L‟Arabe est la langue nationale et officielle. Art. 3 bis - Tamazigh est également langue nationale.”

Podemos observar ao longo das constituições que os discursos que atravessam os textos têm por base, principalmente, o imaginário da tradição e o da soberania. Após a colonização francesa, a língua árabe passou a ser o símbolo maior das nações magrebinas ao lado da religião Ŕ o Islã. Juntos, eles compõem a coesão identitária dessas comunidades, servindo de força de oposição a qualquer resquício de presença colonial, sobretudo a língua francesa. Políticas de arabização Ŕ muito bem explícitas, principalmente, no trecho argelino - foram realizadas como forma estratégica de se conseguir esse objetivo. Esses dois elementos simbólicos Ŕ o árabe e o islã Ŕ foram resgatados como elementos identitários, pois materializavam o discurso da tradição, suprimida pelas políticas coloniais. Eles estão investidos de valores que contam a história da região, de suas glórias e feitos. O árabe clássico, apesar de ser uma variante entre outras, é considerado pelas constituições o único árabe existente, símbolo de sacralidade e de pureza por ser a “língua de Deus”, representada pelo livro sagrado do Corão. Para restituir suas origens, suas autenticidades, os governos pós- coloniais de Argélia, Tunísia e Marrocos investiram em seus projetos de nações livres em discursos de origem (CHARAUDEAU, p.211, 2008):

“Esse mundo é evocado como um paraíso perdido ao qual seria preciso voltar para reencontrar uma origem, fonte de autenticidade. É então descrita a história da comunidade em questão, uma história às vezes inventada, mas necessária para estabelecer uma filiação com os

ancestrais, com um território ou uma língua. Os descendentes seriam os herdeiros, o que lhes imporia um dever de „retorno às fontes‟, de recuperação da origem identitária. Esses discursos reclamam para si uma verdade que exige uma busca espiritual de retorno a um estado primeiro, fundador de um destino.”

Essa relação entre a língua árabe e a religião foi usada também como símbolo da luta contra a colonização, como discurso motivador de movimentação das massas e de fidelidade à cultura nacional. Defender a nação contra a presença inimiga era um valor cultivado como uma obrigação moral. Todos os indivíduos eram chamados a assumir a responsabilidade de proteger a nação e seus valores tradicionais.

A ideia de unidade aparece constantemente, não só para designar uma união nacional, mas também expandida a todo o continente africano. Temos, então, os seguintes sintagmas: “l’unité nationale”, “l’unité du Grand Maghreb”, “famille arabe”, “partie intégrante du

monde arabe et de l’Afrique”. A unidade se estende a todos aqueles que possuem algo em comum com as nações magrebinas, seja a língua, a religião ou uma história colonial, através de laços de irmandade e de solidariedade. O conceito de identidade se mostra muito ligado ao de solidariedade.

O imaginário da soberania popular também está presente nos textos aqui estudados. Este imaginário tem por fundamento a ideia de que o povo é responsável pela construção de um mundo novo e do estabelecimento e da manutenção de seu bem-estar. Ele segue em direção contrária ao imaginário da tradição, uma vez que não busca o mito de origem. Um grupo se torna representante de uma suposta vontade coletiva, e nele é investido poder. Com o poder em mãos, é necessário mediar a vontade social, instituir regras, valores e um contrato social. Assim, veremos que o discurso da identidade (concretizado através de símbolos patrióticos e da língua nacional), do igualitarismo (todos iguais perante a lei) e o da

Benzer Belgeler