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4.2. Bağımsız Öngönderimler

4.2.1. Adıl Kullanımı ile Öngönderim

4.2.1.1. KiĢi Adılı ile Yapılan Öngönderimler

Barbosa

A Suma Oriental terá sido escrita em Malaca, na Índia, entre 1512 e 1515, e

descreve todo o Oriente, desde o Mar Vermelho até o Japão, que Tomé Pires visitou ou

de que obteve notícias. O original do livro, dedicado «[a]o muy Serenisymo primcepe

muy alto & muy poderoso Rey ElRRREY noso Sõr»

62

, deve ter sido enviado para o

Reino nas naus da carreira, antes da partida de Tomé Pires para a China na expedição de

Fernão Peres de Andrade

63

.

Chegado a Portugal em 1515, logo desapareceu nos arquivos reais o manuscrito

autógrafo e nos anos seguintes não há qualquer indicação do seu paradeiro, a não ser as

referências de Gaspar Correia a este tratado de Tomé Pires. Não obstante, Armando

Cortesão considera que a obra seria conhecida e sugere até a sua utilização nas Décadas

de João de Barros

64

, quer na descrição da ilha de Samatra, quer nas informações sobre

Malaca.

Com efeito, uma cópia de parte da Suma terá sido conseguida por Giovanni

Ramúsio que a traduziu para italiano e a publicou, pela primeira vez, no volume I da sua

célebre obra Delle Navigationi et Viaggi, impressa em Veneza em 1550. Neste

exemplar, faltariam as páginas da dedicatória onde figurava a referência a «thome piz»,

61 Cf. Duarte Barbosa, op.cit., dir. de Luís de Albuquerque, p. 174.

62 Tomé Pires, «A Suma Oriental», in Armando Cortesão (leitura e notas), A Suma Oriental de Tomé Pires..., op. cit., p. 129.

63 «Perante a insistência com que, na época, a Coroa lusitana procurava obter notícias sobre o Oriente,

não faz qualquer sentido imaginar que um tão importante tratado teria permanecido em terras asiáticas.»

in Rui Loureiro, op. cit., p. 31.

pelo que, desconhecendo o nome do autor, Ramúsio concluiu que seria baseado no

Livro de Duarte Barbosa, ainda que lhe tivessem acrescentado mais informação. Por

outro lado, também não incluía as partes dedicadas à Insulíndia, facto que pode ser

explicado pela política de sigilo seguida em função da disputa das ilhas Molucas entre a

coroa portuguesa e a espanhola. Actualmente nada se sabe desta cópia obtida pelo editor

veneziano.

Durante muito tempo, apenas se soube da existência do códice da Suma Oriental

por breve e vaga referência que o Visconde de Santarém deixou nas suas notas,

publicadas sessenta e três anos após ter falecido. Seguindo esta pista, em 1937,

Armando Cortesão descobriu uma cópia em Paris, na Biblioteca do Câmara dos

Deputados, juntamente com o códice original do Livro de Francisco Rodrigues, e em

1944 publicou o texto português, com tradução para inglês, introdução e notas, na

colecção da Hakluyt Society. Esta cópia da Suma reproduz a dedicatória ao rei D.

Manuel I, bem como as secções dedicadas a Malaca e à Insulíndia, revelando-se, assim,

uma das mais completas e a mais fiel ao original.

Segundo Rui Loureiro

65

, é provável que a cópia tenha sido feita a partir do

original que se encontraria na biblioteca real, ou então, ter sido preparada ainda no

Oriente, podendo mesmo ser o exemplar enviado por Tomé Pires a Afonso de

Albuquerque, que mais tarde terá passado para as mãos do seu filho, Afonso Brás, o

autor dos Comentários, o qual revela conhecimentos que só poderia ter obtido através

da Suma. Assim, os dois manuscritos completos do primeiro tratado sobre o Oriente

poderão ter seguido percursos divergentes, tendo um ido parar à biblioteca real, de onde

poderá ter desaparecido em consequência do terramoto de 1755

66

, enquanto o outro terá

chegado a Paris, em data incerta, vindo a ser incluído na Bibliothèque de l’Assemblée

Nationale, onde Armando Cortesão o veio a encontrar.

Em Portugal, só em 1978, a imprensa da Universidade de Coimbra, a pedido do

então reitor, Professor Guilherme Braga da Cruz, publicou, com leitura e notas de

Armando Cortesão, uma edição portuguesa da Suma, antecedida pelo Livro de

Francisco Rodrigues, seguindo a ordem por que foram descobertos, que se mantém até

hoje sem alterações. Apesar das limitações já reconhecidas na edição portuguesa, quer

65 Cf. Rui Loureiro, op. cit., pp. 34-35.

na forma, quer no conteúdo

67

, esta continua de momento insubstituível, pois é a única

que nos apresenta o texto completo.

Ainda existe um códice na Biblioteca Nacional de Lisboa com apenas uma parte

da Suma, sem indicação do autor e com consideráveis variantes, pelo que Cortesão

supõe que tenha sido enviada para Lisboa pelo próprio Tomé Pires antes de escrever a

obra principal

68

. Outra das hipóteses avançadas pelo mesmo autor é a de que, desta

cópia, tenha sido suprimido tudo o que as autoridades portuguesas consideraram

segredo de estado, nomeadamente toda a parte que se refere a Malaca e à Insulíndia, em

especial às Ilhas das Especiarias que foram descobertas durante o período de redacção

da Suma

69

. Certo é que o códice lisboeta tem sido considerado uma «cópia bastante má

e desafortunada do arquétipo, mas que em determinados casos conserva a leitura

correcta, e que é, portanto, de enorme importância para a compreensão e restituição do

texto original»

70

. Seguindo esta linha de raciocínio, Rui Loureiro elaborou uma edição

crítica deste manuscrito, um passo no caminho de uma futura edição definitiva da Suma

Oriental, desejável e urgente, dado:

«(…) o interesse que a «Suma Oriental» de Tomé Pires tem para a história da etnografia do Oriente, justificando assim o facto de ser considerado o seu autor como um dos precursores da etnografia no nosso país, glória que se junta à de ter tido igual papel na farmacognosia e de ocupar um lugar de honra na legião infinita daqueles que deram a sua vida pela difusão da civilização ocidental no Oriente (...)»71.

Para além da Suma e das cartas, mais nenhum texto nos chegou da autoria de

Tomé Pires, embora Armando Cortesão avance com a possibilidade de terem existido

outros documentos produzidos durante a sua estadia na China e que entretanto se

perderam. Para tal baseia-se numa passagem de Gaspar Correia que menciona que,

quando D. Duarte de Menezes governou a Índia, de Janeiro de 1522 a Dezembro de

1526, Tomé Pires «lhe mandou um livro em que lhe dava conta das riquezas e

grandezas da China, que pareciam duvidosas de crer»

72

. No entanto, Rui Loureiro

67 Veja-se a título de exemplo as observações e críticas de Rui Loureiro, op. cit., p. 36. 68 Cf. Armando Cortesão, «A propósito do ilustre...», op. cit., pp. 8 e 9.

69 Cf. Armando Cortesão, Primeira Embaixada..., op. cit., pp. 31-32. 70 Juan Gil, «Palavras introdutórias», in Rui Loureiro, op. cit., p. IV.

71 A. C. Correia da Silva, «Um precursor dos estudos de etnografia oriental: o boticário quinhentista

português, Tomé Pires», in Separata da Revista de Etnografia, n.º 3, Museu de Etnografia e História, Porto, Junta Distrital do Porto, s.d., p. 3.

defende que as palavras ambíguas de Gaspar Correia induziram a interpretações

erróneas e que o livro mencionado não é outro senão a Suma Oriental

73

.

Quanto ao Livro de Duarte Barbosa, foi escrito, provavelmente, em Cananor e

Cochim durante os anos de 1511 e 1516. À semelhança da Suma, o Livro foi traduzido

por Ramúsio em italiano e editado pela primeira vez em Veneza, em 1550, o que lhe

permitiu ter uma grande divulgação no Renascimento. Aliás, já anteriormente as

informações do Livro e muito provavelmente as da Suma tinham sido necessárias para

decidir a questão da posse das Molucas. Nessa altura, uma cópia do texto original terá

sido entregue a Martin Cinturion para que a traduzisse em castelhano, tendo tido a

colaboração do cartógrafo português Diogo Ribeiro. Em 1524, surge então a mais antiga

tradução da obra de Duarte Barbosa. A partir desta data os eruditos e geógrafos

europeus puderam consultar o Livro e «alguns, reconhecendo-lhe enorme importância

para o conhecimento da realidade oriental, apressaram-se a traduzi-la para a língua dos

respectivos países»

74

.

Trata-se efectivamente de uma obra que teve uma grande divulgação noutras

línguas: em alemão, traduzida por Jerónimo Zeitz a partir da versão castelhana de

Cinturion; em inglês, primeiramente, com a tradução de Lord Stanley, editada em 1865,

e posteriormente com a tradução de Mansel L. Dames anteriormente referida.

Apesar de estar presente na maioria dos nossos historiadores quinhentistas

(Gaspar Correia, Damião de Góis, Garcia de Orta, João de Barros, Lopes de

Castanheda), a primeira edição portuguesa, supra mencionada, só foi publicada em

1812

75

. Nela encontramos uma Introdução anónima, mas que se sabe ter sido de

Sebastião Francisco de Mendo Trigoso

76

, em que se explica ter sido empreendida a

reconstituição do texto a partir da tradução italiana de Giovanni Ramúsio e de um

manuscrito inédito que casualmente achou inserido num códice. Contudo, dá-se conta

que o texto tinha passado ao códice por meio de dois escrivães (identificando dois tipos

de letras e de ortografias diferentes), que a parte final da cópia continha diversas

inexactidões e lapsos, e, ainda, que o manuscrito não era autógrafo, por isso o editor

73 Rui Loureiro, op. cit., pp. 30-31.

74 Maria Augusta da Veiga e Sousa, Nota prévia, in Duarte Barbosa, O Livro de..., op. cit., vol. 1, p. 9. 75 De acordo com Luís de Albuquerque, a primeira edição portuguesa data de 1813. Cf. Duarte Barbosa, op. cit., edição de Luís de Albuquerque, p. 175.

decidiu-se a confrontar a edição em português de que dispunha com a tradução de

Ramúsio.

De acordo com Luís de Albuquerque, este primeiro promotor da edição na

língua original do autor não terá pesquisado suficientemente os arquivos portugueses,

caso contrário teria encontrado «as três cópias existentes na Biblioteca Nacional de

Lisboa e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, que apresentam entre si variantes,

por vezes muito profundas, e, em cada uma delas trechos que faltam nas outras,

particularidades que é necessário ter em conta»

77

. Só em 1996 e 2000 saíram o primeiro

e segundo volumes da edição crítica do Livro, por iniciativa de Luís de Albuquerque,

executada por Maria Augusta da Veiga e Sousa, a qual seguiremos nas citações que

faremos na segunda parte deste trabalho.

II.2.2. A construção do discurso sobre a alteridade: entre a objectividade e a