3. TALAŞLI İMALATTA KULLANILAN KESME SIVILAR
3.5. Kesme Sıvılarının Neden Olduğu Cilt Hastalıkları
Ainda hoje algumas pesquisas sustentam que, para além das diferenças anatômicas entre os sexos, o cérebro de meninas e de meninos processa de modo essencialmente distinto à linguagem, as informações, as emoções, o
23 “Segundo Chodorow, se os pais (homens) estivessem mais envolvidos no cuidado com os/as filhos/as e mais presentes nas situações domésticas, as conseqüências do drama edipiano seriam provavelmente diferentes” (SCOTT, 1995, p. 81).
conhecimento e tantas outras características, tidas como naturais, que conduziriam às distinções de comportamento e de habilidade cognitiva. (VIANNA; FINCO, 2009, p. 3).
O que sustenta essas afirmações?
Será que gênero perpassa até o processo de pesquisa de cientistas homens e mulheres? É por me inquietar com essas e outras tantas questões, que busco desenvolver, neste tópico, como entendo o processo científico por meio do olhar feminista que se propõe pensar as relações de gênero e como estas interferem no desenvolvimento do processo científico.
Estudar a temática de gênero implica necessariamente compreender como fazemos, por que fazemos, para que fazemos, onde queremos chegar com esse estudo e colocar em questionamento as formas consideradas científicas que necessariamente definem o que podemos ver e como podemos ver. Segundo Haraway (1988), a nossa própria forma de ver é sempre uma questão de o poder de ver, ou seja, o que podemos ver, e talvez da violência implícita em nossas próprias formas de visualização. Os nossos próprios olhos orgânicos são constituídos por formas específicas de ver. Afirma Haraway24 (1988, p. 583) que “[...] os nossos olhos, incluindo os nossos próprios olhos orgânicos, são sistemas ativos de percepção, de construção em traduções e formas específicas de ver, isto é, formas de vida”.
O modo de olhar o mundo é uma das especificidades dos estudos de gênero, exigindo que as mulheres sejam tomadas como sujeitos históricos e sociais, e que haja o reconhecimento de que as relações sociais de gênero são fatores importantes, na divisão e hierarquização da vida social. Outra especificidade é que os estudos de gênero, como é o caso deste trabalho, não se centram apenas na produção do conhecimento, mas partem da necessidade, da vontade expressa de promover, desencadear processos de mudanças, no que tange às relações sociais de gênero. Essa vontade é socialmente construída por intermédio das relações sociais que vivenciamos, as quais interferem na maneira como entendemos a produção do conhecimento.
Conforme Stanley (1990), é essa experiência de agir contra uma opressão percebida que favorece uma ontologia feminista distinta; e é uma exploração analítica de parâmetros desse processo de pesquisa que dá sentido a uma epistemologia feminista distinta. Essas questões demonstram que a maneira de produzir ciência, no que tange aos estudos feministas, é diferenciada e apresenta características que os distinguem da investigação científica tradicional. Essa ontologia é também distinta:
O modo como pesquisamos e, portanto, o modo como conhecemos e também como escrevemos é marcado por nossas escolhas teóricas e por nossas escolhas políticas e afetivas. É, certamente, afetado por nossa história pessoal, pelas posições-de-sujeito que ocupamos, pelas oportunidades e encontros que tivemos e temos. (LOURO, 2007, p. 213).
Levando em conta essa especificidade, recentes teorias feministas contribuíram e contribuem significativamente como fornecedoras de alternativas críticas para se pensar as narrativas tradicionais sobre as ciências, bem como para uma revitalização da história das ideias. Avançam no sentido de questionarem as contextualizações, as temporalidades, as localidades e as características da diversidade de culturas científicas.25
Com isso, algumas teóricas feministas empreenderam a busca por objetividades mais dinâmicas, objetividades fortes. Para tanto, problematizavam
[...] a neutralidade de gênero das ciências no campo dos estudos feministas da ciência (feminist science studies), inseriram-se nas discussões abrangentes dos anos de 1980 e 1990 envolvendo diversos campos disciplinares que questionaram o atributo epistemologicamente superior que a ciência construiu para si própria, fortemente alicerçado na ênfase da objetividade. (LOPES, 2006, p. 43).
Sandra Harding (2007) é uma dessas teóricas. Apropriou-se do conceito de objetividade forte, procurando, contudo, uma epistemologia do ponto de vista feminista. Questiona os padrões ditados pela ciência, nos quais a objetividade e a universalidade são vistas como fatores primordiais para o desenvolvimento da ciência, em detrimento dos fatores sociais de produção do conhecimento científico. Defende que o processo de produção de conhecimento deve partir da experiência das pessoas que têm sido excluídas, por exemplo, as mulheres. Para essa apropriação, aponta o conceito de standpoint feminista.
Donna Haraway (1988) também questiona a objetividade científica ditada pela ciência moderna. Considera-a como uma ciência hostil, que, ao privar por uma universalidade, é reducionista na perspectiva dos estudos feministas. Nessa perspectiva, a noção de conhecimento estático, universal, é substituída pelo conhecimento no qual a realidade é
25 “Na medida em que as ciências naturais passaram a reconhecer suas histórias sociais, esse trabalho passou, também, a influenciar histórias, sociologias e filosofias da ciência e tecnologias vincadas pelo gênero. Inclusive, modelou estudos das ciências que se presumia serem imunes às influências culturais, tais como a física e a astronomia nas origens da ciência moderna (Merchant, 1980; Schiebinger, 1989, 1993), a química de Boyle (Potter, 2000), a física e a biologia de início do século XX (Keller, 1984), a física de alta-energia contemporânea (Traweek, 1988), e biologia molecular (Spanier, 1995)” (HARDING, 2003).
entendida como construção social e linguística e o conhecimento é validado pela prática, afetando diretamente as relações de poder entre as pessoas.
O conhecimento científico é concebido, a partir dessa perspectiva, como parte de uma dinâmica social de construção de saberes, realizada por sujeitos sociais, em diferentes contextos e instituições, o que implica a afirmação de que o “[...] o conhecimento científico não pode, pois, assumir-se como um conhecimento fora do mundo, universalmente válido e assente em leis gerais, por fazer um esforço evidente de se deslocar e universalizar, quando é, tal como os outros, um conhecimento situado” (OLIVEIRA; AMÂNCIO, 2006, p. 606).
Não há qualquer iniciativa de soluções imediatas para a superação das distorções produzidas pelas ciências. Na verdade, “[...] todo conhecimento é um nó condensado num combativo campo de forças” (HARAWAY, 1988, p. 577), de sorte que a busca é em prol de projetos científicos, os quais, ao invés de apontar apenas para a inversão dos poderes, o que confirmaria o binarismo questionado, atentem para mudanças nas relações sociais e versem, contudo, sobre a produção do conhecimento científico, de forma que sejam consideradas as histórias, experiências e saberes diversos, sem qualquer esperança de um conhecimento perfeito. Essa concepção teórica significa reconhecer o conhecimento como um projeto partilhado e coletivo, construído em contextos históricos específicos, em determinado momento, e local específico, admitindo “[...] como igualmente verdadeiro o modo como sistemas de crenças e de juízos de valor interferem no pensamento científico” (OLIVEIRA; AMÂNCIO, 2006, p. 606).
O autor e a autora frisam que, fundamentada em sua crítica aos ideais de objetividade da ciência moderna, Sandra Harding (1996) desenvolveu três propostas para a ciência, contrárias ao modelo de ciência objetiva, universal.
1- O sujeito do conhecimento deve ser colocado no mesmo plano do objeto do conhecimento, promovendo uma ciência reflexiva;
2- Considerar a dimensão política das ciências, rejeitando a neutralidade aparente; 3- Clara opção pela relação de ciência e democracia, no sentido da promoção dos
direitos humanos para todas e todos.
Com base nessas concepções teóricas, almejo, contudo, encontrar meios de construir uma ciência mais inclusiva, mais implicada e, sobretudo, mais consciente. Consciente inclusive, da necessidade de ver com esse mesmo olhar a nossa própria prática enquanto pesquisadora, haja vista que o nosso próprio discurso é resultado de um processo discursivo que, de acordo com Foucault (2008), retoma, transforma ou fala de discursos ditos verdadeiros.
Tendo em vista que a pesquisa é um processo amplamente influenciado pelo gênero, saliento que o/a pesquisador/a intervém diretamente no processo de pesquisa, desde a escolha do tema, do objeto de estudo, bem como o seu próprio gênero. Conforme Silva et al. (2005, p. 365), “[...] a tentativa de omissão das suas características pessoais impressas por experiências, crenças e histórias de vida, unicamente cria uma ilusória noção de objetividade”. Cabe ao/a pesquisador/a colocar-se de maneira reflexiva, nesse processo, de modo a refletir sobre as suas posições éticas e políticas.