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HEMATOKSİLEN

3.2 Tespit Solüsyonlarının Hazırlanması

3.3.2. Kesit Alma

LIVRES

E

ESCRAVOS

EM

EMBOSCADAS,

CONFRONTOS

E

PARCERIAS

Nas páginas da documentação do Executivo e do Judiciário Criminal foram registradas muitas ações que colocavam livres e escravos frente a frente, em conflitos por interesses comuns. Con- tudo, nem sempre cativos e livres se opunham. Por vezes, os crimes cometidos por eles provinham do mando1 de patrões e senhores ou

de associações para a resolução de problemas comuns.

O cumprimento de ações criminosas praticadas por homens livres sem posses – tanto por profissão quanto por atribuições advindas de relações de dependência – é mais frequentemente abordado pela historiografia brasileira relativa ao Oitocentos. Ao estudar a documentação criminal da comarca de Guaratinguetá na então província de São Paulo, Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997, p.153) afirma que os agregados:

1 O conceito de “mando”, e sobretudo sua utilização para o estudo da história política do Brasil Imperial, foi objeto de intensos debates na historiografia brasileira. Não se pretende aqui retomar tal discussão, pois ela escaparia ao objetivo deste capítulo, que aborda o mando como uma das esferas de ocor- rência das práticas tidas como delituosas protagonizadas por livres e escravos. Para o debate a respeito do conceito de “mandonismo”, ver Carvalho (1997).

Destituídos de meios próprios de subsistência e com uma vida despojada de significado para aqueles de quem dependiam, tudo deviam e nada de essencial podiam oferecer aos senhores das fazendas onde se fixavam. Por isso mesmo, transformavam-se em seus instru- mentos para todo e qualquer fim, inclusive os de ofensa e da morte. Por vezes, essas missões emprestaram às suas existências avulsas o sentido de que careciam, ligando-os por um nexo firme e impor- tante àqueles que lhes davam a casa de morada mais o espaço para plantar e criar, junto com o encargo de defenderem o chão à volta. Em relação à Bahia, Kátia de Queirós Mattoso (1982, p.124) assevera que ao ter que se submeter às regras de pertencimento con- dicionadas pela família de tipo patriarcal os agregados – no campo – eram “como uma força policial a serviço do senhor naqueles lugares em que a administração pública [esteve] ausente; [eram] os jagun- ços do chefe da casa”.

Nos autos-crime aqui considerados, produzidos no extremo nordeste da província paulista, não há registro da expressão jagunço. Esse era um termo mais recorrentemente empregado na Bahia – região privilegiada no estudo de Mattoso –, em Goiás e Minas Gerais, segundo a definição do mesmo verbete na obra Dicionário

da terra.2 Em seu lugar, a palavra mais cotidianamente utilizada

para nomear os que partiam em missões que visavam a execução de atentados e emboscadas era capanga. Termo até hoje difundido para nomear vigilantes, guarda-costas, seguranças e outras pessoas que vendem seus serviços de proteção física e patrimonial àqueles que por eles podem pagar. Especificamente a respeito do uso do termo no Brasil do Oitocentos, embora preocupado preponderan- temente com o mundo dos conflitos políticos do período imperial, Richard Graham (1997, p.185) afirma que:

2 “JAGUNÇO. Em Goiás, na Bahia e em Minas Gerais, jagunço era um homem valente, que alugava sua coragem a um grande chefe, na defesa de suas propriedades e nas lutas pelo poder entre membros da classe dominante [...]” (ver Motta, 2005, p.267-9).

Um dicionário do século XIX define capanga como um “valen- tão que é pago para guarda-costas de alguém ou para serviços elei- torais; mas neste caso é mais que um galopim eleitoral, é um cace- teiro, às vezes um assassino”. Uma opinião mais branda, embora irônica, descreve o capanga como um indivíduo que se lança nas lutas eleitorais em busca de um salário e muito mais ainda por gosto. A definição de capanga dependia de quem assinava o documento. Do ponto de vista de alguns, os capangas podiam ser chefiados até por autoridades governamentais [...].

No que respeita aos estudos que se dedicaram à análise de cri- mes cometidos por escravos, poucos foram os pesquisadores que mencionaram essa prática. Admitir que cativos de vultoso custo tomassem parte em empreitadas criminosas com certa recorrência, à primeira vista, pode parecer um contrassenso. Do ponto de vista jurídico da época, Perdigão Malheiros (1976, v.1) deixa claro que o senhor tinha o direito de auferir do escravo todo o proveito possí- vel, isto é, exigir seus serviços gratuitamente pelo modo e maneira que mais lhe conviesse. Não podia, contudo, exigir dos cativos atos criminosos, ilícitos e imorais. Ademais, é preciso considerar que armar um escravo de confiança para “correr a roça” ou para praticar um atentado era uma atitude que, potencialmente, poderia voltar- -se contra o próprio senhor.

Ainda assim, dois estudos foram pioneiros. Ao analisar a histó- ria da escravidão, por meio das devassas da região de Campos dos Goitacases, Silvia Hunold Lara (1988, p.200) constatou que, na medida das necessidades senhoriais, os cativos utilizados habitual- mente nos serviços domésticos ou agropastoris transformavam-se “numa espécie de milícia particular que executava atentados, casti- gava invasores de terras, galanteadores, pretendentes desqualifica- dos, entre outros”. Aspecto semelhante foi evidenciado por Márcia Elisa de Campos Graf (1979, p.142), com relação aos crimes come- tidos por escravos no Paraná. A autora destacou “que a criminali- dade escrava nem sempre foi autônoma, isto é, por vezes o escravo atuava como capanga de seu senhor”.

Esse cenário de poucas menções ao fenômeno dos “cativos capangas” tem, no entanto, sofrido modificações significativas nos últimos anos. Além de referências esparsas em textos que abordam a história do Brasil nos períodos colonial e imperial, mais recente- mente o tema dos escravos armados pelos proprietários e também pelo Estado na constituição de milícias particulares e na participa- ção em guerras tem chamado a atenção de especialistas no Brasil e no exterior.

Embora um aprofundado estudo historiográfico sobre a questão transcenda os limites deste capítulo, é possível citar como exem- plos: o artigo de Carlos Lima, intitulado “Escravos da peleja: a instrumentalização da violência escrava na América Portuguesa (1580-1950)”, e a coletânea, ainda sem tradução para o português,

Arming Slaves: from classical times to the modern age, que conta

com introdução de David Brion Davis. Em conjunto, esses tra- balhos lançaram importantes questões na tentativa de interpretar essa faceta recorrente da instituição escravista ao longo da história. Particularmente, tal questão tem nos intrigado nos últimos dez anos. Assim, ao longo deste último capítulo do livro, pretendemos retomar o tema com o objetivo de contribuir com novas proposições ao debate. Ademais, o crime cometido a mando era outro espaço de intersecção dos mundos de livres e escravos, questão central que tem norteado o texto até aqui.

É útil propor algumas questões que nos servirão de ponto de par- tida. A partir da interpretação dos registros produzidos pelo Execu- tivo e pelo Judiciário imperiais é possível compreender as razões que levavam livres, libertos e escravos a tomar parte em tais ações? Basta em si mesmo o argumento do mando? Existiam profissionais especializados, como sugerem as traduções para a palavra capanga, ou era essa uma possibilidade imposta e aceita por trabalhadores livres e escravos que, dependendo das circunstâncias, compunham milícias privadas a mando de senhores e patrões? Lançar familiares, dependentes e outros trabalhadores livres e escravos em missões violentas era uma especificidade dos senhores e proprietários mais abastados ou uma prática disseminada nas relações sociais estabe-

lecidas como válidas por indivíduos de diferentes condições? Havia regiões do Império onde tal prática era mais comum ou tratava-se de um costume generalizado?

Benzer Belgeler