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Ġkinci Çokluk KiĢi Eki ile Yapılan Artgönderimler

4.3. Bağımlı Artgönderimsel Tespitler

4.3.3. KiĢi Ekleri ile Artgönderim

4.3.3.5. Ġkinci Çokluk KiĢi Eki ile Yapılan Artgönderimler

Seguindo uma tradição que remonta a Heródoto

115

, Tomé Pires e Duarte Barbosa

redigem os seus tratados descrevendo as terras e os povos de acordo com determinados

itens: a localização geográfica; a organização política; a habitação; a alimentação; a

fauna e a flora; os rituais religiosos, matrimoniais, fúnebres; os hábitos alimentares; o

vestuário.

De facto, o impacto dos primeiros contactos visuais faz com que os traços físicos

sejam um dos aspectos a serem tidos em conta. Como tal, fizemos uma recolha dos

vocábulos do campo associativo da palavra corpo onde contabilizámos 725 ocorrências,

das quais 185 na Suma e 540 no Livro (cf. Anexo 29). A maioria destes vocábulos é

empregue no seu sentido literal, associado ao corpo físico e, à partida, o Livro parece

dar-lhe uma maior atenção.

Todavia, em ambas as obras, algumas palavras surgem em sentido figurado

como, por exemplo: boca entendida como o ponto de abertura de um rio ou canal

(«Dizem que entra contra o reino de Monomotapa mais de 170 legoas na boca do qual

rio está um lugar a cujo rei chamam Mangalo.»

116

); braço com o significado de afluente

de um rio («Do qual rio se fas outro braço que vem dentro a um lugar que chamam

Angoia.»

117

); cabeça com o sentido de fonte de poder ou importância («(...) he ellRey

de narsimgua que he cabeça desta terra.»

118

); mão associada a posse («(...) toda a

mercadoria de cambaia he em maão dos Jemtios.»

119

), a ordem/determinação («O rei

está sempre no sertão e tem aqui governador de sua mão posto que se chama Mir

114 A. H. Oliveira Marques, op. cit., p. 91.

115 Cf. M. T. Hodgen e François Hartog parafraseados por José da Silva Horta, «O Africano: produção

textual e representações (séculos XV-XVII)», in Fernando Cristóvão (coord.), Condicionantes Culturais

da Literatura de Viagens, Lisboa, Edições Cosmos, 1999, p. 276.

116 Duarte Barbosa, op. cit., vol. 1, p. 64. 117 Idem ibidem.

118 Tomé Pires, op. cit., p. 166. 119 Idem, p. 191.

Agem.»

120

) ou como homónima de mau («(...) o rijo corre violemta memte & he maão

De navegar.»

121

) e de unidade de medida («(...) em outros pesos menores que chamam

mão de que ha 20 em um candil.»

122

), entre outras (cf. Anexo 30).

Neste capítulo, interessa-nos, sobretudo, determo-nos na forma como é descrito

o corpo físico do «outro» descoberto/desvendado e nas manifestações culturais que lhe

estão associadas. Primeiramente, destacamos a cor da pele. Segue-se a atenção à

vestimenta ou ausência dela, com especial realce para a questão do nu e a sua relação

com os conceitos de pudor e de erotismo.

No que concerne o campo associativo de cor da pele, obtivemos uma tabela de

frequências e de desvios reduzidos constituída por 109 ocorrências mais recorrentes no

Livro com 78 menções contra 31 na Suma, pelo que podemos concluir que a questão da

cor da pele é muito mais premente para o olhar epidérmico de Barbosa do que para o de

Pires. No conjunto das duas obras, percepcionamos claramente uma classificação

tripartida de que resultam as categorias: preto/negro, baço e branco/alvo, destacando-se

54 frequências para os treze vocábulos associados a branco/alvo, as restantes menções

aparecem distribuídas de forma equilibrada pelas categorias baço, com 27 ocorrências

para quatro palavras, e preto/negro, com 26 ocorrências para cinco vocábulos (cf.

Anexo 31). No entanto, o maior número de desvios reduzidos negativos encontra-se na

Suma, particularmente nas categorias preto/negro e baço. Na verdade, estas palavras são

empregues quase sempre como adjectivos pelo que se realçam as propriedades

descritivas (cf. Anexo 32). Apenas no Livro nos surge a palavra negro nominalizada e

antecedida de determinante, constituindo uma categoria antropológica: «(...) sôbe o dito

capitão mor como os negros tinham igrejas (...)», «E perguntei alguas, vezes a estes

negros que cousa era ambar(...)» e «Ja se aconteceo quem comprava o tal negro (...)»

123

Com efeito, no imaginário ocidental cristão, a cor negra e o negro tinham uma

conotação bastante negativa, fruto dos estereótipos de herança medieval que os

associavam à morte ou sua aproximação, à tristeza, ao sofrimento e à figura do

demónio.

Na questão da cor da pele, destacamos o autor Duarte Barbosa, pois, se no

encontro com o «outro» não é visível a discriminação racial, o seu discurso não está, de

120 Duarte Barbosa, op. cit., vol. 1, p. 114. 121 Tomé Pires, op. cit., p. 271.

122 Duarte Barbosa, op. cit., vol. 1, p. 233. 123 Idem, vol. 1, p. 95, vol. 2, pp. 275 e 295.

todo, isento de alguma sobrevalorização rácica, ainda que implícita, porque, se não há

termos depreciativos para as gentes pretas ou negras, quando se trata de descrever as

gentes brancas/alvas e, por vezes, baças quase brancas, surgem de forma mais

recorrente adjectivos valorativos, tais como: «fremosas»; «descretas»; «atabiadas»;

«boom»; «gentil»; «apessoadas»; «proporcionados»; «delicadas» (cf. Anexo 32). Os

homens pretos/negros, por sua vez, são os únicos associados à ausência de «polícia» e,

por isso, mais próximos do estado selvagem:

«São homeins pretos; andam nus, somente cobrem suas vergonhas, com panos pintados d' algodão, da cinta para baixo; deles andam cubertos com peles d' alimarias monteses; alguns, que são mais honrados, trazem das mesmas peles ũas capas com uns rabos que lhe arrastam pelo chão; trazem isto por estado e galantaria.»

«Logo junto com esta ilha estão outras duas que tambem são povoadas de homens

negros e baços, à maneira de canarins; é gente que não tem lei, nem nenhũa cousa em que adorem, somente vivem como bestiais, sem trato nem conversação.»124

O conceito de beleza aparece inevitavelmente ligado à brancura da pele porque

potencia uma identificação civilizacional: são populações «quase das nossas

fisionomias». Mais uma vez percebemos que o «outro» é observado de acordo com os

padrões ocidentais, ainda que tanto Barbosa como Pires possam ter apreciado a

diferença, não deixam de estar constrangidos pelos seus modelos pré-concebidos. Por

muito que se demonstre respeito pelas civilizações observadas, apreciando a

multiculturalidade, a tendência para aplicar o foco etnocêntrico permanece. Mesmo

quando a política ultramarina consistia em promover a interculturalidade, recordemos a

actuação do vice-rei Afonso de Albuquerque ao defender os casamentos inter-raciais

dos portugueses com as nativas, pois isso permitia consolidar a presença portuguesa no

Oriente, «[s]ignificativamente, os padrões estéticos admitidos por Albuquerque eram

determinados pela cor; a cor «alva» era sinónimo de beleza e, como tal, altamente

recomendada. O governo não queria casamentos com mulheres negras»

125

.

Contudo, a abordagem ao «outro» civilizacional do ponto de vista da aparência

não repousava tanto na diferença entre populações brancas e negras, mas essencialmente

nos seus aspectos culturais, entre eles o vestuário que cobre o corpo. Construímos,

então, uma tabela com as frequências e os desvios reduzidos para o campo associativo

de traje onde se registam 722 ocorrências, 184 na Suma e 538 no Livro (cf. Anexo 33),

que incluiu também os adornos e produtos de embelezamento como os perfumes.

124 Idem, vol. 1, pp. 59 e 125.

Muitos destes vocábulos designam também tipos de produtos trocados nas rotas

comerciais do Índico, estabelecidas muito antes da chegada dos portugueses.

Começámos por analisar o retrato das mulheres orientais, pois, ainda que se

privilegie a sua «alvura», mais evidente em Duarte Barbosa, ambos os autores se

mostram sensíveis à sua beleza e ao seu exotismo

126

, dadas as numerosas descrições

valorativas com referências à «formosura», «ao bom parecer» femininos, à riqueza das

suas vestimentas, feitas de tecidos nobres, e dos múltiplos adornos de ouro e prata

aplicados de forma original que lhes conferem uma aparência invulgar para o olhar

ocidental.

«E sobre tudo se louuam as molheres De xiras De fermosas aluas Descretas

atabiadas.»127

«Teem molheres mui fremosas, delicadas e de mui bons corpos; são baças quasi

brancas. Seus trajos são de seda, assi compridos como os maridos. (...) Andam sempre

descalças; trazem nas pernas manilhas de ouro e de prata mui grossas e, nos dedos dos pees e mãos muitos aneis, e muitas contas e coraes grossos nos braços.»128

Em seguida, concentramo-nos na oposição nu versus vestido e, através da

observação da tabela de distribuição das frequências e de desvios reduzidos, podemos

constatar que esta distinção apenas surge em Barbosa, pois, em 58 ocorrências, 50

surgem no Livro e apenas 8 na Suma, além de que apenas no Livro nos aparecem formas

do lexema nu (cf. Anexo 34). Ora, em matéria de vestuário, quando se verifica a

presença mínima de vestimenta, Barbosa assimila-a imediatamente ao nu (cf. Anexo

35). Este autor dá voz a um certo preconceito, fruto do moralismo europeu, que

denuncia a ausência de pudor em expor o corpo, sejam homens ou mulheres.

«A nudez é sinal de regressão relativamente ao colectivo. A nudez masculina é associada à animalidade, à loucura; a feminina à luxúria. As proibições moralizantes impedem a visão do próprio corpo até ao ponto de se temer perder a identidade no

126 Sobre o conceito de exotismo: «Aparição do estrangeiro na obra literária, rêverie ligada a um espaço

longínquo e realizada na escrita, são definições – ou tentativas de definição – lineares, simplistas e necessariamente escassas de um fenómeno complexo como me parece ser o exotismo literário, envolvendo e implicando um exotismo transdisciplinar, em que eu distinguiria várias formas ou modos (...): exotismo antropológico, sociológico, cultural; exotismo iconográfico; exotismo retórico, linguístico e finalmente exotismo estético literário.», in Maria Leonor Carvalhão Buesco, «O exotismo ou a ‘estética do diverso’ na Literatura Portuguesa», in Separata de Literatura de Viagens. Narrativa, História, Mito. Lisboa, Edições Cosmos, 1997, p. 566.

127 Tomé Pires, op. cit., p. 151

banho ao despir-se as roupas. A roupa, protecção e ornato, serve além disso como meio de identificação social.»129

Os órgãos sexuais ou naturas que são, por vezes, a única parte do corpo que é

coberta, designam-se por vergonhas, o que denota a influência das noções cristãs de

culpa e pecado na caracterização que é feita da alteridade, ignorando ser uma questão

de divergência cultural a concepção que os povos têm do corpo: «Suas molheres andam

nuas; somente cobrem suas vergonhas com panos d' algodão (...)» e «É gente preta, e

andam nuus da cinta pera cima e cobrem suas vergonhas com panos de algodão.»

130

Segundo Bologne, «[o] pudor é um processo dinâmico que deveria definir-se em

termos de sociologia: só nasce a partir do momento em que percebemos que estamos

nus. O mito de Adão e Eva ganha aqui enorme actualidade: nada, a não ser uma

concepção estatística do pudor, mudou entre a inocência original e a consciência

nascida do fruto da árvore da ciência»

131

. As palavras latinas pudenda e pudor também

designavam os órgãos sexuais ou «vergonhosos», daí discorremos o sentimento de

pudicícia que está associado aos assuntos de natureza sexual. Na verdade, quando Adão

e Eva tomaram consciência da sua nudez, envergonharam-se e daí adveio a necessidade

de se cobrirem: «No mesmo ponto se lhes abriram os olhos: e tendo conhecido que

estavam nus, coseram umas folhas de figueira, e fizeram para si umas cintas.»

132

Com

efeito, este episódio bíblico vai marcar toda a concepção cristã e ocidental do

sentimento de pudor até à modernidade.

Para os etimologistas, a palavra pudor, no sentido em que a entendemos hoje,

tem origem precisamente no século XVI, apesar de o sentimento existir muito antes do

vocábulo que o designa

133

.

No caso de Pires e Barbosa, quando se confrontam com povos exuberantes e que

privilegiam aspectos eróticos no seu traje quotidiano e nos seus costumes, surgem de

imediato objecções morais evidentes em duas atitudes diferentes. Ao descrever os

gentios do reino de Pegu, Barbosa opta pela censura, recusando-se a descrever

pormenorizadamente o que considera um caso de «desonestidade»:

129 Diane Owen Hughes, «As modas femininas e o seu controlo» in Georges Duby e Michelle Perrot

(dirs.), História das Mulheres no Ocidente, vol. 2: A Idade Média, Porto, Edições Afrontamento, 1993, p. 185.

130 Duarte Barbosa, op. cit., vol. 1, p. 60, vol. 2, p. 327.

131 Jean-Claude Bologne, História do Pudor, tradução de Telma Costa, Lisboa, Editorial Teorema, 1990,

p. 14.

132 Génesis, 3:7.

«

Som mui grandes luxuriosos e trazem em suas naturas uns esca[r]ves redondos cerrados muito grandes, coseitos e soldados antre a carne e o coiro por fazerem grã soma de natura, e trazem destes tres e cinco e sete, deles d'ouro e deles de prata e de metal que, quando andam pelas praças e ruas vão soando, e hão isto por grande honra e gentileza.

E as molheres folgam muito com eles e nam querem homens que os nom tenham, e os que soom mais honrados trazem mais e maiores.

(...) Nom digo mais deste torpe custume pela desonestidade dele

»

134

.

Por sua vez Pires caracteriza-os até com alguma ironia:

«todo peeguũ fidallguo E outra Jemte segumdo he Riqa trazem em sua natura

casquavees os Sres trazem atee noue Douro De fremosos toõs De tipres & contras

tenores Do tamanho Dameixeas alvares De nosa terra E asy os q nõ podem Douro E

de prata por pobres trazem de chumbo & de fruseleíra. E os douro he pta soam mujto mais q estoutros de chumbo & fruseleira»135.

À semelhança do que acontecia na Europa, o vestuário não servia apenas para

vestir os corpos, mas também como elemento socialmente distintivo entre os múltiplos

povos orientais, dependendo de uma série de factores: regionais, sociais, culturais e

religiosos. Na verdade, tendo em conta os aspectos salientados anteriormente,

percebemos que, na caracterização dos povos orientais, os autores nos dão conta desta

diferença cultural, oscilando entre três acepções: são «como nós», são «bestiais», são

«exóticos» e apelativos pela sua riqueza e luxo.

A tentativa de procurar referentes entre os observados que permitam a

identificação com o grupo de pertença do sujeito observador leva o autor a encontrar o

nós no outro sempre que tal se revela possível. Na verdade, temos 360 ocorrências para

as diversas formas da primeira pessoa do plural, quer do determinante ou pronome

possessivo quer do pronome pessoal. Destas, 158 são empregues na Suma e 202 no

Livro (cf. Anexo 36). São igualmente recorrentes as formas pronominais acompanhadas

pela expressão comparativa «assim como» ou simplesmente «como» e os determinantes

integrados nas seguintes expressões: «à nossa usança», «à nossa maneira», «ao modo

nosso» ou «à nosa guisa» (cf. Anexo 37).

No entanto, a atenção ao diferente predomina e no pólo oposto ao «como nós»

encontramos aqueles que pela sua aparência física, mas sobretudo pela ausência de

elementos civilizacionais considerados relevantes pela mentalidade europeia são

descritos como bestiais, sobretudo, quando se menciona certos povos da África

134 Duarte Barbosa, op. cit., vol. 2, pp. 337-338. 135 Tomé Pires, op. cit., p. 235.

Oriental. As referências ao «homem selvagem» surgem-nos em sete ocorrências, cinco

na Suma e duas no Livro (cf. Anexo 38). Estas estão associadas à pele escura; à nudez; à

antropofagia; à ausência de leis, de governo, de religião ou de práticas comerciais (cf.

Anexo 39).

A terceira categoria é a que engloba a maior parte das populações descritas na

Suma e no Livro. Estas apresentam aspectos civilizacionais valorizados como, por

exemplo: poder económico, organização social, uma aparência faustosa e exuberante.

Embora sejam muito diferentes daquilo a que o olhar europeu está habituado, são

positivamente realçados e pormenorizadamente descritos, denotando admiração pela

utilização repetida de vocabulário de conotação positiva.

«Eu vy em tubam huũ gemtio q veio da corte hy a vernos Diziam q era homem fidallguo trazija tres gínetes de Jemtijs garnjmẽtos Destribos todos de tauxías De

paños todos bamdados Douro Ricamemte atabiado De fermosos guarnjmeôtos trazija comsiguo atee Dez homees de Ricas lamças era Robusto gramde lemtiJoso os cabellos Refoufinhados ᵱa çima emcrespados (...)»136

«Estes mouros são baços e deles pretos e outros brancos. Andam bem ataviados de

ricos panos d'ouro e de seda, e outrossi as molheres [com] grandes cadeas e manilhas d'ouro ao colo e nos braços e pernas e orelhas.»137

Algumas das características que foram consideradas bestiais para os povos

objecto de desvalorização cultural, como vimos anteriormente, são apresentadas em

toda a sua originalidade e exotismo porque são marcas da opulência de certas

populações orientais, principalmente, da Índia. Como tal, os furos no rosto deixam de

ser atributos de selvagens para passarem a ser um elemento exótico, porque neles,

dependurados, não temos búzios, ossos ou pedrinhas, mas fios de ouro, pérolas, safiras

e rubis, uma riqueza impressionante e desejada pela civilização europeia.

«E nos narizes [usam] um pequeno buraco em ũa das ventas e nele um fio d'ouro com um pendente de ũa perla au robi furado ou çafira. E as orelhas furadas e em elas

muita pedreria em ouro ou de ouro e perlas. E ao pescoço colarinhos de ouro e pedraria. (...) De maneira que, por a maior parte, é gente muito rica e ataviada.»138

Nem sempre a diferença associada à exuberância é vista de forma positiva,

porquanto os preconceitos de matriz europeia conduzem a um olhar caricatural. Com

efeito, Tomé Pires não deixa de criticar alguns mouros, sobretudo os capados, pela sua

maneira de vestir, comparando-os a mulheres.

136

Idem, p. 315.

137Duarte Barbosa, op. cit., vol. 1, p. 70. 138 Idem, vol. 2, pp. 62-63.

«Seruemse de capados & vem a ser gramdes Sres os capados que tem carguo das molheres sam homẽes ciossos todollos mouros gerall memte E asij geerall memte os mouros sam putos homde meto os persyanos E os Dormuz com toda sua gimtileza E nom ho am por alheo de sua comdiçãm nem sam poriso castigados he aJnda ha lugares publicos homde se exerçitam por drº E os que deste negoçeo padecem no auto sam

desbarbados vestidos a gujsa De molheres E asij amdam E Rijnsse os mouros De nos

quando lhe acriminamos a torpeza deste pecado/»139

A diversidade cultural e civilizacional é tão avassaladora que, muitas vezes, a

imagem construída dos povos mais distantes se baseia em equívocos. Duarte Barbosa,

que não visitou o reino da China, apresenta-nos um retrato dos chineses feito a partir do

que ouviu dizer: «(…) ha muitos reinos e senhorios de que té agora não temos muita

enformação»

140

, onde se justificam certas características psicológicas a partir das físicas,

como é o caso dos «olhos pequenos»:

«A gente desta região da China, a saber, os naturaes, são homens grandes, brancos e bem despostos e gentis-homens, e assi as molheres e teem os olhos mui pequenos e nas barbas tres ou quatro cabelos e não mais, e os que mais pequenos teem os hão por

mais gentis-homens.»141

Em pleno contacto directo com os povos orientais, por vezes, ainda se evidencia

a tendência para a construção de uma imagem fantasiosa dos mesmos. Segundo António

Luís Ferronha, «[é] fundamental distinguir-se entre a percepção do outro e o

conhecimento do outro. A primeira é imediata e irredutível, a segunda muito mais lenta,

o que implica a falibilidade»

142

.

Embora, de uma forma geral, evitem termos depreciativos para a construção da

imagética do corpo dos povos orientais, na procura da objectividade desejada, Pires e

mais frequentemente Barbosa, por vezes deixam transparecer no seu discurso o olhar

eurocêntrico.

III.2. Visões da religião e dos rituais da alteridade: os cristãos, os muçulmanos e os