A corrente abolicionista é vertente crítica que apregoa não só a abolição do cárcere, mas também do sistema de justiça penal em sua totalidade.
Segundo Delmas-Marty (2004, p. 308), trata-se “do desejo, mais ambicioso, de ver os conflitos serem tratados fora do Estado e sob a responsabilidade das ‘pessoas diretamente implicadas’ e da comunidade na qual se inscrevem.”
Conforme as lições de Merolli (2010, p. 197-198), “os abolicionistas concluem que o sistema penal não só não resolve os conflitos sociais que lhe são ordinariamente atribuídos, como também, e principalmente, terminam por potencializar o surgimento de novos conflitos.” Assim, mediante a incapacidade de solucionar esses conflitos, propõem a radical abolição do sistema penal.33 Essa é, segundo o referido autor, a idéia central do abolicionismo penal mais radical, defendida pelo criminólogo holandês Louk Hulsman, em sua obra Penas perdidas: o sistema penal em questão.
Hulsman (1996, p. 18) não abdica da concepção do Estado enquanto ente detentor do monopólio da coerção legítima, mas pugna pela transferência da solução dos conflitos sociais para instâncias não penais e acredita que “o direito civil e o administrativo oferecem esse contexto”, pois se mostram mais racionais e menos negativos, visto que o sistema penal revela-se impiedosamente irracional, atroz e iníquo, configurando-se, ainda, como solução falsa e aparente para os conflitos sociais.
Nesse sentido afirma Castro:
Para a vítima, a primeira consequência é que, ao entrar no aparelho da justiça, o seu problema deixa de lhe pertencer: não pode deter a ação publica, nem aceitar uma conciliação que poderia ajudá-la a compreender o que realmente aconteceu; não poderá opinar sobra a medida que deveria ser aplicada ao autor; e ignorará tudo o que acontecerá a ele depois disso, apesar deque talvez não lhe desejasse tanto mal. Para o delinquente se configura a mesma situação de destituição: tudo o que acontecerá será friamente abstrato, não se lhe permitirá refletir sobre s conseqüências de seu ato para a vítima e, o que é mais importante, quando for libertado sentirá que já pagou pelo que fez, e que portanto nada aconteceu. (2005, p.141).
O abolicionismo penal vem como abordagem crítica do esquema que troca a justiça de mão própria pela justiça da mão própria do poder do Estado, o qual, segundo Castanheira e Barros, sempre representa classe socialmente dominante e, enfaticamente, completam que o sistema penal vigente:
Mostra que não temos uma sociedade, senão diversos grupos marginalizados e excluídos. Estes, agredidos diariamente, vítimas da violência da pobreza e de todas as suas privações materiais, intelectuais, morais, emocionais, são incluídos de forma compulsória, exclusivamente no momento em que violam as nossas regras, sob a forma da Justiça Criminal. Vale dizer, há centenas de milhares de pessoas que não têm nossos direitos, mas tentamos submetê-los a nossos deveres. Isto não soa
coerente, muito menos justo. (1997, p. 5).
33 “Ninguém compra um apartamento impressionado por uma bela maquete apresentada por uma empresa
notoriamente insolvente; no entanto, compramos a suposta segurança que o sistema penal nos vende, que é a empresa de mais notória insolvência estrutural em nossa civilização”. (ZAFFARONI, 2001, p. 27).
A maior crítica em relação à corrente abolicionista mais radical centra-se no argumento de que a mesma representa proposta marcadamente utópica. Como bem assevera Zolo (2002, p. 35), “o abolicionismo continua sendo, ontem e hoje, uma elementar utopia moralista, que nega uma função essencial do sistema político: a de garantir segurança em troca de obediência, fidelidade e cumplicidade.”
Christie (1998, pp.13-14), adotando posição mais moderada acerca do abolicionismo reconhece que em certas hipóteses é necessária a intervenção da força do Estado, mas acredita que estas hipóteses devem ser restringidas ao máximo, pois, segundo ele, o sistema penal muito abrangente impede que as pessoas tomem parte nos seus conflitos, nas suas vidas, haja vista que os conflitos sociais são transformados pelos operadores do direito em casos.34
Conforme ressaltam Muñoz Conde e Hassemer (2008, p. 282), sem dúvida seria melhor que os conflitos sociais se solucionassem pelo diálogo, através de negociações entre os implicados, livres de toda ingerência ou coação externa, ou que as normas que regulam a convivência fossem respeitadas por todos voluntariamente.
No entanto, para que isso acontecesse seria necessária a existência de sociedade fraterna e igualitária, formada por indivíduos capazes de resolver seus conflitos de maneira racional. Como percebe Ferrajoli (2006, pp. 233-234), essa proposta político-criminal parte de pressuposto completamente mítico, da existência de uma sociedade perfeitamente pacificada.
Entre todos os aspectos negativos da corrente abolicionista, há que se reconhecer algo de positivo em seus postulados, a atenção voltada aos interesses da vítima, figura tradicionalmente esquecida pelo sistema penal. Como afirma Hulsman (1996, p. 15), “a criminalização é um serviço cujos ‘clientes potenciais’ (as vítimas) não querem comprar. O que eles normalmente querem é proteção e reparação. Estes são produtos que a justiça criminal não vende.”
34 Nesse sentido, o governo do estado de Minas Gerais instituiu o programa denominado Mediação de Conflitos,
que consiste em mediação penal extrajudicial, no contexto das políticas públicas de prevenção à criminalidade do referido estado, o qual busca o diálogo, a intercompreensão e a implicação dos sujeitos na construção de soluções pacíficas para os conflitos em que estão ou são envolvidos. No que diz respeito às relações de gênero e à violência doméstica o primeiro atendimento implica em acolhimento e escuta num espaço de reflexão e emancipação das mulheres que são atendidas, visando convidá-las não apenas a relatarem seus casos, mas pensarem sobre o mesmo, suas escolhas e possibilidades. Feito isso, os mediadores que atendem o caso, juntamente com a equipe do programa discutem alternativas de encaminhamento para rede. Tais possibilidades e sugestões são discutidas com a demandante que decidirá quais procedimentos irá tomar. (ROCHA et al, 2009, p. 145).