1. KAYNAK ÖZETLERİ
1.5. Kesme Kalınlaşan Akışkan(Shear Thickening Fluid)
O processo de reestruturação produtiva vivenciado pelo setor sucroalcooleiro nos anos de 1990 foi caracterizado pela inserção de novas tecnologias em todos os setores produtivos, pela diminuição radical dos postos de trabalho, pela multifuncionalização do trabalhador, pela flexibilização da relação salarial, pela inserção de novas estratégias de envolvimento e motivação dos trabalhadores, pela intensificação do trabalho e, por fim, pela substituição da gestão familiar, paternalista pela gestão profissional.
83 Um dos elementos que não conseguimos constatar diz respeito à hipótese segundo a qual haveria uma
distinção muito grande entre as práticas de gestão da Fazenda São Martinho, ainda nos tempos da família Prado em relação ao advento da família Ometto. Por essa hipótese, grande parte da “bondade” atribuída ao Dr Orlando se daria pelo fato de que antes, com os “Prados”, haveria um rigor e um autoritarismo maiores. Alguns poucos entrevistados, mais velhos, mencionaram vagamente esse fato.
Nesse contexto, o fim das colônias e a reconfiguração da relação entre empresa e funcionários foram os pontos mais tangíveis no universo de representações dos trabalhadores.
No relato dos diversos entrevistados, os anos de 1990 foram efetivamente marcantes, pois, além de situarem o fim da moradia, significaram o “distanciamento” dos patrões em relação a seus trabalhadores, e, portanto, o fim de todo um universo de relações constituídas nas quatro décadas anteriores.
4.4.1 O fim total das colônias.
O desaparecimento das colônias remanescentes terá início em princípios da década de 1980. É um processo paulatino, uma vez que a erradicação total das últimas moradias ocorrerá no final dos anos de 1990.
Nas proximidades da usina, a primeira colônia a ser demolida será a Pedreira, seguida pela Santo Antônio. Finalmente, a São Luís será demolida em finais dos anos de 1990
Já as diferentes colônias da São José serão demolidas também a partir dos anos de 1980, em processo mais ou menos simultâneo. Assim como nas proximidades da usina, as últimas moradias irão ao chão no final dos anos de 1990.
Muito embora a maior parte dos entrevistados associe o fim da moradia com um processo decorrente da reestruturação produtiva e que se iniciou em oposição àquilo que era considerada a vontade dos “doutores”, é muito interessante observar que o fim das colônias ocorre antes da reestruturação, num momento em que a gestão da empresa era efetivamente familiar, sob controle do Doutor Orlando.
Vê-se, neste ponto, uma vez mais emergir aquilo que em outros momentos definimos como “estratégias de defesa” dos trabalhadores, que responsabilizam “algum chefe” como o verdadeiro responsável pela demolição, e não os doutores. Pensar dessa forma talvez fosse a única alternativa confortável diante da maneira com que se conduziu o processo de demolição.
Por outro lado, quando se entrevistou algum funcionário que exerceu função hierarquicamente mais elevada, vê-se claramente que a decisão para o fim das colônias parte da própria diretoria, ou, como não poderia imaginar a maior parte dos moradores remanescentes, “dos próprios doutores”.
Foi a diretoria. Fizeram uma reunião e encontraram que o melhor meio, no caso, seria o transporte para do pessoal da cidade para usina através dos ônibus. [...] Muita gente não esperava isto e foram saindo por conta própria. Ficava
alguma temporada até construírem a casinha deles, e depois saíam e não queriam mais ficar nas colônias. (G).
Um conjunto de fatores pode ser elencado para explicar as razões pelas quais as moradias ao redor da Usina São Martinho deixaram de ser interessantes para a empresa, entre eles os custos decorrentes da manutenção das moradias e a ameaça de possíveis litígios na esfera trabalhista aparecem enquanto elementos financeiros mais palpáveis. Vários são os depoimentos que corroboram o temor da empresa quanto a possíveis litígios, podendo-se dizer que essa foi uma das explicações “mais aceitas” para justificar a demolição das casas.
O que acontece? Isto é real, e posso lhe falar com muita propriedade. Começou entrar as ações na justiça. Então você tem vínculo na usina e também é morador nela. Então ela tem que indenizar aqueles que moram ali. Coisas assim. Foi problema de justiça! A usina não queria ter mais custo com ninguém. (Ivanildo).
Outros aspectos mais vinculados ao processo produtivo devem ser também relacionados. O processo de automação implantado na empresa ao longo da década de 1980 tornou menos necessária a presença ostensiva de trabalhadores “estratégicos”. Indiretamente, o crescimento das cidades vizinhas bem como a melhoria do transporte rodoviário regional e das comunicações são fatores que facilitaram o processo tanto de localização quanto de deslocamento do conjunto de trabalhadores. Somado a essas características temos ainda o fato de que, também paulatinamente, os anseios das populações residentes das colônias vão gradativamente se modificando em relação à geração anterior, tão logo consigam algum tipo de ascensão, o que implicava no desaparecimento da importância das colônias como fornecedoras de mão-de-obra comprometida, em que os trabalhadores automaticamente se identificavam com os ideais da empresa. Nesse sentido, pela lógica da empresa, por qual razão deveria continuar investindo em um modelo de concessão de moradia e benesses que, embora tivesse sido eficaz, não mais se reproduzia?
Nesse ponto, por conta de sua proximidade em relação aos doutores, novamente é interessante observar a visão de alguns chefes acerca do processo de erradicação das moradias. Perguntado por que os “doutores” Orlando e Agenor haviam consentido com “a derrubada das casas”, um deles declarou:
É a mudança que aconteceu junto com eles ali... Mas eu acho que eles foram se desgastando. Ficar dando murro em ponta de faca, também tem uma hora que cansa. Foi nesta hora que eles foram mecanizando, e mudando e deixando para lá e foi isto que aconteceu. (João Garcia).